Leituras Para Crianças Politeístas

Vou correr aqui o risco de fazer propaganda negativa destes livros entre pais de religiões preconceituosas e fundamentalistas. Mas é um tema pertinente para nós, os politeístas, então, deve ser tocado.

Não gozamos de uma faixa de edição específicas para este tema. Verdade seja dita, mal e mal dispomos de nossa mitologia em língua portuguesa, fator este que contribui para o lento desenvolvimento de nossa fé em termos numéricos. Mas, particularmente, prefiro assim; qualidade e não quantidade. E uma vez que pouquíssimas pessoas têm filhos bilíngues em casa, não podemos simplesmente baixar uma tradução do Jstor ou da University of Cork, colocar na mão de uma criança de 6 anos e esperar que ela faça disso o mesmo proveito que nós fazemos. Contudo, estamos tentando resgatar uma fé e cultura outrora oral, de forma que o contar das histórias para as nossas crianças permanece sendo um meio adequado e eficaz de inseri-las na sabedoria de nossa fé. Ainda assim, precisamos admitir que nas mitologias célticas faltam peças chaves como Cosmogonia, por exemplo. E por isto e pela possibilidade de ampliar e fortalecer a ideologia céltica e indo-européia, podemos fazer uso de leituras alternativas. Não me referirei, portanto, à Mitologia Celta somente neste texto, mas a obras contemporâneas que agreguem a sabedoria politeísta à formação das crianças.

O primeiro título que gostaria de citar é ‘O Amor e as Aventuras de Tristão e Isolda’ de Maria Nazareth Alvim de Barros. É uma obra infanto-juvenil, rica e belamente ilustrada e que, obviamente, trata de personagens e aspectos célticos num contexto pós-céltico, o da Cornualha medieval. Mas a obra não se foca em aspectos religiosos, muito menos nos aspectos cristãos do período. É para crianças, e portanto a Mitologia Celta, com a presença de dragões, fadas, curandeiras, reis e gigantes, é o foco. E através destes personagens temos, não só a magia inerente à crença céltica, mas também bons exemplos de conduta indo-européia.

É na personagem de Tristão que temos o ideal do herói, de integridade, nobreza, valentia e cortesia outrora tão valorizados por nossos ancestrais e que queremos ver resgatados em nossa prole. É igualmente na personagem de Isolda que vemos o ideal de feminilidade, a fada, com seus talentos para a arte e o zelo inscritos nas suas habilidades como curandeira. É bem verdade também, não posso deixar de assinalar, que estamos tratando de um casal adúltero, e este com certeza não é um exemplo que esperamos que nossos filhos copiem. Mas a versão de Alvim de Barros deixa claro como antes de serem adúlteros aos olhos da sociedade, Tristão e Isolda são inocentes, pois já tinham se apaixonado antes de ela ser obrigada a casar-se com o Rei Marcos, e se ela o fez foi tão somente por conta de ditames do destino, e porque o casal preferiu, a princípio, sacrificar a própria felicidade para manter a palavra dada e a honra do Rei Marcos. Ou seja, as personagens ensinam a colocar a palavra dada em prioridade, e destacam o bem social maior como o bem individual. Por tudo isso, incluo este livro na minha lista de leituras para crianças politeístas.

Outra obra muito boa é ‘Arthur de Albion’ de John Matthews, autor neo-pagão, mais especificamente pertencente ao Xamanismo Celta. Não bastasse o vasto conhecimento do autor* e maneira terna como relata vários contos e retrata vários personagens fundamentais do Ciclo Arturiano, as ilustrações de Pavel Tartanikov dariam uma obra a parte tão bonitas e numerosas que são. São imagens cativantes, comoventes, daquelas que impressionam as crianças.
Além dos personagens de heróis e nobres damas com as qualidades que já comentei, esta obra traz também o arquétipo do sábio na figura do mago Merlin, que é exemplo tanto para meninos quanto para meninas. O sábio é uma figura fundamental entre os Indeo-europeus, e entre os Celtas estavam no topo da sociedade, representados pelos druidas, e valorizar a sabedoria e o conhecimento são aspectos cada vez mais ausentes na nossa sociedade, e por isso precisamos frisá-la na educação das crianças – não só politeístas. Frisar é pouco, precisamos mostrar um exemplo de modelo no qual a sabedoria, a erudição, são o aspecto mais importante de uma determinada cultura e sociedade, por sua capacidade de guiar ao grupo.

Por último vou comentar sobre uma série de livros que não aborda a Mitologia Celta, mas a grega. A série de livros Percy Jackson e os Olimpianos é um best-seller, e por isso mesmo é muito mais criticada do que a maioria dos livros; é o mal da fama. Como é composta de 5 livros, daria um post sozinho, mas prefiro colocá-la em alguns parágrafos. Não é uma obra que conta mitos do passado. Ao contrário, a proposta é fazer uma continuação do mito, torná-lo vivo no Ocidente contemporâneo.

O autor, Rick Riordan, foi professor de história e língua inglesa por mais de uma década, e já tinha algumas publicações, quando seu filho foi diagnosticado com TDAH e dislexia. Riordan se viu obrigado a encontrar métodos alternativos para ajudar seu filho nos estudos, e assim surgiu o personagem Percy Jackson, uma criança-problema, com dislexia, TDAH, filho de uma mãe solteira, com um traste de padrasto, e um melhor amigo aleijado. Percy Jackson descobre no primeiro livro que TDAH e dislexia são características comuns a semi-deuses – filhos de deuses com mortais, assim como ele. E que ao invés de apenas defeitos, podem se tornar grandes talentos. Seus parceiros ao longo da série também são crianças que aprendem a, de alguma forma, lidar com as frustrações impostas pela vida, tais como abandono dos pais, deficiências físicas e mentais. Mas além de aprender a lidar com seus próprios problemas, estas personagens se tornam heróis à medida que em suas aventuras vão optando pelos laços de família, lealdade e responsabilidade para com o coletivo, além, é claro, de lutarem para conservar aceso o fogo e os deuses do Olimpo.

A série completa gira em torno de uma segunda guerra entre Deuses e Titãs, tema fundamental da Mitologia Grega, e com paralelos nas demais mitologias Indo-européias, figurando na gaélica como a guerra entre os deuses Tuathá dé Dannan contra os Fomorianos. Riordan não só traz ao presente Deuses e Titãs vivos, como demonstra com maestria como o Ocidente permanece grego (leia-se indo-europeu), o quão arraigadas são as nossas tradições e ideologias.

Na figura dos deuses e demais seres da natureza estão todas as forças componentes da Cultura Ocidental: as artes, as relações sociais, os conhecimentos, os padrões comportamentais, o cotidiano, e etc. E na figura dos Titãs estão as forças caóticas que buscam destruir a Cultura Ocidental através das crises típicas dos nossos tempos, como por exemplo, a crise da família**. É quando os heróis optam por defender suas famílias, apesar de todos os seus defeitos, e sua herança cultural, que fica um dos melhores exemplos que a série pode dar, o resgate dos aspectos positivos da ideologia Ocidental superando os preconceitos típicos aos quais os personagens são submetidos no início da série.

Suponho que o conjunto da obra não deva ser bem quisto entre os reconstrucionistas helênicos, devido a algumas passagens contrárias a aspectos notórios da fé e Mitologia Grega. Como exemplo, temos a personagem Annabeth, filha de Atena, algo impossível na crença grega já que Atena é uma deusa virgem e não tem filhos. Por isso imagino que, para crianças do Helenismos, devem haver obras mais acuradas. Mas para as demais esta série é de utilidade, a própria personagem acima citada é exemplar na inteligência, erudição, apreço pelo conhecimento e sabedoria, além de ser habilidosa em artes bélicas. Excelente para introduzir as crianças neste que é um dos padrões de feminilidade indo-europeus. A série também me ajudou a ensinar sobre conceitos como Ordem e Caos, vida após a morte, a existência de Outros Mundos, formas de vida igualmente sagradas e diversas, imanentes à natureza, e, principalmente para ensinar o heroísmo e erudição como formas de ascese.

*Quem nunca leu John Matthews antes, corra e vá já ler. Ele não tem a fidelidade histórica que nós reconstrucionistas temos, mas isso não desqualifica, dentro de sua vertente, o valor de suas obras.

** Quem tem um vago conhecimento de mitologia grega, sabe que os deuses, filhos e netos dos titãs, são cheios de crises familiares e morais: O Caos se mostra sempre presente como parte da Ordem, tentando desfazê-la.

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