(02-09-2013) EUA, “Paganismo” e umas considerações

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 02/09/2013. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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[Não escrevo para alfinetar “pró-americanos” pagãos ou algo disto, uma vez que ocorreram estes dias a celebração de uma série de acordos entre o Brasil e os EUA, conforme havia prometido em campanha ainda, o nosso atual presidente da República e tal assunto da proximidade entre os países tenham sido pautado na mídia. Não se trata disto, mas aproveitei para resgatar uma reflexão que considero ser importante. Além de que minha posição sobre este assunto mudou: hoje considero que o “Americanismo” que influencia os “pagãos” locais é mais propriamente Globalismo Progressista midiático (da “Nova Esquerda”) que outra coisa. Geopoliticamente, antes, mais influenciado por Alain de Benoist e Aleksandr Dugin, além do próprio regionalismo nordestino e das ideias de Ariano Suassuna, via de forma mais simplista um “Americanismo” como sinônimo de um ímpeto aculturador de dissolução das culturas tradicionais e povos, mais ou menos protagonizado pelo Governo americano integrado ao povo de lá, de modo a ecoar de forma próxima o topos esquerdista de crítica ao “imperialismo cultural” yankee. Hoje, mais convencido das ideias de Guillaume Faye neste quesito, creio que os americanos devam mais ser vistos como “concorrentes” do que como “inimigos”, em termos geopolíticos e no aspecto cultural não vejo mais o “Americanismo” como algo imbricado entre o povo e o governo; mas sim como algo diverso, fruto de um conluio (planejado ou não) entre as Grande Mídia de lá, os Gigantes da Tecnologia e o setor de Estado não sujeito a renovação democrática, aquilo que eles mesmo chamam de Deep State. Neste sentido, como já expus no início, hoje faço uma diferença entre tal “Americanization” exportada pelo grande Mainstream hollywoodiano e midiático que é em si mesmo um Progressismo Globalista, de viés politicamente correto e de fachada multiculturalista, mas de alto teor aculturador, ou seja, destruidor dos povos e tradições; e as manifestações culturais tradicionais de lá, genuínas, que num certo sentido, também lutam para sobreviverem, se afirmarem em termos identitários e não serem engolidas de vez. Além de que passei a considerar mais seriamente a possibilidade das divindades estarem intervindo em certas circunstâncias geopolíticas o que levantaria a hipótese do poderio norte-americano não ser puramente acidental e fruto do Acaso cego, assim como o Romano não fora, e que haveriam Poderes maiores envolvidos, para além da curta visão dos mortais. Sem contar que muitos dos que lançam bravatas antiamericanas hoje, especialmente na Esquerda, o fazem por hipocrisia e não por “nacionalismo integral”, pois vivem uma vida americanizada em tudo: no jeito de se vestir, ídolos, música, bens de consumo, etc. Este texto, na época e hoje, poderia ser resumido num título do tipo: “contra o viralatismo de certos pagãos brasileiros”]

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Não é de hoje que há uma certa tendência e visão de que de que devemos nos guiar pelos EUA, seja politicamente, militarmente e, o que nos interessa aqui, religiosamente. Há quem veja os EUA como um “irmão mais velho”, um exemplo do que o Brasil deve ser – tirando a parte do racismo, claro [se bem que há coletivos raciais que acham que, até nisto, devemos imitá-los, pois] – e não é difícil notar que tal percepção ecoa mesmo na compreensão das diretrizes e rumos de coisas aparentemente distantes, como o “Paganismo”. Soma-se a isto, a persistência do ranço que nossa elite desenvolveu com relação a Portugal, desde pelo menos a Primeira República.

Neste sentido, a referência e o modelo a imitar, mesmo quando fugimos dos EUA, ia para a França como é bem sabido [vejam como os intelectuais franceses foram influentes cá na segunda metade do séc. XIX – Auguste Comte que o diga]. Nossa elite se espelhou e aspirou avidamente em ser francesa e/ou norte-americana, negando explicitamente sua herança portuguesa, como uma espécie de adolescente que brigou com o pai. Tal busca por referências e por qual delas copiar se refletiu diretamente na Primeira República, que também trouxe consigo nosso primeiro “nacionalismo” (que desenvolveu-se à castilhista e positivista – laicista, inclusive). O modelo monárquico, onde a Família Real é diretriz (e onde há a afirmação do Privado – da Família Real – com o Público) tornou-se sinônimo da cafonice “portuguesa”, mais ou menos como os Pais para um adolescente problemático e buscando afirmar-se (negando, talvez, suas origens, pela ânsia da autoafirmação).

[Neste sentido, o eixo do poder midiático brasileiro, Rio-São Paulo, ainda reproduz tal diretiva: quando decide por fazer uma novela, por exemplo, enaltecendo as origens do Brasil, enaltece o Negro, o Índio e quando vai enaltecer o Europeu… enaltece os Italianos! Nada contra os Italianos que muito contribuíram para este país, especialmente no Sudeste e Sul, mas desejo apenas apontar que o Português comum, que fundou e ergueu este país, não aparece em lugar algum da narrativa e isto não é à toa. Quando aparecem portugueses nas “novelas”, especialmente de uma certa grande emissora do Rio de janeiro, são retratados a maneira de como os nordestinos eram representados até os 2000: sempre como coadjuvantes, como personagens de uma inteligência duvidosa ou de cariz cômico, sempre em situações ridículas]

Bem, os tempos são outros. Hoje uns querem que sejamos chavistas ou “cubanos”, hermanos hã?! É verdade, o ranço da Europa aumentou de modo que, nem ser francês mais a elite ideológica deseja. Mas ainda há tal desejo de Americanidade vagueando e ganhando força também, apesar de hoje possuir menos [hoje já nem tanto]. No caso do Paganismo, se manifesta na preferência irrestrita, ou irrefletida, por tudo e por qualquer autor norte-americano. Se um autor americano pagão falou, tá falado. Os norte-americanos são os modelos, exemplos do “pensamento correto” e a última palavra em se tratando de como o Reconstrucionismo deve ser e o Paganismo em geral deve caminhar.

Hollywood e toda a hegemonia cultural massiva que se auto-promove a cada instante na nossa mídia, formatando paulatinamente boa parte de nossa imaginação e operação mental obviamente ajudam – hoje, muito mais que na época da Primeira República, somos bombardeados pelo soft power da hegemonia cultural americana [o que é natural que ocorra, enquanto superpotência geopolítica]. Claro, lá o Paganismo [na verdade, certas formas] está se disseminando muito rapidamente, coisa que muitos de nós gostaria de ver acontecer cá – mas, o que custa a alguns perceberem, é que isto está ocorrendo à americana. Reconhecer isto é crucial. Tal desenvolvimento é uma forma específica, não a forma. Todo o passado político norte-americano sui generis (nunca tiveram uma monarquia própria e uma classe de nobreza, ao contrário do Brasil, por exemplo) e o Gênio específico que moldou o país reflete-se no processo de lá, faz-se presente nas visões desenvolvidas nos blogs, na auto-análise e no modo como veem a si próprios, nos valores-chave, nas teologias e tendências, nos mais eminentes e influentes pensadores e lideranças religiosas.

Mesmo que sejam os pioneiros em alguns caminhos, é saudável e orgânico que haja uma “naturalização” ao se transpor para outra Geografia e Povo (de matrizes culturais algo diversas), como cá, e isto pressupõe uma consciência e reflexão sobre o que é realmente natural e específico do caminho, e o que é um aditivo (oculto ou não) do Norte-americanismo [e mesmo das grandes questões internas de lá].

O Paganismo está se desenvolvendo rapidamente também nos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e eslávicos (Rússia, Ucrânia), mas por que tal forma de lá é “má” e a norte-americana é “boa”? Por que se deve ter somente a última como espelho e Estrela-Guia? A resposta é geralmente enviesada ideologicamente (e pode, por vezes, estar imersa em pré-conceitos e noções descabidas) [o que se mostrou ser o caso: durante a campanha presidencial de 2016 nos EUA, lá, muitos figurões do meio pagão consideram qualquer coisa que não seja de uma esquerda radical, como sendo “nazi”, e os bocós repetiram cegamente a mesma coisa aqui nas eleições presidenciais brasileiras de 2018, apesar de todos os nossos avisos]. Deste ponto de vista, é mais simples traçar a tendência Liberal e mesmo Esquerdista (mesmo a despeito de eventuais incongruências que tais visões possam ter com valores-base da visão tradicional Indo-Européia ou das manifestações históricas do Paganismo no mundo antigo) [vejam como fui cuidadoso e diplomático “eventuais incongruências”, hoje não escreveria assim nem a pau, além de que nos EUA Liberal tem o sentido de “Esquerdista”] que alguns ícones do Neopaganismo nos EUA expressam.

Esta tendência ao “Anarquismo” (libertário/anarco-capitalista ou social-sindicalista), Liberalismo ético (foco no sujeito e na inviolabilidade das liberdades e preferências pessoais), New Age Hippie, etc. Se tornam elementos explicativos adicionais compreensíveis, portanto, para a realidade deles [sem contar os elementos sociológicos: os EUA, nos anos 70 e 80, tinha uma população com muito mais problemas relacionados à dependência química, desestruturação familiar, gente com crises de personalidade, etc. que o Brasil]. Não temos de simplesmente aceitar, sem refletir ou pensar, toda terminologia e conceitos de lá, toda construção discursiva, não temos de engolir seco e reproduzir simplesmente para ganhar “aval” ou aprovação do Sr. Americano Fulano ou Beltrano. Também podemos elaborar (afinal, somos mais de 200 milhões de pessoas!), seja aproveitando algo ou não, pensar, construir conceitos, terminologia, metafísica. Somos herdeiros também de Tradições, não brotamos aqui do nada, ontem. Não, mas não mesmo.

Somos um país diferente. Apesar de ambos haverem sido colônias e de terem utilizado mão de obra escrava africana (e indígena, é bom não esquecer), sermos hoje dois países multiculturais e tal, isto não nos torna iguais simplesmente. Há uma dessemelhança profunda, inscrita na própria paisagem rústica dos vilarejos e vielas, nas pedras e Florestas de nosso país, seja nos pampas ou no Cerrado, na Caatinga ou na Mata Atlântica, na Amazônia ou no Pantanal. Há um “fantasma” do Tradicional e do Nobre, do Rei e do Arcaico no Brasil Profundo ainda rondando, ainda vivo [moribundo, infelizmente], seja na poesia tradicional do cantador de repente que canta numa postura régia ou no viver concreto do campesino do interior; nossas religiões nos ligam e religam, queiramos ou não, com tais elementos, com o Ancestral, com os ideais de Nobreza, Aristocracia, Terra, Céu, etc. Mesmo que o sujeito não seja um tradicionalista ou um admirador da visão heróica da existência – há algo disto aqui, algo que está incrustado e ainda vivo [apesar de moribundo], não se pode fechar os olhos e fingir “autenticidade”. Nossa situação é diferente de lá, nosso país foi construído sob uma visão diferente e a partir de elementos (materiais e espirituais) diversos, ainda que sob um mesmo pano de fundo Ocidental, e por tanto, de matriz Indo-Europeia [na verdade, se os que pregam tal aproximação a fizessem recorrendo a Indo-Europeidade, as coisas talvez fossem mais palatáveis].

[Ainda, é verdade, conservo um preconceito (alimentado pelas ideias do Dugin, hoje reconheço) de pensar que uma parte significativa dos EUA é bem parecida com, digamos, a grande São Paulo (capital): uma terra sincrética de expatriados que não desenvolveu uma raiz cultural notável para além do ímpeto liberal e que por isto mesmo, está fadada a costurar uma concha de retalhes artificiais para fugir do abismo niilista. Por mais que olhe para o Texas, Louisiana, etc. e veja algo de “tradicional” e de raízes que dialogam com a pré-modernidade, quando subo os olhos para o restante dos EUA, caio neste preconceito ainda.  Mas assim como o interior de São Paulo, dialoga com o norte do sul, Minas e os Matos Grosso, numa ampla cultura “caipira” que ainda se sedimenta, algo disto pode ser o caso na parte centro e norte dos EUA e que eu não veja por ignorância pura, afinal, preciso reconhecer meus limites e minha petulância em achar que conheço algo dos EUA a fundo. Por isto estou deixando claro se tratar de um “pré-conceito” e espero superá-lo adequadamente por instrução.]

Não se trata de advogar um anti-americanismo simplista, coisa fácil nestes tempos de iminência de intervenção norte-americana na Síria [hoje na Venezuela]. Nem mesmo se trata de reduzir ou diminuir a contribuição norte-americana para o Paganismo reduzindo-a a “Californication”, uma degradação somente, cultura de consumo enlouquecido (e obeso), entorpecimento, superficialidade e irresponsabilidade. Não. Há muita coisa válida e útil no meio pagão lá, que já entrou pra História.

Mas se trata de perceber e deixar claro que não temos de simplesmente copiar cegamente e louvar credulamente o modus operandi do paganismo norte-americano, constantemente lambendo as botas e puxando o saco de toda e qualquer opinião, autor ou invencionice religiosa de lá, levantando autores de lá ao status de semideuses infalíveis. Há outras possibilidades bem sucedidas também (e mesmo que não houvessem, não impede de tentarmos desenvolvê-las!), especialmente na Europa do leste e ainda há a possibilidade do autêntico, do que reflita harmonicamente nossa situação e particularidades. Mas para isso, é mister coragem e disposição para nos valorizarmos e deixarmos a “viralatice” de lado.

2 opiniões sobre “(02-09-2013) EUA, “Paganismo” e umas considerações

  1. Sobre a possibilidade de as divindades estarem agindo sobre questões geopolíticas, seria possível explicar mais?

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    1. Tenho uns esboços virando texto sobre o tema. Basicamente, se trata de um resgate de uma percepção como a presente nos “Lusíadas” de Camões, por exemplo. Mas é um assunto demasiado metafísico e aberto a especulação. Espero que saia um texto sobre isto o quanto antes, pelo menos para promover o debate e a reflexão.

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