Tradução: Askr Svarte e Jafe Arnold – “Nomeando a Tradição: a palavra e o mundo do ‘Pagandom'”

Tradução para o português a partir da tradução inglesa disponível em: https://askrsvarte.org/eu/blog/naming-tradition-the-word-and-world-of-pagandom/. Os comentários entre colchetes [] são do tradutor.

“A língua é a casa do Ser” – estas palavras do grande filósofo alemão Martin Heidegger indicam não apenas como na fala do dia-a-dia, como na Filosofia, o Ser se diz, em seus modos (Stimmungen) e preocupações (Sorge), mas também se refere a uma importante noção do pensamento do “xamã da Floresta Negra”: habitar no mundo. O Dasein é lançado no mundo no qual habita (Wohnen), como em uma cabana de madeira. Habitar significa experienciar, vir a conhecer e fazer conhecer um espaço circundante, fazê-lo próprio, tornar-se local junto dele, tornar-se “nativo” e “original”. Habitar no mundo portanto, significa, entre outras coisas “selecionar” (1) as palavras certas e nomear as coisas. As palavras mesmas crescem para encontrar os significados e coisas que nomeiam e por elas são invocadas. A existência autêntica no mundo, de acordo com Heidegger, pode então ser transcrita em um fragmento de um verso de Hölderlin: “poeticamente o homem habita”.

No mundo da Tradição, o qual muito do pensamento de Heidegger nos remete numa nova luz, e no qual tal habitar fora uma norma arquetípica, nomear é sempre e em todo lugar, algo sagrado. Como uma palavra mágica, o nome transpassa e toca a essência de uma entidade, a manifesta e afeta, e a conecta em meio a tantas dimensões de correspondência, manifestações e fenômenos que fazem o generoso mundo do cosmos. Cosmos mesmo é um nome – κόσμος – que os antigos gregos utilizavam para designar o mundo ordenado a partir da vitória dos Deuses sobre os Titãs no início dos tempos.

Num mundo ordenado e nomeado, tudo que é nomeável é nomeado e como tal é reconhecido em seu ser, seu lugar, e em sua relação com tudo o mais. Nomear um ser humano é introduzi-lo no mundo, fazê-lo parte dele, identificá-lo e conectá-lo com uma tradição, linhagem, posição, um evento, etc. No momento da iniciação, a pessoa ganha um novo nome ou aprende o verdadeiro nome das coisas. Os Deuses são endereçados e invocados pelos seus nomes próprios, pelos quais também revelam e escondem vários aspectos de suas essências e mensagens misteriosas. Alternativamente, em vista de tal poder e mistério, seus nomes podem ser mantidos em segredo ou se tornarem sujeitos a eufemização. Cada pedra, rio, floresta, montanha e assentamento que carrega um nome o faz pela virtude de sua identidade especial e suas associações entre a constelação de seres, coisas e forças. Nomear representava o mapeamento e orientação sagrada.

O centro e eixo da existência e nomeação do homem arcaico, autêntico habitante, era o mito; seu pensamento é mito-poético. Mythos (μῦθος) literalmente quer dizer “conto”, “estória”, é a exposição oral da tradição e lenda de como e porque o mundo é o que é e de como as Divindades o fizeram (ποίησις, poiesis). Na expressão ‘mythopoiesis‘ encontramos a língua-como-conto, “contar-ser”, i.e., trazer ao Ser por meio do conto (mito-poético), ou dizer como as coisas foram trazidas ao Ser (mito-poético). O poder e autoridade de tal discurso – e também o perigo de sua perversão – era uma preocupação dos primeiros filósofos gregos. Em Platão, a distinção de certos tipos de discurso como mythos ou não emergiu como uma controvérsia crucial, uma cujas consequências e interpretações podem ser sentidas por todo o percurso posterior até o mundo moderno e sua linguagem e filosofia.

Em geral, ao invocar um nome no mito (ou como mythos), em um ritual ou magia, uma pessoa reconhece, ativa e traz a tona, um ser de algo em seu poder e significado. “Na Tradição, a linguagem cria, destrói, encanta, libera e mostra as leis fundamentais do divino cosmos, e em muitos sentidos o conhecimento da linguagem, dos nomes dos Deuses, das encantamentos e fórmulas é um saber iniciático, saber do próprio divino(2)”. O enigma da origem, sentido e falta dos nomes constitui um dos grande mitos iniciáticos e mistérios da ordenação metafísica do cosmos, seus poderes, dimensões e destinos.

Ao mesmo tempo, o mundo da Tradição sabia e apreciava o inominável. Deste modo, podia compreender o apofático, inefável, o misterioso que não poderia ser completamente nomeado. Isto também concerne aquilo que, no mundo da Tradição, era tão gritante, omnipresente e óbvio como dado da realidade que nomeá-lo traçaria uma fronteira estranha. Isso ocorreu em numerosas tradições, cujos nomes se tornaram uma necessidade apenas quando as coisas foram deslocadas da “realidade como tal”.

Nas eras da Modernidade e Pós-Modernidade, na “Era do Desencantamento” na qual a linguagem, as palavras, e nomes sofreram um drástico declínio, distorção, perversão e ofuscamento, nomear representa um problema próprio. Antigos nomes essenciais foram esquecidos; daí que muitos dos nomes de lugares, fenômenos e coisas que ainda escutamos hoje são vistos como estáveis e aparentemente “arbitrários”, apartados do modo no qual ainda eram vistos como magicamente vivos e essenciais. Novos nomes não mais implicam nos nomeados como existindo num generoso mundo de moradia multidimensional. Em tal “mundo”, língua e nomes são banais e sujeitos ao mercado e à moda, ‘habitar’ é um desafio para o qual nenhum aspecto da vida urbana moderna conduz e ‘mito’ é popularmente associado com algo falso, errôneo ou “supersticioso”. Tudo isso se dá pela perda e rejeição do modo e paradigma onde língua, habitação e mito são possíveis e conectados: a tradição. Mito como “conto”, “estória”, habitação como pertencimento, e a palavra como sagrada e “conectada” nos confronta com o que é chamado “tradição”. Daí outro nome para o ser e habitar humano: Ser-na-Tradição. A palavra “tradição” deriva do latim tradere, significando algo que é passado para, transmitido, tal como o recontar de mitos que configura cosmogonia, antropologia, ética e tudo o mais de uma vez. Um dos sinônimos posteriores de tradição é “religião”, de religare, ou seja, religar-se, restabelecer conexão com o mundo superior.

Nas aparentemente mais escuras profundezas do mundo anti-tradicional da Modernidade, no séc. XX, uma escola de pensadores apropriadamente identificados como “Tradicionalistas” identificaram precisamente a “Tradição” como palavra que expressa o conjunto paradigmático do sagrado, do generoso mundo do habitar contra o qual o mundo moderno representa um desencantamento brutal, uma Spachnot (“absência”, “falta”, “ausência” e “pobreza” da linguagem). Essa identificação da Tradição representa um religamento essencial perene, primordial e, para uma vez mais usarmo-nos de Heidegger, um “evento do Ser” (Ereignis des Seins). Ao mesmo tempo, além do conceito e pano de fundo meta-filosófico, o Tradicionalismo nos impõe um imperativo: não apenas para reconstruir e “re-desvelar” a Tradição intelectualmente, mas para reavivá-la, revivê-la, e retransmiti-la. É necessário reencantar, repronunciar e reabitar o mundo.

É uma premissa metafísica do paradigma da Tradição que o Um se manifesta no Muitos, que o Divino se manifesta nas Divindades, a Tradição nas tradições. O Um e os Muitos, o Divino e as Divindades, a Tradição e as tradições tem-se paradigmaticamente harmonizado em diferentes nomes e em diferentes moradas nas quais se manifesta. No entanto, um dos principais eventos que marcaram a passagem da predominância do habitar no mundo da Tradição para a instauração do Mundo Moderno foi a ruptura que fez com que algumas tradições denunciassem todas as outras e reivindicassem universalidade. As religiões monoteístas abraâmicas denunciaram todas as tradições dos diversos povos do mundo e suas moradas como “pagãs”, “gentias”, como “paganismo” e “gentilidade”. Assim, as religiões que emergiram na Kali-Yuga, na Idade de Ferro, deram um polêmico, categórico, “não-nome” para toas as diversas tradições que vinham até nós desde as profundezas incalculáveis da pré-história, trazendo destruição, suplantação e a perca de muitos nomes. Na contemporaneidade, Tradicionalistas que tentam conceitualizar esta ruptura e seu significado na metafísica e na história sagrada são levados não só para a questão da reconquista de nomes essenciais, mas também para o reconhecimento de que a significância dos nomes se torna mais aguda quando estes estão ausentes. A questão da nomeação desta constelação de tradições e sua matriz comum, que verificadamente constituem a Tradição na maior parte da pré-história até a antiguidade ocidental e mesmo a Idade Média (e em certas regiões até mais tarde), é um problema essencial, um que nem é “filológico” e “historiográfico”, nem meramente “voluntarístico”. É uma questão de resgatar e nomear a essência da Tradição em suas manifestações entre os povos por meio de todo nosso cosmos conhecido e seus ciclos numa forma autêntica e inspiradora. É uma questão de nomearmos a nós mesmos e a nossa aspiração essencial em direção a uma habitação autenticamente tradicional hoje.

Na língua russa, para designar as tradições conhecidas em inglês como “pagan” ou “heathen” há uma palavra maravilhosa e multifacetada “iazychestvo” (язычество). Essa palavra deriva de uma palavra do velho eslavônico eclesiástico iazytsy (я҆зы́цы), que significa “povos”, modelada para traduzir o grego ethnos (ἔθνος). A palavra é constituída pelo acréscimo do sufixo –stvo, que em russo indica uma propriedade intrínseca. Daí que, iazychestvo soe algo como “forma de religiosidade intrínseca ao povo”, como algo adjetivo e característico. Paganismo como iazychestvo pode ser interpretado e traduzido nos moldes do russo “narodnichestvo”, “popularidade”, “gentilidade”, ou como “narodnaia vera“, “fé popular”. Após a adoção da Cristandade por parte da nobreza russa, o Paganismo foi preservador por séculos entre o povo agrícola, de modo que a semântica do termo se refira-nos a comunidades rurais e suas práticas rituais orientadas à Natureza.

Outro aspecto da palavra iazychestvo está conectado com o fato de conter a raiz iazyk “linguagem”, i.e.; o idioma do povo, linguagem enquanto palavra falada, e iazyk também é a palavra para o órgão corporal da língua. [apesar de não formalmente relacionado, em Proto-Céltico, temos *yeχti/u- que é “linguagem, idioma, fala” e também “povo, etnia”, daí o irlandês antigo icht “povo, tribo” e o galês ieith “linguagem, nação, raça”]. Tendo em mente a importante conexão com a definição e associação de um povo com o princípio linguístico, podemos encerrar esta série de ressonâncias e finalizar que no termo russo iazychestvo são relevadas três noções e facetas fundamentais, que se conectam: 1) iazytsy como povo e etnias, cf. inoiazychnye (“outros povos”), 2) o idioma que um povo fala e 3) paganismo, iazychestvo, como tradição expressa numa linguagem nativa, ancestral e original a um dado povo.

Se partirmos da esfera linguística eslava e nos voltarmos às línguas europeias, nos deparemos com o fato de que o termo iazychestvo ou é intraduzíveis ou demandará constante e volumosa explicação de nuances que outro modo seriam facilmente compreendidas por um nativo eslavófono. Daí a necessidade de “selecionar” um termo apropriado e adequado para designar as tradições mitopoéticas na esfera Indo-europeia (e além) retirando o sufixo substantivador “-ismo”, que transformaria o fenômeno religioso numa forma de dogma religioso em sentido abraâmico anacrônico ou imporia conotação de mera ideologia. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o termo que apresentamos, apesar de originado de uma língua (Indo-)europeia, pode de algum modo coincidir com iazychestvo e em outros expressar outras facetas desse fenômeno espiritual-religioso.

O ponto de partida básico é o termo original romano-cristão de “pagão”: a palavra latina paganus significa “rural”, “do pago”, sendo tal lexema a designação de uma distrito rural, zona ou arredores de um assentamento. A cidade, urbs, fora o local da aristocracia, comércio e da futura burguesia, o local da igreja e do bispo. Consequentemente, a cidade, e o termo associado urbanus, foram contrastados com as “trevas rurais da ignorância” nas quais a religio paganorum continuou a existir por um período extremamente logo, se não ininterrupto. É precisamente por isso que, por exemplo, a expressão “religiões pré-cristãs” é inadequada, pois implicitamente contem um juízo moral progressista que aponta para “pagão=rural=atrasado” vs. “cristão=urbano=evoluído”. Vemos esta ubiquação nos trabalhos da apologética cristã e nos críticos das tradições populares, que acusavam os campesinos de aderirem à costumes antigos e obscurantismo. Muito próximo deste campo semântico está o termo inglês “heathen” (alemão heiden, nórdico antigo heiðr) do Proto-Germânico *haiduz, significando “vazio, terra não cultivada” que veio se referir as terras dos “bárbaros” e e suas “religiões bárbaras”, como no termo Heathendom.

O latim paganus/paganismus fora herdado pelas línguas europeias e desde então são usados tanto na linguagem acadêmica quanto no dia-a-dia. Compreendidos desde uma perspectiva Tradicionalista da história, “paganismo” ou “heathenismo” ou “heathenria” até poderiam ser restaurados à sua positividade etimológica, no sentido de significados orientados à habitação/enraizamento. No entanto, a Tradição não é a preservação das cinzas, mas o cultivo e reacendimento do fogo. De modo que, a fim de dar um campo semântico livre e deixar pra trás o “-ismo” com suas associações, de facto, polêmicas e abraâmicas, assim como todas as associações modernas “hedonísticas”, “ateísticas” e “ideológicas”, é necessário formar outra forma autossuficiente da palavra. Apropriado para tal empreitada é o sufixo “-dom” [em inglês, claro], a partir do qual são formados nomes refletindo qualidades [em latim e nas línguas latinas, por decorrência, se trata de “-tas” → ‘paganitas‘, “paganidade”; no entanto, preferimos não traduzir o termo proposto pelos autores por mera “Paganidade”, já que os mesmos traçarão relações semânticas que o sufixo latino não dará conta], estados fundamentais, assim como pertencimento a uma “jurisdição” (“domínio”) e poder superior. Na dimensão linguística o significado do sufixo em Pagan-dom se cruza com o termo russo iazychestvo. Nas línguas germânicas, o sufixo deriva do Proto-Germânico *-dōmaz, significando um juízo ou decisão feita por uma autoridade, com conotações judiciais. [Em Proto-Céltico temos o termo cognato *dāmo/ā- “séquito, comitiva, seguidores ou clientes”, que deve ter possuído também o sentido de “sentença, determinação judicial” ou “ordem a ser seguida”, a julgar pela atestação do termo no celtibérico com esta conotação vd. Bronze de Botorrita I]. Nas outras línguas Indo-europeias, a raiz *dem- é atestada na formação das palavras para “casa”, “lar”, “propriedade”, “proprietário”, i.e.c a unidade e local básicos do “juízo”, “decisão” e “habitação” de uma família, clã, tribo, genus, etc.

[Já que estamos ainda no tópico de etimologias e coisas do tipo, permitam-me registrar cá para um público maior algo que já é utilizado num âmbito mais restrito. Me refiro ao termo Proto-Céltico *dedmis ou *dedmātos – cuja reconstrução dúbia parte de duas formas posteriores atestadas de maneira diferente, uma no irlandês antigo e outra no galês médio e bretão – que pode ser traduzido como “rito, cerimônia”, mas também “costume, lei, decreto, ordenação”. E que, por razões parecidas as expostas abaixo pelos autores, desde um tempo, utilizamos para traduzir Tradição – com t maiúsculo – num sentido próximo ao do uso do sânscrito Sanātana Dharma. Curioso que fora do céltico, um possível cognato seja o termo grego θεσμός – vd. MATASOVIĆ, R. Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden/Boston: Brill, 2009. p. 93.]

Pagandom é iazychestvo, “paganismo” como um todo, como um termo geral para os povos sob sua predominância e jurisdição (ordem, disposição) espiritual. O sufixo -dom restaura o senso de ordem, hierarquia e faz jus à metafísica intrinsecamente manifestacionista do que é ordenado, do mundo nomeado (cosmos) e à organização do antigo, completamente sacralizado mundo no qual o paganismo fora predominante. Ao mesmo tempo, a noção de uma dimensão ampla, uma ordem do mundo, permite a diversidade de espiritualidades e práticas que constituem a constelação de tradições pagãs, estados, cultos, etc. mais do que a fixidez de um “-ismo”. Como o mundo inteiro da Tradição, Pagandom é o espaço e o modo do Ser e o paradigma do sagrado, a episteme mitopoética primordial e indestrutível, a linguagem e o poder. O termo Pagandom também reflete a tendência intrínseca em direção ao arcaico, à agricultura, pastoreio, caça, etc. em contraste à burguesia urbana e suas aspirações por “Iluminismo” e progresso.

O termo “Pagandom” é produtivo, pró-visual e originalmente reflexivo da essência do paganismo de uma outra, no nosso tempo talvez, veia importante: como um reino ou zona de hegemonia, as fronteiras históricas do paganismo foram abaladas (primeiro e especialmente no Ocidente) – de uma paleta completa de tradições populares reinantes, para as periferias das fés abraâmicas, para então o folclore das zonas rurais da Europa Medieval e início da modernidade, e depois para os sussurros secretos e aspirações idiossincráticas dos grupos esotéricos, ocultistas e do chamado “neo-paganismo” na era moderna, e finalmente para a diáspora dispersa do mundo Pós-moderno. Isso diz não só da trajetória do cosmos na Kali-Yuga, mas da situação particular dos Tradicionalistas e pagãos hoje que se encontram, como nas lendas medievais de inspiração pagã, no meio da retirada e ocultamento de seus senhores e reinos, de suas zonas de jurisdição, ditos e moradias. O Pagandom toca no tema do movimento e ocultamento dos centros sagrados ao longo dos ciclos cósmicos, assim como da realidade sagrada ainda em operação além do presente domínio e que retornará. Neste sentido, “Pagandom” emerge tanto como um termo diagnóstico quanto imperativo, nomeando a geografia sagrada das tradições pagãs nas idas e vindas do mundo moderno, com a resolução de que fazemos a decisão (juízo) em seu favor hoje.

Finalmente (ou invés, por princípio), seguindo o caminho de considerações cíclicas, podemos notar como “Pagandom” está, em seu sufixo arcaico, ortograficamente somente uma letra distante de Pagandome [em inglês, por vezes haviam sujeitos que utilizavam Pagansphere, especialmente para se referirem aos produtores de conteúdo online pagãos, talvez inspirados no neologismo internético Blogosphere; a proposta de Pagandome, ou seja, neste sentido, é mais ampla, apesar de fazer mais sentido em inglês], como que de um templo (e em russo “dom” soa similar a lar). “Pagandome” é o lar, a morada pagã, nossa habitação, nosso círculo no qual os mitos são contados em sua língua nativa e no ciclo natural. Habitamos no e pelo “Pagandom” e este conosco – e uma vez aberto e se desenvolvendo, em nossa pátria e em circunstâncias em que parece que não mais pertencemos à lugar algum. Ao encontrar-lhe um nome, podemos retornar a si e a nossa essência.

.·.

(1) Na versão russa deste ensaio, usamos o termo “podbor” do verbo “podbirat”, ou seja, “pegar do chão, do campo, reunir”, relacionado a “sobor” (“juntar”, “conjunto”). Apesar de suas conotações arbitrárias modernas, o ancestral latino do inglês “select” é baseado na raiz lego, que significa identicamente “reunir”. Em ambos os casos, e etimologicamente diretamente no caso inglês, ouvimos os ecos do Logos.

(2) Askr Svarte, Polemos: The Dawn of Pagan Traditionalism (PRAV Publishing, 2020), p. 357.

~

[Comentário geral: a problematização do termo Paganismo não é algo novo e muito menos despropositado, no entanto, adotar uma alternativa como “Paganidade”, no meu ver, é viável até certo ponto, pois devemos considerar se tal termo busca ser o mais amplo possível, sendo quase “universalista” para descrever a atitude religiosa natural, e étnica, de cada povo tradicional ao longo do globo, ou se – como tem acontecido, apesar que de forma, talvez menos consciente e mais provavelmente com o termo derivado “Neopaganismo” – busca descrever as religiões Indo-europeias. No nível linguístico, conseguimos recuar a noções Indo-europeias importantíssimas e basilares, como o Proto-Indo-Europeu {PIE} *h2r-tós, descrevendo a firmeza da ordem natural divinamente instituída e como não havia a necessidade de “nomear” nem descrever tal obviedade, não há, exatamente, uma palavra PIE para “religião”. Daí que, muito provavelmente, em muitos casos, não se tratará mais de falar especificamente de “Paganidade” nem “Paganismo”, mas simplesmente de Tradição, e em especial da Tradição Indo-europeia, de uma “Arianidade”, digamos – para demarcarmos bem o território das apropriações e distorções abraâmicas, que deveriam ir buscar no hebraico, mais propriamente, seus alicerces etimológicos. Em todo caso, para cognatos e um possível vocabulário reconstruído de termos religiosos, aos interessados e curiosos, recomendamos o capítulo 23, a partir da p. 408, do livro The Oxford Introduction to Proto-Indo-European and the Proto-Indo-European World de J. P. Mallory e D. Q. Adams].

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