Ordem, Caos e Ética na Crença Céltica, pt. 1

Um dos meus autores favoritos dentro do movimento reconstrucionista e politeísta é Ceisiwr Serith, e um dos motivos para eu ter ingressado na ADF também. O Serith é reconstrucionista proto-indo-europeu (sim, isso existe), na verdade, ele criou o Reconstrucionismo Proto-Indo-Erupeu. Passou uns 30 anos estudando arqueologia, linguística, história, e as culturas que fazem parte do aglomerado que as Ciências Humanas convencionaram chamar de Indo-Europeus, até que escreveu um dos melhores livros sobre politeísmo reconstrucionista: Deep Ancestors – Practicing the Religion of the Proto-Indo-European, publicado pela editora da ADF em 2007. Uma obra que recomendo para politeístas de qualquer vertente indo-européia, e na qual o autor apresenta o RPIE e como praticá-lo.

Mas este meu texto aqui não é uma resenha da obra, e sim uma tentativa de diálogo entre o capítulo 4 ‘The Lay of the Land’, com a crença céltica nos dias de hoje. Neste capítulo o autor passeia por vários exemplos de culturas i.e. para explicar a noção de Ordem, Caos e Ética que um politeísta i.e. precisa compreender, e inicia com a seguinte afirmação:

“Um Cosmos é ordenado por definição, então se dizemos que os proto-indo-europeus conceberam um Cosmos, então estamos dizendo que havia uma ordem cósmica. A forma como esta ordem é expressa em uma cultura é pela sua Cosmologia. Entender a Cosmologia de uma religião é vital para entender tudo o mais sobre ela. […] a cosmologia descreve um universo, mas não qualquer universo – um Cosmos é um universo ordenado e belo (a palavra ‘cosmético’ partilha da mesma raíz de ‘cosmos’). Isto é especialmente comum entre indo-europeus, que assumem não apenas que existe uma ordem para as coisas e que o universo é belo, mas que é a ordem que torna o universo belo.”

A ideia de beleza e ordem expressa na Cultura Celta está nos mitos que ilustram a beleza dos governantes como primados para a manutenção de reinos ordenados – o que na ideologia céltica eram reinos seguros, férteis e prósperos, governados por reis generosos e bravos*. Vê-se também exemplos de reis que por terem se mostrado tirânicos, sofreram deformações faciais e vieram a perder o trono, como Aillil tendo sua orelha decepada, seu reino desfeito e seus filhos mortos pela Deusa da Soberania Áine, como castigo por ele tê-la violentado.

A arqueologia mostra como a importância da ordem cósmica entre reino e natureza estavam entrelaçadas quando do sacrifício de reis para restabelecer esta mesma ordem**, em casos de secas, enchentes, pragas ou mesmo da vergonha de um rei mal sucedido em batalha. Temos, contudo, o exemplo de Bres que mostra que, apesar de bravo e belo, a beleza não é garantia de um bom reinado,  apenas um pré-requisito. Bres foi escolhido para ser rei dos Tuathá de Danaan por sua beleza e seus feitos de bravura na primeira batalha de Magh Tuireadh, mas se mostrou avarento e explorador, e por isso veio a ser destronado. Veremos mais adiante no conto sobre o rei Niall como a verdadeira beleza e soberania podem se ocultar dos interesses indignos atrás de um disfarce de feiura.

Mas, primeiro, Serith segue apontando as características do Cosmos I.E. representado na mitologia, a visão de beleza e perfeição que emana na natureza: No centro um axis-mundi – um pilar do mundo, representado em duas partes, uma que se ergue do chão às alturas, e outra se estende, igualmente, do chão para o sub-mundo, mais comumente representada por uma árvore, mas em alguns casos, também por montanhas. A estrutura da árvore seria o mundo visível, material, e em torno da árvore há a fonte na qual submergem as raízes, representando o mundo invisível em contato com o visível, o espiritual em harmonia com o material. E a porção invisível segue raízes abaixo ultrapassando a fonte até os confins escuros da terra.

de Will Worthington

Depois de citar exemplos desta dinâmica nas culturas germânica, grega e até indo-iraniana, o autor aponta um exemplo da Cultura Celta, em Niall of the 9 Hostages. Niall recebe o reino da Irlanda da própria Soberania da Terra, que se apresenta a ele na forma de uma velha feia que demanda um beijo. Os irmãos de Niall foram anteriormente  até a fonte sagrada buscar esta deusa e o seu favor da soberania, mas recusaram-se a beijar a velha. Ao fazê-lo, Niall demonstrou que abraçando a feiura, uma forma de sacrifício, reconhecia todas as faces do poder e dinâmicas da soberania, inclusive a morte e sacrifício do soberano. Ela se apresenta a ele diante de uma fonte que ficaria no centro exato da Irlanda, cercada por 5 freixos, e no centro da fonte ergueria-se um pilar de pedra, após o beijo revela-se uma bela deusa e o torna rei da Irlanda.

Outros exemplos que encontro de como um pilar se ergue no centro do Cosmos são a Lia Fail, no centro da província de Meath, aonde os reis estabeleciam suas cortes. Lia Fail é o menhir que grita sob os pés daqueles predestinados a serem reis e fora trazida pelos próprios deuses Tuathá de Danaan do Outro-mundo para este. Na mitologia galesa temos no conto Peredur son of Evrawc uma representação do Cosmos e do Caos na árvore que queima por completo de um lado e viceja do outro, à beira de um rio que separa o mundo dos vivos e dos mortos, o visível do invisível. De volta à Irlanda, a Fonte de Segais é descrita como o centro espiritual da ilha, de onde nascem os 7 rios principais do país. Também às margens desta fonte está uma árvore, agora uma aveleira, que despeja seus frutos portadores da sabedoria na fonte, tornando-a Segais (a Sábia), e de onde o herói Fion MacCumhall consumiu o Salmão da Sabedoria e tornou-se o homem mais sábio do mundo.

Para Serith: “A árvore tem uma estrutura formada por galhos e raízes. A água, no entanto, não tem estrutura. Ela se molda de acordo com aquilo que a contém. O contentor da água cósmica é a árvore. A água é o não-manifesto, e a árvore o manifesto. Ou, em outras palavras, a água é o Caos, e a árvore o Cosmos propriamente dito. A água na fonte alimenta a árvore. O que temos aqui é o reconhecimento de que um Cosmos não renovado cresceria inflexível e frágil. Seria como um cristal, belo mas morto. É o constante influxo de Caos que impede que isto aconteça”.

Ou seja, é o constante influxo de Caos que faz do Universo algo vivo e eternamente renovável. Morte e caos são perigosos, mas são parte do Universo e da própria Ordem das coisas. Estão ligados de forma intrínseca e dependente, assim como a aveleira se alimenta da água da fonte e retorna seus frutos a esta, num ciclo eterno.

O movimento da água faz com que o universo se ponha também em movimento, criando o Tempo, as estações e a diversidade na natureza. É por isso que o Tempo é melhor representado na figura de uma mola e não na de uma roda, como convencionou o Neo-Paganismo. O Tempo e a Natureza são cíclicos, de fato, mas se fossem uma roda seriam eternamente repetitivos, iguais, estagnados e esta não é a realidade. As mudanças e transformações ocorrem na vida, na vida de todos os seres, inclusive na do universo e sua natureza. Um ano nunca é exatamente igual ao anterior, seu cotidiano e a paisagem a sua volta se transformam. Na alegoria da mola que se estende e se achata, temos a possibilidade de reencontro do tempo profano, o nosso, aquele que corre, com o tempo sagrado, o dos Outros-mundos, divino, o da perfeição cósmica, através dos pontos de equilíbrio e desequilíbrio no tempo: as celebrações religiosas.

Temos assim a justificativa para a existência das celebrações. Temos antes também a explicação da sacralidade do Tempo e Clima, da natureza em toda a sua extensão, mas, principalmente, a dos templos. Esta reflexão de Serith nos mostra porque a árvore é sagrada e manifestação primava do Cosmos. Sabemos assim porque devem os sacerdotes unirem-se nestes locais sagrados, observarem e contar o tempo, e, oficiar as celebrações.

      (Continua na próxima publicação)

*Ver a obra The Druids de Christian Guyonvarc’h e Françoise Le Roux.

** Ver as teorias do time de arqueólogos do National Museum of Ireland: http://www.museum.ie/Archaeology/Exhibitions/Current-Exhibitions/Kingship-and-Sacrifice

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