O Que Os Deuses Querem De Nós

É comum encontrar pessoas novas no Reconstrucionismo e no Druidismo atados a alguns conceitos cristãos, como a ideia de que a divindade observa os seres humanos – onipresença, onisciência -, que os julga e terá com seus devotos uma relação parental e afetuosa. É para desconstruir estes conceitos e levar a uma compreensão do que de fato é a vivência e a relação com os deuses Celtas que a leitura da mitologia é essencial. Diria até, que não só a leitura da Mitologia Celta, mas a de toda a Indo-europeia, ajuda na compreensão dos deuses e dos paradigmas indo-europeus em contraste com os judaico-cristãos.

O indivíduo que lê de forma crítica a mitologia dos deuses Celtas e demais indo-europeus logo percebe que os deuses não são Pais celestiais vigiando o comportamento de seus filhos e prontos a perdoá-los diante do arrependimento por seus erros. Tampouco são os deuses Mães nutridoras de puro amor, afeto e atenção. Não. Os deuses dos Celtas não são nossos pais e nossas mães e eles não nos vêm como crianças, como seres centrais no Universo que demandam sua atenção e amor constantes. Os deuses nos vêm com a mesma importância que toda a natureza tem: os rios, as árvores, assim como os animais. Não apenas nós, mas toda a natureza espelha os deuses, e por isto têm igual importância. Nós somos apenas parte da sacralidade, e os deuses não são uno, nem oniscientes, onipresentes ou onipotentes. Eles têm toda a natureza para manter em Ordem contra as forças destrutivas.

Quando o indivíduo dá-se conta desta premissa inerente a todos os povos indo-europeus, toda a sua visão de Cosmos muda. Antes central, ele passa a se ver como um colaborador dos deuses, alguém que pode ajudá-los na eterna guerra contra as forças destrutivas que se manifestam nos antagonistas do divino, e, também em toda a natureza, na forma de intempéries, e em nossa mente eespírito. Os deuses não querem que nós nos arrependamos quando perdemos nossas próprias batalhas interiores para o caos em nós, o mínimo que eles esperam de nós é que cresçamos e que enfrentemos as consequências dos nossos atos.

Isso não é fácil. A mitologia indo-europeia tem como pano de fundo a constante luta entre a Ordem e o Caos na natureza humana. Seja em histórias dos deuses, seja dos mortais, estamos sempre superando ou sucumbindo. O tema das Geis na Mitologia Celta nos mostra como grandes heróis podem padecer pela impossibilidade de cumprir com um dever sem descumprir com outro. É injusto. A mitologia não é justa. Mas tampouco é  a vida. Nascer, crescer, sobreviver em sociedade e morrer sempre foi difícil e injusto. Mas ninguém assinou um contrato antes de nascer no qual constava que a vida seria justa, não é?

E os deuses adoram esse drama. Eles se reconhecem em nós quando estamos entre um dever e outro, ou quando as tentações põe nossa honra à prova, e, um momento de fraqueza turva nosso julgamento e nos leva a fazer o mal. Eles sabem bem como é isso. E eles adoram quando nos vêm triunfar, quando nossa astúcia ou nobreza de caráter nos fazem superar-nos a nós mesmos, a nossa natureza, pois é assim que nascem os heróis. Os deuses se regozijam ao ver predominarem a melhor parte das características em comum que temos com eles. Nestes momentos, eles nos adoram. É assim que conquistamos a sua atenção e amizade, e que, por vezes, eles separam um pouquinho de seu tempo para vir nos acudir quando necessitamos.

Fergus MacRoich se viu numa encruzilhada no conto Os Filhos de Uisnech. Ele devia escoltar os filhos de seu amigo Uisnech: Naoise com seus dois irmãos e sua esposa Deridre, que voltavam do exílio e temiam o ataque do rei Conchobarr. Fergus deu sua palavra nisso, sua palavra de honra aos filhos do amigo para que voltassem, pois ele os protegeria. No entanto, havia sobre Fergus uma géis que o impedia de recusar o convite a uma ceia, qualquer que fosse, e, por medo de descumpri-la e cair em desgraça, ele abandonou os filhos de Uisnech a sua própria sorte.

Conchobarr atacou e matou-os, Fergus lançou sua ira sobre alguns vilarejos do rei, rompeu com ele os laços e exilou-se na corte de Aillill e Mebd, vindo posteriormente a ter de ajudá-los na invasão de seu próprio país, o Ulster. Ser honrado é difícil, sempre foi e sempre vai ser. Teria Fergus escolhido cumprir o mais fácil dos deveres quando escolheu pela ceia em detrimento dos filhos de Uisnech? Eu penso que sim, penso que ele fraquejou aí e as consequências que ele enfrentou não foram só a desonra, mas a culpa, e a desgraça de por outro juramento ter de, no futuro, invadir seu próprio país e lutar contra seus amigos.

Quando o deus Nuada, Rei dos Deuses, perdeu sua mão em duelo contra Sreng, ele não pôde mais governar e foi deposto. O principal, o mais importante, ele havia feito, conquistado o território para seu povo, mas um momento de fraqueza lhe custou a mão e o reino. Um único momento de fraqueza, e as consequências não foram só estas: A deusa da Soberania da Terra, Boann, sua esposa, o traiu. Mas notemos que Boann também estava em uma encruzilhada quando traiu o esposo. Como deusa da Soberania da Terra, ela é deusa da Fertilidade também. Procriar, ser fecundada, estender suas bênçãos sobre o solo e o gado são a natureza de Boann – é instintivo para ela, é sua força cósmica. Contudo, ser leal e fiel é o que qualquer um deve ser, afinal o juramento, a palavra dada, são de suma importância na Cultura Celta e nas demais Indo-europeias.

Pode ser muito difícil manter a palavra dada e a lealdade em certas horas, e por vezes, nos momentos de fraqueza daqueles que mais nos amam e precisam de nós, é que nosso julgamento pode se turvar. Ninguém gosta de fraqueza, ninguém gosta de gente chorona. Boann honrou seu dever e sua natureza, deitou-se e foi fecundada pelo Dagda, abençoou toda a terra e ficou em paz consigo mesma. Mas ela apunhalou Nuada justamente quando ele mais precisou dela, pois foi quando ele esteve vulnerável, e as consequências também vieram para Boann. Ao tentar purificar-se de seu erro, a Fonte da Sabedoria lançou contra ela 3 ondas que despedaçaram seu corpo e a transformaram no Rio Boyne. Desde então Boann é somente aquilo que escolheu ser, a deusa da fecundidade. Nuada se recuperou, conseguiu uma mão de prata que substituísse a amputada, e voltou a reinar.

Será que Boann também optou pelo mais fácil dos deveres? Bem com certeza, ela optou pelo mais prazeroso deles. Todos somos fracos, todos estamos sujeitos a errar, nem mesmo os deuses são imunes a isto. Se a vida é injusta e difícil, também o é a imortalidade. Então, quando estivermos fracos e cansados, com o julgamento eivado de dúvidas e receios, prestes a sucumbir, lembremos que não está difícil só para nós, que viver é isso mesmo, e as dificuldades são o que nos dão a oportunidade de sermos nosso próprio herói, e também, daqueles que estão ligados a nós.

Há quem procure pela perfeição e atribua também esta ideia ao divino. Há quem queira crer que a natureza é perfeita. Ela não é. Perfeição não existe nem mesmo entre os deuses, como a mitologia nos permite ver. Não temos que ser perfeitos, pois não poderemos ser sempre fortes e sábios. Por isso, em detrimento da perfeição eu proponho a excelência: a superação dia após dia, a elevação pessoal, o aperfeiçoamento contínuo – uma batalha por dia, uma vitória por dia e, assim, o júbilo constante.

Por isso não ore aos deuses por seus favores ou afagos, não queira a piedade deles: eles não têm tempo para isso. Evite a autocomiseração. Ore, ao invés disso, para convidar os deuses a contemplar seus esforços e suas conquistas. Os deuses nos querem como aliados, não como fardo. Seja você um mito pessoal, seja seu próprio herói, e se for capaz, seja o herói dos que estão a sua volta, este é o caminho da honra, da ascese e da comunhão com o divino.

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