Deusas Fluviais – Sinand

The Sea Charmer, de John William Waterhouse.

[Texto originalmente publicado em 15 de Setembro de 2015 sob outro título No blog slakkosabonos.blogspot.com aqui é revisto para adequar-se a uma série de textos sobre deusas fluviais célticas]

Há no centro do Outro-Mundo uma fonte de sabedoria da qual emanam os 7 veios sagrados, que adentram a terra dos mortais na forma de rios, abundantes em sua sacralidade. O nome desta é Fonte de Segais, literalmente, Fonte da Sabedoria, mas há quem creia que ela pode ser a mesma Fonte de Connla, entre outras. Ségais, Sabedoria, é um dos nomes da deusa Boann, como nos conta o Metrical Dindsenchas, a quem, sugere Patricia Monaghan, a fonte pertencesse antes de, por via do matrimônio, passar às mãos de Nechtan / Nuada. Boann, a deusa do rio Boyne, oriundo desta mesma fonte, seria também uma sábia. Talvez uma sábia cujo dote foi sublimado diante de outros maiores, como a fertilidade e a maternidade.

Mostrando que da Fonte da Sabedoria correm rios naturalmente sábios, temos a exemplo de Boann e Boyne, o rio Shannon, também formado do sacrifício de uma deusa, Sinand neta de Lyr. Segundo nos conta o mito, Sinnand almejava tornar-se uma sábia. Ao contrário de Boann, ela não tinha a pretensão de casar-se, nem uma só vez, quanto mais duas, nem mesmo de vir a ser mãe. Ela queria dedicar sua existência à sabedoria, à inspiração divina, e para tanto, rumou em jornada à Fonte de Segais. Lá chegando, a deusa pescou e consumiu o Salmão da Sabedoria, que comia as avelãs da sabedoria. Por tê-lo feito, as águas da fonte se eleveram e derramaram-se sobre ela, levando e afogando-a. De seu sacrifício nasceu o rio Shannon, e a deusa adquiriu toda a inspiração e sabedoria da fonte.

É na nascente do rio Shannon, em Co. Cavan, que diz-se, vêem-se as Bolhas da Inspiração, resultado das avelãs que caem sobre as águas e não são ingeridas pelos peixes. Igualmente, foi para o Rio Shannon que Úna, Rainha do Sîdh de Knockshegowna, levou o gaiteiro Laurence Hoolahan, quando este a incomodou por, embriagado, tocar mal e incessantemente a sua gaita. Aparentemente, Úna queria despachá-lo aonde pudesse obter inspiração, no entanto, lá chegando, admirou-se com a bravura do gaiteiro ao ser elevado aos céus e cruzado o país em um pulo sem demonstrar espanto, e não mais o criticou por tocar.

Dentre o mais famoso dos heróis a ter palco nas margens do rio Shannon está Fionn Mac Cumhail, através de quem todo os outros parecem gravitar, de alguma forma, neste rio. Assim como Sinand, Fionn consumiu a substância do Salmão da Sabedoria, e assim como a deusa, ele obteve o dom de Imbas, a divina inspiração. Foi fugindo de Fionn que o também herói Fianna, Diarmuid, se escondeu com sua amante Grainné nas margens do rio Shannon, e, finalmente, foi para o leito deste mesmo rio, que Fionn enviou o herói Midac, ainda na infância, para habitar um castelo cercado de sorveiras mágicas e riquezas. Foi aí neste castelo, que Fionn ficou preso pela vingança de Midac, que tivera o pai morto em batalha contra os Fianna. Na maldição de Midac, Fionn só poderia sair do castelo quando o sangue de 3 reis estrangeiros fosse ali derramado. E é aí mais uma vez que o herói Diarmuid aparece, pois é dele a façanha de atacar e matar 3 reis estrangeiros, levar suas cabeças para o dito castelo e lá derramar seu sangue, libertando Fionn. E é neste ciclo de heroísmo que encontra-se também a vingança, tanto de Midac, quanto do próprio Fionn, quando caçou Diarmuid e sua amante, Grainné, anteriormente prometida a Fionn. Por fim, é às margens do rio Shannon, em Lough Ree, que outra famosa vingança tem cenário; Furbaid Ferbend matou a rainha Mebd, sua própria tia, para vingar a morte de sua mãe, por Mebd assassinada.

Em uma outra história, Fionn foi perseguido e encurralado por uma horda de guerreiros também em Lough Ree, e a deusa Sinand teria lhe aparecido e tirado do sufoco dando-lhe uma pedra mágica, que era uma arma letal. Seguindo instruções da deusa, Fionn atirou a pedra em seus inimigos, e tamanha foi a explosão que se seguiu, que o herói temeu o seu poder. Ele levou, então, a pedra de volta para o rio, aonde permanece oculta e, diz a lenda, só será encontrada por uma mulher chamada Be Thuinne, e quando isto ocorrer, o fim do mundo estará próximo. São várias as indicações de que a deusa esteja envolvida, não apenas com a sabedoria e inspiração sacerdotal, aquela que vê o que está oculto ou ainda por vir. Mas também com inspiração dos heróis e guerreiros, e por força do ato em comum entre ela e Fionn Mac Cumhail, os dois parecem estar ligados, agindo em colaboração.

Contudo, há quem queira ver no afogamento de Sinand uma repreensão mitológica, que sugerisse que as mulheres não deviam buscar sabedoria e conhecimento. Todavia, estes pensadores não parecem ver nenhuma repreensão no fato de que, na Mitologia Nórdica, Odin tenha tido que abrir mão de um olho para adquirir sabedoria perante a fonte de Mímir. Também parecem não notar que Fionn sofreu uma queimadura na mão, através da qual ingeriu o líquido do salmão que assava. Segundo aquele argumento, o auto-sacrifíio de um personagem masculino é natural, mas o de um personagem feminino há que ser sempre uma exteriorização de perseguições tirânicas patriarcais. Eu discordo. A mim parece que o afogamento da deusa seja antes uma forma de auto-sacrifício compensado com a sabedoria, e não uma punição dada pela fonte.

O ato de Sinand é parte de um amálgama indo-europeu que encontra no auto-sacrifício e na peregrinação à fonte da sabedoria, uma forma de ascese. Não é de forma alguma uma figura sobre a qual anseios modernos podem espelhar manias de perseguição contra a mulher. Ao contrário, da divina inspiração recebida, Sinand adquiriu uma forma de existência grandiosa e glorificada, a forma de vida de um rio sagrado. Assim como ela, o sábio Taliesin, na Mitologia Galesa, precisou alterar a sua forma no processo de ascese. De um pobre garoto que passou um ano e um dia mechendo sem parar um caldeirão em troca de um trocados, e, igualmente sofreu uma queimadura através da qual adquiriu sabedoria, até mudar para as formas de uma lebre, um peixe, uma ave e um grão, até finalmente, renascer como um bardo. O mito de Sínand está aí para nos lembrar, assim como outros, que adquirir Imbas exige sacrifícios e transformações.

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