As Outras Mulheres Celtas

Por volta da década de 1960 os estudos de gênero ganharam força nas academias ocidentais, com o início da Segunda Onda Feminista, que agregava a ideologia marxista à questão de gênero. A princípio o Feminismo foi idealizado por Simone de Beauvoir, afirmava que gênero era uma construção social, ou seja, que as características do gênero feminino eram apreendidas ao longo da vida, e que a natureza não teria nenhum papel no desenvolvimento do comportamento humano. Com a Segunda Onda Feminista, e a a sua apropriação pelo Marxismo, surgiu a ideia de que sexismo seria um dos mecanismos ideológicos das dominações impostas pelas elites, e de que não bastava pensar na luta de classes, mas na luta de gênero, de etnia e de outras tantas que daí decorreram. Esta fase do pensamento feminista ocupava-se de provar através de seus estudos e da propaganda ativista, que as mulheres eram capazes de fazer tudo aquilo que os homens faziam.
Afinal mulheres estavam ingressando em universidades, trabalhando em indústrias, fazendo serviços pesados desde que as duas, então recentes, Guerras Mundiais em sua demanda por soldados, ceifaram as populações masculinas nos países mais industrializados do Ocidente, aonde residia a vanguarda do feminismo. Portanto, exemplo para propaganda não faltava. Era importante provar que estas atividades intelectuais e braçais eram naturais tanto para homens quanto para mulheres, que elas sempre puderam fazê-lo, mas que estavam sendo proibidas há alguns milênios. Foi com esta finalidade que correntes teóricas marxistas das ciências humanas passaram a se debruçar sobre as sociedades antigas e a pré-história, vindo a formular teorias sobre a existência de matriarcados e matrifocalismos paleo e neolíticos que teriam tido fim com a invenção da propriedade privada (teorias que já caíram por terra há algumas décadas), e a tecer um rosário de exemplos históricos de mulheres que superaram a opressão produzindo tanto quanto os homens.
Esta corrente teórica descobriu também nos Celtas e nos povos neolíticos da Europa um terreno fértil, e personagens históricos e míticos como as rainhas Boudicca e Mebd passaram a ser constantemente visitados, e aos poucos a imparcialidade acadêmica foi se esquecendo das outras mulheres celtas, as que não ocuparam aquilo que as sociedades tradicionais do Ocidente compreendem por papéis masculinos. Seriam resquícios da tendência positivista e da tal opressão elitista que esta corrente teórica continuasse tratando de personagens femininos, mas apenas daqueles que eram rainhas, deusas, detinham poder bélico ou sacerdotal? Afinal, aonde foi parar a classe “desprivilegiada”, “oprimida” que o Marxismo afirma defender, os que não detinham poder econômico ou político na antiguidade céltica? Aonde estão as produtoras, artesãs e camponesas? O feminismo + marxismo esqueceu que elas também existiram na antiguidade e só as encontra na modernidade? Ou será que elas só não se encaixavam no padrão que estava sendo buscado como exemplo? É irônico que uma corrente teórica que começou com as lutas de classe tenha se esquecido de procurá-los nos vestígios da antiguidade céltica, e em seu lugar tenha super valorizado as classes detentoras de poder. Pois é assim que as outras mulheres celtas são relegadas ao esquecimento, sem direito a ter história.
Quando eu falo de mulheres celtas eu gosto de citar o Ciclo do Ulster, que se refere aos mitos em torno do herói Cúchulainn e do rei Conchobarr. Naturalmente que tratando de um rei e de um herói, é um ciclo que gira em torno da aristocracia guerreira, e de fato a obra mais importante deste ciclo é aquela que trata de uma grande guerra entre o Ulster e o Connacht: o Táin Bó Cualgne (Razia do Gado de Cooley). Mas não é porque trata de um domínio masculino que eu gosto de citar este ciclo mitológico, é porque nele estão contidas a maioria das personagens femininas abordadas como exemplos de mulheres que não estavam submetidas ao sexismo e eram tão capazes quanto homens. Nós temos neste conjunto a própria Mebd, rainha do Connacht e deflagradora da guerra; Scáthach, uma grande guerreira e profetisa que é procurada como tutora de guerreiros; Aife, uma rainha guerreira escocesa; Fedelm, profetisa que teria estudado em Mona, uma ilha sacerdotal; e finalmente, Morrígan, a deusa corvídea, que encarna a batalha, a fúria, o medo, a sexualidade e a profecia.
Mas uma vez que muito já se falou sobre estas personagens, não é sobre elas que eu quero me debruçar, é sobre as outras mulheres celtas. Sobre aquelas vagamente ou nada citadas, ou ainda, citadas apenas nas passagens convenientes. Eu não me lembro de em nenhuma das famosas (e deveras excelentes) obras tanto acadêmicas como as de Miranda Green e Peter Berresford Ellis, quanto neo-pagãs como as de Jean Markale, de ver citações sobre as passagens em que as mulheres são mostradas arrumando a casa, como Macha fez ao se tornar esposa de Crunniuc; ou bordando, como Emer e suas damas faziam quando Cuchulainn lhe fez a côrte. Enfim, não se presta nenhuma atenção às passagens míticas em que as mulheres são vistas fazendo coisas típicas de mulheres, e isso leva ao esquecimento. Aos poucos isto foi se apagando da memória histórica atual. É óbvio que as mulheres em sua maioria faziam isso, qualquer historiador vai dizer (e vai rir de quem disser o contrário). Mas na tentativa de citar o inusitado, de gerar exemplos para a propaganda feminista, estas funções muito mais comuns ao gênero feminino na antiguidade foram sendo esquecidas, e para o público comum que não tem o aparato metodológico e teórico, a verdade se restringe àquilo que está escrito no livro, e tudo que ali não está, deixa de existir.
Nenhum estudo que eu li fez uma comparação quantitativa entre todas as personagens femininas primárias, secundárias e coadjuvantes em papéis tipicamente femininos e aquelas que estavam em papéis tipicamente masculinos, como a guerra, a política e o sacerdócio. Igualmente os neopagãos que lêem e escrevem sobre as mulheres celtas seguem este padrão propagandístico e não citam aquelas mulheres camponesas súditas do rei Conchobar que foram massacradas com suas famílias por Fergus quando este rejeitou a vassalagem ao rei após o ocorrido com Naoise e seus dois irmãos. Ninguém menciona que esta crise ocorreu por que a lascívia do rei o fez iniciar uma guerra para ter cativa uma mulher que não o queria. E que esta mulher, Deirdriu, tornou-se sua escrava sexual somente encontrando liberdade através do suicídio. Ninguém reparou que este mesmo rei quase cometeu incesto com sua irmã porque costumava exigir que seus súditos lhes enviassem suas esposas para favores sexuais. E que ele exigiu a prima nocte de Emer ao casar-se com Cúchulainn. E por falar em Cúchulain, ninguém cita a personagem Finnabair, filha de Mebd e dada pela própria mãe em casamento ao inimigo (Cúchulainn), e que este a estuprou com uma pedra quando achou que o noivado se tratava de um embuste para matá-lo.
É preciso admitir que a cultura céltica não foi o mar de rosas que neo-pagãos e feministas gostam de acreditar. Existiu violência, estupro e coerção sexual sobre as mulheres celtas também. Especialmente neste que é um cenário de guerra. Crime, maldade e exploração existem em qualquer sociedade aonde a nossa espécie figura, não somente em determinadas culturas com estratificações sociais e sistemas econômicos específicos. Isto não quer dizer que o patriarcado praticado entre os celtas fosse tão opressor quanto aqueles praticados pela maioria das outras culturas. As mulheres celtas tinham direito a propriedade privada e a herança, em geral podiam escolher seus esposos (desde que isto não gerasse uma crise familiar), tinham direito ao divórcio e a reter a guarda sobre os filhos. Faziam parte de assembleias e na Galícia chegaram a ter a posse sobre a terra como exclusividade delas. Elas também podiam ser guerreiras e ocupar altos cargos hierárquicos, mas dificilmente o faziam porque numa sociedade guerreira havia dezenas de homens mais fortes e aptos a isto do que elas. Assim como elas, em sua maioria, estavam mais aptas a desempenhar as funções que demandam cuidado, afeto, coordenação motora fina, detalhismo, sensibilidade, senso estético e artístico, entre outras habilidades comuns às mulheres.
Enfim, ao somar todas as personagens famosas que figuram como sacerdotisas, rainhas e guerreiras, e compararmos com aquelas que figuram como donas de casa e camponesas, fica evidente que a maioria esmagadora das mulheres celtas retratadas no Ciclo do Ulster estava desempenhando as funções típicas femininas de qualquer sociedade indo-européia: sendo mães, agricultoras, donas de casa, o pilar da estrutura econômica, social e cultural. Quando as mulheres aparecem em maior número na batalha não é como guerreiras, era escalando as costas dos esposos para admirar e suspirar pelo herói Cúchulainn, quando este passava entre os dois exércitos exibindo seus músculos, suas três verrugas da face (uma delas verde), e sua dúzia de cabeças decapitadas de inimigos presas à cintura. Elas acorriam à batalha a princípio não para lutar, mas para admirar o espetáculo violento, apoiar e incentivar seus homens, mostrando-se e aos seus filhos como o motivo pelo qual eles deviam manter-se firmes, valentes e lutar – comportamento este também citado por Tácito no continente.
Ou seja, as mulheres celtas inspiraram a guerra muito mais do que lutaram nelas. Elas foram motivos de disputa e vítimas, muito mais do que opressoras, como Mebd. E elas certamente tiveram papel muito mais relevante sem sua sociedade produzindo riqueza, cultura e descendência, sendo o pilar da família e levando as tradições a diante, do que galgando posições masculinas de destaque. E certamente não se importaram em se igualar aos homens, porque elas não tinham este complexo de inferioridade que o Cristianismo nos impôs e nem seguiam a agenda do Feminismo e Marxismo.
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