Casamento sob uma Perspectiva Politeísta

Vou falar aqui um pouco do que eu, como politeísta, penso sobre casamento. É um post dirigido às leitoras mulheres, pode ter lá suas utilidades para leitores homens também, mas é dirigido às mulheres. Então, para começar, sob uma perspectiva politeísta Indo-européia, que valoriza e cultua a fertilidade e os ancestrais, as pessoas se casam para ter filhos, levar sua família, sua tribo, seus gens a diante.

“Ai! Que antiquada!” – Alguns dirão, talvez até, “preconceituosa! Não sabia que duas pessoas podem ser felizes juntas sem ter filhos?”

Óbvio que sei. Mas aqui eu estou falando de casamento, não de romance. Ninguém se casa para viver um grande amor, porque não é necessário casar-se para viver um grande amor. Em geral as pessoas já estão vivendo um grande amor quando se dão conta de que aquela outra pessoa é a ideal para casar e ter filhos. Repare na literatura, quantos grandes amores, de narrativas ou poesias célebres, tratam de duas pessoas em um casamento estável? Pouquíssimos. O amor platônico de longe vende mais que o casamento, desde os tempos das composições mitológicas. Triângulos amorosos, a intervenção da morte, da distância geográfica, dos tabus sociais, apartam amantes e os impedem de casar – é um clichê do qual ninguém cansa. Hoje em dia há bastante gente namorando por anos a fio e vivendo uma longa história de amor, sem precisar casar. Se o amor acaba, no entanto, fica nestas pessoas a sensação de que foi em vão. Sabe porque? Porque elas não chegaram ao objetivo maior do amor, elas não se casaram nem geraram descendência, e este detalhe está arraigado, não só na nossa cultura, mas na nossa biologia.

Então, voltando ao que interessa: As pessoas se casam, e se casam para ter filhos. Do contrário, não precisariam se casar. Já dizem por aí que, nada destrói o amor mais do que a rotina. Morar juntos, dormir e acordar do lado da mesma pessoa deveria, ser remédio infalível contra o amor, sob esta ótica. O fato é que, já que faz parte da nossa natureza passar metade da vida com uma outra pessoa com a finalidade de procriar, então é melhor que seja com alguém que se ama.Somos naturalmente monogâmicos. Somos também capazes de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, é verdade. Mas mesmo nas sociedades que permitem a poligamia, a maioria das relações é monogâmica. Administrar um relacionamento só já é difícil, dois é masoquismo. Não há nada de construção cultural, ou anti-natural na monogamia, muitas espécies de outros animais também o são. Somos monogâmicos porque nosso intuito, assim como o de toda outra forma de vida capaz de se reproduzir, é o de gerar descendência. Ocorre que, entre as espécies de animais mamíferos, o homo-sapiens é um dos que leva mais tempo para desenvolver-se até a idade adulta. A gestação da nossa espécie dura 9 meses, e para chegar a idade adulta, nossos filhotes levam mais ou menos 18 anos. É muito tempo. Quando um homem e uma mulher passam esse tempo todo juntos criando filhos, como é que chamamos na nossa sociedade? É casamento. E o que acontece, não na nossa, mas em sociedades sem a nossa tecnologia, entre povos ditos “primitivos”, quando um homem e uma mulher têm uma relação sexual casual, e eles se separam no dia seguinte? As chances de esta mulher gerar um bebê e dar-lhe à luz sozinha é baixa. Imagine quais são as chances de uma mulher sozinha criar um filho até a idade adulta. É quase nula, na natureza esta criança morreria. 18 anos é muito tempo, é quase uma vida. Nossa procriação só dá certo em sociedades nas quais os parceiros se comprometem por toda uma vida.

Assim se formam os grupos humanos e suas sociedades, somos um aglomerado de pessoas que descendem das mesmas, compartilhamos os mesmos ancestrais. Somos seres monogâmicos, e por isso, sociais. Aqueles de nós que milhares de anos atrás não foram capazes de manter um relacionamento por 20 anos não foram capazes de gerar descendência. Seus gens sumiram. A natureza selecionou os gens dos homo-sapiens que são capazes de estabelecer parcerias entre homens e mulheres, e aos poucos nossa espécie foi se tornando monogâmica. Por isso a monogamia é sinal de sucesso. A astúcia para escolher parceiros capazes de se comprometer durante 20 anos, aguentando a rotina e as manias do outro, é uma qualidade. Para os homens que disseminam suas sementes à tôa e não se responsabilizam por elas, as sociedades em geral têm um amálgama de nomes feios, assim como para as mulheres que abandonam seus frutos. Eu acho ‘traste’ adequado.

Claro que nem tudo pode ser racionalizado, os instintos inatos e o amor têm muita importância na hora de unir um casal. Homens se atraem por mulheres de quadris e seios fartos, porque no seu inconsciente, estes são sinais de que a fêmea é capaz de acumular energia (gordura), de parir e alimentar filhos saudáveis. Mulheres se atraem por homens fortes e destemidos porque no seu inconsciente elas acham que estes estão mais aptos a defender e trazer alimento para seus filhos. Algumas mulheres têm preferência por homens inteligentes, afinal, da inteligência vem a capacidade de criar estratégias de caça, defesa e economia. Outras, mais recentes, interessam-se por homens ricos, afinal, estes podem alimentar e dar conforto a elas e suas crias. Trocam assim, a simbologia do músculo pela do cifrão.

Mas para além das aparências, o amor, a antropóloga Helen Fischer explica, é uma série de eventos químicos do nosso cérebro que nos faz focar em uma, apenas uma pessoa, e nos dedicarmos a ela, sendo as pessoas abestalhadamente mais felizes do mundo. É assim que o amor, com sua capacidade de foco em uma outra pessoa, colabora com o intuito do casamento, o de gerar descendência. O porém aí, é o abestalhamento. Os motivos pelos quais amamos alguém não são só estas atrações físicas e estratégias de sobrevivência da prole, mas uma série de fatores psicológicos que vão se formando desde a infância.

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Os cisnes são um símbolo de amor nas culturas celtas por serem monogâmicos e viverem cerca de 100 anos com um único parceiro. Cisnes passam toda a vida com o parceiro que lhe dá filhotes, e somente trocam em caso de esterilidade. A carícia entre cisnes forma outro símbolo de amor, a figura geométrica à qual chamamos de coração.

Por isso não se pode deixar de racionalizar também, e entender que, nem só de amor se faz um casamento, e a escolha de parceiro determina o futuro das próximas gerações. Como serão elas? Terão caraterísticas que farão delas mais aptas a se desenvolver ou a sofrer? E se escolher errado, sozinha será capaz de prover tudo o que a próxima geração precisa? As pessoas se apaixonam e param de fazer previsões, se focam tanto no outro, que só enxergam aquele momento. Também a síndrome do individualismo é notável na nossa sociedade, quando dizem a adolescentes: “se você engravidar cedo, vai estragar sua vida!”. Uma mulher que engravida cedo não estraga somente a sua vida, ela cria dificuldades para ela e para sua cria também, será mais difícil torná-lo apto a sobreviver e adquirir as habilidades necessárias para viver bem. Porque uma adolescente dificilmente tem as aptidões que farão dela autossuficiente e provedora. E isto não exclui as mulheres maduras que escolhem errado. Claro que a maioria de nós na nossa sociedade tão tecnológica, é capaz de prover os filhos sozinha, mas é muito mais difícil de garantir o sucesso e a proteção deles, e isto pode se repercutir nas futuras gerações também. Podemos ser autossuficientes para prover o lar, mas filhos exigem tempo e desgaste físico e mental enorme. Você vai precisar de alguém que cuide da sua retaguarda nas fases em que a natureza vai exigir sua dedicação exclusiva aos filhos. Você é um ser humano e também tem direito a adoecer ou passar por circunstâncias que a impeçam de cuidar dos filhos por algum tempo. É importante escolher um homem que seja parceiro.

Nossa religião cultua a Ancestralidade. Tem origem em uma cultura na qual o bem estar e a honra da família e do clã vinham antes do indivíduo. Negar isto é ignorância ou excesso de individualidade ao ponto de fechar os olhos para o óbvio. Quando mulheres da nossa religião se apaixonam e se casam, elas têm que ter isto em mente, e se possível, tudo o que escrevi aqui antes. Nós somos apenas uma pedra numa grande construção de uma longa linhagem de ancestrais que se esforçou muito para permitir que tivéssemos a oportunidade de nascer e viver. Não temos o direito de jogar todo este trabalho milenar fora. Nosso papel é colaborar com ele colocando mais pedras fortes, mantendo a estrutura intacta e viva. Nossa responsabilidade não está só naquilo que fazemos com nossos próprios destinos e corpos, mas com nossos gens, o nome que nos foi dado, as crianças indefesas que pomos no mundo e com aquilo que deixamos para as gerações futuras.

Cabe ainda lembrar, não só a politeístas iberoceltas, mas a todas as indo-europeias, que nossos gens carregam muito mais do que códigos para geração de outro corpo. Nós transmitimos também memória, tendências psicológicas e comportamentais. Aquilo que fazemos em vida é o resultado da inteiração entre nossos gens, a sociedade e o meio ambiente. E os padrões que se repetem geração após geração determinam a nossa estirpe, de maneira que nas sociedades tradicionais fala-se em estirpes guerreiras, artísticas, produtoras, sacerdotais, intelectuais e etc. Por isso também na antiguidade era comum os casamentos entre famílias semelhantes, para manter a estirpe.

Eu não quero com isso sugerir casamentos e uma sociedade de estratificações sociais tão rígidas quanto a indiana, na qual não é possível o casamento entre pessoas de castas diferentes. Afinal o ser humano é capaz de desenvolver muitas habilidades e comportamentos, de forma que uma estratificação excessiva seria danoso ao passo que restringe o desenvolvimento. No entanto é notável que as famílias ao longo das gerações, embora se expressem em personalidades e profissões diferentes, costumam ter um ou dois padrões que se sobressaem – estamos continuamente reproduzindo nossa ancestralidade em nossas vidas,  e a escolha de um pai para nossos filhos implica em 50% dos padrões genéticos que se expressarão em nossas futuras gerações.

Então, mulheres politeístas precisam conhecer a sua estirpe, a história de seus ancestrais e levá-la em conta quando buscam um casamento. Cabe não só avaliar o caráter e as habilidades de um homem, mas a de sua família também, para procurar os padrões. É preciso avaliar se as duas estirpes podem colaborar entre si na construção das futuras gerações ou se elas diluem as habilidades e qualidades, se trazem outras qualidades positivas, ou mesmo se algum desvio sério pode trazer dificuldades para a vida e pleno desenvolvimento dos filhos. Politeístas devem ter em mente que casamento implica uma série de responsabilidades para com o futuro assim como para com o passado, pois fazemos parte de um coletivo muito maior do que aquele que enxergamos neste mundo e no presente.

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