(08-08-2009) Sobre línguas e cosmovisões

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 08/08/2009. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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Enquanto traduzo a parte Labara do livro online Land, Sky and Sea – me deparo com uma tese um tanto interessante: a de que certos termos de uma língua são essencialmente intraduzíveis. No geral, considera-se que línguas possuem esquemas conceituais incomensuráveis, ponto-chave do que convencionou-se chamar de Relativismo Linguístico. Segundo José Medina (2007, p. 140) tal concepção foi desenvolvida por Edward Sapir e Benjamin L. Whorf na primeira metade do século XX, tendo a formulação da hipótese da relatividade linguística como sendo:

(…) a idéia de que nós pensamos e experimentamos o mundo de acordo com a língua que falamos, e que nosso pensamento, nossa experiência e nossa realidade é relativa, em função da nossa língua e pode não ser compartilhada com falantes de outras línguas. De acordo com Sapir e Whorf, línguas que sejam substancialmente diferentes (as que possuem raízes históricas diferentes – línguas indo-européias e línguas ameríndias, por exemplo) contêm diferentes sistemas metafísicos que dividem o mundo de modos diferentes, isto é, de acordo com diferentes princípios de individuação, que reconhecem diferentes conjuntos de entidades (ontologias diferentes). Idem.

Os estudiosos citados, chegaram à tais conclusões estudando as línguas dos nativos norte-americanos, mas cremos que também seriam válidos [os supostos resultados obtidos] para os nativos daqui. Em tupy as formulações verbais são de tal modo diferentes do português que talvez estejamos justificados em pensar que eles experimentem o tempo de maneira diferente dos lusófonos [e dos Indo-europeus em geral]. O pressuposto é simples: as gramáticas moldam a mente dos falantes, suas concepções de mundo e maneiras de experienciar.

Claro, pelo menos eu não acredito que isto tenha um valor fisiológico: não vejo evidências para acreditar que, por exemplo, o sistema de percepção visual (retina, glóbulo, córneas, etc.) de um falante de tupy seja diferente do meu. Mas trata-se justamente do “vejo evidências”, ou seja, aos significados que atribuímos. Isto está também ligado com o problema da indeterminação do significado (e da tradução radical) levantada por W. V. Quine no famoso texto A relatividade ontológica (1975, p. 141). Como bem notou Medina, mesmo Thomas Kuhn – no A estrutura das revoluções científicas – “argumentou que línguas pré- e pós-revolucionárias não podem ser mutuamente traduzidas, a menos que ocorram distorções” (2007, p. 141). Neste sentido, voltando-se ao paganismo mais propriamente, desembocaríamos na linha argumentativa da importância de aquisição de uma língua para a real “mudança” na nossa cosmovisão: nossa ontologia (evidentemente incluindo o campo estritamente religioso) seria diretamente vinculada com a maneira que nossa gramática processa sintaticamente nossos esquemas conceituais. Ou seja, todo aquele discurso de adoção religiosa de uma língua teria um pano de fundo filosófico, digamos, “firme”.

No entanto, ainda com base neste ‘pano de fundo’, me parece que também teríamos também um inconveniente: a adoção de um segunda língua (ou terceira, quarta, etc.) é estritamente dependente – nos contextos normais Cⁿ – da língua materna. Ao menos – chamarei isso de ‘contexto anormal’ Cª – que sejamos educados em um ambiente bilíngüe, e adquiramos as duas línguas simultaneamente. No entanto, não vemos Cª suficientes para os levarmos a sério [no nosso país, crianças sendo criadas como bilíngues é coisa de gente muito rica], logo acreditamos estarmos justificados a considerar apenas os Cⁿ. Ora, se aceitarmos o modelo de aquisição por comparação de uma segunda língua, onde nos deparamos, basicamente, em efetuar comparações e paralelismos (como ao consultar duas listas/tabelas paralelas), a coisa fica mais evidente. Ora, neste aspecto, teríamos a lingua mater como a tabela de estruturação conceitual de referência para a língua que será adquirida. Ou melhor, a segunda língua seria inteligível se e somente se em relação à primeira (lingua mater). E por sua vez, uma terceira em referência às duas (ainda com certa predominância da primeira).

Se assim é, e se nos lembrarmos da implicação com nossa ontologia, a aquisição de uma segunda língua não parece modificar necessariamente nossa ontologia [na verdade, não no nível de ser educado nesta língua, mas pode modificar substancialmente nossas compreensões]. Uma vez que a primeira língua é nossa referência, e com ela nossos esquemas de estruturação sintática e conceitual implicando em nossa ontologia e na “metafísica” que esta língua pressupõe, a aquisição de outra só é realizada em relação com a primeira e com a ontologia da primeira, de modo que estaríamos tentados a conceber que apenas ressignificaríamos a ontologia da segunda língua de acordo com a primeira. E como vimos, caso haja essencialmente uma incomensurabilidade entre línguas diversas, tal processo seria ou impossível ou insuficiente ou inapropriado. Impossível por serem as línguas (a mater e a segunda) intraduzíveis; Insuficiente por que sempre aspectos ou termos de uma língua seriam intraduzíveis e incompreensíveis em referência à lingua mater; Inapropriado por que fomentaria apenas repetições na segunda língua vazias de significado ontológico, ou então adaptadas à ontologia da lingua mater.

Se este raciocínio estiver correto, penso que temos um problema aqui. No que diz respeito à religião, a mudança de cosmovisão pela adquirição de outra língua seria vã sem a formulação de uma intertradutibilidade: faz mais sentido aprendermos outra língua se houver como compreendermos suas construções sintáticas diferentes, e com isso, perceberíamos – em referência à nossa lingua mater – a ontologia subjacente e estaríamos aptos a tentar realizar a mudança de cosmovisão. No contrário, me parece que estaríamos fadados a repetir mecanicamente expressões e construções alheias em contextos específicos.

Outra saída que conheço, foi formulada por Donald Davidson por meio de uma reductio ad absurdum da tese do relativismo lingüístico: se assim fosse, simplesmente não haveria possibilidade de comunicação intercultural. Nos diz Medina:

(…) de acordo com Davidson, a cada vez que somos confrontados com um alegado hiato conceitual, logramos superá-lo de um modo ou de outro; e mesmo se não logramos transpô-lo, não há boas razões para concluir que o hiato é, em princípio, intransponível (idem).

No geral, Davidson argumenta que não pode haver tal incomensurabilidade: a própria existência e percepção de incomensurabilidade pressupõe certa comensurabilidade entre as línguas. Claro, sem querermos nos aprofundar, isto levará Davidson a formular um critério para se aceitar algo como uma língua: que seja traduzível para uma língua familiar (ibid. p. 142). Medina, analisando o argumento de Davidson como um dilema (ibid. p. 143) nota que há um pressuposto de ‘tríplice tradutibilidade’ na concepção de “língua” em Davidison; se uma língua A é traduzível para B, e se B para C, então A é traduzível para C. Medina nos diz que tal pressuposto não é correto, pois pode-se conceber que línguas muito distantes entre si – nesta cadeia de tradução – podem ser diretamente intraduzíveis; apesar de que, no geral todas seriam traduzíveis. Seria como se a tradução direta do kayapó (da Bahia) para o português fosse impossível (pelo menos em certos aspectos), apesar de ser entre o kayapó e o krikati (do Maranhão) ambas do tronco jê.

No meu entendimento, isto não resolve o problema, antes o adia: ao invés da incomensurabilidade entre línguas, teríamos entre grupos linguísticos e famílias. No entanto, e pelas evidências históricas e ambientais, isto me parece mais provável e realista. Me parece também que devemos estipular diferentes níveis de tradutibilidade relativos aos diferentes grupos linguísticos sob aspecto temporais diferentes. Neste sentido, o pressuposto geral que chamamos de ‘tríplice tradutibilidade’ seria mais precisamente válido para certas “recortes”, e no geral seria válido em cadeia: toda e qualquer língua é traduzível, apesar de algumas serem por meio de outra.

Como nosso intuito não foi nos aprofundarmos nestas questões, mas apenas apresentar algumas considerações que acreditamos serem pertinentes ao assunto no meio religioso, nos ateremos por aqui [interessante que este aporte linguístico também pode lançar luzes sobre certa “tradutibilidade” ôntica entre religiões de uma mesma “família”, sendo, penso eu, uma opção interessante para construir uma filosofia com poder explicativo prático, a priori. É importante lembrar que, uma abordagem metafísica “filológica” está registrada na obra do estoico Cornuto, que poderia ser expandida e aprimorada em nossos dias com a reconstrução linguística do Proto-Indo-Europeu. Também é interessante notar que, tal abordagem linguística, pode oferecer um fundamento para a interpretatio enquanto atitude superficial de comparação entre concepções e formas divinas].

Ainda sim, ressaltamos a importância do aprendizado de línguas para o âmbito religioso como auxiliadoras do processo de mudança de cosmovisão (e mesmo parte do processo de aculturação e desprendimento do judaico-cristianismo). Sobre este último aspecto, é interessante notar que boa parte das línguas ocidentais modernas (mesmo as nórdicas ou célticas) se tornaram o que são hoje dentro de contextos formalmente cristãos ou que pressupunham, pelo menos teoricamente, a ontologia cristã. Por isso, muitas vezes acredito que o estudo de línguas não inseridas inteiramente (do ponto de vista histórico e cultural) nestes pressupostos ontológicos sejam mais eficientes, como as línguas arcaicas e antigas em geral. Principalmente quando nos voltamos para culturas extintas e/ou com pouquíssimos vestígios arqueológicos e literários. Estudemos, mas reflitamos também.

Fontes:

JACOB, Pierre. O Empirismo Lógico: seus antecedentes, suas críticas. Tradução: Teresa Campello, Rômulo Gaudêncio do Rego & Giovanni S. Queiroz. No prelo.

MEDINA, José. Linguagem: conceitos-chave em Filosofia. Tradução: Fernando José R. da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2007.

QUINE, Williard V. O. Relatividade ontológica e outros ensaios. Tradução: Assis Pereira da Silva & Andréa Maria A. de Campos Loparié. In Col. Pensadores. Ryle; Austin; Quine; Strawson. São Paulo: Abril S. A. Cultural e Industrial, 1975.

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