(29-01-2014) Resposta aos comentários de um espírita sobre o sacrifício animal

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 29/01/2014 na seção de comentários da postagem “Sobre o sacrifício animal nos dias de hoje” de 16/10/2009. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

sacrifice

Parte 1

Ao espírita que postou cá:

Primeiro, não vou publicar teus comentários por estarem demasiado extensos, e numa extensão desnecessária: parece que escrevestes ou para nos “doutrinar” com proselitismo religioso ou por suposição de que somos ignorantes sobre tua religião. Em ambos os casos, decidi que seria melhor não publicar. Outra coisa: não somos parte das religiões de matriz africana, não é preciso ser especialista para perceber isto, na verdade basta ser alfabetizado. Mas vou te responder, rapidamente.

Primeiro, os pressupostos da doutrina religiosa da tua religião são relevantes para ti e os espíritas, não temos de acatá-los, nem muito menos de depositar alguma fé neles, principalmente quando demonstram fragilidades discursivas e incompatibilidades ideológicas. Allan Kardec não entendia nada sobre druidas e muito menos sobre a religião céltica, sendo, neste assunto em particular, um falsário; sua tentativa de elaborar uma teoria religiosa positivista (para disfarçar-se de “ciência”) terminou por deixar coisas muito desconfortáveis para os próprios espíritas (como o racismo travestido de “evolucionismo” em relação aos africanos e às suas crenças e religiões tradicionais – veja o que ele fala da África e dos africanos no trecho “a perfectibilidade da raça negra” no “Gênese”). Além de que, sua proposta de explicação mediúnica foi prontamente questionada e, dependendo do acordo do leitor, desmascarada como fraudulenta no meio esotérico, seja pelo pessoal da Teosofia (Blavatisky, etc.) seja pelos Perenialistas (René Guénon, etc. no caso de Guénon, este também apontou uma série de erros filosóficos do espiritismo) já há um bom tempo.

De modo que para muitos de nós o aspecto visível das boas ações e caridades dos Espíritas são muito mais respeitáveis que os fundamentos metafísicos e teológicos. Respeitamos claro, e até defendemos o direito de existirem, desde que guardem sua pedância plebéia pseudo-cientificista travestida de “amor-pedagógico-de-evangelização” para si próprios. Por isto, por exemplo, não saio por aí ofendendo nem fazendo proselitismo, nem muito menos demonstrando o que considero serem os inúmeros erros do Espiritismo em blogs e sites espíritas, respeito os espaços deles.

Sobre o sacrifício de animais, a postura de que tal coisa é característica de “espíritos menos evoluídos” não faz sentido dentro de uma mentalidade não-espírita (a mentalidade espírita pressupõem a ‘evolução’ no sentido progressista comteano, e não no sentido espiralar dos Pitagóricos ou mesmo dos Hindus – que justamente expressam melhor sua visão nos conceitos de Palingenesia/Metempsicose). A visão espírita (devedora da percepção linear – judaico-cristã – do tempo e da ideia de “progresso”/evolução do Iluminismo junto com os aprimoramentos deterministas do Positivismo) não é tradicional nem muito menos correta, no nosso ponto de vista. E mesmo um espírita que usa de tal discurso pseudo-angelical de repúdio e “nojinho” do sacrifício animal, com aqueles ares frescos de “evoluído”, e come carne do McDonalds mais próximo com a família no domingo termina por ser um grande hipócrita.

Se a vida de animais inocentes não deve ser tirada para nossa alimentação, mesmo quando sua vida é dedicada ao divino (o mais alto grau de consideração e estima, e isto é o sacrifício animal – o animal é utilizado para a alimentação, e não simplesmente “jogado por aí”), então não se deve comer carne de modo algum – pois toda ela só pode vir da morte animal. E entre uma morte solene e respeitosa (como é a dos genuínos e válidos sacrifícios animais) e a morte profana e mercantilista dos açougues industriais, só uma mente doente pode criticar a primeira em proveito da segunda. Ou seja, se é para ser “espírita evoluído que critica o sacrifício animal”, então seja vegetariano, aí sim respeito teu queixume, pois somente um espírita vegetariano e militante do vegetarianismo/veganismo para toda sua comunidade religiosa pode vir cá recorrer a tais, digamos, “argumentos” sem ser incoerente/hipócrita e merecer alguma atenção. E só depois de fazer seu “dever de casa”: converter sua comunidade religiosa a causa!

Como apontei faz anos (este texto é de 2009!), algo que os Pitagóricos já haviam percebido, só é coerente a crítica vinda de vegetarianos. O sujeito que critica e come um hambúrguer industrializado (ou não) ali na esquina, não deve ser levado à sério. Do contrário estar-se-á repetindo o interdito cristão (feito por pura guerra ideológica/política) de comer carne consagrada ao divino (em proporções orgânicas, pequenas e raras ou em eventuais festividades), mesmo sem saber o porquê, e preferindo ao invés, na prática, uma carne dedicada ao “deus dinheiro” da mega indústria frigorífica. É estar pintando de “defensor dos animais” por modinha, por falsa compaixão, por pseudo-angelicalismo – ou por estultice mesmo.

Até onde saiba (minha mãe é espírita kardecista faz uns 15 anos ou mais, comedora de carne, saliento, e que me fez ler e reler alguns dos livros do Kardec) o vegetarianismo não é bandeira do espiritismo (nem foi), talvez esteja virando agora, não sei (nem me interessa, para ser franco). Os antigos celtas (que não eram vegetarianos, até onde sabemos) reconheciam que esta (a atividade sacrificial) era a fonte mais saudável e digna/respeitosa para obtenção de carne. Se o Kardec soubesse de algo deles de fato e não apenas disseste que sabia (sem o saber), talvez soubesse disto.

Obs. espíritas – respeito-os desde que respeitem o espaço, infelizmente tive de utilizar um tom mais duro e espero que compreendam que o objetivo não foi atacar o sentimento religioso de seu ninguém, mas apenas chamar atenção para não meterem o bedelho onde não são chamados. Estamos isentos da obrigação moral de “dar a outra face”, não esqueçam, encerro por aqui.

Parte 2.

Sr. Espírita.

Não se tratou de “deturpar” intenção – e mesmo que se tratasse disto, estamos justificados, pois não há modo 100% seguro (absolutamente isento de má interpretação) de ler intenções nas entrelinhas, buscando a intenção do autor. Vós, ó espíritos super-evoluídos, mais do que ninguém, deveis saber que é necessário certa mediunidade para ler as intenções dos outros sem que eles as manifestem adequadamente.

Se tratou de mostrar que se é para criticar o abate animais inocentes no contexto religioso – e no indo-europeu, que é o que tratamos aqui, não tratamos das religiões de matriz afro, se tens algo contra elas procura um blog delas para comprar briga – então que se critique o abate nos outros contextos (mercantil, etc.) também, pois o abate religioso nas sociedades Indo-Européias, PRIMORDIALMENTE, cumpre a função alimentícia – nossos ancestrais indo-europeus pré-cristãos, na imensa maioria dos casos, só comiam carne sacrificada/consagrada ao divino – do mesmo modo que os judeus só comem carne consagrada (kosher), como os islâmicos (halal). Se é para criticar o abate com função alimentícia, então que se critique tudo, não apenas os religiosos. Simples assim. Quem não o faz é um grande hipócrita. Ou seja, se é para vir nos espaços virtuais alheios para “criticar”, que se faça o dever de casa antes – primeiro seja vegetariano, segundo, faça uma campanha para tornar todos os espíritas vegetarianos também, etc. Só depois venha dar pitaco com ares de “espírito evoluído” nas fés alheias – o chato é isto, os tais “evoluídos”, cometem erros de coerência moral e lógica primários, cegos pela soberba pseudo-intelectual de seu positivismo “religioso”, e ainda querem se passar por “anjinhos” puros e eticamente “melhores” que o resto da humanidade.

É necessário dissociar-se da mentalidade mercadológica contemporânea de comprar carnes nos super-mercados iluminados, cheirosos com bossa-nova de fundo musical, de carnes limpinhas e embaladinhas/plastificadas. Só após isto, é que podemos discutir os pontos realmente sérios, do especismo e do que há de mais sensato na obra de gente como Peter Singer e de outros nomes do moderno Direitos dos Animais. Estamos tratando de algo arquetípico aqui e se não consegues compreender isto, então, por favor, não percas mais teu tempo cá – dedica-te aos teus “elevados” assuntos arcanos de espírito super-evoluído, blza?

Abraço e boa evolução.

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