Divide et impera, sed non profana!

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É difícil não notar que há uma sombra sobre este país tão vasto. Uma espécie de guerra de magia negra, se podemos falar assim. Sim, me refiro sobre este histórico processo político e já adianto que não sou do tipo “isentão”, tenho lado (e os que me conhecem minimamente, sabem qual), mas me sinto impelido a escrever, apesar de toda a relutância, por dever de ofício, digamos.

Primeiro, haver polarização é algo normal. Além de que, nos oferece uma maneira rápida e arcaica, diante de uma iminência, de enxergar as coisas de um modo que sem ela, não enxergaríamos. Bem, também nos faz coisificar os outros, desumanizando-os, é verdade. Cada um de nós, claro, naturalmente não percebe eventuais contradições (me incluo) e meio que “romantiza” a própria posição, de modo que, a partir daí, é fácil sermos levados a crer numa luta de Bem x Mal onde, naturalmente, estamos no lado do “Bem”. E também, temos a oportunidade de vermos certo ridículo – especialmente quando a romantização que a pessoa tem de si, expressando-a nos meios narcisísticos da sociabilidade virtual, destoa do que se é de fato. E isto varia muito: por exemplo, o sujeito que se vê como “revolucionário”, mas é um bosta “leite-com-pêra” que (parafraseando a banda punk “Dead Kennedys”) não aguentaria um “final de semana no Camboja”. Realmente, decepcionamos muita gente e também ficamos decepcionados. Mas o ponto aqui não é esse, afinal, não se pode agradar a todos.

Faz tempo, leitores do finado “PB Pagã” lembrarão, que tenho alertado para que o maniqueísmo discursivo das narrativas fabricadas nas campanhas eleitorais não nos aprisione, pelo menos, não às “cabeças” – assim esperava eu, por estes serem ‘cabeças’! Que um dedão do pé, ou mesmo um braço seja, pois, aprisionado pela narrativa de campanha, é de se esperar. Mas nesta corrida eleitoral, as coisas tomaram uma direção estranha. Infelizmente, os inimigos de todos os povos, conseguiram separar e causar discórdias numa comunidade religiosa minoritária e minúscula, e mesmo colocar sua parte leal desta a patrulhar ideologicamente e a buscar “assassinar” a reputação da outra num quase processo inquisitorial. Pois é, divide et impera funciona sempre. A sanha persecutória e sectarista tem ganhado espaço e recebido alimento, e não só dos ególatras de sempre. E isto é lastimável, de verdade.

Claro, como disse, que certos sujeitos os fizessem já era até esperado, pois é notório seu empenho na instrumentalização das aspirações religiosas para fins da agenda política ultra-modernista. Mas cá, deste mini-sertão incrustado nas colinas, como podemos ver melhor através da mata pela ação do estio branqueador desta estação, dá pra ver também com mais clareza, penso eu, o quão rápida as coisas se alastram. E pior: o quão tem atacado árvores sadias. Em termos mais explícitos, não me volto só às declarações de posições em A ou B. Mas a prática tosca de distorcer certas informações e fontes de importância religiosa para “fundamentar” adesão partidarista. Isto é de tirar do sério, é isto que digo que é um problema.

Vejam bem, admito que é até normal uma certa tendência a buscarmos justificarmos nossas escolhas, muitas vezes baseadas em sentimentos ou intuições inconscientes cujo peso subestimamos, recorrendo a narrativas mais ou menos razoáveis construídas pela nossa habilidosa racionalidade e cuja importância tendemos a superestimar. Também sou dos que partem para a visão do “Político” desde uma abordagem que busca ver o “mítico”, o “psicológico”, não o reduzindo à pura dedução racional, considerando tal pretensão insuficiente. Não me refiro ao modo como, mais ou menos, cada um de nós razoavelmente constrói suas justificativas convencendo a si próprio de sua opção em um pleito eleitoral. Me refiro mais a certos procedimentos “propagandísticos”. E ao ver certos procedimentos, não significa que devo-os ignorar, especialmente, quando os critico noutras fés e épocas.

Por exemplo, se considero errado a interpretação desviada que certos cristãos faziam/fazem de textos de filósofos pagãos, mesmo quando “bem intencionadas” (dentro dos objetivos de sua fé), pela parcialidade ou arbitrariedade dogmática de trechos cuidadosamente recortados, para fins de propaganda e proselitismo; creio que devo também considerar errado quando utilizamos trechos cuidadosamente recortados e/ou arbitrariamente enviesados de mitos nossos para finalidades de “propaganda” eleitoreira, proselitismo ideológico ou “linchamento” inquisitorial. Talvez só a mim, não sei, mas me soa até mais grave, por tratar do que trata, e mais ainda, por vir de onde vem.

Olhemos para nossos Ancestrais Celtas. Eles não viviam em uma democracia liberal. Muitos, pelos feitos mesmos, teriam disposições e atitudes que nos dias de hoje seriam execradas como “opressivas”, “xenófobas” e “autoritárias”. Em sua esmagadora maioria, eram monarquistas que viam o poder de um líder (via de regra, de origem “militar”) assentado numa certa estrutura hierárquica encabeçada numa mentalidade aristocrática: pelos “militares”, sábios e chefes de clã, numa rede de relações que, na falta de termo melhor, poderíamos designar como clientelista e “feudal”. No caso específico dos Celtas, para a tristeza dos covardes bundões travestidos de hippies, favoreciam ainda uma mentalidade belicista que espantara até outros “belicistas” da época. E sim, está lá, na própria religião para quem conseguir ver! Se ao menos se perguntassem por qual motivo os Celtas tanto se fizeram mercenários… Mas voltemos.

É simplesmente tosco retirar frases de tal contexto de poder, aproveitando-se da reputação de antigos reis (que, se escavacarmos um pouco, poderemos descobrir que empenharam-se em ações nada “progressistas”), para pintarmos uma fachada de credibilidade em nossas escolhas eleitoreiras momentâneas num processo tão conturbado, para dizer o mínimo. É o tipo de falta de respeito que não deveria vir de onde vem. Vejam bem, não me refiro às frases sábias somente. Frases sábias, pela sua própria natureza gnosiológica, são universalizáveis e atemporais (e nisto mesmo, não são exclusivas para um partido). Me refiro ao processo de seleção, de recorde malicioso (“com as melhores intenções do mundo”, não duvido) de tentar passar que pessoas que viviam numa situação política muito diferente e mesmo olhavam o “Político” de modo muito diferente do que se está a passar aqui, estivessem nos dizendo para votarmos em A ou B.

Já não basta perdermos fiéis para movimentos ideológicos diversos (se é que um dia os tivemos, bem verdade!), deixarmos estes se infiltrarem e nos dividirem, jogando-nos uns contra os outros, para além de nossas próprias discordâncias de ordem pessoal ou doutrinária, agora também passaremos a nos apropriarmos de maneira tosca de passagens míticas e comentários históricos para induzirmos (erroneamente) a votos neste tosco cenário eleitoral? E os que fazem isto, que moral têm para maldizerem os pastores charlatães e/ou manipuladores nas fés alheias?

Talvez alguém diga que estou exagerando. Se o for, pois, que eu esteja errado: corro este risco e corro de pé, orgulhoso! Talvez, também, isto seja apenas um reflexo tópico, materializado neste teatro eleitoral corrente, de uma questão maior e mais antiga que ronda o Ocidente. Especialmente nas Américas, onde quer que as religiões Indo-Européias renasçam, terminam, talvez pela própria dinâmica política do meio que surgem, gerando uma espécie de competição pela “dominação” da narrativa: progressistas e liberais acusam os que não o são de “nazis”, etc. Levando tal insídia a todos os lugares. Nos EUA, foi assim na campanha presidencial de lá em 2016. Os que não se identificam com a narrativa majoritária (que é a “progressista”), uma vez que ficam ameaçados de serem identificados como “nazis”, ou aderem para evitar a pecha ruim ou terminam chutando o balde. Este tipo de dinâmica maniqueísta do “se não estás comigo, estás contra mim” ganhar proporções majoritárias é danoso a longo prazo (e não é preciso ter lido a República de Platão para ver isto), e por mais que os vitoriosos agora, ou mais tarde, comemorem por haverem conquistado a hegemonia de pensamento, haverem se livrado dos “faxos” (reivindicando-se, finalmente, como única apropriação válida e acusando-os, de uma vez por todas, de se apropriarem indevidamente), não vão parar por aí.

Cabe um lembrete rápido aqui: não estou a dizer que devemos dar os braços para gente verdadeiramente nazi e é perfeitamente compreensível que as pessoas comuns queiram distância de tais associações pelos problemas que podem trazer. Me refiro as pessoas que não são nada disto, mas terminam tachadas, maldosamente, por esta sanha maniqueísta persecutória. Por esta “cegueira” mágica, criada por encantadores mesquinhos e mágicos de terceiro escalão.

Se a coisa continuar bem, após identificarem os “hereges”, linchá-los ou expulsá-los publicamente (do mundo virtual, pois são frouxos e covardes para o fazerem às caras), triunfantes, prosseguirão com o próximo passo, que será reescrever o passado e fazer uma censura politicamente correta nos mitos (talvez fiquem chocados ao saber que nossos deuses não se opunham ao uso de armas e que eles próprios as usavam, sem contar as situações em que crianças geradas por sexo não-consensual não foram abortadas, etc.), retirando-lhe qualquer “blasfêmia” ao credo progressista arco-íris. E claro, uma vez rendidos ao sectarismo purista maniqueísta, terminarão devorando-se uns aos outros. Se pudessem já passar para esta parte, sem que com isto, arruinassem a pequena e delicada comunidade religiosa mais ampla, nos seria um favor imenso.

Mas, como diz o povo, “o que passou, passou” e “Inês está morta”. Neste sentido, não busco mais, apesar de muitas vezes no passado haver buscado, conciliar qualquer coisa.  Hoje, não tenho mais ânimo para isto nem muito menos “fé” numa tal comunidade onde, não raro, gente pilantra prospera. Apenas vim cá pedir para que não “esculhambem” “nossos” mitos colocando-os, descontextualizada, errônea e malvadamente, a serviço de campanhas eleitoreiras execráveis. E sendo franco, este pedido não só me parece justo e correto, como piedoso. Polarização, já há. Mas isto não significa que devemos fazer contorcionismos desrespeitosos com os mitos e com a Sabedoria que dizemos venerar.

Me resta, no mais, rogar aos deuses para que as “cabeças”, que de facto as são, voltem às suas funções normais e que ao menos as falsas, aquelas que não são mas se passavam, fiquem de uma vez escancaradas, às claras pela Luz divina do Sol. A este grande país, nos resta rogar a Soberania desta Terra, em conformidade ao costume ancestral e a Árvore do Mundo, para que um líder detentor do *Wīrom Wlatimonos (fír flaithmon) com ela se una e a honre devidamente, quem sabe até, consertando desfeitas recentes. Mas o momento é sombrio e há muitas dúvidas no ar. Não há horizonte limpo e não sabemos até onde mais se adiará os sons dos *karnūkes da Guerra, uma vez que há tempos enxergamos os corvos a passear pelo céu.

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