Sobre os ‘Antagonistas’ aos Deuses

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Em termos simples, os Antagonistas aos Deuses, são o que são, “Antagonistas”. É verdade que, por causa do fundo cristão geral, é possível que muitos de nós queiram imputar-lhes uma moralização maniqueísta sobre sua percepção como Mal Absoluto. Penso que todos os que operam conceitualmente num nível mais alto (sacerdotal ou filosófico), certamente não verão assim e este texto, para estes, não terá lá grande utilidade, já adianto. Me volto aos que, no nível mais popular, alinham-se uma vez mais aos esquemas mentais atávicos e percebem que há um embate de forças além-humano, invisível, escondido sob todos os holofotes e que adequadamente relacionam a grande contenda que se reacende neste final de Era, entre os contendores a quem nossos antepassados chamaram de Olímpios x Titãs, Devas x Asuras, Aesir x Vanir/Gigantes, Tuatha Dé Danann x Fomoire, etc.

Que me recorde, e isto deve já fazer uns 15 anos pelo menos, o primeiro sujeito que me chamou atenção para o modo como somos levados a moralizar esta oposição em tonalidades maniquéias foi o falecido Isaac Bonewitz, num texto disponível ou na ADF ou em seu blog pessoal (me desculpem a falta da referência precisa), que pontuava, de maneira que ainda me parece acertada, para a grande reforma “moralizante” do Zoroastrismo, atribuindo-lhe uma dualidade moral proto-maniqueia. Na verdade, em termos PIE, diria eu hoje, o Zoroastrismo é uma reforma religiosa “inversiva” (pois “demonificara” os Devas e “divinizara” os Asuras, reduzindo-os ontologicamente) como qualquer linguista e estudioso de mitologia comparada IE pode atestar. Como estavam os persas mais próximos dos povos semitas, e como este tipo de situação não parece ter acontecido com os antigos Hititas, por exemplo, que estiveram pela região por um bom tempo antes dos persas, ficava a imaginar que fosse uma influência médio-oriental extra-IE oriunda de algum momento no primeiro milênio antes da era comum. De lembrar que sob uma perspectiva externa, acadêmica, o Zoroastrismo só se tornou religião majoritária na Pérsia (obliterando o politeísmo Indo-Iraniano mais “arcaico”) na época da ascensão de Ciro, apesar de que, sob a perspectiva interna, ter sido gestada quase 800-900 anos antes.

O fato é que, apesar desta guinada inversiva (subversiva, diria eu) e de uma redução ontológica apontando para um “monoteísmo” (ou duoteísmo não declarado, uma espécie de “cripto-duoteísmo”), além do esboço de um doutrina soteriológica “universal” (antecedendo o Cristianismo), muito do arcabouço tradicional e sábio da herança PIE permanece entre os Mazdaístas e desde um tempo, que me parece adequado considerar que, grosso modo, se o Cristianismo é a religião semita com mais influência IE, o Mazdaísmo é a religião IE com mais influência semita. Obviamente que não me cabe entrar no mérito de serem adequadas ou justas, ou se as “revelações” e a experiência mística de Zoroastro foi, de fato, com os aspectos mais celestes/superiores dos poderes divinos, não apenas por ser um pedantismo injustificado, quase blasfemoso, uma vez que cultivo um respeito “parental”, digamos, ao Mazdaísmo, mas por realmente crer que o profeta iraniano teve uma experiência mística poderosa.

No entanto, estou pontuando estas considerações para mostrar o que, no meu ver, é uma das prováveis fontes primevas da maniqueização moral do grande embate cósmico, como concebido na Tradição IE. Se no nível popular, “exotérico”, especialmente se estamos preocupados e comprometidos com o reforço ao lado dos Deuses, é compreensível que se admita uma vinculação “maléfica” aos seus Antagonistas, é importante também frisar limites para que isto não se reproduza num simples dualismo “fechado”, radicalizado (gnosticamente) e incoerente com a Tradição.

Se olharmos bem, e para os que operam conceitualmente no nível mais alto que o nível “popular” isto não será novidade, para as tradições míticas IE, veremos casos interessantes. Não só Vanir são admitidos entre Aesir (assim como casos esporádicos de Gigantes “benéficos”), por exemplo, como Fir Bolg entre Tuatha Dé Danann (em termos estritos, se seguirmos somente a narrativa do Cath Maige Tuired, o próprio deus Lug, o decisivo golpeador que assegura a vitória aos Dé Danann, é meio Dé Danann, por parte de pai, e meio Fomoire, por parte de mãe), ou de Titãs admitidos entre Olímpios. Se é verdade que certas admissões significaram posteriores “substituições” e eclipses por parte das Divindades (talvez um caso emblemático seja o de Apollo, Olímpio, que paulatinamente passou a suplantar o culto admitido e “ortodoxo” do titã Helios), até onde fora obra do culto humano ou de acontecimentos divinos, é algo fica para os politeólogos discutirem. Também é importante notar, ainda nos referindo a tradição mítica, que é possível encontrar exemplos de Deuses que, capitularam ou “passaram para o lado oposto”, digamos, ou que mantém uma posição “dúbia” (talvez o germânico Loki seja um exemplo de fácil identificação para o leitor, ou ainda o hibérnico Bres, que também sendo meio uma coisa e meio outra, terminou decidindo-se pelos Fomoire)

Ainda no caso grego, e talvez pela abundância de literatura escrita e epigrafia, vemos que mesmo no nível popular, determinadas “personagens” humanos ou titãs que desafiaram as divindades, num misto de ousadia ingeniosa, apesar de derrotados tragicamente, tiveram também uma espécie de “redenção” ou “perenização” (nem que sejam como “exemplos” do que não fazer). Nem preciso falar de Prometeu, que mesmo sofrendo os castigos, recebia por parte dos mortais algum culto (claro, não era um culto massivo ou tão popular quanto o culto aos grandes Deuses, sejamos francos). Mas o ponto é que mesmo as histórias das hybreis mortais, uma vez que servem ao propósito de nos admoestarem a evitarmos os excessos e desmedidas, também registram o impulso ousado, corajoso (muitas vezes), “prometeico” de alguns mortais. E os limites deste impulso humano (que não é nada “democrático” nem “universalista”, mas próprio a alguns somente), entre a coragem admirável aos Deuses, e a insolência que os ira, é um limite por vezes difícil de enxergar, e entre filósofos como Nietzsche, ainda nos ares românticos alemães, se viu nesta disposição o elemento faustiano, trágico, parte constituinte da própria índole aristocrática.

Mas este reconhecimento não significa uma “relativização” moral: duvido muito que os gregos antigos, e não só o povão, mas gente como um Platão mesmo, ou mais ainda um Porfírio, advogasse o culto aos Titãs como o “certo” e considerasse o culto aos “Olímpios” como errado e impróprio; ou mesmo considerassem quem pensasse deste modo, como moralmente equivalente ou equipolente a quem pensa o contrário. Não é uma mera coincidência que, por todo o mundo IE, tenham sido os Deuses os que receberam maior culto e não seus Antagonistas. Sua ação construtiva e mantenedora da Ordem Cósmica não é uma mera preferência abstrata, mas uma objetividade transcendente. E mesmo na exegese mítica, num nível básico, fica claro que os Vanir ou Fir Bolg que estão ao lado dos Deuses, “passaram para seu lado” de fato, não há – com exceção da já mencionada situação das figuras dúbias (Loki) ou desertoras (Bres) – dúvidas sobre sua lealdade e vinculação. Daí o modelo, inclusive, poderia eu dizer, que as sociedades tribais IE dos nossos ancestrais tomaram para admissão e incorporação de “estrangeiros”.

Ainda é interessante notar, e volto a tradição mítica irlandesa por estar mais familiarizada com ela, que há mesmo uma percepção distinta no lado Antagonista sobre certas condutas: quando Bres procura seu pai (no Cath Maige Tuired), que é um Fomoire e o rei destes, para que ele o auxilie a retomar o trono dos Dé Danann, uma vez que fora deposto pelo retorno de Nuadu, este se nega a auxiliá-lo, dizendo que ele (Bres) não deve obter pela injustiça aquilo que não conseguiu obter pela justiça (Ní rogaba la hainbfir immorro mani gaba la fir). Esta singela passagem aponta para uma percepção, mesmo entre os Antagonistas, de uma orientação moral transcendendo a condição do simples antagonismo. Bres precisa recorrer a Balor, seu avô, cobiçoso de evitar a própria destruição prevista profeticamente como vindo pelas mãos de um neto seu (Lug). Algo desta percepção, apesar de não aparecer registrada de maneira tão clara quando nesta passagem irlandesa, me parece presente na “atmosfera” da estória nórdica quando Thor visita o reino dos Gigantes; em sua partida de lá, não apenas seus jurados inimigos observaram as regras de hospitalidade, como ainda honestamente revelaram os reais feitos do Ásu-Þórr nas provas da noite passada, eclipsadas pelas mágicas de seu anfitrião gigante. Não há “relativismo” aqui: nunca mais poderá adentrar o Reino dos Gigantes e a inimizade entre eles permanecerá, cada um deixando claro que fará o possível para destruir o outro.

Em termos mais metafísicos, as tradições IE do Ocidente europeu sempre enfatizaram o 3 como um número importante. Mesmo no Neoplatonismo mais vulgar, a Dualidade, necessariamente, produz uma Tríade. Esta dimensão triádica surge necessariamente da oposição primordial, não como um elemento de “relativização”, mas mais propriamente como um de estabilidade e/ou síntese. Claro, isto tudo se dá num nível alto e mesmo esta minha rápida exposição, pode não ser digna e adequada. Muito menos ainda quem simplisticamente e no nível mais baixo tenta trazer isto para os rasos discursos político-ideológicos, é bom deixar claro.

A condição desta época de dissolução, aliada a própria situação humana e de sua razão moderna, poderão levar alguns a declaradamente, mesmo que tenham penado muito para vislumbrarem este panorama geral, a tomarem o lado dos Antagonistas. Seja pelo alinhamento último de naturezas canhestras (que tenderão a inversão/subversão – em Vias de Mão Esquerda, como dizia Evola, ou numa forma de Gnosticismo relacionada) ou mais provavelmente pela crença no “Aceleracionismo”: desejosos por antecipar a Nova Aurora, decidem resolutamente apressarem as últimas horas da Noite, prescrevendo, conscientemente, o Veneno como Cura. Há, pelo menos desde o começo do séc. XX, na tradição filosófica do perenialismo guenoniano o reconhecimento de certa implicação político-cultural disto tudo nesta Era. Evola mesmo, enfatizava certa dimensão metapolítica que os conceitos de “Direita” e “Esquerda” teriam, inclusive em suas relações neste embate “invisível” e constante (mas que parece se intensificar até a eclosão no final desta Era). Já comentamos sobre algo disto, e estou convencido que apesar de válido, há um risco na ênfase “politizada” deste aspecto, especialmente quando direcionado ao nível baixo do popular, levar a uma “contaminação” desnecessária, digamos, e a uma série de más compreensões (talvez confundindo mais do que clareando). E como já coloquei noutro texto, ao final, haverão lados mesmo e a grande questão será mais qual deles “escolher” (se é que há escolha, de fato, como já disse, cada vez mais desconfio que não haja, pelo menos para boa parte).

Há uma tradição antiga e constante, do Oriente ao Ocidente, do Bhagavad Gita às Meditações de Marco Aurélio, que o mundo IE nos aponta claramente que não é uma questão de “salvação” ou “recompensa” pessoal. Talvez não seja exagero, apesar de soar pouco “sentimental”, dizer que a Ordem Cósmica é indiferente a cada um de nós, enquanto sujeitos atomizados em nossas paixões diminutas que nos parecem tão grandes. Vislumbrar a dimensão mais alta, cuja dificuldade de exprimir em palavras expressa a rudeza íntima de nossa linguagem, deste embate amplo é ser levado a despersonalização, a diluição da vaidade e do nível mais ruidoso de nossa consciência pessoal.

Buscar diminuir, relativizar em blocos fechados ou mesmo inverter o antagonismo dos Antagonistas aos Deuses, pode sim, tradicionalmente, ser uma atitude a ser denunciada e combatida, especialmente no nível “popular”, mesmo que magoe os sentimentos “moderninhos” e a vaidade progressista de certas ovelhas. Como esperamos ter deixado claro, é até possível que se arranje ou se tenha motivos para tomar o lado dos Antagonistas. Ou mesmo, como esperamos ter deixado mais claro ainda, que esta oposição não é um maniqueísmo fechado que não permite certos trânsitos, incorporações e “trocas”. Ou ainda que não tenha – e talvez isto seja mais difícil para nós compreender, apesar de ser o mais importante – o apelo moral que muitos de nós julga ter (se é que teria um apelo “moral” em termos estritos).

Em grande parte, certas confusões me parecem piorar também pela vacuidade geral em se tratando de literatura ética grega, ou religiosa hindu, etc. Na ausência do Cristianismo, muitos só enxergam o Abismo e alguns, ainda mais ávidos, apressam-se por deixarem se preencher pelo vazio, acreditando que o Niilismo é a única “salvação da salvação”. Tamanha é a confusão desta Era. Oremos aos Deuses Imortais, para que sigamos no caminho da excelência, não pela promessa do caldeirão no Outromundo para os que caíram no embate, mas porque, afinal, para alguns de nós, não há outra opção: *ad Albiyom sekʷo Deywūs wikomos.

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