(04-10-2010) Sobre os Exclusivismos

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 04/10/2010. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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Tratarei do ‘exclusivismo’ em alguns movimentos Neopagãos. Sim, há [contexto geral que motivou a escrita desta peça na época, pelo menos que recordo: um certo grupo nebuloso de ambições separatistas do Além-mar, criticou-nos por estarmos – nós brasileiros insignificantes – tentando “usurpar-lhes” a reivindicação, ou melhor, a herança Lusitana e tal]. E inclusive naqueles moldes de que que “somos os únicos fodões, autorizados, originais, temos a Verdade” tão característico dos monoteístas em geral. Primeiro, o que é tal ‘exclusivismo’? Não é difícil, é a postura de que determinada coisa é um pertence exclusivo e inalienável para um determinado povo/etnia/raça/cultura, etc. Isto se expressa tradicionalmente na noção do “escolhido”, do “povo eleito”, quanto nas posturas das culturas sob ameaça de extinção – numa espécie de complexo do perseguido [a degeneração do Vitimismo].

Para que o exclusivismo seja eficiente, é necessário obscurecer o máximo seus pressupostos fundamentos, de modo a torná-los referencialmente opacos e inverificáveis. Por um motivo simples: se forem verificados e claros o suficiente para que alguém de fora do grupo exclusivista os analise friamente, põe em risco o próprio exclusivismo ou a advocação deste [no caso do tal grupo, os sujeitos reivindicavam a existência de um livro Revelado, escrito em lusitânico antigo e preservado de geração em geração, às escondidas – um tal de “Livro da Luz” – aquela conversinha fiada similar a de certas bruxarias fraudulentas; creio que seja a ACEL – “Associação para Cultura Étnica Lusitana”, algo assim, não sei se ainda existem]. Em todo caso, há exclusivismos diferentes:

O primeiro é o exclusivismo “natural” [termo horrível! Neste caso, se trata, somente, de uma postura política identitária real, assentada num etnocentrismo orgânico].

Por tal expressão, me refiro à um tipo de exclusivismo cujas fundações são as mais claras possíveis, já que não interessa o “impressionar” os outros ou legitimar a todo e qualquer custo uma posição política, mas o preservar tradições autênticas asseguradas por um continuum histórico verificável. Este é o caso, por exemplo, que enquadro a famosa declaração de guerra dos Lakota norte-americanos. Um povo que tem sua tradição milenar preservada (verificavelmente) sendo deturpada por grupos extra-étnicos/culturais utilizada com fins alheios aos originais, sem consulta e envolvendo mesclas e ecleticismos alheios à tradição. Neste caso, acredito que o exclusivismo é justificado num dado sentido. Afinal, é um ato demarcatório que visa a sobrevivência do saber/prática tradicional por parte dos legítimos herdeiros (tal herança pode ser verificada através de continuum histórico) destes. No entanto, à uma pessoa de fora, por ser de fora, não está necessariamente vedado o acesso, desde que a pessoa, adote integralmente e de forma sincera tal cultura/saber/práticas, etc.

Acontece isto aqui no Brasil e noutros lugares. Por exemplo, os nativos indígenas, ao constatarem que em alguns casos, os jovens da tribo não estão minimamente interessados na preservação da tradição, podem eventualmente, acolher alguém “alógeno” que resolva, de forma sincera e integral, adotar tal cosmovisão. O caso do famoso neoxamã bestseller Carlos Castañeda é um exemplo, na melhor das intenções. Daí parte aquele vocabulário já conhecido da maioria no mundo Neopagão, de que fulano “tem a alma índia” (apesar do corpo de branco, ou de africano, etc.) – ou seja, que x apesar de compartilhar de características genéticas não-y, é reconhecido pelos y, como y num dado sentido (na maneira de pensar, ou com a alma y, etc.). Esta visão não é de espantar. Afinal, boa parte das concepções tribalistas antigas acreditavam, de alguma forma, na sobrevivência da alma e mesmo na transmigração de almas. Daí que é perfeitamente lógico e possível (nesta visão) que uma alma de y, possa ter adotado um corpo x.

Nesta visão, o exclusivismo é menos geneticista/racialista [na verdade, esta é a base da concepção tradicional da “raça” como algo, eminentemente espiritual, nos termos do Evola, apesar das influências e do contexto no qual o sujeito escreveu], e mesmo quando o é, mantêm ainda uma brecha natural para o acolhimento do real interessado, mesmo que alógeno ao grupo: pois, para utilizar termos schopenhauerianos, a Vontade interessa a persistência da espécie (diria neste caso, da sobrevivência da Tradição). A permanência da Tradição é mais importante. Claro que contingências políticas podem dificultar ou facilitar isto. Aqui mesmo, os que adotaram uma visão exclusivista e foram extintos (culturalmente ou linguisticamente) o foram mais, pela falta de interesse genuíno de alógenos (brancos, negros, etc.), do que pela negação dos exclusivistas em “abrir-se” ou ceder ao “radicalismo exclusivista”. Não é necessário procurar muito para verificar isto, aqui no estado paraibano mesmo [me referia ao caso dos indígenas alocados numa reserva  cá no estado, cuja cultura e religião foram dizimadas e cujas tentativas de “reconstrução”, mesmo hoje, partem mais de Brancos do que dos mesmos!].

O segundo é o exclusivismo “artificial”

Por tal expressão me refiro ao exclusivismo cujas bases são ofuscadas, tornadas inverificáveis ou com referenciais opacos. São construídos assim pelo fato de que o está em jogo, é a aquisição de poder em uma dada esfera [utilizando uma reivindicação  de herança propositalmente inverificável – por ser fraudulenta!]. O que está em jogo é a legitimação a todo e qualquer custo. Não há “preservação”, pois, se trata de construções contemporâneas que tentam se passar por tradições milenares que foram mantidas ocultas por séculos. Este é o mal de passar gato por lebre. É uma forma de desonestidade intelectual. Em alguns casos, até compreensível (que não é o mesmo que aceitável), dado as circunstâncias históricas, de uma suposta perseguição ideológica ou exclusão social. Isto é longamente conhecido no mundo Neopagão [na verdade, na Wicca e nas Bruxarias de todo tipo], principalmente nos tempos passados (há uns 30 anos atrás), quando o acesso a informação era bem menor e era mais fácil enganar as pessoas, no que diz respeito à assuntos de difícil pesquisa, ou ainda por cima, supostamente reservados à círculos de sábios ocultos e fechados!

Mas isto ainda persiste. Não só persiste na neura do pedigree wiccaniano (é, conheces já… Aquela historieta de que há famílias que preservaram às escondidas as MESMAS práticas da época de ouro do matriarcado ou dos tempos pré-cristãos, blá, blá, blá..). Como isto é inverificável (não temos uma máquina do tempo, e ainda por cima mesmo que tivéssemos, e fôssemos entrevistar os ditos ancestrais que viviam preservando ocultamente saberes especiais pré-cristãos e decididamente não-cristãos em tempos cristãos, estes não nos relevariam, provavelmente de modo algum – por que era segredo de família!…) ficamos na difícil opção de aceitar credulamente, rejeitar também credulamente, ou verificar pessoalmente. Quando esta última opção é permitida, e quando é realizada por algum especialista/cientista da área, geralmente temos decepções das já bem conhecidas; que terminam por lançar descredito à todo o movimento e escancarar as fraudes.

Foi o caso das Barddas de Iolo, de alguns Covens e “linhagens” da Wicca, etc. Este tipo de exclusivismo tende a ser mais radical (isto é simplesmente uma manobra que visa não só afastar potenciais desmascaradores, mas tornar inalcançáveis/inverificáveis as bases), por que forja discursivamente um continuum histórico falso ou simplesmente inverificável. Daí que tende a ser mais geneticista/racialista ou incondicionavelmente fechado para “alógenos”, estejam estes inteiramente dispostos e devotados mais até que alguns dos membros do grupo exclusivista [bem, além destes citados, também caberia certas viagens que reivindicam linhas de sucessão iniciática “nazi” – é o caso da tal Sabedoria Hiperbórea: uma salada esotérica gnóstica pseudo-evoliana, imersa num besteirol iniciático inverificável acrescido de uma constante afirmação de superioridade e senso de “eleição” por parte dos crentes – quase como um Sionismo cabalístico].

Ah, mas isto não acabou, certo!? Não.

Há uma forma bem antiga (preservada de certa forma no Judaísmo, por exemplo), mas há uma nova forma deste tipo de exclusivismo que tem se infiltrado, inclusive, nos ditos grupos de tendência reconstrucionista. Isto está claro em alguns grupos eslávicos e do leste europeu [me referia, creio, a polêmica em torno do tal “Livro de Veles”], mas também inusitadamente (e de forma mais hilária) em alguns grupos estadunidenses e até portugueses [e aqui aparece o motivador, a tal “ACEL”]. Há a confusão primária (talvez advinda da maneira ainda maniqueista-judaico-cristã de pensar) entre a proposta da reconstrução (que por si só, pressupõe a interrupção do continuum histórico de alguma forma, e daí a noção de herança legitimamente inquestionável) e ideias nacionalistas ultrapassadas [na verdade, supremacistas]. Ultrapassadas, não pelo nacionalismo em si, mas pelo apego ao velho modelo (que não era o “modelo” das antigos povos tribais – cuja noção de “nação” em sua maioria, simplesmente não fazia sentido pela sua “artificialidade” – mas apenas da Europa pós-medieval e romântica) mesclado a teses racialistas.

E para legitimá-lo, como sempre, se recorre a todo tipo de falsificação e distorção conforme apontamos acima. Para este modelo, uma pessoa considerada “alógena” (e é necessário muito pouco para isto, pois é sempre de acordo com a conveniência – mesmo pessoas do mesmo país, de ancestrais majoritariamente comuns, de costumes e língua comum, são considerados alógenos!) NUNCA deve ter acesso ou pode adotar (não importa o quão compromissado, sincero ou trabalhe bem) o que os exclusivistas o negam. Não pelo bem da “preservação da Tradição” (no caso dos reconstrucionismos modernos, pela melhorar qualitativa do trabalho de reconstrução e maior abrangência e eficiência deste), mas pelo simples complexo do perseguido, ou uma birra virulenta. Para estes, o trabalho de Reconstrução (a “Tradição”) não vem em primeiro. No caso religioso – e para as que ressurgem agora e com base em poucos vestígios/fontes – isto é mais danoso, pois verte aos inimigos do Politeísmo Étnico como um todo, mais ferramentas e brechas para minar o movimento (tanto por fora, quanto por dentro).

Bem, para adiantar, não creio que tal tipo de exclusivismo seja defensável, pelo seguinte:

  • Postular um continuum histórico inverificável ou simplesmente falso
  • Levar a interpretação propositalmente simplista ou condicionada de fatos históricos em favor do exclusivismo adotado [distorcer enviesadamente, ou como se diz hoje, promover um revisionismo daninho]
  • Usurpar com bases obscuras, de referência opaca ou inverificáveis, a herança histórica de uma grande população, atribuindo-a à uma minoria arbitrária como justificação para uma construção identitária
  • Favorecer a instrumentalização da Religião pela Política [em termos modernos]
  • Permitir as manobras covardes de construções argumentativas ad hoc [no sentido de Karl Popper usa] de auto-afirmação ao invés de abrir a possibilidade de melhoramento, verificação ou constatação. Assim como permitir o cultivo de falácias e sofismas desnecessariamente
  • Ser incongruente com as culturas antigas ou com boa parte de seus valores que se propõem a reviver, seja pela imersão de posturas políticas anacrônicas seja pela contradição evidente (por exemplo, se os antigos z tinham como valor chave a defesa da honestidade, honra, amizade e justiça – os exclusivistas artificiais, pseudo-reconstrucionistas dos antigos z, agem desonestamente, sem honra, incitando inimizades e de forma injusta)
  • Retirar qualquer autoridade moral para criticar ou se diferenciar posturas religiosas fraudulentas das religiões majoritárias
  • E por último (nesta lista), favorecer a desunião mais que a união entre o movimento atual, cujo momento histórico, me parece, requerer mais união para crescimento mútuo. E união NÃO significa – exceto em algumas mentes maniqueistas – homogenização universalista.

Apesar de existir tal exclusivismo artificialista, temos já iniciativas exemplares de organização. Os Ásatrúares foram os primeiros a se organizar de forma adequada, e estão espalhados pelo globo todo, e não apenas nas regiões onde os escandinavos “originalmente” habitaram. Nova Roma é outro grande exemplo de organização, assim como a Romuva. O ΥΣΕΕ é outro exemplo de como uma crença étnica, mesmo sendo étnica, não está necessariamente e exclusivamente confinada a meia dúzia de pessoas. O mundo RC tem caminhado para um nível organizacional semelhante [bem, 8 anos depois, quase, diria que esta afirmação foi demasiadamente otimista]. Isto me parece anunciar um novo paradigma para as identidades neste século, onde as fronteiras existem e muito bem marcadas, mas não como no velho modelo. O ‘modelo’ tribal ancestral que nos inspira retorna virtualmente e talvez se manifeste presencialmente…

Bem, era o tempo de compartilhar estas reflexões. Que como tais, são revisáveis. Há outros argumentos que não expus e que talvez devia ter exposto. Que o poderoso senhor Reus aclareie nossas mentes e nos permita tornarmo-nos mais sábios.

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