Tempo e profecias

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“Tradição Profética” – Boris Olshansky

Tempos turbulentos de um interregno, talvez das convulsões (que tendem a piorar) antes de uma Grande Guerra, se afiguram e já não são passíveis de serem ignorados até pelo mais insensível (espiritualmente) dos mortais. Os mortais bicéfalos, imersos e anestesiados pelo turbilhão ruidoso da guerra político-midiática, acham que se trata apenas de uma leve polarização política global, causada, talvez, pela recusa da Esquerda e dos Liberais que se acham de Direita em acreditar que Conservadores e Nacionalistas ainda vivem – quando acreditavam, ainda festejando, que já estavam mortos e enterrados faz tempo. Mas e se não for só isso?

Os Deuses, vivos e potentes, agem no Mundo. Se assim for, suas forças poderão influir ou guiar certos sujeitos poderosos (sob a perspectiva política mortal), mesmo que estes não creiam ou saibam. Percebam, não levanto uma hipótese absurda (ou que pelo menos não deveria parecer assim para o público que cá frequenta): Camões parte dela nos Lusíadas. E sob uma perspectiva mais Tradicionalista, que tende a reconsiderar certa inseparabilidade entre ‘Religião’ e ‘Política’, aí que as coisas tendem a ficarem mais interessantes ainda.

Óbvio que, sob a perspectiva ultra-moderna, há um esforço teórico e prático comunal de opacidade espiritual na ação político partidária das democracias ocidentais, de modo que, talvez, algum leitor se queixe de ser “impossível” tal ação divina hoje, por causa de um bloqueio “mágico” secular e periodicamente alimentado, inconscientemente, por intelectuais direcionando a Vontade (o “Gênio”) coletiva. Penso que, sob a perspectiva da Micropolítica partidária local, ou mesmo em certo nível nacional, realmente, o mundo humano trabalhou de modo a afastar profundamente as Luzes Divinas da Política. Mas penso que no nível “Global” é algo incontornável: o Poder dos Deuses é demasiado grande e o que está em “jogo”, demasiado importante para que Eles não se envolvam.

Pelo menos me parece mais justificável conceber que certos Deuses não estejam lá tão envolvidos com a desgostosa e, não raro, vergonhosa política brasileira de nossa época. Mas como não creio que exista “Vácuo de Poder”, assumo que alguns poderes têm combatido por cá, só não creio que sejam exatamente os que cultuo: os Deuses da Ibéria, como os Celtas em geral, são demasiado, digamos, “diretos”, se estivessem agindo cá ostensivamente um banho de sangue já teria varrido nosso território e purificado a terra faz tempo. Até creio (no futuro pretendo desenvolver este pensamento melhor, mas aviso que é algo que também abrange certas coisas aqui como o sacrifício messiânico-sebastianista de 1838 na Pedra do Reino, por exemplo) que influenciaram algo cá até a época do segundo Império e que por algum motivo que ainda não sei bem, se ausentaram – como que se “abandonassem”… (apesar de Reus trovejar em nosso céu, também, como sinais recentes confirmaram). Se cá no Brasil, são os Poderes Nativos que talvez até se divertam vendo o Caos que nós mesmos fomentamos (especialmente se cultivarem algum “ranço” pelo que fizemos aos nativos), ou se são Forças da África ou “Catalizações” semítico-cristãs, ou se tudo isto (incluindo as forças Indo-Europeias) conflitando entre si, não faço ideia.

Claro, esta discussão depende de muitas premissas: modos de conceber a ação e existência dos Deuses (uma postura politeísta “hard” terá uma abordagem e teoria totalmente diferente de uma postura henoteísta, por exemplo), uma Teoria da História sob nossa perspectiva religiosa que apontará para umas interpretações plausíveis da história de nosso país, o papel do culto atual (se possui alguma relevância) para a ação dos Deuses na realidade cultural local, etc. E os comentários acima, meio que partem de um certo conjunto destas premissas que se forem esmiuçadas, tomarão muito espaço e nos levarão para longe do objetivo deste texto, além de que, deixo claro, algumas estão em desenvolvimento e/ou maturação.

Mas então, para que toda esta conversa até agora? Simples, para chamar atenção para a retomada de algo que pode nos auxiliar, enquanto indicativo, sinal: o vaticínio de importância coletiva. Por “Vaticínio de Importância Coletiva” me refiro a uma prática consensualmente alicerçada, em termos ortopráticos, da formulação de vaticínios de amplitude comunitária. O Neopaganismo, talvez por se afastar salutarmente de usos monetários quase-charlatanescos de certas figuras esotéricas, traz uma visão quase que “solipsista” do uso de oráculos, reduzindo-os quase que a puros mecanismos de auto-conhecimento. O vaticínio para o grupo, para a comunidade (inclusive a mais ampla, nosso país, continente e o mundo!), é algo ausente (claro, há exceções, poucas, mas há) no horizonte do Neopaganismo. Não precisamos incorrer no mesmo erro.

Em um contexto ideal, tal vaticínio seria o “resultado” do que aconteceria dentro dos padrões ortopráticos tradicionais nos diversos grupos espalhados. Numa data específica (final do Samonios, por exemplo, início do Novo Ano litúrgico), os vates dos grupos publicizariam (talvez entre eles, reunidos [virtualmente] numa espécie de collegium, similar as corporações bárdicas e “veléticas”¹ da Irlanda ou Gales do Alto Medievo) um *wātus (um poema profético, um vaticínio poético). Se pensarmos que esta reunião anual de vaticínios diferentes sob uma ideia de “acordo” de confirmação, mais do que um simples somatório de versos proféticos isolados, vai requer uma atividade intelectual de certa exegese e hermenêutica posteriores ao momento místico de Inspiração (*awets) da revelação do vaticínio em si, esta espécie de collegium será mais do que necessário.

Além de que, sob uma perspectiva mais filosófica, este trabalho de depuração hermenêutica coletiva e posterior, melhorará, metodologicamente, as chances de separarmos puras UPGs, eventuais informações conflitantes (que serão sempre erro humano, considerando a infalibilidade divina e a validade da ortopraxia) e mesmo uma construção mais robusta de teorias metafísicas acerca dos vaticínios em si. Além de que se terá mais chances de corrigir eventuais erros de execução ritual, etc. Ou seja, um “corpo” de áugures/vates dedicados e treinados diminuirá a chance de erro/suspeitas e, por decorrência, aumentará a autoridade e aceitabilidade do vaticínio.

Mas não é só a observância estrita da ortopraxia (o que envolve uma compreensão do Tempo Sagrado adequada, também) que poderá aumentar a aceitabilidade e autoridade do vaticínio, apesar de ser uma condição do tipo sine qua non. Certos locais, por sua configuração de *neybos específica, “gerada” (por intervenção divina ou artifício humano) ou “renascida”, também poderá ser um facilitador. Do mesmo modo como se os helênicos reconstruíssem o Templo de Delfos, e o mais importante, o reavivassem com confirmações de sucessivos sinais de que Apolo uma vez mais profere por lá, uma vez observada a ortopraxia, tal oráculo naturalmente ganharia notoriedade e aceitabilidade; seria o caso do renascimento de um centro oracular na Terra Ancestral (Portugal e Espanha), que também observasse a ortopraxia e mantivesse um certo collegium de vates. Hoje, inclusive, se pode ter virtualmente um só collegium ou algo que reúna os collegia nacionais de lá e cá (o mesmo com outras religiões irmãs: seja entre helênicos, romanos, germânicos, etc.).

É importante frisar que, historicamente, centros oraculares no mundo Indo-Europeu variaram em termos locais, alguns sendo concebidos como “perenes” (geralmente, míticos) e outros como sendo concebidos organicamente, com “geração”, “ápice” e “declínio” (se bem que hoje, por vezes, é difícil separar o que era compreensão genuína do que era propaganda difamatória cristã, por exemplo, buscando desqualificar “milagres” ou ações divinas dos Deuses “pagãos”). Mas em um cenário ideal, poderíamos vislumbrar o retorno de Centros oraculares iberoceltistas em Portugal, na Espanha e o surgimento cá e em outros países da Ibero-América – talvez independentes mas dialogando entre si, talvez unificados, não sei. Mas fica cá a visão.

Então, se o *dedmāts (o costume, a Tradição, o rito sagrado) é seguido corretamente, na *amsterā (a ocasião, tempo sagrado) adequada e dentro do *nityos (o local) auspiciosamente configurado, ou seja no *nemetom (o santuário), teremos *kaylom (o sinal sagrado, o augúrio) visto por um *wātis (vate) ou *welets (adivinho, poeta inspirado) embebido em *awets (a inspiração divina), pronunciando seu *wātus (a profecia inspirada, o vaticínio). Se os Deuses permitem, invoco-os para que despertem no leitor desperto o que é Verdadeiro, se o for, que crie raízes, se não, que não brote sequer. Arrisco duas tríades que resumem isto: a fundação da profecia: *dedmāts, *amsterā e *nemetom; a execução da profecia: *kaylom, *wātis e *wātus.

Sondemos os sutis padrões que se formam e o que os Deuses nos apontam até mesmo para que possamos, se necessário for, nos preparamos para as batalhas, mas não caiamos na cegueira viciosa da “manciolatria” em si mesma: um sábio grego, divinamente inspirado, disse há muito tempo atrás sobre o mais famoso oráculo que conhecia: (…) οὔτε λέγει οὔτε κρύπτει ἀλλά σημαίνει (Heráclito de Éfeso, fragmento 93. “O senhor, cujo oráculo está em Delfos: nem diz, nem esconde, mas significa”).

¹”veléticas” foi um adjetivo que inventei a partir do Proto-Céltico *welets.

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