Sobre as oferendas atestadas

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No decurso da prática religiosa concreta é importante clarificarmos certos pontos. Neste sentido, resolvemos trazer cá uma listagem simples de atestações das oferendas realizadas pelos nossos ancestrais galaicos, lusitanos e celtíberos. A título de referência externa, convidamos o leitor a conferir a listagem da Nova Roma, assim como o tipo de trabalho sintético sobre as divindades Indo-Europeias e as oferendas nos dias de hoje.

Atestações arqueológicas

Reus-Larouco

  • Interpretatio romana: Júpiter
  • Oferendas atestadas: touro “ifadem”, cordeiro, porco “radom”, aras
  • Fontes: n. 23173 (Cabeço das Fráguas); n. 6541 (Marecos); n. 27343 (Arronches) e n. 18975 (Lamas de Moledo)
  • Comentários: O cordeiro fora dedicado a Jove, o porco “radom” a “Jovea”. Cabe se perguntar se nestas inscrições a interpretação de Reus é adequada nos dois casos. Há dois pontos relevantes a se considerar: (1) o termo “radom” pode ser entendido como termo derivado do verbo céltico *razdo– “rapar, arranhar”, de onde um “radom porgom” seria um “porco rapado” (e possivelmente branco!). Ainda no céltico, temos *φratom “graça, bênção” que não é um adjetivo, mas se entendermos como tal (pensando no nome gálico “Suratus”, por exemplo), talvez signifique algo como “porco abençoado” ou “consagrado”. Em todo caso, se atesta uma qualificação desta oferenda: não se trataria de um porco “qualquer”. (2) No culto romano, se ofertam somente animais castrados a Júpiter e nos dois registros de sacrifícios de touros a Reus, temos o adjetivo “IFADEM/IFATE” a qualificar o animal. Ficamos tentados a ler tal termo assim, mas é compliciado em termos etimológicos. No céltico, temos a construção dúbia por vir somente de um termo obscuro irlandês *yās (“carroça, biga”), que poderia muito bem ser **ibhās/iwās de ondem poderíamos especular o adjetivo **iwāts, que no acusativo singular ficaria **iwātem, e significaria algo como “de carroça, de carga”, para diferenciar os bois que trabalharam no arado e/ou puxando carros em geral. Se pensarmos que os animais nesta função específica fossem “castrados”, seria algo interessante. No entanto, há toda uma literatura que entende este adjetivo como significando o inverso: “cobridor/reprodutor” do PIE *eibh– ou “consagrado” cognato do latim ‘effatus’.

Návia

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: vaca, boi, cordeiro, aras
  • Fontes: n. 6541 (Marecos)
  • Comentários: há muita especulação possível sobre a interpretatio romana de tal divindade, de Juno a Vênus, que poderia clarear muito as oferendas. Do mesmo modo, a tradição popular “mariana” católica, no culto a Santa Iria e a Senhora da Barca em Portugal, ou mesmo de certos aspectos do Caminho de Santiago na Galiza podem nos auxiliar a identificar vestígios diversos.

Bandu

  • Interpretatio romana: Marte
  • Oferendas: “au/an(…)”, diversas aras
  • Fontes: n. 27343 (Arronches)
  • Comentários: Se consideramos o testemunho literário do sacrifício de bodes a “Ares” e entendermos Bandus como “Marte”, conforme se lê na ara de n. 8181 (“DEO·VEXILLOR(VM)·MARTIS·SOCIO·BANDVAE”), se pode conjecturar tal sacrifício para este deus. Há quem veja no “AV/AN” residual da inscrição de Arronches o termo lusitano “angom(?)”. É uma divindade a quem foram consagradas diversas aras de granito, majoritariamente de um público masculino, apesar de haver pelo menos três dedicadas por mulheres (n. 8325, 16707 e 24150), inclusive há a possibilidade – caso a leitura esteja correta – de ter recebido até de um liberto, por uma melhora de saúde (pro salute).

Trebopala

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: ovelha
  • Fontes: n. 23173 (Cabeço das Fráguas)
  • Comentários: Outro caso de que uma interpretatio auxiliaria da delimitação de outras oferendas.

Trebaruna

  • Interpreatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: anho, cordeiro, aras
  • Fontes: n. 23173 (Cabeço das Fráguas)
  • Comentários: À deusa foi consagrada pelo menos uma ara por parte de um soldado igeditano (n. 19979).

Endovélico

  • Interpretatio romana: Silvano
  • Oferendas atestadas: porco, javali, aves, frutos (duvidoso: touro e urso), aras e estátuas
  • Fontes: RIBEIRO, 2005 (Palaeohispanica 5); n. 384 (Toledo)
  • Comentários: A suposta oferta de um touro e um urso (além de “aves marinhas”) teria sido feita a Endovélico e Hércules em Toledo conforme registra a inscrição 384. Mas tal inscrição é muito obscura, dada como perdida e parece ser falsa. Em todo caso, se trata de uma das divindades lusitanas com mais atestações de oferendas; no caso das aves e frutos, se tratam, da grande maioria, de aves selvagens e frutos silvestres.

Atégina

  • Interpretatio romana: Proserpina
  • Oferendas atestadas: cabrito, estatuetas e aras
  • Fontes: n. 22083 (Malpartida de Cáceres)
  • Comentários: A deusa recebeu muitas aras votivas, de um público bem variado, mas temos poucos registros de vítimas sacrificiais, o próprio cabrito é inferido de uma estatueta que Lhe fora dedicada.

Crouga

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: “angom(?) lamaticom
  • Fontes: n. 18975 (Lamas de Moledo)
  • Comentários: Animal e adjetivo complicados de serem decifrados, a começar pelo primeiro termo que pode ser lido como ANGOM, ANCOM, ANVC/GOM e AVVCOM. Em céltico, temos *angʷīnā “cauda, rabo” (em latim, anguis é “serpente, cobra” e anguilla “enguia”), o adjetivo *angu- “estreito”, o verbo *ank-o- “chegar, alcançar” e *ankoto- “gancho, curvatura, pata”, além de *anku- “morte”. Para a última leitura (**awūkom), temos *awV– “fígado”, *āwyo- “ovo”, além do verbo *aw-yo- “ajudar, proteger”. Fica difícil, pois, chegar numa interpretação satisfatória, até por que há quem veja o termo como derivado do PIE *h2egʷno- “cordeiro”. No caso do adjetivo, o termo céltico mais óbvio parece ser *φlāmā “mão”, no entanto, conceber um derivado **φlāmātiko- “de mão, manuseável, manual” seria estranho, pois esperaríamos **φlāmātāko– (que daria “LAMATAECO”), de modo que mais acertadamente conceberíamos tal adjetivo de um **(φ)lāmāt-. Outra possibilidade, é considerar o termo um cognato do latino lama “lama, pântano”, num adjetivo significando algo como “do pântano, lameiro” (é o caso de PRÓSPER, 2002, p. 64). Fora a dedicação conjunta a Júpiter em Lamas de Moledo, não há nenhuma outra indicação de interpretatio.

Lebo

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: porco e aras
  • Fontes: n. 23173 (Cabeço das Fráguas)
  • Comentários: A divindade recebeu um número considerável de aras que lhe foram dedicadas, no geral, sob o nome de LAEPO. Não temos indicação de interpretationes também o que dificulta muito.

Lida

  • Inerpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: “cor(…)”
  • Fontes: n. 6541 (Marecos)
  • Comentários: Outro termo complicado de ser interpretado, pois caberia muita coisa. Só no latim, teríamos, por exemplo, “coroa de flores/guirlanda”, “animais cornígeros”, “corvo”, “cornucópia”, etc. Cá temos associado a deusa a gaulesa Lītauī, que sob o olhar romano, seria muito provavelmente identificada como Tellus Mater.

Icona

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: “comaiam
  • Fontes: n. 23173 (Cabeço das Fráguas)
  • Comentários: Outro termo de difícil explicação. Ficamos tentados a entender **kom-a(C)ya-, que pela queda consonantal ou vocálica atestada, seria **kom-agya– ou **kom-awya-. Se pensarmos num substantivo construído a partir de um adjetivo (*kom-awo-), o termo poderia significar, literalmente, “com descendente” ou seja, “prenhe”, designando uma vítima sacrificial prenhe. A compreensão da natureza da deusa também é complicada. Há a deusa gaulesa associada ao rio Yonne de nome Icaunis ou Icaunā, o que nos faria vê-la como uma Deusa Rio. Outra opção de interpretação, inclusive mais antiga, é a da associação com Epona.

Arase

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: ovelha, ara
  • Fontes: n. 27343 (Arronches)
  • Comentários: Além da inscrição lusitana de Arronches, onde o teônimo aparece como H (HARASE), há uma ara de granito trabalhada dedicada a ARASEI·COLLOVESEI (n. 20529) com uma leitura de interpretação problemática que também não nos permite ir muito longe.

Broeneia

  • Interpretatio romana: ?
  • Oferendas atestadas: ovelha
  • Fontes: n. 27343 (Arronches)
  • Comentários: Esta divindade, até onde sabemos, só fora citada na inscrição de Arronches.

 

Atestações literárias

O trabalho de replicar toda e qualquer citação da literatura greco-romana e da posterior cristã visigótica onde se faz referência às práticas de oferendas e sacrifícios dos povos lusitanos, galaicos e celtibéricos, apesar de necessário (dada a completude), não é o que faremos aqui, dada a dificuldade geral (especialmente da literatura do período visigótico).

Chamou atenção dos Romanos, em suas presenças iniciais na Península Ibérica, a presença de sacrifícios de vítimas humanas em certas ocasiões – coisa que em Roma acontecia, mas de modo já muito raro (pelo menos, aos olhos dos próprios romanos). Geralmente, tais sacrifícios ocorriam em situações de iminências bélicas (como parte de ritos propiciatórios e/ou divinatórios) e como pena capital para certos crimes (como o parricídio), e se seguirmos o padrão céltico mais geral, também conceberemos que ocorressem em situações “cataclísmicas”. As vítimas, fora os casos dos criminosos, prisioneiros de guerra em sua grande maioria. Já fizemos comentários – que inclusive estão precisando de uma atualizada – sobre uma possível metafísica geral de tais sacrifícios, ao interessado, recomendo a leitura.

Tito Lívio (Periochae et Fragmenta, 49) faz referência a um rito lusitano de preparação para guerra que envolvia o sacrifício de um cavalo e um homem, pelo menos fora interpretado assim pelos Romanos, que ao saberem de tal sacrifício, decidiram não respeitar a situação e atacaram os lusitanos durante suas festividades religiosas.

Plutarco (Questiones Romanae 83) nos diz da proibição romana aos sacrifícios envolvendo vítima humana por parte dos Bletoneses (celtibéricos, cercania da atual Ledesma, Salamanca). Inclusive, o próprio Plutarco estranha os romanos terem proibido tais práticas quando eles mesmos haviam cremados vivos, como sacrifício, dois gregos e dois gauleses por ordem de um vaticínio sibilino.

É demasiado famosa a passagem de Estrabão (Geographia III:6) onde fala sobre o sacrifício divinatório tanto de animais quanto de prisioneiros de guerra, assim como da prática de cortar a mão direita destes (e aí, concebemos que sejam cativos especiais, “troféus”) como oferendas.

Na medida em que a Romanidade avançou sobre a Península, podemos conceber que cada vez mais tenha havido uma “harmonização” com o modo romano e as oferendas com vítimas humanas, já raras e reservadas para situações especiais, tenham sumido de vez (com a possível exceção da pena capital). Muito possivelmente, algumas oferendas tipicamente romanas (como mola salsa) não fossem lá utilizadas de modo muito amplo na Ibéria, em seu lugar sendo utilizados grãos diversos (ou farinhas), e, a semelhança da Gália, o vinho – mais do que o hidromel e a cerveja nativa – tenha se tornado a bebida mais comum a ser ofertada.

Pulando muito tempo, o panfleto difamatório e mentiroso do expatriado Martinho da Panônia, vulgo Martinho de Braga, “De Correctione Rusticorum” é um texto que, pela imensa e impressionante quantidade de mentiras e má fé reunidas para difamar a fé tradicional, ainda que romanizada e com influências suevas (neste quesito, representando uma religião “tardia” mas ainda vivíssima e a impedir o avanço da cristandade, o texto é datado no final do séc. VI – de lembrar que o templo de Endovélico em São Miguel da Mota, estava ativo até quase esta época), dos povos galaicos, tem uma leitura de causa indignação e que, creio, envergonhe os cristãos honestos que o lerem. Apesar disto, há uma série de indicações de como oferendas eram feitas. Vamos aos pontos importantes:

  • Cultuavam o Sol, Lua, Estrelas, o Fogo, a Água profunda e as Fontes/Nascentes d’água. Ofereciam sacrifícios nos cimos dos montes e das florestas frondosas. Para Mercúrio, dedicam montes de pedras nas encruzilhadas na qual oferecem uma pedra nova, sempre que passam. Dedicaram templos com imagens dos deuses em seu interior e os consideram patronos do Céu, Mar, Terra, Florestas, Nascentes. As “matronas” dos Rios, chamam “Lâmias”, das nascentes “Ninfas”, dos bosques “Dianas” (as “Janas” do folclore posterior).
  • Observavam o calendário romano e dias específicos dedicados a prognósticos relativos a colheita e lavouras (maldosamente, o cristão fala de um “dia da lagarta”, de lembrar que até os dias de hoje, e ironicamente no “pátio” de uma Igreja, se mantiveram sistemas divinatórios como o dos gafanhotos), seguiam uma vida de observação religiosa dos augúrios e prognósticos, que incluam augúrios por meio “do piar das aves” e por outras formas diferentes (o difamador fala até de “espirros”).
  • O cristão mentiroso se aproveita da força da mentalidade antiga na observância do juramento e pacto feito, ou seja, da palavra dada, coisa que para os cristãos não possui valor algum, para cobrar o pacto que alguns fizeram com o “Cristo”, para que cessem de retornar à Antiga e Imorredoura fé politeísta de seus ancestrais.
  • Acendem “velinhas” nas pedras, árvores e fontes. Observam augúrios e os dias dos Deuses e de seus festivais; ornam as mesas de casa, prestam atenção no sentido sagrado (“observam o pé” – ou seja, observam com qual pé entram, e por conseguinte, as mãos e o sentido do movimento ritual em torno do Fogo Sagrado) usam coroas de louros, ofertam grãos e vinho no fogo, sobre troncos ou depositam pão nas fontes.
  • As mulheres invocam Minerva ao costurar, observam o dia de Vênus para casar e observam o dia propício para viajar; assim como fazem preparações com ervas, invocando os nomes dos Deuses; todos abstinham-se do trabalho no dia de Júpiter (dá-se a entender, dos trabalhos visando lucro).

Resumidamente

Podemos afirmar que era comum, a semelhança da religião grega, romana e germânica, o sacrifício animal como meio também de obtenção “correta” de carne.

A semelhança de outros celtas e germânicos, assim como mesmo dos romanos, podemos também dizer que haviam sacrifícios humanos, seja como pena capital, em situações “cataclísmicas” ou bélicas.

Também podemos afirmar com segurança, a oferta de bebidas, grãos, estatuetas, armas e artesanatos gerais. Sendo esta, a direção mais adequada (em termos legais e logísticos, dada nossa circunstância concreta atual) para nós hoje.

Uma opinião sobre “Sobre as oferendas atestadas

  1. Parabéns pelo site

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