Ainda sobre a prática doméstica

aidu
Em celtibérico ‘aidu’, do PrC *aydu “Chama, Fogo (Sagrado)”.

Se apontamos anteriormente para o foco na atividade religiosa do âmbito doméstico, faltaram diretrizes um pouco mais claras, diretrizes estas já apresentadas faz um bom tempo em fóruns como o ‘Recons IberoCéltica’ e que viemos rapidamente apontar cá.

Uma vez considerado que já tenham havido os ritos nupciais próprios, a fundação da trebā (no nível físico e espiritual, caso a casa do casal seja construída ainda; mas somente no nível espiritual, se o casal se muda para uma casa já “pronta” em termos físicos) requer um rito específico: o da “consagração” pelo acendimento do primeiro *Aydu, que com o procedimento adequado (que requer uma limpeza adequada antes), irradiará a presença da Senhora da Aurora, a Altíssima, cuja luz vivificará o ambiente, transformando-o num Lar verdadeiro.

Se fôssemos nos expressar através de uma terminologia romana, diríamos que a fundação de um Lararium (uma ‘Lareira’) para nós, é presidido pela luz de Minerva: sua chama “doméstica” e vivificante nasce do Fogo Celeste “primordial” e “selvagem” de Júpiter. Seria este poder luminoso que forjaria um canal forte, estável pelo qual o casal/família se harmonizaria com os Lares e os Manes. O ‘focus’ doméstico não pode ficar contido numa lamparina somente, aceso (ou melhor, “manifesto”) somente durante preces, mas é também o próprio fogo no qual se cozinha diariamente (em um fogão! O primeiro fogo do mesmo – e de todos os outros “fogos” importantes existentes na casa – deverá ser aceso a partir do *Aydu). Nisto diferimos do procedimento (e compreensão) propriamente romanos.

Só num Lar os ritos domésticos, oficiados pelo/a “chefe” da casa, tomarão lugar de maneira apropriada. Além dos 3 ritos mensais (pelo ano calendário lunissolar) cujo ritmo deve guiar, sempre que possível, ações gerais da casa (limpezas, demolições, reformas, construções, aquisições importantes, etc.), há as 8 festas anuais que, na ausência de templos ou espaço comunitário mais amplo para suas realizações, deverão ser observadas piedosa e rigorosamente. Do mesmo modo que no nível pessoal a observância das datas sagradas é um dever religioso, o é no nível doméstico; não só neste nível se “satisfaz” o nível pessoal (“inferior”) quanto se “abre” em possibilidade o nível comunitário (“superior”).

O culto doméstico aos Ancestrais cá em nosso costume é o cerne do terceiro rito doméstico mensal (no final do mês lunissolar). Talvez alguns creiam que seja importante aproveitar algo do que a tecnologia nos traz, como por exemplo os testes de ancestralidade e mapeamento genético (hoje em dia, mesmo aqui, estão em preços acessíveis), para melhor se reatarem aos seus antepassados, especialmente os mais distantes. Talvez outros não creiam que isto seja necessário (além do que, dependendo do banco de dados da empresa que realiza os testes, os resultados precisam ser interpretados de maneira mais focada e considerando outros fatores), talvez por crerem que o foco do culto deva ser os ancestrais mais recentes, etc. Aí vai de cada casa. O importante é que ambas as linhagens sejam honradas (seja em conjunto ou separadamente, a depender de como o casal entenda). Haverão ocasiões em que libações aos antepassados ou reverências diversas serão feitas, obviamente, não apenas neste momento “regular” sob a forma de um rito doméstico mensal, mas novamente, é o tipo de coisa que variará naturalmente.

Aqui também aproveitamos a tradição Indo-Europeia mais ampla de certa vinculação do Deus Pai (*Dyeus) com o plenilúnio, somada a tradição celtibérica da observação festiva de tais datas (como relatada por Estrabão na Geog. III,4:16) para a fundamentação geral do rito doméstico do plenilúnio. A título de curiosidade metafísica, é tentador – ao olharmos para a dinâmica interna do mês lunissolar e suas associações – espelhar a compreensão do movimento solar ritualizado no ano com o do mês… Uma vez que consideramos que o ano (lunis)solar com suas associações espaço-temporais, mitemas e períodos regidos por ceras divindades, parece – de forma superficial e intuitiva – “espelhar” certos vestígios presentes nos calendários lunissolares (e se olharmos para o de Coligny, por exemplo, isto aparece mais ainda), ficamos mais e mais tentados a “fechar “ uma interpretação dos dias de cada mês lunissolar que correspondam aos respectivos períodos do ano, e nesta direção, para dar um exemplo, o plenilúnio de cada mês parece bater com o período do Solstício de Verão.

Para encerramos, o primeiro rito lunissolar doméstico (cá fazemos no início da terceira noite de cada mês lunissolar) é voltado para a proteção e fortalecimento da casa, pela boa nutrição e vigor (físico e intelectual) da família. Ter uma aprendizagem sólida, um crescimento forte e uma boa disposição para o trabalho, para o caminho virtuoso e honrado, seja no nível dos indivíduos da família seja para a própria família em si, cuja união e prosperidade beneficia a todos. As divindades que velam pela nutrição e boa criação (as “Nais Divinas”, as Matronas), pela defesa da casa e da propriedade, pela fecundidade e fortalecimento, além, claro, da prosperidade em geral, poderão ser honradas. Novamente, cada casa assentará sua senda na medida em que por ela passar e situações específicas, naturalmente, requererão focos específicos (como por exemplo, a necessidade de proteção contra doenças, etc.). É bom lembrar que estamos nos referindo ao estabelecimento ou “reativação” de uma relação, cujos ritos são um meio num certo sentido. A tônica que acreditamos ser a mais adequada é a do fortalecimento “interior” para que os agentes possam, pelo seu próprio poder também e pelo seu esforço, conseguirem o que almejam. Claro que há coisas, muitas, que estão além de nossas possibilidades mortais. Mas a tônica do “pedinte preguiçoso”, de uma quase “barganha” religiosa, deve ser rechaçada se não como indigna, ao menos como “dispensável”, ao menos como exemplo na criação dos nossos filhos. Bem, vamos encerrando por aqui; espero que texto tenha sido útil.

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