(08-01-2014) Visões sobre o Caminho do Produtor.

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 08/01/2014. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

A obviedade da necessidade de produtores é tão gritante (pelo menos para quem vive e labuta para realizar projetos no mundo real) que não há muito a se falar. Neste sentido, reunimos uns pensamentos curtos e simples que expressam algumas das ideias que acredito que devam ser expostas para um número maior de pessoas e compartilhadas. São pensamentos e devem ser encarados como tal.

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1. Se é vital às religiões étnicas indo-europeias contemporâneas o ressurgimento da classe guerreira, se pode falar ainda mais da classe produtiva. A base, o alicerce, a pedra grave e plana. O bloco rígido e rústico, massa volumosa e potente, construtora de impérios e exércitos, do que é grandioso e imponente, que manifesta a vontade de um povo, que constrói o destruído de novo e suporta uma Ordem Vigente. Precisamos de produtores: produtores de verdade.

2. Não tenhais por ‘produtores de verdade’ meia-dúzia de “hippies”, que erradamente alguém relacionará como expoentes da nossa classe produtiva. Não. No passado como hoje, o produtor é o camponês, o trabalhador manual pesado (no nível mais baixo), o pequeno comerciante (no nível médio), artesãos, mestres de ofício, técnicos e talvez mesmo, músicos, artistas e poetas de baixo nível (no nível mais alto). São produtores, a classe prestadora de serviços, a classe industrial e a exploração dos recursos primários. Talvez mesmo, seja produtora a “elite” de engenheiros e “homens de negócios”, que nossa sociedade vê como equivalentes a sacerdotes e a intelectuais, os superando, muitas vezes, em prestígio. É necessário compreender que o grande empresário, suposto membro da elite, não é de “elite”, no sentido tradicional, mas o é somente no sentido “burguês”, ou seja da “elite econômica”. Ele é parte da classe produtiva, uma parte alienada pelo sonho e pela fantasia da “burguesia” e que se pensa diferente, ontologicamente, dos seus empregados. Mas que nós – timidamente iluminados pelo Sol Verdadeiro da Tradição – os vemos como naturalmente são: nem Sacerdotes, nem Guerreiros, mas Produtores.

3. É necessário iniciar a desocupação do mundo do trabalho, colonizado pelo Comunismo. É necessário ver, de modo sincero, sem preconceitos, as alternativas (Der Arbeiter de Ernst Jünger), é necessário também considerar e ver os substratos que o Marxismo trouxe consigo e que são valiosos. O paganismo necessita de uma teoria própria do trabalho [já possui: na Grécia, está condensada, talvez meio que hermeticamente, nos “Trabalhos e Dias” de Hesíodo], para agora, uma que parta da visão tradicional do trabalho e da reflexão filosófica desta (Política de Aristóteles, Íon de Platão, etc.) e transpasse o materialismo modernista (liberal e comunista) dos sindicatos e do mundo consumista. É necessário compreender novamente a lição ancestral de que o fim do Toque de Midas (o Capital Apátrida que tudo em que toca transforma em Ouro, ou seja, em mercadoria, desprovendo de espiritualidade, vida e valor transcendente) só se dará pelo retorno ao Sagrado, e não pela sua extirpação completa (como querem os Comunistas e como alguns Anarquistas, mesmo que não saibam, terminam trabalhando para).

4. Voltemos e olhemos para o nosso “passado”: as corporações de ofícios, as guildas, os arranjos e soluções do campo e da cidade. Lembremos, uma vez mais, que a grande virtude do Produtor é a Temperança. O que o guerreiro tem na guerra o produtor tem no trabalho; esta é a sua guerra, este é o campo para que suas virtudes floresçam, sua via de ascese, para que se ilumine. [O Trabalho é a Guerra do Produtor, sua Covardia é a Preguiça, sua Coragem é a Disposição para o Trabalho].

5. Nisto, na denúncia da eventual perversidade e alheamento do mundo produtivo moderno e de como este é controlado por uma elite financeira que subjuga o mundo, há algo de valor nos socialistas que deve ser compreendido. Efetivamente, são os sujeitos que mais trabalharam para compreender os efeitos nocivos da economia moderna – o seus diagnósticos são valiosos, mas a receita dos remédios comunistas se mostraram aplicações de um veneno mortal. Talvez por erros de compreensão de como o capitalismo funciona, segundo advogam alguns (Ludwig von Mises e a Escola Austríaca), talvez pela sedução do messianismo utópico do “Reino dos Céus na Terra”, ou seja, por um erro de finalidade (que por sua vez, determina os meios, ao menos entre a Esquerda, vd. “Moral e Revolução” de Trotsky). [Hoje, faço questão de afirmar o erro de concepção, para além do erro de finalidade – o Comunismo e os Socialismos são perversos em si, profundamento danosos por sua “resiliência” de Erva Daninha, nisto se mostram até mais que o Liberalismo: pois deste, facilmente se consegue se afastar ao buscar alternativas, quando se lhe opõe sua antítese “original” o Monarquismo/Tradicionalismo/Conservadorismo; mas quando se opõe ao Liberalismo suas alternativas modernas, parece que só terminamos por regar e fortalecer as ervas daninhas socialistas].

6. É necessário também, não cair na trama fácil do bode expiatório – antes os judeus e ciganos, hoje os grandes magnatas como George Soros – pois, por mais que caibam em certas posições (e de fato, sejam responsáveis em alguns casos), não se pode subestimar a auri sacra fames, veneno que pode, a princípio, em menor ou maior grau, infectar qualquer sujeito em qualquer classe e de qualquer natureza.

7. Precisamos, antes, de construtores, pedreiros, engenheiros. Precisamos retornar à construção de templos, altares, à transformação mágica da ideia em matéria, matéria que condensa a força vital. Já há gente de bijuterias e hippies de artesanato medíocre, não é lá disso que precisamos. Precisamos de Mestres, artesãos que produzam obras para a Eternidade, imortalizem-se e elevem-se ao divino pela suas obras.

8. A ideia de que uma comunidade religiosa autônoma necessita de produtores é fundamentalmente imperativa. Precisamos de uma comida plantada e colhida sob a égide de nossos Deuses, de carne consagrada a Eles, de casas e espaços construídos que reflitam nossas visões e compreensões, vestes, bebidas, instrumentos, utensílios, cultura material. Eis uma necessidade que torna um pedreiro religioso étnico indo-europeu, hoje, mesmo que medíocre, mais útil que 100 blogueiros adolescentes neopagãos que repetem a ladainha do mais do mesmo.

9. Há muitas saídas interessantes hoje que, de certa forma, realizam os apontamentos, digamos, arqueofuturistas. Há muita coisa boa e aproveitável, seja entre as diversas profissões técnicas, seja na tecnologia que dispomos, seja nas técnicas e conhecimentos de permacultores, etc. Informação, há. Não é o que falta. [Como nunca, dispomos de ferramentas e soluções tecnológicas que permitem um trabalho mais eficaz e seguro, disto não há do que reclamar].

10. Muitos dos que se aproximam das nossas religiões talvez não disponham de uma natureza majoritariamente produtiva. Talvez, nestes anos, atraiamos mais sacerdotes/intelectuais, poucos guerreiros e poucos produtores – afinal, restaurações, tradicionalmente, começam de cima, formando uma espécie de “vanguarda”. Mas talvez não seja só isto – talvez haja muita gente confusa sobre sua real natureza, alienada de si mesmo, pela distância de uma vida saudável junto à Natureza, pela intoxicação ultramoderna das grandes cidades, pela fantasia da vida virtual médio-burguesa e do comodismo santificado, o comodismo do consumo e da satisfação instantânea dos apetites. Talvez. Só quando se sai da caricatura, do faz de conta onde tudo se compra e rápido se faz, e se mergulha no Real, onde nem tudo tem preço e onde o tempo requer disciplina inquebrantável, é que possamos saber bem as reais causas. Precisamos que se forme o contexto que liberte os sacerdotes – desobrigue-os de terem de exercer as artes produtivas e combativas, por carecerem de produtores e de combatentes. Precisamos que os produtores assumam sua produtividade, reconheçam que não são nem guerreiros, nem sacerdotes, ou melhor; reconheçam (pois se trata da natureza predominante) que são melhor produtores, que guerreiros ou sacerdotes.

11. Muitos povos conceberam que certos deuses presidem as atividades produtivas ou partes delas. É mister e essencial religá-los à concepção do trabalho em sua plenitude. Sem isto, repetir-se-á a ladainha profana da substituição dos poderes transcendentes pela “deificação” materialista do Consumo, do Mercado, Salário, da Marca. Não. Adoremos uma vez mais os deuses ligados à produção e ao comércio justo, direcionemos nossas mentes uma vez mais para o luminoso, retomemos a mística divina da transformação da matéria bruta em um arte, da verdadeira magia, da dimensão sagrada da produção, do “Segredo do Aço”. Não caiamos na ilusão do simulacro vazio, do ídolo oco, produto da mente desértica semita. Não! Reconsagremos a foice, o martelo, como a espada e o pergaminho! Uma vez mais, tenhamos as imagens de nossos deuses cunhadas em nossas moedas e façamos do ofício, uma adoração.

12. E nesta tarefa compreendei que o comunista (e suas variantes, incluindo os trotskistas e outras matizes de anarquistas) não estará conosco. O capitalista radical também não. Se vivemos, de fato, numa era onde o Trabalhador governa, é crucial estarmos cientes que tais saídas (que não são meramente políticas, mas constituem visões de mundo em si) não são decorrências naturais das visões dos nossos antepassados, mas algo diverso, derivado pela introdução de algo alógeno. É dever do intelectual indo-europeu esclarecer em que consiste o Trabalho no mundo Antigo, o que consistiu no mundo católico (que teve lá suas simbioses com o “pagão”) e o que consistiu a partir da Reforma Protestante (Max Weber). Sem isto, o produtor corre o risco de ser esvaziado por dentro, corroído pelo materialismo radical (que se disfarça com desculpas a cada instante), do “tudo é dinheiro”, no final, “dinheiro é o que importa”, “ser um vencedor” nos moldes hollywoodianos do homem de negócios bem sucedido que despreza arrogantemente, e triunfantemente (num orgulho iconoclasta e em profunda hybris), tudo o que não lhe rende dinheiro. Estes, enganam melhor por, supostamente, ainda preservarem um ethos de competição e suposto mérito, de concorrência e “guerra”, como se houvessem transferido a disposição combativa do campo de batalha real para o mundo dos negócios, mas não. Não. Esta não é a deificação do produtor, sua exaltação não consiste nisto e não há moralismo escondido nesta atestação. Não nos iludamos pela propaganda dos idiotas úteis, seja do Grande Capital, seja do grande Embuste Comunista.

13. A exaltação do produtor se dá pelo exercício de sua virtude e pela perícia/excelência em seu ofício. Sem moralismos. Eis o que imortalizou Fídias, eis o que imortalizou Kalashnikov. Eis o que deve-se mirar: a obra, a posteridade – faz para o futuro, no presente. Eis a chave do aforismo de Horácio (seguindo Hipócrates) ars longa, uita breuis, ars como τεχνή, fundamentalmente. E isto só se dá melhor quando a produção não visa a obsolescência programada; isto só se dá, quando se produz de um modo não-capitalista (mesmo que dentro de um sistema formalmente capitalista). Quando se segue na via da excelência, o produtor alcança o status de Mestre de Ofício, equiparando-se em prestígios, nos tempos de nossos ancestrais, aos mais altos dos sacerdotes/intelectuais e dos guerreiros. Tanto que em algumas sociedades, uma nova “classe” se formava, da emancipação dos trabalhadores especializados, de sua diferenciação dos trabalhadores comuns e campesinos, de sua individuação da massa uniforme e anônima. Eis os Áes Dana, eis a origem dos Vaishyas. Eis a verdadeira emancipação pelo trabalho, para o horror da retórica marxista.

14. É importante sabermos também sobre o mito e a áurea de santidade criada em torno do Produtor e do povão em geral. O produtor é quem compõe a plebe, a massa, o povão. Como já apontamos noutros textos, inicialmente, era compreensível a visão do “bon sauvage” do Rousseau no camponês rústico e analfabeto como um contrapeso a feminização da nobreza erudita francesa. Mas a coisa perdeu o sentido e o Produtor foi transformado pelo idealismo socialista [embebido em Rousseau] num ser perfeito, numa classe santa e sempre certa, incólume e sempre injustiçada, explorada e maltratada. De repente, o Produtor tornou-se a medida do que existe: sua necessidade é a Necessidade, sua visão, a Visão, sua queixa, a Queixa. Como o Reino dos Céus é prometido ao “Pobre” no Cristianismo, de repente, o Mundo agora é prometido ao “Produtor”; com a diferença de que no Cristianismo, ao menos, o pobre é pecador por natureza, enquanto que o “produtor” não parece padecer de nenhum vício – se por acaso se contesta um, tem sempre origem noutra coisa que não nele (na burguesia, na alienação da superestrutura, na falta de oportunidades, etc.). Não, o Produtor possui também suas características nefastas (como o Sacerdote e o Guerreiro), não é um “santo” completamente isento de defeitos e responsabilidades, nem um condenado que precisa se redimir no Além. Não tomemos a visão religiosa alheia como nossa (mesmo quando ela se passa por pseudo-científica e ateísta), resgatemos a nossa própria.

15. É de espantar que nossas religiões tenham o público que atualmente possuem. É de espantar. Talvez de causar preocupação, mas também, talvez, de esperança. Devíamos estar reocupando os campos, mas não abandonando a polis por completo – criando fortalezas nestas, mas, mais ainda, criando raízes, respirando bem, repaganizando o pagus. É necessário ter ciência do movimento tático. Que estendamos os galhos por sobre o asfalto, mas que nutramo-nos na terra fértil e nas águas límpidas. As árvores que crescem sob a poluição e a fumaça tóxica, cada vez mais demonstram um deformação congênita (umas horas no Facebook o demonstram para qualquer um), uma espécie de atrofiamento, cada vez mais aspiram ser plástico, mero plástico ornamental, inofensivo, domesticado e chique. Por isto é que é importante certa seletividade, precisamos dos melhores, mais que nunca, para nos organizarmos conforme a Natureza e para evitarmos a “plastificação”. Para que não nos seja retirado toda capacidade de reação, de mobilização, para que não nos tornemos um enfeite exótico e manso, inofensivo e morto, um animal empalhado criado em laboratório.

16. Roguemos aos Poderosos, sacrifiquemos e libemos. Trabalhemos para (re-)erguer templos mais do que blogs, multipliquemos estátuas, mais que “curtidas”, cultivemos mais jardins e campos que memes engraçadinhos, voltemos também ao mundo concreto do Produtor.

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