(22-02-2008) Reflexões acerca da religião Celtibérica nos dias atuais

M. Diniz “Nemetios”

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 22/02/2008. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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“Viriato against the Romans” por weaithdt (Deviant Art.net)

A região ocupada pelos celtibéricos na península ibérica delimitava-se, grosso modo, ao nordeste e centro-norte da atual Espanha; de Teruel, passando por Zaragoza, Calatayud, Logrono, até mesmo a Zamora, Léon, Valladolid etc. Há indícios de uma maior ‘celtização’ da península, incluindo o sudoeste e algumas regiões mais centrais. As primeiras incursões dos celtas parecem remontar ao século VII e VI, apesar dos ápices das diversas manifestações culturais se acercarem em torno dos meados do século IV e século III a.e.c. Nosso intuito não é uma investigação pormenorizada da sociedade celtibérica, há ótimos trabalhos nesta área, realizados por pessoal altamente competente, o que não é meu caso, e envoltos em todas as teorias de interpretatio e fundamentação teórica e material. O foco, apriori, de nossa humilde reflexão, é a adaptabilidade, ou a supostamente possível adaptabilidade, de características e manifestações religiosas oriundas dos povos celtibéricos em seu período pré-romano, durante as guerras com os latinos e após o início do império de Roma na região; de um ponto de vista do paganismo contemporâneo. Que esta tentativa seja vista como meramente especulativa e descompromissada com as linhas teóricas de “reconstrucionismo” religioso. de toda forma, apresentaremos um panorama bastante geral e aberto a críticas, correções e sugestões. primeiramente esboçaremos linhas gerais que caracterizaram as sociedades celtibéricas, expor-se-á nossas breves reflexões.

Deuses e Deusas

[Esta parte do texto, está bastante “crua” com pouca informação, mesmo para a época em que este texto foi escrito]

As ‘Matres’, entendida geralmente pelos estudiosos, como uma deusa de muitas faces, na maioria dos casos, tríplice, ou várias deusas; são as deusas mães associadas a diversos espaços naturais, desde fontes e rios, a planícies e cavernas, ligadas a fecundidade em geral. um de seus diversos epítetos é ‘brigeacis‘, a toda-poderosa [errado, a tradução que me parece mais provável é: “castrejas”], assim como uma das fórmulas “invocativas” é Matribus termegiste, “as três mães que-tudo-podem” [errado também, o certo: “as três vezes grandes”].

Epona, a deusa gaulesa, considerada uma das deusas “pan-célticas”, também é registrada em fórmulas e inscrições diversas no território celtibérico. Associada a fertilidade e a morte, a Deusa-égua, parece estar associada a passagem ao Outromundo, apesar de que, ao que parece, estar associada aos fim dos mortos de forma natural/acidental.

Lugus, deus pan-céltico, geralmente citado de forma plural e retratado de forma bicéfala no mais importante centro de culto deste deus na celtibéria, em Peñalba de Villastar (Teruel). Associado as transformações diversas e a viagens, trocas comerciais, as artes em geral e as habilidades específicas, este deus era um dos mais venerados em toda a península Ibérica.

Deuses locais: Caldo Vledico, Leiosse, Pendussae (provavelmente Pendussa), Aiioragato, Latueriis (provavelmente Latueros), Ordaecis (provavelmente Ordaeco), Peicacomae (provavelmente Peicacoma), Vacocaburio, Aelmanio, Aiiodacino, Boiogenae (provavelmente Boiogena) e a deusa Obione. Deuses ligados a montes, rios e colinas específicas, deidades regionais.

Ataecina, associada a romana Prosérpina, considerada deidade ctônica e escura.

Deganta, deusa associada as águas correntes.

Bormanico, também associado as águas , e a curas.

Drusuna, associado a bosques (de carvalho).

Neitos, deus de caráter solar e guerreiro, geralmente associado a batalhas e ao Net irlandês.

Tokoitos, ou Togos deus associado ao carvalho, aquele que preside juramentos e pactos.

Cernunnos, o culto de deus não é atestado de forma inequívoca, muitos estudiosos duvidam e os que aceitam, com base em vestígios iconográficos, consideram mera conjectura.

Lobo, suas diversas aparições (os habitantes de Nertobriga enviaram ao general romano Mercellus um arauto vestido em pele de lobo em sinal de paz, há representações de guerreiros vestidos em peles de lobo em vasos, as trombetas de guerras possuíam formado de lobo nas saídas do som) são associadas ao deus Sucellos [cujo nome não se encontra atestado na península, ao que me consta], deidade funeral e do “submundo”. em geral o Lobo é associado a guerra, ao furor de batalha e as ‘irmandades’ guerreiras.

Nabia, associada ao Outromundo.

Cosos e Reva, associados a chefia e liderança.

A Lua, o deus anônimo e ctônico a quem nas luas cheias eram realizados danças rituais que simulavam batalhas, cujo nome era um Tabu entre os celtibéricos. Os estudiosos associam ao deus da noite e escuridão, ao Dis Pater de Július Caesar e a Ollanthir, O Dagda irlandês, dos quais os celtas se diziam descentes, e contavam o tempo com base nas noites.

Os locais sagrados

Geralmente eram meios de planícies (mediolanum), montanhas (o caso de Peñalba de Villastar), cavernas (como Cueva de la Griega), clareiras naturais em bosques (nemetons) [*nemeta], há poucos indícios de construções simples [na verdade, não há “poucos”, há muitos] de uso ritual e datam do período romano [e muitos datam do período pré-romano].

Rituais

O sacrifício era a principal forma ritual, segundo os vestígios materiais, praticado, tanto no culto público quanto doméstico. há indícios de sacrifícios humanos, mas a grande maioria registrada é de animais (em geral porcos, carneiros e ovelhas, lebres, alguns poucos cervos, cavalos – que eram junto com os humanos os sacrifícios mais ‘altos’). os vasos utilizados para as libações, que eram mais associadas ao culto doméstico, eram o ‘simpula‘ ou ‘oinochoes.’ há uma cena em um vaso numantino que mostra um possível sacerdote ou augúrio, com um manto e um chapéu pontudo (cônico), enquanto outro envolvido traz uma faca curva ou foice para executar o sacrifício. também possuíam o ritual de fundação, onde na maioria dos casos as vítimas eram animais. os vaticínios eram feitos em forma de poemas ou cantos. As danças em homenagem a um deus anônimo ctônico e noturno, cujo nome era um tabu, eram realizadas durante a lua cheia (à noite), simulavam batalhas, onde as espadas eram substituídas por pedaços de madeira; a dança eram realizada a canções de mulheres em um bosque de pinheiros. Há indícios de armaduras em fomas de animais (uma espécie de “boi-bumbá”), geralmente touros, que possivelmente eram utilizadas em danças rituais.

Os guerreiros mortos em campo de batalha eram expostos aos abutres e corvos, pássaros considerados sagrados, que levavam o morto para viver junto aos deuses. Os ossos eram separados da carne do morto, geralmente por técnicas rituais ou exposição as aves (e mamíferos como lobos também), de toda forma, a cremação para os mortos em guerra era considerada crime, sendo apenas utilizada em caso de mortes por doenças ou acidentes, mortes consideradas covardes e afeminadas; ainda há um tipo de exposição, onde o corpo ressecado depois é cremado em uma pira coletiva (junto, as vezes, com outros animais sacrificados); as inumações são reservadas aos fetos, lactantes e crianças em geral. Nota-se que o corpo de um guerreiro morto em batalha nunca [‘nunca’ é um termo muito forte, na verdade os costumes funerários variavam um pouco de tribo para tribo e mesmo de época em época, haviam cremações sim para este tipo de morte] era cremado, ao fim da exposição, os ossos que restassem eram depositados em urnas e colocados em locais próprios. O sacrifício ritual suicida era altamente considerado, e preferível diante da desonra. A “devoção” era uma prática comum, a consagração da vida aos deuses na forma de lealdade a um líder, triunfando ou morrendo com ele. A decapitação era o ato final do combate, representando não só um ato de vitória e personalidade, mas também um signo espiritual, que provavelmente representava tanto as qualidades da pessoa decapitada, o todo, a morte e a sobrevivência, talismã e um laço ou dever ancestral. Também era costume, como entre os celtas em geral, pendurar as cabeças cortadas [dos inimigos, especialmente os mortos em duelos] no cavalo.

Os celtibéricos bebiam um tipo de cerveja (caelia, posteriormente chamada pelos romanos caelia hispaniensis) com alto teor alcoólico e intoxicante, geralmente em festins e estados de guerra.

Valores morais, conduta religiosa.

Os relatos greco-romanos demonstram que os celtibéricos articulavam suas vidas através de um sistema de crenças e valores com alto grau de moralidade. Possuíam um alto senso de responsabilidade social e de manutenção da virtude. Como a sociedade era caracterizada pela guerra, e considerando os valores guerreiros de seus membros num todo, a morte em um campo de batalha era altamente desejável, uma vez observadas as premissas éticas, a vida no Outromundo era certa, garantindo as vantagens sociais. Esta crença na imortalidade da alma tornava o estado de guerra um estado consagrado, onde tanto a vitória como a morte eram modelos sacrificiais de conduta. A dinâmica guerreira celtibérica era baseada na honra pessoal, oferecendo a vitória aos deuses, demonstrando valor e aspiração a uma morte honrada.

As armas eram foco de uma atenção e cuidado enormes, inclusive as tomadas dos inimigos eram consideradas troféus, juntamente com o crânios e as mãos, e depositadas como oferendas rituais. As armas eram consideradas como extensões dos que a carregavam, como símbolo de valor, mesmo depois da morte as armas eram depositadas junto aos restos dos mortos, muitas vezes, inutilizadas propositalmente, para compartilharem do destino do proprietário. O empenho guerreiro também era encarado como uma forma de se ganhar prestígio, status social, excelência e riqueza. Há indícios de irmandades guerreiras de cunho iniciático. Os saques das cidades eram uma atividade mais voltada a juventude celtibérica, e estavam mais concentrados em um determinado período [do rito de passagem do tornar-se Homem], culminando nos casamentos; quando havia dois pretendentes a uma garota, o pai a daria ao que primeiro trouxesse a mão direita cortada de um inimigo. Este ato não só representava a sanção pública para se resolver a disputa como marcava um período de iniciação, que começava no solstício de verão, e terminava no casamento, provavelmente no Lughnasadh.

Os celtibéricos realizavam dois tipos de danças rituais durante os embates pessoais, uma ortodoxa circambulatio e uma dança da vitória. Eram utilizados bastantes artifícios intimidatórios no estado de guerra, desde a sacudida das cabeleiras estranhas aos romanos (algumas em formato de crinas de cavalos), as inventivas de pura selvageria e nudez, os ensurdecedores tambores de guerras e as trombetas que, como registrado de diversas formas no mundo céltico em geral, parecia envolver dimensões escatológicas. Os elmos possuíam muito mais caráter de impressionar do que de proteger. O costume de duelos e combates singulares era comum, realizado sobre determinados costumes rituais. A hospitalidade era um costume ancestral, geralmente firmada em acordos gravados em peças dos mais diverso materiais e presidida pelos deuses. Os banquetes solidificavam a coesão social.

Os estudiosos geralmente concebem 3 elementos simbólicos [do corpo] envolvidos nas crenças: a ‘alma’ individual que é liberta e tem acesso ao Outromundo dos heróis, o crânio, lugar das virtudes guerreiras capazes de serem transmitidas e/ou veneradas, e o resto do corpo que é mais relegado ao perecimento natural. A proximidade de rios aos cemitérios também parece ter conotações escatológicas, em vista da associação do Outromundo com águas. Todos teriam acesso ao Outromundo e a, provavelmente, apoteose, desde que alcançado os critérios de excelência requeridos.

E a adaptabilidade?

Aqui é o problema. Seria possível, manter a base do sistema de crenças, em nossa sociedade contemporânea, mantendo o mínimo de coerência histórica? Antes de analisarmos os pressupostos para esboçarmos uma resposta, qualquer que seja, é mister ressaltar que o Paganismo contemporâneo concebe a possibilidade de se diferenciar dos paganismos da Antiguidade. O que, teoricamente, não impede de haver uma espécie de coerência histórica e doutrinal nas práticas ressurgidas. Também é necessário ressaltar o fundo filosófico humanístico das instituições culturais ocidentais ditas laicas nos nossos dias. O sistema de direito, o sistema policial, inclusive o militar de nossa época, são guiados por uma ideia Moderna de direitos humanos universais que pressupõem uma visão antropocêntrica do universo e de homem enquanto ser superior ao mundo natural e racional, totalmente compreensível dentro da época em que viveu I. Kant, por exemplo; mas totalmente díspar do pensamento pagão da antiguidade.

Mesmo na Grécia, o humanismo [“humanismo”] tinha um caráter mais flexível com o Estado de Guerra, e uma concepção diferente de homem, basta ver Atenas (o esplendor de civilização) nos tempos de Péricles, da ascensão dos trinta Tiranos e da retomada do poder pelos Democratas. O que me parece, que o humanismo desenvolvido na Europa a partir do Renascimento, apesar de se ver emancipado ou uma tentativa de emancipação do domínio eclesiástico, preservou em seu âmago os mandamentos de não-matar, amar ao próximo como a si mesmo e etc. O problema não é a preservação destes “mandamentos judaico-cristãos” em uma sociedade que se diz laica, mas principalmente o não reconhecimento disto e a internalização da defesa destes mandamentos em bases, pseudo-laicas e “superiores” a Antiguidade. Neste sentido, é que o mundo hoje, cercado de grupos de defesa a vida animal ou certas condutas, ao que me parece, seria um lugar estranho, mesmo para um romano ou grego trazido do passado aos nossos dias. Não que estes grupos não sejam necessários em um certo sentido, pois, se não os houvesse, por exemplo, [no caso ecológico] muitas espécies animais teriam desaparecido completamente e muito mais florestas estariam devastadas em vista da visão capitalista-protestante de mundo.

O que de fato, quero ressaltar é esta espécie de ‘substrato’ discursivo, quase que inato a nossas mentes, que inconscientemente nos aprisiona em maneiras de pensar e de considerar a “verdade” estritamente judaico-cristãs, deve ser reconhecida para uma melhor, assim pelo menos tenho percebido, vivência religiosa pagã e um melhor entendimento da real dimensão dos problemas ambientais e de suas consequências; e eventualmente da mudança de uma maneira de viver para outra.

Doravante, muitas das práticas religiosas antigas seriam hoje consideradas crimes, desumanas e cruéis. Mesmo se considerarmos o esquema positivista de que eram tempos “primitivos” e que nós “somos infinitamente superiores e mais avançados”, quando confrontados a violenta realidade de nossas vidas, soam estranhas, rudes, “inferiores”. Justamente este sentimento de espanto e consideração ante crueldade dos antigos é que deve ser motivo de reflexão para nós. Em vista da diminuição drástica do número de espécies animais, assim como da flora de diversos biossistemas, e da explosão demograficamente gigante de humanos, assim como do esgotamento de diversas fontes energéticas, contaminações e esterilizações de enormes parcelas de terra e água, que se deve repensar estas maneiras de pensamento de “animal superior”, inclusive alguns aspectos do humanismo moderno, que de formas veladas legitimam o desequilíbrio natural de inúmeras formas. Penso que seja necessário reafirmar que não o humanismo, como um todo, tem consequências que para um pagão antigo, e para um pensamento pagão “legítimo”, soariam anti-naturais, pois este texto talvez seja lido publicamente graças, e uma parcela ‘n’, à ele (o humanismo), mas a alguns formas de pensar incrustadas osmoticamente em alguns argumentos “Éticos”, e portanto “superiores” definidores de alguns padrões, maneiras de agir, e (principalmente) consumir [passagem nebulosa, eu mesmo reconheço].

Considerando estes problemas, a adaptação de um sistema de crenças antigas à indivíduos atuais, é um problema instigante por si só. Além dos fatores jurídicos e materiais que se opõem, tanto pela novas necessidades provocadas pelo pensamento industrial, quanto pelas considerações de ordem ambiental, os fatores mentais também são problemáticos. Nossa experimentação da realidade e as nossas representações da mesma são enormemente discrepantes, o que por sua vez, influi em nossas maneiras de pensar e estruturar raciocínios, expressar-se simbolicamente. O esforço que os envolvidos com o paganismo atual fazem, para ‘recuperar’ algumas formas de perceberem o mundo, digamos, mais “espontâneas”, é considerável.

Por fim, antes de responder a questão sugerida (no início do tópico), tentemos esboçar maneiras de adaptação, supondo, inicialmente, que são possíveis. tentaremos três modos distintos de fazê-lo: de acordo com a estrutura wiccaniana, com o druidismo nas linhas da ADF, e com uma espécie de “sistema” aberto [que seria a abordagem Reconstrucionista, de fato]. Estas três foram escolhidas pelos seguintes motivos: a primeira por ser o ramo mais popular do paganismo contemporâneo, o segundo por ser, supostamente, a que dialoga com a origem mais próxima a religiosidade em que os povos celtibéricos estavam imersos, além de ser o sistema da ADF o que me foi mais acessível e com o qual estou mais familiarizado e a terceira por ser uma ‘não-definição’ prévia, e por isso mesmo, supostamente mais maleável.

Comecemos pela Wicca

[Hoje, eu simplesmente não consideraria a Wicca sequer como “possibilidade”: a mesma é incompatível, em princípio e consequências, com a religião celtibérica – simples assim]

Os deuses, ao que me parece, seriam todos interpretados pela doutrina desta religião sem oferecerem maiores problemas: Os deuses e as deusas estão bastante delimitados, apesar de suas funções se entrelaçarem. Liturgicamente podem ser inferidos conjecturalmente práticas como “baixar a lua” (apesar de suspeitarmos que talvez não fosse tão bem considerado, ou considerado sacrilégio), as celebrações dos sabás (até hoje não entendo o porque da permanência deste nome judaico) durante as luas cheias, apesar de que ao que parece, os Celtibéricos atribuíam masculinidade a lua, ou a noite. As formas rituais de abertura de círculo, invocações das zigurates, lançamento de feitiços et similis, não parecem se ligar as fórmulas rituais registradas; em todo caso, como parte de muitas liturgias wiccanianas, permaneceriam.

Os sacrifícios de animais (e humanos) seriam eliminados, ou substituídos por cereais, frutas e vegetais. A prática das libações em oinochoes poderiam ser preservadas inteiramente, restando saber se seriam libados cerveja (uma bem forte) ou outra bebida forte. As adagas e foices rituais para execuções dos sacrifícios perderiam suas funções ou seriam utilizados para cortar alimento sacrificado. Os ritos de fundação, também seriam eliminados ou substituídos os sacrifícios altamente necessários por uma oferenda simbólica. As práticas de “devotio” e suicídio ritual também, ao que me parece, seriam eliminadas. Os ritos funerários, para as mortes ‘ruins’ e para crianças, me parecem que poderiam ser executados sem muitas modificações, mas já o rito de exposição do cadáver à abutres (no nosso caso aqui no nordeste, carcarás e urubus) e animais selvagens destinados aos de morte honrada, seriam complicados: não só a componente mental dos executantes, que ficariam chocados, como o espaço próprio para tal (em zonas urbanas por exemplo), a “opinião pública”, os meios de comunicação de cunho sensacionalista e a justiça, criassem problemas para tal. Fica o problema, como tornar isto simbólico? Como tornar o ‘carregamento’ da alma aos deuses por meio de seus animais, simbólico? Espero sugestões, até por que isto é um problema nas três estruturas nas quais nos dispomos a especular uma possível adaptação.

O que nos parece igualmente problemático é a adoção das diretrizes morais; não só por que não vivemos, oficialmente, em um Estado de Guerra ininterrupto, mas por que judicialmente é problemático cortar a mão de um inimigo nosso para garantir um casamento, por exemplo. A adoção de um sistema ético-moral heroico baseado profundamente no conceito de honra, coragem e valentia é explicitamente contrário aos preceitos morais wiccanianos. Afinal, um indivíduo honrado não vai fazer o que quiser deliberadamente (uma vez que considera o Dever), e se o fizer, muito provavelmente causará ‘mal’ a outros. Portanto, não só o “faça o que desejar” soaria estranho, mas, mais estranho ainda seria o “sem mal nenhum causar”. Mesmo se considerarmos o conceito de honra de uma forma mais abstrata, mantivermos a coragem e transpormos a valentia para um campo como o do ativismo ecológico, por exemplo, o ardor religiosamente guerreiro que envolveria e nortearia o sentido, inclusive de algumas divindades, e da vida cotidiana, seriam atenuado bruscamente, e talvez se achasse arriscado “duelar”, com um marginal (armas iguais de preferência), por exemplo, e preferiria não arriscar sua vida, mesmo se fosse uma luta ‘justa’.

E ai, poderíamos perguntar se é uma adaptação de fato [pois é, na época eu já percebera que a Wicca não era compatível!]. A conceituação de alma-cabeça-corpo enquanto dimensionadores de significância do discurso pós-morte não sei se é compatível com os conceitos junguianos (penso que não sejam na verdade só de C. Jung, mas conseqüentemente Freud e alguns psicanalistas dos nosso dias) de “Ego”, “eu” etc, adotados em muitas tradições wiccanianas; peço sugestões.

O Druidismo contemporâneo na linha liturgica da ADF e similares

O panteão das divindades casam perfeitamente [“perfeitamente” é um exagero], ao que me parece. Os locais sagrados também. O calendário seria de cunho lunar, com as festas celtas, mas observar-se-iam os solstícios e os equinócios. Os ritos, assim como na Wicca, oferecem problemas litúrgicos, apesar de ADF manter simbolicamente o sacrifício e o augúrio da boa/má recepção deste pelos deuses mantendo por isto, uma liturgia mais tradicional e coerente. Em geral toda a estrutura litúrgica dos ritos se adéquam bem, somente os sacrifícios seriam simbólicos. As libações se adequariam bem também, os ritos de fundação também deveriam tornar o sacrifício simbólico, ou então realizá-los, de forma sacra e respeitosa (como se supõe que eram realizados). O chamado de um Guardião como ‘intercessor’, o chamado aos ‘espíritos’ nativos e aos ancestrais não nos parecem oferecer problemas sérios que comprometam o funcionamento do rito.

Já o reconhecimento dos “Outdwellers” nos parece uma noção estranha ao mundo celtibérico, segundo nossas rasas pesquisas [não necessariamente, se entendidos como “genii loci”]. As danças na lua cheia, se adéquam, no geral, a um esboço litúrgico fornecido pela ADF para celebrações da Lua cheia, somente sendo necessário incluir a dança-batalha simbólica aos cantos de mulheres, talvez antes do “Chamado à Lua”, e utilizando-se do panteão celtibérico, masculinizar o caráter do ritual, observando o tabu em relação ao nome do deus. Os ritos funerários dos mortos de forma honrada apresentariam os mesmos problemas apresentados pela wicca, no tocante as suas execuções. Como anteriormente, a “devotio”, a caça das cabeças e mãos inimigas e o suicídio ritual ante a perda da honra, ao que parece, devem ser revistos ou totalmente ressignificados religiosamente, pelo menos, a ADF no geral, mantém uma postura “moderna” e possivelmente exigiria tais mudanças.

Sobre as diretrizes morais, aonde a problemática mais seria, ao meu ver, reside, o alto grau de responsabilidade social soa bem às diretrizes morais do druidismo, apesar de que a moral heroica, como na wicca, consista em um problema, uma vez que se choca diretamente com os valores modernos pacifistas, progressistas e humanistas. A ressignificação é o que me apresenta como uma saída, neste sentido, as diretrizes ético-morais do druidismo contemporâneo parecem, no geral, mais favoráveis do que a Wicca, num todo, apesar dos principais problemas de conduta e de seus “impactos” mentais, mágicos, na vida cotidiano do indivíduo religioso, permanecerem. As concepções escatológicas, ao que me parece, já que não tive muito acesso a estes textos da ADF, poderiam ser adaptadas. Um confusão poderia surgir nas divisões de sacerdócio, e funções, em vista de que segundo os autores greco-romanos, os vaticínios eram cantados.

Ao que me parece, a priori, a função de Bardo e Vate, entrelaçavam-se. Os druidas se responsabilizariam perfeitamente pela intermediação e reconhecimento ritual dos pactos, juras e acordos, assim como pela formalização burocrática destes, poderiam presidir os sacrifícios da comunidade e os ritos de passagem; o vate, se encarregaria do vaticínio (lógico) e das curas, talvez junto com o druida. Os bardos é que não parecem se encaixar diante dos vestígios que nos foram deixados. Seria o mitólogo e contador de histórias? O que presidiriam a música e as trombetas? Cantaria em versos o vaticínio do vate? Espero sugestões.

A estrutura aberta

Aqui a observação de um calendário lunar que observasse os solstícios e equinócios (talvez como o de Coligny) e as festas celtas, principalmente o Lughnassadh, seria necessária. Os ritos se concentrariam nos sacrifícios, nas celebrações e festins e no favorecimento de estados mentais “guerreiros”, voltados a vida cotidiana contemporânea. Uma postura pró-armas, na verdade, de uma cultura de armas seria coerente. Também precisaríamos de uma “classe” de sacerdotes ou especialistas aptos em uma liturgia específica que significasse os símbolos e os objetos dos rituais, suas disposições, usos e regras, assim como os vaticínios e a transmissão do fundo mitológico. Na verdade estaríamos estabelecendo uma tradição “reconstrucionista” celtibérica, que penso já haver se iniciado, apesar de não conhecer. Toda a problemática concernente as diretrizes morais, aos ritos funerários esboçadas anteriormente, se apresentariam, mas agora com uma postura coerentista mais acentuada.

As concepções escatológicas seriam mais claramente “herdadas” e repensadas dentro de uma liturgia em construção, considerando as variantes de nossos dias. Resumindo seria um trabalho enorme e muito além do que este breve texto se propõe a tratar. De toda forma, a questão está aberta, e ao que nos parece, no momento, é que sim, é possível adaptar, apesar de considerável experiência religiosa não ter sido herdada às claras e da enorme lacuna mitológica. Esta crucial falta de uma herança mitológica mínima é o que para alguns, de fato, colocaria a perder todo o propósito que guiaria a tentativa de “reconstrução” ou adaptação.

BIBLIOGRAPHIA

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