Sangue, Suor e Pedras

Citania de Briteiros, Guimarães, Portugal.

   [Originalmente publicado no blog slakkosabonos.blogspot.com]

Três coisas que dão aos mortais pertença à terra e sobre ela: Suar, sangrar e mover pedras de lugar. Suar preparando o solo, semeando, colhendo, lutando, movendo pedras, construindo, enquanto cai o fluido sobre a terra. Verter sobre ela seu próprio sangue e dos seus companheiros, que se dispõe a serem defensores dela, ou daqueles que lutam contra você. Verter sobre a terra o sangue do parto, e, finalmente o do sacrifício dos animais em graças pelas dádivas alcançadas e para alimentar sua tribo.

Quando se sangra e sua sobre a terra cria-se com ela um vínculo orgânico, biológico, que liga, pelo esforço, pelo valor e o amor, toda uma gente a um determinado território. E a consequência destes esforços é a estabilidade suficiente para mover pedras e megalitos de lugar, construir residências, centros de convívio, túmulos para que aqueles que naquela terra viveram e morreram possam descansar e renascer sob ela. É um direito adquirido pelo sangue e o suor, mover megalitos de lugar significa mover a geografia, a própria ossatura da terra, ter certos poderes sobre ela.

Túmulo megalítico do período Neolítico, conhecido no folclore como Monte das Fadas, Knowth, Irlanda.
Carnac, Bretanha, França

A quantas gerações nós não suamos ou sangramos sobre a terra que acreditamos ser nossa? Metáforas aqui não substituem a literalidade. Trabalhar 44 horas semanais e enfrentar 3 diárias de trânsito não é matar um leão por dia. Fazer passeatas e pichar muros não é lutar, aliás, diria que já se tornou happy-hour. Muito menos é fazer flood de memes políticas em redes sociais. Isto não é luta nem mesmo meta-política, é masturbação intelectual sado-masoquista. Desde que a humanidade existe sempre vigorou uma preocupação instintiva de procurar construir para as gerações futuras ambientes mais favoráveis à vida, menos difíceis de se sobreviver. Desde a criação das primeiras ferramentas até a agricultura, do advento das cidades e ao desenvolvimento tecnológico dos dias de hoje com seus avanços na produção de alimentos, na medicina e telecomunicações. Tudo feito para melhorar as condições de vida dos mortais. Mas chegamos a um ponto em que as facilidades são excessivas, o conforto nos torna fracos se comparados aos nossos ancestrais, e desta forma, não colaboram com nossa sobrevivência, ao contrário, nos torna dependentes.

Este excesso de previsibilidade e conforto da vida urbana, especialmente presente nas classes com mais acúmulo de renda, deturpa as noções de prioridades de vida, deturpa a nossa relação com a natureza, destrói nossos corpos, identidade, e, finalmente nossos espíritos; a nossa saúde e a nossa vida. Somos uma sociedade de corpos molengas, deprimidos, frustrados, perdidos no destino e com distúrbios psíquicos e alimentares.

A Soberania da Terra já não cavalga mais, altiva, as estradas do nosso território, procurando por heróis para firmarem com ela aliança. Como em um belo e encantado Aisling, tentando nos despertar para uma vida plena. Ela agora se arrasta, cocha, enrugada e desgrenhada sob a face de anciã, feiticeira repulsiva, tão estéril e despida de dignidade quanto as mulheres contemporâneas. Ela viaja rindo-se da fraqueza e corrupção dos homens modernos que, covardes, não ousam beijá-la. Vaga espalhando mazelas naturais, secas e enchentes, pragas e epidemias, com a finalidade única de nos expurgar, como parasitas, de seu corpo. E ela está conseguindo, já estamos, em todo o Ocidente, sendo substituídos por raças mais merecedoras dela.

A realidade fria é que vocês merecem o HPV e Zika-vírus que contraem com sua imundície e promiscuidade. Merecem as secas e enchentes que já não se concentram mais aonde são típicas, e agora correm soltas como exércitos do Sîdhe/Mouramas.

Monumento a Anita Garibaldi, Florianópolis

E só há um jeito de reverter este processo: fortaleça-se, mereça o que você herdou. Emagreça ou ganhe músculos, vá lutar de verdade se está insatisfeito com o mundo e quer deixar algo melhor para as futuras gerações. Alimente-se sem venenos e sem distúrbios fundamentados no complexo de culpa e na sua incapacidade de se adaptar ao meio demasiadamente populoso e urbanizado, alheio à natureza. Você fica patético privando-se de carnes e outros alimentos típicos da nossa espécie e mantendo o consumo de açúcar, sódio, álcool e nicotina nos níveis a que nossa sociedade está acostumada. Está frustrado e perdido em meio ao curso da vida moderna e da humanidade? Lute, exponha sua integridade física sem vitimismo e sem a intenção de fazer-se um mártir quando perder um olho ou algo assim. Ao contrário, intente tornar-se um herói – tombe aonde homens mais dignos outrora tombaram para deixar a terra como sua herança. É disso que o mundo precisa, de heróis e de comprometimento, não de tagarelice e coitadismo.

Busque igualar-se ao mais louvável dos seus ancestrais, seja ele para você aquele gravado na literatura, seja aquele conhecido na memória afetiva recente e familiar.  Esteja disposto a derramar seu suor e seu sangue. Dê a luz, gere dentro de você outro ser humano, passe dois anos de sua vida sem dormir e alimentando de seu próprio corpo, ossos e sangue a outro ser (como a terra faz) somente tendo o amor por recompensa.

É preciso voltar a entender o valor que a terra, o suor e o sangue têm. É preciso resgatar os valores ancestrais, desfazer-se do excesso de comodidades, facilidades e dependência da vida urbana de hoje. Sentir novamente a adrenalina de sobreviver próximo à natureza e com simplicidade. Vejamos, então, se as dúvidas, as tristezas e frustrações vão desaparecer. Meu palpite é que você vai descobrir qual é o seu exato lugar no mundo, voltar a sentir seu eixo na terra, e talvez até o demarque fincando ali uma pedra. Ou plantando uma nova árvore sagrada, se preferir.

Praça da Figueira, Centro de Florianópolis
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