Lunastal / Lughnassadh – Epifania e Aprendizado

[Originalmente publicado em: 25 de Janeiro de 2015]

O mês de Janeiro tem me ensinado muito sobre epifania e a luta entre Caos e Ordem – uso os termos oriundos do grego por falta de títulos celtas adequados, mas poderiam bem ser ditos como ‘luta entre Escuridão e Luz’. Quase todos os dias deste janeiro têm sido abrasadores de quentes, e invariavelmente antes do cair da noite, nuvens de um cinza escuro cobrem o céu, uma breve chuva cai acompanhada de raios e trovões. Naturalmente, concluímos, o calor extremo leva à evaporação, condensação e precipitação das águas em abundância nesta região: a ciência explica.

Mas a religião também: O fato é que esta tão esperada chuva nossa de cada dia alivia muito o calor. E eu acho deveras fascinante que a natureza desenvolva mecanismos para equilibrar/harmonizar as coisas (nesse caso a temperatura).

Como é que a natureza faz isso? Bem, a minha fé explica da seguinte forma: em 1 de Agosto no Hemisfério Norte celebra-se a festa de Lughnasadh, na qual o rei dos deuses, Lugus / Lugh, volta vitorioso da guerra contra os Fomors (ou fomorianos), a raça inimiga de entes igualmente poderosos e imortais, no entanto defeituosa e imoral, distinguindo-se por isso dos deuses. As histórias sagradas (ou mitos gaélicos), nos contam que os  Fomors estavam exaurindo os recursos naturais da terra, lançando a injustiça através da exploração do trabalho dos deuses (os Tuathá dé Dannan), quando Lugh surgiu para liderá-los na guerra, e, opondo-se ao rei fomoriano, Balor, cujo Olho Mal matava instantaneamente tudo o que visse (ficando por isso sempre fechado e sendo aberto apenas quando conveniente), saiu-se vitorioso e trouxe a Ordem de volta ao mundo.

Lugh teria atirado sua lança contra o olho de Balor quando este foi aberto para destruir os deuses, e toda a terra,  na batalha. O golpe foi tão forte que atravessou a cabeça, fazendo com que o Olho Mal caísse para trás, atingindo assim o próprio exército fomoriano.

É graças a isso que compara-se a lança de Lugh com os raios das chuvas de verão, e diz-se que esse tipo de chuva durante uma celebração de Lughnasadh é de todo auspiciosa. Muitos interpretam o sol abrasador do verão com o Olho Mal de Balor, que ao chegar no seu auge, pode exaurir a terra e as formas de vida. Neste verão excepcionalmente quente (tivemos records de temperatura por aqui, com até 38° C) está, portanto, exaurindo a terra e as formas de vida que nela habitam, e é por isso que a chuva cai todo fim de tarde. O Caos mostra seu ímpeto de destruição, e em seguida, a ordem mostra seu ímpeto de manutenção. O Olho Mal de Balor, as forças da natureza fora de controle, vêm tentar destruir, e a lança de Lugus, a força da natureza em equilíbrio e harmonia, vem salvar a terra e a vida.

É uma epifania diante de meus olhos todos os dias. É a pura expressão do divino na natureza. As forças dos deuses, em sua realidade própria, fazendo-se visível através da natureza na nossa realidade.

Aqui no Hemisfério Sul celebraremos Lunastal em 1 de Fevereiro, data em torno da qual esta batalha de verão deverá ter fim. A rigor, Lunastal / Lughnassadh foi instituída por Lugh como uma celebração fúnebre pela morte de sua mãe adotiva, Tailtiu, que não sendo Tuathá dé Dannan, mas uma Fir Bolg, não se juntou à batalha. Ao invés disso, Tailtiu ficou em casa arando sozinha todos os campos da Irlanda (aonde se passa este mito) como contribuição. A exaustão de Tailtiu foi tamanha que deste esforço ela faleceu, e para honrá-la, celebram-se jogos fúnebres nesta ocasião. É o início das colheitas e honra-se não só ao esforço dela, mas ao de todos os agricultores, que como ela ocupam uma das mais nobres funções da sociedade, a produção de alimentos, do sustento necessário a vida de todos.

[De acordo com Olivares Pedreño, na Península Ibérica, aonde a maioria da epigrafia Continental do deus Lugus se encontra, parece haver uma conexão entre este deus e as deusas Matres, de forma que esta deusa tríplice pode ter sido sua mãe na mitologia céltica peninsular. Vale lembrar que na mitologia gaélica Lugh é filho de Ethniu, uma Fomor, mas ao nascer foi jogado pelo avô, Balor, do alto da torre e, antes que caísse no mar, resgatado pelo deus Manannan, que o criou por alguns anos. Ainda na infância Lugh foi adotado por Tailtiu e passou a viver entre os Fír Bolg, de forma que o Deus passou por três lares em sua criação, um de gestação entre fomorianos, um de crescimento entre os Tuathá de Dannan nas Ilhas Abençoadas , e um de educação formal entre os Fír Bolg.]

[Mas voltando ao que interessa…] É possível sobreviver à guerra pela vitória, ou mesmo pela escravidão após a derrota, mas é impossível sobreviver à fome. Por isso lembrem-se, no próximo Lunastal / Lughnasash, de honrar não só ao herói divino e sua vitória sobre o Olho Mal e o Caos Fomor, que faz com que a Roda continue girando em equilíbrio e harmonia. Honrem à providência de Tailtiu, ou das Matares, e dos mortais que seguem seu exemplo trazendo a nutrição e a prosperidade para a nossa terra. Celebrem também a tão esquecida e desvalorizada função dos produtores, dos agricultores, das donas de casa, aquelas que não vão à guerra mas zelam pela alimentação da família e a manutenção da Ordem no lar.

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