(20-02-2009) Tradução: Estrabão – trechos selecionados do livro 3 da “Geografia”

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 20/02/2009. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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Abaixo expomos algumas traduções nossas de uns trechos de Estrabão que acreditamos ter alguma utilidade para os de Foco Cultural Ibérico. O texto completo <em inglês> encontra-se aqui:http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Strabo/home.html.

*Cabe ressaltar: os textos em ‘<>’ ou ‘[]’ são adições minhas.

Trechos selecionados do livro III da “Geografia” de Estrabão

Cap. I

[4] (…) [referindo-se ao Estreito de Gibraltar] Mas assim como para Herácles, diz, <não> há sequer um templo dele a ser visto no cabo (assim Éforo erradamente situa), nem altar para ele, ou para outro deuses qualquer, mas apenas pedras em muitos locais, jazendo em grupos de três ou quatro, as quais, em acordo com o costume nativo, são viradas de lado por aqueles que visitam o local, e depois, após porem uma libação, são movidas de volta para o lugar. E não é legítimo, ele adiciona, oferecer sacrifício lá, nem, à noite, pôr sequer o pé no lugar, por que os Deuses, diz o povo, o ocupam a noite; mas os que vêem para ver o lugar passam a noite em um vilarejo vizinho e então entram no local de dia, levando água com eles, pois não há água lá.

[5] Agora estas asserções de Artemiodoro são adequadas e devemos creditá-las; mas as estórias que contou em concordância com a multidão comum do povo são sem significado para serem creditadas. Por exemplo, é um dito geral entre o povo, de acordo com Possidônio, que nas regiões ao longo da costa do oceano o sol é mais largo quando se põem e que se põe com um barulho como se o mar estivesse chiando a extingui-lo por estar caindo nas profundezas. Mas, diz Possidônio, que isto é falso, assim como a asserção que a noite cai imediatamente sobre o crepúsculo; pois a noite não cai instantaneamente, mas depois de um módico intervalo, assim como faz nas costas de outros mares largos. (…)

[6](…) Chamam o país Bética [Baitika?] por causa do rio e também Turdetânia pelos habitantes [Turdetanos]; ainda chamam estes ambos por Turdetânios e Turdúlios, alguns acreditam que são o mesmo povo, outros que são diferentes. Na carta de Políbio, pois ele situa que os Turdúlios são vizinhos dos Turdetânios no norte; mas no presente momento não há distinção entre eles. Os Turdetânios são reputados como os mais sábios dos Ibéricos; fazem uso do alfabeto e possuem registros de sua história antiga, poemas, e leis escritas em verso que datam de seis mil anos de idade, assim asseguram [hoje se entende que neste trecho Estrabão fale dos Tartésios]. E também os outros Ibéricos usam o alfabeto, embora não as letras de um e o mesmo caractere, pois suas falas não são uma e a mesma, ao contrário. (…)

Cap. II

[2]…No país dos Celtas [lat. Celti > gr. Keltoi] Conistorgis [Kunistorgis -> kuni, “cão”, storgis, ?] é a cidade melhor conhecida; mas os estuários de Asta são mais afamados, onde os Gaditânios de hoje costumam manter suas assembléias, e esta não é mais de um cento de stadia além do porto da ilha.

[9] Possidônio, em louvor a quantidade e a excelência destes minérios, não se abstém de sua linguagem retórica; ao invés, entusiasticamente coopera com as estórias extravagantes contadas; por exemplo, não desacredita a estória, diz, que, quando uma floresta havia sido queimada, o solo, uma vez que era composto de ouro e prata, derreteu e espalhou-se sobre a superfície, porque, como ele diz, cada montanha e cada colina é <uma> barra empilhada lá por alguma fortuna pródiga. E, em geral, diz ele, qualquer um que tenha visto estas regiões declararia que há armazéns intermináveis da natureza, ou o tesouro inacabável de um império. Pois o país era, adiciona, não somente rico, mas também rico debaixo; e com os Turdetânios diz que é verdadeiramente Plutão, e não Hades, que habita na região subterrânea. Tal, pois, são as floridas articulações de Possidônio (…)

[11]…De acordo com Políbio, como queira, ambos este rio e o Anas, embora distante um do outro tão quanto nove mil stadia, surgem na Celtibéria; pois, como resultado de seu crescimento em poder, os Celtibéricos causaram a todo país vizinho a ter o mesmo nome que o seu próprio. Os antigos parecem ter chamado o rio Baetis “Tartessus”; e ter chamado Gades e as ilhas adjuntas “Erytheia”; (…)

[12]…Pior, nomeadamente, a sentença que Tartessos foi conhecido por boato como o “o maior país do oeste”, onde, como o próprio poeta diz, cai dentro do Okeanos “a luz do sol brilhante, desenhando a negra noite sobre a terra, o que dá o grão”. Agora, que a noite é uma coisa de mau augúrio e associada com Hades, é óbvio; também que Hades é associado com Tártaros. Acordadamente, alguém poderia razoavelmente supor que Homero, por haver ouvido sobre Tartessos, nomeadamente o maior país das regiões baixas, formou “Tártaros” de Tartessos, com uma suave alteração das letras, e que ele próprio adicionou um elemento mítico, assim conservando a qualidade da poesia. (…)

[15] Ao longo com a parte feliz de seu país, ambas as qualidades de gentileza e civilidade têm vindo aos Turdetânios; e aos povos Célticos, também, em vista deles serem vizinhos aos Turdetânios, assim como Políbio afirmou, ou ao menos em conta de seu parentesco; mas tanto menos os povos Célticos, porque a maior parte vive em meras vilas. Os Turdetânios, como seja, e particularmente aqueles que vivem sobre o Baetis, mudaram completamente para ao modo de vida Romano, nem sequer lembrando sua própria língua mais. E a maioria deles tem se tornado Latinos, e têm recebido Romanos como colonos, tanto que não estão distante de serem todos eles Romanos. E as seguintes cidades próximas foram colonizadas: Pax Augusta no país Céltico, Augusta Emérita no país dos Turdúlios, Caesar-Augusta próximo à Celtibéria, e alguns outros assentamentos, manifestam a mudança aos revestidos modos de vida civis [descrição do processo de Romanização – aculturação massiva]. Além disto, todos aqueles Ibéricos que pertencem a esta classe são chamados “Togati” [como judeus conversos recebiam a alcunha de “cristão-novo”, aqui os ibéricos romanizados recebem uma alcunha de “togados”]. E entre estes estão os Celtibéricos, que antes foram reportados como os mais brutos de todos. Tão quanto para os Turdetânios.

Cap. III

[1](…) esta cidade Bruto, apelidada pelos Galaicos, foi usada como uma base de operações quando [Bruto] guerreou os Lusitanos e trouxe este povo sob sujeição. E, para comandar a barra do rio, fortificou Olisipo [Lisboa!], de modo que as viagens por terra e a importação de provisões não pudesse ser impedida; tanto que entre as cidades sobre o [rio] Tagos esta é a mais forte. O Tagos abunda em peixes, e é cheio de ostras. Nasce na Celtibéria e flui pela Vetônia, Carpetânia e Lusitânia em direção ao oeste equinocial, subindo a certo ponto estando paralelo ambos ao Anas e ao Baetis, mas depois de divergir destes dois rios, uma vez que se separam em direção a costa sulista.

[2] Agora dos povos situados além das montanhas mencionadas acima, os Oretanos são os mais ao sul, e o território deles alcança tão longe quanto as costa marítima na parte do país deste lado dos Pilares [de Hércules]; os Carpetanos são os próximos a estes ao norte; depois os Vetões e os Vaqueus, através dos quais o [rio] Durios flui, o qual dispõe uma passagem em Acutia, uma cidade dos Vaqueus; e por último, os Galaicos, que ocupam uma parte bastante considerável dos países montanheses. Por esta razão, uma vez que foram muito difíceis [de vencer] na luta, os próprios Galaicos não só emprestaram o nome para o homem que derrotou os Lusitanos mas também sobre estes últimos, já que hoje, a maioria dos Lusitanos são chamados Galaicos. Pois, assim como Oretânia, sua cidade Castalo é muito poderosa, e também é Oria.

[3] E ainda o país ao norte do Tagos, a Lusitânia, é a maior das nações Ibéricas e é a nação contra quem os Romanos moveram guerra por mais tempo. As fronteiras deste país são: no lado sul, o Tagos; ao oeste e norte, o oceano; e ao leste, os países dos Carpetanos, Vetões, Vaqueus e Galaicos, tribos bem conhecidas; não é problema quanto ao nome do resto, por causa da pequenez e fragilidade de dissociação. Contrariamente aos homens de hoje, como seja, alguns chamam também a estes povos de Lusitanos. Estes quatro povos, na parte leste de seus países, possuem fronteiras comuns, eis: os Galaicos, com as tribos dos Astúrios e com os Celtibéricos, mas os outros apenas com os Celtibéricos. Agora o comprimento do cabo Nerium dos Lusitanos é de três mil stadia, mas sua largura, a qual é formada entre o lado leste e a costa que jaz oposta, é muito menor. O lado leste é alto e agreste, mas o país que jaz abaixo é todo plano inclusive junto ao mar, exceto umas poucas montanhas não muito altas. (…)

[5] Por último de todos vem os Artábrios, que vivem na vizinhança do cabo chamado Nerium, que é o fim de ambos os lados norte e oeste da Ibéria. Mas o país entorno do cabo é ele próprio habitado pelo povo Céltico, parentes daqueles no Anas; pois este povo e os Turdúlios fizeram uma expedição ao lugar e tiveram então uma contenda, é dito, após haverem atravessado o rio Limeas; e quando, em adição a querela, os povos Célticos também sofreram a perda de seu chefe, dispersaram-se e ficaram lá; e foi desta circunstância que o rio Limeas foi também chamado o rio de Lethes. (…) Os homens de hoje, seja como queira, chamam os Artábrios de Arotrebios. Hoje cerca de trinta diferentes tribos ocupam o país entre o Tagos e os Artábrios, e por todo o país há bênçãos em frutas, gado e abundância de ouro, prata e metais similares, apesar disto, a maioria das pessoas cessaram de ganhar a vida da terra, e empregam seu tempo em bandalheira e em contínuas guerras uns com os outros e com seus vizinhos atravessando o Tagos, até que fossem parados pelos Romanos, que os dobraram e reduziram muitas de suas cidades a meras vilas, embora eles aumentassem algumas de suas cidades fundando colônias próximas. Foram os montanheses que começaram estas ilegalidades, assim como foi sempre o caso; pois, desde que ocuparam a difícil terra [montanhosa] e possuíram, todavia, pequena propriedade, almejaram o que pertencia a outros. E os últimos, defendendo-se dos montanheses, mostraram-se enfraquecidos diante suas outras cidades-estado [vassalos ou cidades “clientes”], assim estas, também, começaram a se engajar na guerra ao invés do cultivo; e o resultado foi que o país, negligenciado e seco de cultivo, tornou-se o lar apenas de bandos armados.

[6] Em qualquer grau, os Lusitanos, se diz, são dados a darem jacentes emboscadas, espionarem, são rápidos, ligeiros, e bons em desdobrar tropas. Eles possuem um pequeno escudo com dois pés de diâmetro, côncavo na frente, e suspendido dos ombros por meio de correias (pois não há nenhum anel ou abraçadeira). Ao lado destes escudos eles possuem uma espécie de adaga ou gládio. A maioria deles usa couraças de linho; uma minoria usa couraças de cotas de anéis forjados e elmos com três cristas, mas o resto usa elmos feitos de cordões. Os soldados da infantaria usam caneleiras também, e cada soldado tem muitos dardos; e alguns fazem uso de lanças, com pontas de bronze. Agora alguns dos povos que habitam próximo ao rio Durios vivem, é dito, à maneira dos Lacônios [Espartanos] usando salas de consagração duas vezes ao dia e tomando banhos nos vapores que se levantam de pedras aquecidas. Banham-se na água fria e comem apenas uma refeição por dia; e esta em um modo limpo e simples. Os Lusitanos são dados a oferecerem sacrifícios, e inspecionam as vísceras, sem cortá-las fora. Assim como, também inspecionam as veias ao lado da vítima sacrificada; e divinizam através de sinais no toque também. Profetizam por meio das vísceras de seres humanos também, prisioneiros de guerra, a quem primeiro cobrem com mantos grosseiros, e depois, quando a vítima foi golpeada abaixo das vísceras pelo áugure, traçam os primeiros augúrios pela queda da vítima. E cortam a mão direita de seus cativos e as põem como oferendas para os deuses.

[7] Todos os montanheses levam uma vida simples, são bebedores de água [este detalhe indica que, ao contrário dos gregos e romanos, os lusitanos não bebiam tanta bebida alcoólica quanto os greco-romanos no dia-a-dia do cotidiano], dormem no chão, deixam seus cabelos fluírem abaixo em massas compactas a maneira das mulheres, embora antes de entrarem na batalha, prenderem seus cabelos sobre a testa. Comem carne de bode a maioria das vezes, a para Ares [Deus da Guerra] sacrificam um bode, prisioneiros e cavalos; e também oferecem hecatombes de cada tipo, a maneira Grega como o próprio Píndaro diz “sacrificar as centenas de cada tipo”. Também sustentam contendas [combates “esportivos”], para soldados de armas leves, pesadas e cavalaria, no pugilato, na corrida, em escaramuças, e em luta com esquadrões. E os montanheses, por dois terços do ano, comem bolotas, as quais primeiro secam e moem, e depois as enterram e as fazem em pão que pode ser guardado por um longo tempo. Também bebem cerveja; mas são escassos de vinho, e o vinho que conseguem o fazem beber rapidamente em festas de casamento com seus familiares; e ao invés de óleo de oliva usam manteiga. Novamente, eles comem sentados no chão, pois têm assentos fixos construídos ao redor das paredes da sala, uma vez que organizam suas próprias posições de acordo com a idade e prestígio. A refeição é passada ao redor, e entre seus brindes, dançam para flauta e trombetas, dançando em coro, mas também saltando e se agachando. Já na Bastetânia as mulheres também dançam promiscuamente com os homens, segurando em suas mãos. Todos os homens se vestem em negro, pela maior parte em mantos grosseiros nos quais eles dormem em suas camas de serragem. E usam vasos encerados, assim como os Celtas fazem. Mas as mulheres sempre vão vestidas em longos mantos e becas de cores alegres. Ao invés de cunharem moedas, o povo, ao menos os que vivem nas profundezas do interior, empregam escambo, ou ainda cortam pequenos pedaços de uma barra de prata e as passam como dinheiro. Aqueles que são condenados à morte empurram de precipícios; e os parricidas eles apedrejam à morte longe de suas montanhas ou rios [sagrados]. Casam do mesmo modo que os Gregos. Seus doentes, os expõem sobre as ruas, da mesma maneira que os Egípcios faziam em tempos antigos, com o propósito de obterem sugestões daqueles que já experimentaram a doença [e curaram-se]. Mais uma vez, já ao tempo de Bruto eles usavam botes de couro moreno em conta das marés e das águas baixias, mas agora, já, até mesmo as canoas esculpidas são raras. Seu sal-gema é vermelho, mas quando triturado é branco. Pois este, como eu dizia, é o modo de vida dos montanheses e me refiro aqueles que vivem nas marcas fronteiriças do norte da Ibéria, nomeadamente, os Galaicos, Astúrios e Cantábros, tão longe quando os Vascônios até os Pirineus; pois os modos de vida de todos eles são do mesmo caráter. Guardo-me de dar quantidades de nomes, evitando a desprazerosa tarefa de escrevê-los abaixo ao menos que seja prazer para alguns escutar “Pleutaurios”, “Bardietânos”, “Alotriganos”, e outros nomes ainda menos prazerosos e de menos significância que estes.

[8] A qualidade de intratabilidade e selvageria nestes povos não tem resultado somente de seus engajamentos em constantes estados de guerra, mas também em sua isolação; pois a viajem a seu país, seja por mar ou terra, é longa, e uma vez que são difíceis para comunicarem-se, perdem o instinto de sociabilidade e humanidade. Este sentimento de intratabilidade e selvageria é de forma menos intensa agora, em todo caso, por causa da paz e da estada dos Romanos entre eles. Mas onde quer que tais estadas sejam raras o povo é mais difícil de acordo e mais bruto; e se alguns são assim tão desagradáveis apenas como resultado da remotidão de suas regiões, aqueles que vivem nas montanhas são aparentados e ainda mais bárbaros. Mas hoje, como disse, cessaram inteiramente de moverem guerra; pois ambos os Cantábrios (que ainda hoje, mais que o resto, reúnem-se em bandos armados) e seus vizinhos têm sido subjugados por Augusto César; e ao invés de pilharem os aliados dos Romanos, ambos os Coniancos e Pleutusios, que vivem perto da nascente do [rio] Iber, agora tomam o campo para os Romanos. Mais, Tibério, seu sucessor, tem posto sobre estas regiões um exército de três legiões (o exército já apontado por César), e então acontece que ele já tornara alguns destes povos não apenas pacificáveis, mas civilizados também.

Cap. IV.

[3] Após esta cidade vem Abdera, a qual é em si fundada pelos Fenícios. Além destas regiões em questão, no país montanhoso, se vê [terras citadas na] Odisséia, e nesta o templo de Atena, assim como foi localizado por Possidônio, Artemiodoro e Asclepíades o Mirleu, um homem que ensinava gramática em Turdetano e havia publicado uma contagem das tribos daquela região. De acordo com Asclepíades, escudos e bicos de navios tinham sido pregados no templo de Atena como memórias dos feitos de Odisseu; e alguns daqueles que fizeram a expedição com Teucer viveram na Galécia, e houveram, certa vez, duas cidades lá, uma das quais chamada “Hellenes”, e a outra, “Amphilokhi”; pois não apenas Anfíloco morreu no lugar, como seus companheiros perambularam tão longe quanto o interior do país. E, ele acrescenta ainda, a história conta-nos de que alguns dos companheiros de Hércules e de emigrantes de Messene [antiga cidade do Peloponeso] colonizaram a Ibéria. (…)

[5]…Este espírito de auto-suficiência, entre os Ibéricos me refiro, é particularmente intenso, uma vez que pela natureza tinham já recebido ambas as qualidades da sem-vergonhice e da insinceridade. Pois pelos seus modos de vida tornaram-se inclinados a atacar e roubar, aventurando-se apenas sobre belos empreendimentos e nunca atirando-se em grandes proporções, visto que não estabeleceriam grandes forças e confederações [que pressupõe unidade e centralidade política]. Pois, seguramente, se fossem desejosos de serem companheiros de escudo um com os outros, não teria sido possível, em primeiro lugar, aos Cartagineses  atropelarem e subjugarem muito de seu país pela superioridade de forças, ou ainda nos tempos tenros pelos Tírios, ou depois, por aqueles Celtas que agora são chamados de Celtibéricos e Verônios; nem, em segundo lugar, depois, pelo brigante Viriato, ou por Sertório, ou por qualquer outro que tenha almejado domínio mais amplo. E os Romanos, desde que mantiveram meras guerras parciais contra os Ibéricos, atacando cada território separadamente, gastaram um tempo considerável na aquisição do domínio aqui, subjugando primeiro um grupo e depois outro, até, depois de duzentos anos ou mais, os tiveram todos sob controle. Mas eu retornarei a minha descrição geográfica.

[12] Atravessando por sobre a Montanha Idubeda, estás uma vez na Celtibéria, um largo e acidentado país. A maior parte dele é de fato esburacada e banhada de rios; pois é por estas regiões que o Anas flui, e também o Tagos, e outros muitos rios próximos a eles, os quais, nascem na Celtibéria, fluindo para o mar ocidental. Entre estes estão o Durios, o qual flui ante Numantia e Serguntia, e o Baetis, que surgindo em Orospeda, flui pela Oretânia dentro da Baetica. Agora, no primeiro lugar, as partes ao norte dos Celtibéricos são o lar dos Verônios, vizinhos dos Cantábrios e Coniscos, que também se originaram da expedição Céltica; eles tem uma cidade, Varia, situada atravessando o [rio] Iber; e o território também corre contíguo aquele dos Bardietos, a quem os homens de hoje chamam Bardúlios. Em segundo lugar, as partes ocidentais são o lar de algumas tribos dos Astúres, Galaicos e Vaqueus, como dos Vetões e Carpetanos. Em terceiro lugar, a parte sul é o lar, não apenas dos Oretanos, mas de todas as outras tribos dos Bastetânios e Edetânios que vivem em Orospeda. E em quarto lugar, no leste jaz a Idubeda.

[13] De novo, das quatro divisões nas quais os Celtibéricos tem sido separados, a mais poderosa, falando em termos gerais, são os Arévacos, que vivem no leste e sul, onde seus territórios se juntam a Carpetânia e as fontes do Tagos; e eles possuem uma cidade de grande renome, Numantia. Eles deram prova de seu valor na guerra Celtibérica contra os Romanos, que perdurou por vinte anos; deveras, muitos exércitos, oficiais e tudo o mais foram destruídos por eles, e pelo menos os Numantinos, quando sitiados, lutaram até a morte, exceto uns poucos que cercaram a fortaleza. Os Lusões, do mesmo modo, vivem no leste, e o território deles, também, junta-se as nascentes do Tagos. As cidades de Segeda e Pallantia ambas pertencem aos Arévacos. A distância de Numantia para Caesar Augusta, a qual esta, como eu dizia, está situada no Iber, é tão grande quanto oitocentos stadia. As cidades de Segobriga e Bilbilis são ambas dos Celtibéricos, e foi próximo a estas cidades que Metelo e Sertório tiveram sua guerra. Políbio, detalhando as tribos e distritos dos Vaqueos e Celtibéricos, inclui de resto as cidades de Segesama e Intercatia. Possidônio fala que Marco Metelo impôs um tributo de seiscentos stadia da Celtibéria, do qual podemos inferir que os Celtibéricos eram ricos assim como bem numerosos, embora o país que habitam é, ao invés, pobre. (…)

[15] Os Iberos foram uma vez, virtualmente todos eles, peltados, e usavam armadura leve em conta de sua vida de bando (como disse dos Lusitanos), usando pequenos escudos, funda e punhal. E entremeado com suas forças de infantaria estava a cavalaria, pois seus cavalos eram treinados para escalar montanhas, e, mesmo que não houvesse necessidade disto, a ajoelhar prontamente à palavra de comando. A Ibéria produz muitos cervos e cavalos selvagens. Em lugares, também, seus brejos abundam vida; e há pássaros, cisnes e outros; e também abutres. Assim como castores, os rios os produzem, mas o castor destes não tem a mesma eficácia daqueles do Pontus; pois a qualidade medicinal do castor do Pontus é peculiar, assim como é o caso com tais qualidades em muitas outras coisas. Por sua vez, diz Possidônio, o tanoeiro do Chipre é o único que produz calamina, chalcanthite e spodium. É peculiar à Ibéria, de acordo com Possidônio, que as gralhas sejam negras lá e que os cavalos ligeiros mosqueados da celtibéria mudem sua cor quando conduzidos para fora da pátria íbera. Os cavalos Celtibéricos são como aqueles de Parthia, ele diz, pois não apenas são mais rápidos mas também mais suaves corredores que os outros cavalos.

[16] A Ibéria também produz quantidades daquelas raízes que são úteis para tinturaria.  Assim como oliveiras, videiras, figueiras e plantas similares; a costa Ibérica em nosso Mar é ricamente suprida com todas elas, e é também em grande parte [suprida] de outras costas. Mas a costa do Oceano no norte não tem em conta nada disto em vista do frio, e, pela maior parte, o resto da costa oceânica não tem nada em conta do caráter desleixado do povo e o fato de viverem em um plano moral que é, terem apreço, não ao viver racional, mas ao invés pela satisfação das necessidades físicas e instintos bestiais ao menos que alguns pensem que aqueles homens tenham estima por uma vida racional ao banhar-se com urina que deixam envelhecer em cisternas e lavam seus dentes nela, ambos eles e suas esposas, assim como os Cantábrios e os povos vizinhos é dito fazerem. Mas ambos este costume e o de dormir no chão os Ibéricos compartilham com os Celtas. Alguns dizem que os Galaicos não possuem nenhum deus, mas os Celtibéricos e seus vizinhos ao norte oferecem sacrifício a um deus sem nome nas estações de lua cheia, à noite, na frente das portas de suas casas e todas as famílias dançam em coros e o fazem durante toda a noite. Os Vetões, quando visitaram os acampamentos dos romanos pela primeira vez, ao verem alguns dos oficiais passeando pra cima e pra baixo nas ruas meramente pela causa de andar ao redor [ou patrulhar], supuseram que eles estavam loucos e procederam a mostrar-lhes o caminho para as tendas, pensando que deveriam ou permanecer quietamente sentados ou então lutando.

[17] Alguém poderia também classificar como bárbaro no caráter os ornamentos de algumas mulheres, os quais Artemiodoro relatou. Em alguns lugares, diz ele, elas usam no pescoço colares de ferro com báculos curvados que <são> atados por cima e protegem até na frente das testas; e nestes irão moldar seus véus por cima, de modo que o véu, assim espalhado, forneça uma sombra que protege o rosto; e tudo isto eles consideram um ornamento. Em outros lugares, diz ele, as mulheres usam ao redor das cabeças um “tímpano”, envolto atrás da cabeça, e, distantes quão brincos, atando a cabeça fortemente, mas gradualmente virando pra cima e para aos lados [para visualizar tais ornamentos, procurem “Dama de Baza” ou “Dama de Guardamar”, por exemplo]; e outras mulheres mantêm o cabelo preso da frente da cabeça apertado que brilha como uma testa; e ainda outras mulheres põe um báculo de cerca de um pé de altura na cabeça, enrolando o cabelo no báculo e o cortinam com um véu negro. E ao lado de relatos verdadeiros deste tipo, muitas outras coisas têm não somente sido vistas mas também narradas com adições fictícias sobre todas as tribos da Ibéria em comum, mas especialmente os nortistas, me refiro não somente as estórias relatando a coragem deles mas também relatando sua ferocidade e insensibilidade bestial. Por instância, no tempo da Guerra Cantábria, mães matavam seus filhos antes de serem tomados cativos; e mesmo um garotinho, cujos pais e irmãos foram feitos prisioneiros como escravos de guerra, ganhou a posse de uma espada e, ao comando de seu pai, matou-os todos; e uma mulher que matou seu marido [feito] escravo; e um certo Cantábrio, ao ser invocado [legalmente intimado?] na presença do homem embriagado, lançou-se em cima da pira. Mas estes tratos também são compartilhados em comum com os Célticos assim como com os Trácios e Citas. Em comum também os tratos relativos a coragem, me refiro a coragem das mulheres tal qual dos homens. Por exemplo, estas mulheres lavram a terra, e quando dão a luz elas põe seus cônjuges para a cama ou invés de irem elas próprias e ministram à eles; e ainda quando no trabalho nas terras, às vezes, elas viram para certo riacho, dão a luz a um bebê, o lavam e o enrolam. Possidônio diz que na Ligúria seu anfitrião, Carmoleão, um homem de Massilia [ou seja, possivelmente um gaulês], narrou para ele que havia contratado homens e mulheres para cavarem uma fossa; e de como uma das mulheres, cujas dores para o nascimento da criança aumentavam, foi ao lado de seu trabalho, em um lugar próximo, e após ter dado a luz a seu bebê, voltou ao seu trabalho mais uma vez em vista de não perder o pagamento; e de como ele próprio viu que ela estava fazer seu trabalho de modo doloroso, mas que ele não ficou ciente [do acontecido] até o fim do dia, quando ele soube e a mandou embora com seus empreendimentos, e ela carregou o infante a uma pequena nascente, o banhou, o enrolou com o que tinha, e o levou para casa são e salvo.

[18] Nem ainda é o costume que se segue peculiar aos Ibéricos sozinhos: cavalgam em dupla, pois na hora da batalha um dos dois luta a pé; como o especialmente grande número de ratos, dos quais doenças pestilentas tem-lhes abatido. Isto foi tão incômodo para os Romanos na Cantábria que, por meio de uma proclamação que foi feita, passou-se a recompensar cata-ratos com recompensas proporcionais ao número de ratos pegos, os Romanos contaram apenas com suas vidas; e além da praga, havia escassez, não apenas de outras matérias, mas de grão também, e só com dificuldade puderam obter suprimentos da Aquitânia em conta das estradas ríspidas. Assim pela insensibilidade dos Cantábrios, tal é dito, nomeadamente, que quando alguns cativos Cantábrios tinham sido crucificados procederam a cantar seus hinos de vitória. Agora tais tratos como estes indicariam uma certa selvageria; e já há outras coisas mais, apesar de não serem marcas de civilização, talvez, não são brutalidades; pois é costume entre os Cantábrios os maridos darem dotes as suas esposas, assim como deixarem herança para suas filhas, e os irmãos se casarem longe de suas irmãs [em termos de parentesco: evitando casamentos intra-familiares]. Tal costume envolve, de fato, um tipo de ginocracia mas isto não é no todo marca de civilização. Também é um costume Ibérico habitualmente ter à mão um veneno, o qual é feito por eles de uma erva que é próxima a salsa e indolor [ao que parece, teixo], de maneira a terem em prontidão para qualquer eventualidade irreversível; e é um costume Ibérico, também, devotar suas vidas a quem quer que eles se apeguem, inclusive ao ponto de morrerem por esta pessoa.

[20] Hoje em dia, uma vez algumas das províncias foram declaradas propriedades do povo e do senado romano, e outras mais do imperador Romano, a Bética pertence ao povo; e para governar eles mandaram um praetor, que tem sob si um quaestor e um legatus; sua fronteira, pois, no leste, tem sido posta na vizinhança de Castalo. Mas todo o resto da Ibéria é de César; e ele manda lá dois legati, praetori e cônsules respectivamente; o legatus praetori, que tem com ele um legatus de sua cidade, sendo enviado para administrar a justiça aqueles Lusitanos de cujo país é situado ao longo da Bética e se estende até o rio Durios e suas bordas (ao invés, nos dias de hoje aplicam o nome Lusitânia especificamente a este país); e aqui, também, para aquela Augusta Emérita. O restante do território de César (e é a maior parte da Ibéria) esta sob o governante consular, que tem sob suas ordens, não apenas um notável exército de, devo dizer, três legiões, mas também três legati. Um dos três, com duas legiões, guarda as fronteiras de todo o país além do Durios ao norte [ou seja, ainda na época de César, os romanos temiam revoltas e não haviam “pacificado” o norte]: os habitantes deste país foram chamados assim pelo povo egresso de lá, as vezes, como Lusitanos, mas pelo povo de hoje são chamados Cantábrios. O rio Melso flui pela Astúria, um pouco adiante está a cidade de Noiga, e próximo à Noiga há um estuário do oceano, que é a fronteira entre os Astúres e os Cantábrios. O país em seguida, ao longo das montanhas até os Pirineus, é guardado pelo segundo dos legati e a outra legião. O terceiro legatus supervisiona o interior, e também conserva os interesses daqueles povos que hoje são chamados de Togati (ou como poderias dizer “inclinados à paz”), que foram transformados, vestidos em suas togas, a sua presente gentileza de disposição e ao modo de vida dos Italianos; estes últimos são os Celtibéricos e os povos que vivem próximos deles em ambos os lados do rio Iber até as regiões próximas ao mar. Assim como para o governante em si mesmo, ele passa os invernos administrando a justiça nas regiões costeiras, e especificamente em Nova Cartago e Tarraco, enquanto que no verão vai percorrer a província, sempre fazendo uma inspeção de algumas das coisas que requerem retificação. César também tem procuradores lá, de grau eqüestre, que distribui entre os soldados tudo que é necessário para a manutenção de suas vidas.

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