Por uma música pagã realmente espiritual

sangre cavallum

Ainda não há algo que possamos chamar de “cena musical iberocelta”. Apesar da existência por décadas de artistas dedicados ao resgate dos sons folclóricos, a impressão é de algo apenas voltado para a música. Veteranos galegos como Luar Na Lubre, Fuxan os Ventos e Milladoiro são importantíssimos ao abrir caminhos musicais e folclóricos a serem desbravados, mas não há um politeísmo palpável em suas obras. Não é música em honra dos deuses e ancestrais. E é isso que falta para que nossa música desempenhe um papel realmente metafísico: A intenção religiosa.

Não falo de música necessariamente ritualística, apesar dela obviamente também ser necessária. Precisamos de canções folclóricas que sirvam de portais para as gerações mais jovens, portais para uma visão séria de nossa fé ancestral. Música com um real compromisso com os deuses. Como arma de resgate e preservação das práticas espirituais de nossos ancestrais.

Existem, de fato, alguns artistas que se encaixam em tais características e que devem servir de inspiração para futuros projetos.

O primeiro nome a surgir na mente da maioria, não por acaso, deve ser o do Sangre Cavallum. Sem dúvidas é a banda mais conhecida a abordar a tradição ibérica pré-romana. Entretanto não podemos classifica-los como uma banda de folk puro. Suas raízes, além do estilo citado, estão em outros como o pós-punk e o pós-industrial. Em entrevistas, os músicos citam inspirações como Joy Division e Death in June aliadas às óbvias influências do folclore minhoto. Destaco também o uso, em algumas poucas canções, de guitarras distorcidas típicas de estilos mais agressivos. Todos esses elementos levam a banda a ser rotulada no que acostumou-se denominar de “Neofolk”. Estilo que interpreto como a utilização de elementos folclóricos para a criação e performance de canções não-tradicionais.

Compondo canções dentro de um estilo mais rústico e próximo de um som folclórico arcaico, está o excelente Arde Fero, da região de Braga. O álbum “Achega Solar” cria paisagens sonoras ancestrais que possuem um inegável cariz espiritual e ritualístico. Nas palavras do próprio artista, no encarte do álbum citado:

“Quando a besta aos nossos olhos ascende a um totem de força, vigor, virilidade, herança e prosperidade, passando ela mesma a ser a honra e orgulho do povoado. Caiem então as fronteiras que separam os gêneros, homem e besta possuídos por uma força transcendente das leis naturais, comungam num mesmo círculo. Forças colossais chocam frente a frente, numa comunhão de suor e sangue, na lavra de força bruta que ascende ao apogeu em sucessivos ciclos da achega de bois. Indo ainda mais além numa Achega Solar, aquando da morte do Boi velho nascerá o Boi novo. E a herança perdura, e os cornos ressoam”.

Numa linha parecida estão os espanhóis do Àrnica. O diferencial nesse caso é a origem dos músicos no Black Metal, elemento que se faz presente na utilização de vocais gritados em algumas faixas. Vocais que aumentam ainda mais a atmosfera primitiva, pagã e misteriosa. Tal como numa simbiose entre homem e lobo.

Aproveitando a menção ao Black Metal, é ainda mais escassa a presença de bandas do estilo com elementos musicais do folclore iberocelta ou até mesmo apenas como tema lírico. Fato curioso numa cena tão ligada à ancestralidade. Dois nomes merecem destaque: Os já veteranos do Azagatel, que começaram abordando outros temas em seus trabalhos, porém em seu segundo álbum abraçaram a ancestralidade ao versar sobre nossos deuses e heróis. Títulos de canções como “Endovélico”, “Nábia Corona” ou “Viriato” já falam por si. Recentemente, em algumas novas composições e até mesmo em apresentações, tem utilizado um estilo puramente folclórico, sem o peso do Metal.

Numa linha de Black Metal mais cru, tanto em termos de produção quanto de execução, destaco a misteriosa banda Cripta Oculta. Seus integrantes anônimos tocam um estilo semelhante ao das bandas norueguesas do início da década de 1990, com toques de melodias em flautas e letras abordando nossa mitologia ancestral.

Destaco que todos os exemplos citados são de artistas da Península Ibérica. No caso do Brasil, é ainda mais escassa (ou inexistente) a presença de artistas dedicados à fé iberocelta, onde a esmagadora maioria parece interessada em outras vertentes, como a irlandesa. Fato curioso e até mesmo triste, dada a ancestralidade de boa parte de nossa população.

O objetivo desse rápido resumo é mostrar a existência de alguns artistas que parecem criar sua música dentro de uma visão séria, profunda e ativa de politeísmo iberocelta. E com isso, mostrar a viabilidade dessa mesma visão e a necessidade de que esse tipo de compromisso espiritual frutifique em novos nomes a atrair aqueles que mesmo inconscientemente já ouvem o chamado dos deuses. Precisamos romper com a superficialidade da maioria (inclusive na Península Ibérica) influenciada, por exemplo, pela cena alemã de “folk mainstream”. Cena que passa a impressão de encaram o politeísmo e o folclore como grandes festas a fantasia em honra a estilos de vida e visões de mundo que em nada dialogam com nossos ancestrais.

Precisamos de uma arte pagã imbuída de religiosidade, que nos aproxime de fato dos deuses.

 

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Uma opinião sobre “Por uma música pagã realmente espiritual

  1. Muito boa matéria! Tenho pesquisado sobre isso sem sucesso. Não conhecia algumas das bandas citadas, grato pelas informações!

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