(16-03-2008) Comunidades virtuais e Paganismo

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 16/03/2008. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

vikingraad

O termo ‘comunidade’, advindo do latim ‘communio’, tanto com o sentido de ‘associação, comunhão, comunidade’, quanto no sentido verbal de ‘fortificar, entrincheirar’, já ‘communitas’, também envolve as ideias de ‘cortesia’ e ‘sociabilidade’. Este primeiro roteiro etimológico pode nos nortear na busca pelo sentido da palavra, apesar do uso contemporâneo abarcar um campo semântico amplo. Como nosso intento não é destrinchar a fundo o seu sentido ao longo das décadas, nem algo parecido, nos deteremos, ou melhor, tentaremos nos deter, somente a como o termo está relacionado com algumas questões do Neopaganismo brasileiro, assim como nos afiguraram, e algumas outras implicações. Notadamente nos voltaremos ao termo enquanto imerso na estrutura de relacionamentos do Orkut [Na época deste artigo, imperava a tal rede social, e não o Facebook].

Afinal de contas, o que significa uma comunidade no cenário do paganismo contemporâneo? Um aglomerado de pessoas unidas por disposições livres e com fins religiosos? Uma associação de pessoas estranhas umas as outras que compartilham de um mesmo espaço (virtual) procurando privilégios, reconhecimento, status ou algo do tipo? Um lugar onde curiosos continuam com as mesmas levianas curiosidades? Só mais um nome engraçado no Orkut? As perguntas se multiplicariam ad infinitum. O problema, ao que me parece, é justamente o reconhecimento de seu significado: O que significa fazer parte de uma comunidade?

Antes que possamos compreender isto, parece-me importante perceber dois termos-chave componentes da questão ‘fazer parte’ e ‘comunidade’. Se encaramos o significado como o escopo, propriedade, ou mesmo componente de uma função, por exemplo, estaríamos perguntando pelo f(x) dos termos-chave 1 (fazer parte) e 2 (comunidade) [?].  Por mais óbvio que nos pareça o significados dos termos-chave, não é o que nos parece, ou pelo menos me pareceu, quando observamos um contexto determinado de importância significativa atualmente, como o Orkut, por exemplo. Não nos cabe, pelo menos provisoriamente, atentar para a dimensão da tecnologia enquanto propiciadora de liberdade e comunicação imensas se comparadas com o que dispunham nossos ancestrais; ou mesmo de sua dimensão política e filosófica, nos referimos à sua capacidade de articulação local, regional.

Antes de adentramos nestas consequências, atemo-nos aos termos-chave. 1 (fazer parte), participar, ao que nos parece, refere-se a ideias de sociabilidade, compartilhamento, ação conjunta, partilha, tomar parte de. Tais ideias nos mostram, a priori, que só se pode ‘tomar parte’ de algo. Neste sentido, é que a dimensão do agir se entrelinha com o conceito: tomar parte de algo, participar de algo, inclui o envolvimento do agir diante de um contexto qualquer, divisão de responsabilidades, em prol de outra coisa. 2 (comunidade) uma espécie de associação, aglomeração de pessoas imersas, supostamente, em relações de cortesia visando uma fortificação, defesa, aprimoramento comum de algo. Por mais provisórias e capengas que nossas definições soem, ainda sim, com base nelas poderíamos formular questões do tipo: o que é participar de uma comunidade do Orkut? Tornar o nome parte da lista? Será de fato possível que um indivíduo realmente PARTICIPE de cerca de 300 comunidades? E uma comunidade religiosa? Qual seu objetivo, relacionar uma lista de nomes? Um passatempo qualquer? Um local onde adolescentes alienados trocam suas futilidades?

As respostas de tais questões não serão, aqui, nem sequer esboçadas. Gostaríamos apenas de compartilhar uma impressão acerca do significado de ‘participar de uma comunidade’ da forma que nos parece mais provável que seja. As comunidades de software livre, por exemplo, na sua maioria possuem isto de forma mais ou menos clara: ‘Participar de uma comunidade é, grosso modo, dedicar uma fração de seu tempo para a contribuição séria com os objetivos da mesma’. Cada membro dedica um parcela de seu tempo proporcional ao total de ‘tempo livre’ visando a concretização de objetivos específicos, sejam quais forem, ou em articulações, esclarecimentos, divulgações, organização de eventos, estudo conjunto, entre outras atividades.

E nas comunidades pagãs? Segundo nossas rasas observações, a maioria dos que dizem participar de comunidades são como “membros fantasmas”, são nomes sem ação. Talvez isto reflita o quão pouco se leva a sério o paganismo enquanto religião por parte de muitos brasileiros, o vendo muito mais como ‘moda’ a la contracultura, hobby e qualquer outra coisa mais inferior (talvez também, isto explique a falta de seriedade com a observância dos dias dos festivais religiosas). Há os que pensam ser suficiente a leitura dos tópicos no fórum e nas enquetes, resumindo-se a meras fotozinhas na relação de ‘membros’. Interessante ainda, é notar que muitos dos que fazem isto são membros de umas 250 comunidades, levando-nos a pensar que possuem tempo suficientemente livre para lerem todos os tópicos de cada comunidade, por mais absurdo que isto pareça (o que lavaria o indivíduo a viver na tela de um computador, não dormir, comer e beber de frente do monitor entre outras coisas – estranho para quem se diz pagão, do latim ‘paganus’, “morador do campo, rústico, camponês”).

Evidentemente há os que consideram ‘número’ sinônimo de ‘poder’, ‘popularidade’, entre outras coisas, achando-se suficientemente justificados a procurarem ser ‘membros’ (fantasmas) do maior número possível de comunidades, de forma tal que isto reflita sua ‘posição’. Não nos cabe relacionar a probabilidade de cada justificação ou suposição levantada acerca da questão, nem mesmo tentar oferecer explicações coerentes sobre o porquê de tal fenômeno. Mas é fato que, há quem queira estar em “todo lugar” o tempo todo, deixando claro que não está em canto algum.

A internet tem sido uma ferramenta crucial na articulação e organização do paganismo contemporâneo como um todo no mundo inteiro, seja em dimensões institucionais ou práticas solitárias, as ‘comunidades’, pelo menos a mim, se afiguram como uma possibilidade mais concreta de interação e ‘engajamento’ em objetivos comuns. Seria tão difícil assim dedicarmos uma parcela de nosso tempo para contribuirmos com algo para nossa religião? Uma observação, um elogio, uma crítica, uma tradução, uma pergunta, curiosidade, um poema, entre tantas outras coisas? Trabalhar em prol de uma(s) comunidade(s), na medida e na maneira do possível respeitando as características de cada um, inclusive a timidez, talvez seja um bom significado para ‘participar de uma comunidade’. Não que seja o objetivo da vida de qualquer um, mas religiosamente, não percebo o porque de não encará-las como sérias.

Nossa brevíssima tentativa de reflexão, mostrou-se nos muito mais voltada para o ‘despertar’ de um raciocínio próprio e legítimo do que para a censura, crítica ou defesa de um posicionamento radical do que signifique ‘participar de uma comunidade’. Em nenhum momento visamos a depreciação ou desconsideração de algumas formas de utilizar o Orkut, somente intentamos perguntar: será que não haveria outra forma melhor de uso, que valesse mais a pena para o ‘todo’ (a comunidade)? Será que estamos fazendo nossa parte? E principalmente, será que eu devo fazer minha parte e por que devo?

[Final besta, típico da época em que tentava ser mais “polido”; mas cá já está o gérmen do que temos resumido no mote “virtual só se for para o real”].

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