(23-07-2012) Visões do Fim

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 23/07/2012. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

 

Saudações.

Muita gente do meio “neopagão” acha que é prerrogativa cristã certa desconfiança com este “mundo” e certa ressalva sobre seu curso caótico, ou ainda mesmo, certo esboço de tentativa de – usando uma terminologia evoliana – permanecer de pé sobre as ruínas. Ignorância pura e simples. Os valores modernos, assim como algumas de suas bandeiras, por mais que não sejam aparentemente cristãs ou que se contraponham a tais valores, não coadunam com a visão Indo-europeia de mundo e muito menos com seu tradicionalismo (e não deixa de ser engraçado ver certos tipos reclamarem para si adjetivos como “tradicional”). E disto tudo, muitos dos que se dizem “neopagãos” ignoram por real ignorância ou por mal caráter (confundindo suas causas “pós-moderninhas” e não indo a fundo na vivência integral da religião que dizem abraçar) o que quer que se ponha de raízes firmes (quando não se irritam!). Enfim. Vejamos três testemunhos.

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Mahābhārata, 3.189.

Para ver o original (sânscrito e transcrição) clica aqui.

Tradução de Eleonora Meier a partir da versão inglesa de Kisari Mohan Ganguli (desconfiei desta tradução, achei-a demasiada grande – mas como não conheço sânscrito, me resta repetir cá e ficar calado – indicarei eventuais “notas” entre “[]” chaves, nos três textos)

Vaisampayana disse, ‘Yudhishthira, o filho de Kunti, mais uma vez questionou o Mahamuni Markandeya acerca do futuro rumo do governo da Terra. E Yudhishthira disse, ‘Ó tu principal de todos os oradores, ó Muni da linhagem de Bhrigu, isto que nós ouvimos de ti sobre a destruição e renascimento de todas as coisas no fim do Yuga, é, de fato, cheio de maravilha! Eu estou cheio de curiosidade, no entanto, a respeito do que pode acontecer na era Kali. Quando a moralidade e virtude estiverem no fim, o que restará lá? Qual será a destreza dos homens naquela era, qual sua alimentação, e quais suas diversões? Qual será o período de vida no fim do Yuga? Qual também é o limite, tendo alcançado o qual a era Krita começará de novo? Conte-me tudo em detalhes, ó Muni, pois tudo o que tu narraste é variado e encantador.’

Assim endereçado, aquele principal dos Munis começou seu discurso novamente, encantando aquele tigre da linhagem Vrishni e os filhos de Pandu também. E Markandeya disse, ‘Escute, ó monarca, a tudo o que foi visto e ouvido por mim, e a tudo, ó rei de reis, que foi sabido por mim por meio de intuição pela graça do Deus dos deuses! Ó touro da raça Bharata, ouça-me enquanto eu narro a história futura do mundo durante a era pecaminosa. Ó touro da raça Bharata, na era Krita tudo era livre de falsidade e astúcia e avareza e cobiça; e a moralidade era como um touro entre homens, com todas as quatro pernas completas. Na era Treta o pecado tirou uma daquelas pernas e a moralidade tinha três pernas. Na Dwapara, o pecado e a moralidade estão misturados meio a meio; e consequentemente a moralidade é citada como tendo duas pernas somente. Na era escura (de Kali), ó tu melhor da raça Bharata, a moralidade misturada com três partes de pecado vive ao lado dos homens. Consequentemente a moralidade então é dita como servindo os homens com somente uma quarta parte restante de si mesma. Saiba, ó Yudhishthira, que o período de vida, a energia, intelecto e a força física dos homens diminui em cada Yuga! Ó Pandava, os Brahmanas [“intelectuais, sacerdotes, professores”] e Kshatriyas [“guerreiros”] e Vaisyas [“agricultores e artesão especializados, comerciantes”]  e Sudras [“produtores em geral, artesãos, camponeses etc”], (na era Kali) praticarão moralidade e virtude fraudulentamente e os homens em geral enganarão seus companheiros por espalharem a rede da virtude. E homens com reputação falsa de erudição, por suas ações, farão a Verdade ser restringida e escondida. E por causa da brevidade de suas vidas eles não serão capazes de adquirir muito conhecimento. E por consequência da pequenez de seu conhecimento, eles não terão sabedoria. E por isso a cobiça e a avareza dominarão eles todos. E ligados à avareza e cólera e ignorância e luxúria os homens nutrirão animosidades em direção uns aos outros, desejando tirar as vidas uns dos outros. E Brahmanas e Kshatriyas e Vaisyas com sua virtude contraída e privados de ascetismo e verdade serão todos reduzidos a uma igualdade com os Sudras [ou seja, o Igualitarismo aplicar-se-á de vez]. E as classes mais baixas de homens se elevarão para a posição das intermediárias, e aquelas em posições intermediárias descerão, sem dúvida, ao nível das mais inferiores. Este mesmo, ó Yudhishthira, se tornará o estado do mundo no fim do Yuga [hum… estamos próximos deste fim, então? Há quem diga que o crepúsculo do Yuga iniciou em 1939…]. Dos mantos serão considerados os melhores aqueles que são feitos de linho e dos grãos o Paspalum frumentacea [um tipo de grama!] será considerado o melhor. Perto deste período os homens considerarão suas esposas (somente) como suas amigas. E homens viverão de peixe e leite, cabras e ovelhas, pois as vacas estarão extintas. E perto daquela época até aqueles que são sempre cumpridores de votos se tornarão cobiçosos. E antagônicos uns aos outros, os homens procurarão, em tal época, tirar as vidas uns dos outros; e privadas de Yuga as pessoas se tornarão ateus e ladrões. E elas até cavarão as margens de rios com suas pás e semearão grãos nelas. E mesmo aqueles locais virão a ser estéreis para eles em tal época. E aqueles homens que são dedicados a ritos cerimoniais em honra dos falecidos e dos deuses serão avarentos e também se apropriarão e desfrutarão do que pertence a outros. O pai desfrutará do que pertence ao filho; e o filho, do que pertence ao pai. E também serão desfrutadas por homens em tais tempos aquelas coisas cujo desfrute é proibido nas escrituras. E os Brahmanas, falando desrespeitosamente dos Vedas, não praticarão votos, e com sua compreensão obscurecida pela ciência de discussão, eles não mais realizarão sacrifícios e o Homa. E enganados pela falsa ciência de argumentações [“má filosofia”?], eles direcionarão seus corações para tudo (o que for) vil e baixo. E homens lavrarão terras pobres para cultivo e empregarão vacas e bezerros de um ano de idade para puxar o arado e carregar cargas. E filhos tendo matado seus pais, e pais tendo matado seus filhos não incorrerão em opróbrio. E eles frequentemente se salvarão de ansiedade por tais feitos e até se jactarão sobre eles. E o mundo inteiro estará cheio com comportamento e noções e cerimônias mleccha [“não-ariano, extrangeiro” no contexto mais amplo do Indo-europeísmo, podemos pensar nas noções e cerimônias não-indoeuropeias, como as semitas – judaicas, cristãs, islâmicas – que de fato infestam o mundo], e os sacrifícios cessarão e a alegria não estará em lugar nenhum e o júbilo geral desaparecerá. E homens roubarão as posses de pessoas desamparadas, daquelas que não tem amigos e de sábios também. E, possuidores de pouca energia e força, sem conhecimento e dados à avareza e loucura e práticas pecaminosas os homens aceitarão com alegria os presentes feitos por pessoas más com palavras de desprezo. E, ó filho de Kunti, os reis da terra, com corações ligados ao pecado sem conhecimento e sempre vaidosos de sua sabedoria desafiarão uns aos outros desejando tirar a vida uns dos outros. E os Kshatriya também perto do fim de tal período se tornarão os tormentos da terra. E cheios de avareza e se enchendo de orgulho e vaidade e, incapazes e sem vontade de proteger (seus súditos), eles terão prazer somente em infligir punições. E atacando e repetindo seus ataques sobre os bons e os honestos, e não sentindo compaixão pelos últimos, mesmo quando eles gritarem em angústia, os Kshatriyas roubarão deles, ó Bharata, suas esposas e riquezas. E ninguém pedirá uma moça (para propósitos de casamento) e ninguém entregará uma moça (para tais propósitos), mas as próprias moças escolherão seus maridos, quando o fim do Yuga chegar [!]. E os reis da terra com almas mergulhadas em ignorância, e descontentes com que eles tiverem, em tal época roubarão seus súditos por todos os meios em seu poder. E sem dúvida o mundo inteiro será tornado mleccha. E quando o fim do Yuga chegar, a mão direita enganará a esquerda; e a esquerda, a direita. E homens com falsa reputação de erudição limitarão a Verdade e os velhos mostrarão a insensatez dos jovens, e os jovens mostrarão a caducidade dos velhos. E covardes terão a reputação de coragem e os valentes serão desanimados como covardes. E perto do fim do Yuga os homens cessarão de confiar uns nos outros. E cheio de avareza e tolice o mundo inteiro terá somente um tipo de alimento. E o pecado aumentará e prosperará, enquanto a virtude enfraquecerá e cessará de prosperar. E Brahmanas e Kshatriyas e Vaisyas desaparecerão, não deixando, ó rei, restos de suas classes. E todos os homens perto do fim do Yuga se tornarão membros de uma classe comum, sem distinção de qualquer tipo [eis o triunfo supremo do igualitarismo, tão desejado pela mente moderna]. E pais não perdoarão filhos, e filhos não perdoarão pais. E quando o fim se aproximar, as esposas não servirão e cuidarão de seus maridos. E em tal época os homens procurarão aqueles países onde trigo e cevada formam o principal alimento. E, ó monarca, ambos homens e mulheres se tornarão perfeitamente livres em seu comportamento e não tolerarão os atos uns dos outros [! libertarianismo e o universalismo do politicamente correto de nossa época?]. E, ó Yudhishthira, o mundo inteiro será tornado mleccha. E os homens cessarão de gratificar os deuses por meio de oferendas de Sraddhas. E ninguém escutará as palavras de outros e ninguém será considerado como um preceptor por outro. E, ó soberano de homens, escuridão intelectual envolverá a terra inteira, e a vida do homem então será medida por dezesseis anos, ao alcançar esta idade a morte se seguirá. E meninas de cinco ou seis anos de idade gerarão crianças e meninos de sete ou oito anos de idade se tornarão pais. E, ó tigre entre reis, quando chegar o fim do Yuga, a esposa nunca estará satisfeita com seu marido, nem o marido com sua esposa. E as posses dos homens nunca serão muito, e as pessoas portarão falsamente os símbolos de religião, e ciúmes e malícia encherão o mundo. E ninguém será, naquele tempo, um doador (de riqueza ou qualquer coisa mais) em relação a alguém mais. E as regiões habitadas da terra serão afligidas com escassez e fome, e as estradas estarão cheias de homens lascivos e mulheres de má reputação. E, em tal época, as mulheres também nutrirão uma aversão em direção a seus maridos [… produto do Feminismo Radical?]. E sem dúvida todos os homens adotarão o comportamento dos mlecchas, se tornarão onívoros sem distinção, e cruéis em todas as suas ações, quando chegar o fim do Yuga. E, ó tu principal dos Bharatas, incitados pela avareza, os homens, naquele tempo, enganarão uns aos outros quando eles venderem e comprarem. E sem um conhecimento da ordenança, os homens realizarão cerimônias e ritos, e, de fato, se comportarão como lhes agradar quando chegar o fim do Yuga. E quando vier o fim do Yuga, incitados por suas próprias disposições, os homens agirão cruelmente, e falarão mal uns dos outros. E as pessoas destruirão, sem remorso, árvores e jardins. E os homens estarão cheios de ansiedade com relação aos meios de vida. E, ó rei, dominados pela cobiça, os homens matarão Brahmanas e se apropriarão e desfrutarão das posses de suas vítimas. E os regenerados, oprimidos por Sudras, e afligidos pelo medo, e gritando ‘Oh’ e ‘Ai’, vagarão pela terra sem ninguém para protegê-los. E quando os homens começarem a matar uns aos outros, e se tornarem maus e violentos e sem qualquer respeito pela vida animal, então o Yuga acabará. E, ó rei, até os principais dos regenerados, afligidos por ladrões fugirão como corvos, em terror e com velocidade, e procurarão proteção, ó perpetuador da linhagem Kuru, em rios e montanhas e regiões inacessíveis. E sempre oprimidos por maus soberanos com cargas de impostos, os principais das classes regeneradas, ó senhor da terra, naqueles tempos terríveis, perderão toda a paciência e farão ações impróprias por se tornarem até empregados dos Sudras. E Sudras explicarão as escrituras, e Brahmanas servirão e escutarão a eles, e determinarão seu rumo de dever aceitando tais interpretações como seus guias. E o inferior se tornará o superior, e a direção das coisas parecerá contrária. E renunciando aos deuses, os homens cultuarão ossos e outras relíquias depositadas dentro de paredes. E, no fim do Yuga, os Sudras cessarão de servir e trabalhar para os Brahmanas. E nos retiros de grandes Rishis, e nas instituições de ensino dos Brahmanas, e em lugares sagrados para os deuses e áreas sacrificais, e em tanques sagrados, a terra estará desfigurada com tumbas e pilares contendo relíquias ósseas e não agraciados com templos dedicados aos deuses. Tudo isto se realizará no fim do Yuga, e saiba que estes são os sinais do fim do Yuga. E quando os homens se tornarem violentos e desprovidos de virtude e carnívoros e viciados em bebidas intoxicantes, então o Yuga acabará. E, ó monarca, quando flores forem geradas dentro de flores, e frutas dentro de frutas [pela manipulação genética científica?], então o Yuga acabará. E as nuvens derramarão chuva fora de época quando o fim do Yuga se aproximar. E, naquele tempo, os ritos cerimoniais dos homens não seguirão uns aos outros na ordem devida, e os Sudras disputarão com os Brahmanas. E a terra logo estará cheia de mlecchas, e os Brahmanas fugirão para todas as direções por medo da carga de impostos. E todas as distinções entre os homens cessarão em relação à conduta e comportamento, e afligidas com tarefas e ofícios remunerados as pessoas fugirão para retiros arborizados [coisa me passa pela cabeça fazer, confesso], subsistindo de frutas e raízes. E o mundo estará tão atormentado que a retidão de conduta cessará de ser mostrada em qualquer lugar. E discípulos desprezarão as instruções de preceptores, e procurarão até feri-los [não deixa de chover notícias de alunos atacando professores em nossa época]. E preceptores empobrecidos serão desrespeitados por homens [precisa algum comentário?]. E amigos e parentes e aparentados realizarão préstimos cordiais somente por causa da riqueza que é possuída por uma pessoa. E quando vier o fim do Yuga, todos estarão na pobreza. E todos os pontos do horizonte estarão flamejantes, e as estrelas e grupos estelares estarão desprovidos de brilho, e os planetas e conjunções planetárias serão inauspiciosos. E a direção dos ventos será confusa e agitada, e inúmeros meteoros flamejarão pelo céu, pressagiando o  mal. E o Sol aparecerá com seis outros do mesmo tipo. E tudo em volta será estrondo e tumulto, e em todos os lugares haverá conflagrações. E o Sol, da hora do seu nascimento até aquela de se pôr, estará envolvido por Rahu. E a divindade de mil olhos derramará chuva fora de época. E quando o fim do Yuga chegar, as colheitas não crescerão em abundância. E as mulheres sempre serão severas em palavras e impiedosas e gostarão de lamentar. E elas nunca aceitarão as ordens de seus maridos […]. E quando o fim do Yuga vier filhos matarão os pais e mães. E mulheres, vivendo descontroladas, matarão seus maridos e filhos. E, ó rei, quando o fim do Yuga chegar Rahu engolirá o Sol fora de época. E fogos queimarão por toda parte. E viajantes incapazes de obter comida e bebida e abrigo mesmo quando eles pedirem por estes, deitarão na beira da estrada se abstendo de insistir em suas solicitações. E quando o fim do Yuga vier, corvos e cobras e urubus e milhafres (aves de rapina da família dos Falconídeos) e outros animais e aves proferirão gritos terríveis e dissonantes. E quando o fim do Yuga chegar homens abandonarão e negligenciarão seus amigos e parentes e servidores [e só estimarão os amigos virtuais?]. E, ó monarca, quando o fim do Yuga chegar homens abandonando os países e direções e cidades e municípios de sua ocupação, procurarão por novos, um depois do outro [eis o caos do imigração em massa]. E as pessoas vagarão pela terra, proferindo, ‘Ó pai, Ó filho’, e outros gritos semelhantes terríveis e de partir (o coração).

 

Cath Maige Tuired, Harleian MS 5280.

Fáistine leis a Morrígu (o vaticínio com a Morrígain – clica aqui para ver o original, tradução minha)

Não verei um mundo à mim agradável:
Verão sem flores
Gado estará sem leite
Mulheres sem modéstia [Feministas radicais?],
Homens sem valor
Conquistas sem um rei

[lacuna de aprox. 6 palavras – provavelmente continuando a descrição de faltas com a fórmula x sem y]

Árvores sem mastro
Mar sem produção

[lacuna de aprox. 40 palavras – provavelmente continuando e terminando a descrição de faltas e introduzindo a série de mazelas que afligirá todos os tipos de homens e profissões]

Dos anciãos falsos julgamentos
Falsos precedentes dos legisladores,
Traidor todo homem
Marginal todo filho
O filho irá para a cama de seu pai,
O pai irá para a cama de seu filho.
Cunhado seu é todo irmão
Ele não buscará nenhuma mulher fora de sua casa

[lacuna de aprox. 8 palavras – provavelmente descrevendo a lascívia e desregramento comportamental/crise de valores na família]

Um tempo ruim
Enganará o filho seu pai
Enganará a filha sua mãe.

 

Codex Regius, Hausbók.

Vǫluspǭ (a profecia da Völva – clica aqui para ver o original, tradução minha a partir daqui, caso queira adiantar, leitor apressado, pula para a estrofe 43)

[…]

27. Eu sei onde Heimdall
escondeu o seu chifre
sob o céu brilhante
ramos santos de Yggdrasil.
Eu vejo um rio que alimenta
a lamacenta cachoeira
onde o olho de Odin se esconde.
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo [Odin]?

28. Sentei-me sozinho
quando um ancião veio a mim,
Odin dos Aesir,
e ele olhou no meu olho,
“O que buscas de mim?
Por que me procuras?”
Eu sei, Odin,
onde escondeu seu olho
nas águas brilhantes
do poço de Urthr.
Mimir bebe todas as manhãs
aquela água
que encobre o olho do Pai-da-Matança [Odin].
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

28. O Pai-do-Senhores [o próprio Odin] abriu meus olhos
para anéis e colares,
para as posses dos homens, coisas que o sábio sabe,
a profecia,
Eu vi mais e mais,
olhando para todos os mundos.

30. Eu vi as Valquírias,
seladas por toda parte,
prontas para montar
para as casas dos deuses. [uma Guerra Mundial?]
Skuld tinha um escudo,
e Skǫgul outro,
Gunnr, Hildr, Gǫndul,
e Geirskǫgul.
Agora são contadas
as Valquíras,
prontas para montar
à terra, as Valquírias.

31. vi Baldr,
a vítima ensangüentada,
o filho de Odin
resignado à sua sorte,
lá estava
o visco,
cresceu delgado e justo
elevado acima da planície.

32. Aquela planta [o visco],
que parecia inofensiva,
causou uma dor terrível
quando Hǫthr levou um tiro.
Irmão de Baldr
nasceu logo depois
ele se vingou, filho de Odin
com uma noite de idade.

33. Ele nunca tinha lavado as mãos
nem penteado o cabelo
quando colocou o assassino de Baldr
na pira funerária.
Frigg chorou
em Fensalir
para a desgraça de Valhala.
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

34. Vi um prisioneiro
deitado em uma certa madeira,
o próprio mentiroso,
ninguém menos que Loki.
Lá jaz Sigyn,
embora ela não encontre alegria
em seu marido.
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

35. Um rio corre do oriente,
cheio de adagas e espadas,
através de vales venenosos. [um “rio” de homens armados, um exército marchando sobre vales inimigos?]
Slíthr é nomeado.

36. Lá jaz
a norte dos vales escuros
um salão dourado
da grei de Sindri,
e um outro jaz
em Okolnir,
a cervejaria de um gigante
chamado Brimir.

37. Eu vi um salão que ficava
longe do sol
nas praias de cadáveres;
as portas à norte.
Gotas de veneno
caem pelo telhado;
suas paredes são circundadas
por serpentes.

38. Vi perjuradores
chafurdarem
nos riachos espessos,
e assassinos,
e aqueles que seduzem
as amantes dos outros.
Lá Nithhǫggr
suga os corpos dos caídos,
encaixa-los em suas mandíbulas.
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

39. No oriente sentou-se uma gigante envelhecida,
em Járnvithr,
e lá levantou
a ninhada de Fenrir.
Dentre eles
é um certo alguém
que morde a lua
na forma de um troll.

40. Homens mortos
são enchidos de vida,
o lar dos deuses
avermelhado de sangue,
o sol brilha negro
através da verões subsequentes,
tempo nunca alegre. [após a libertação da ninhada de Fenrir, o lobo, se segue um tempo “sem sol” de um inverno seguido?]
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

41. Um pastor de gigantes
senta-se em um túmulo,
acertando uma harpa,
o alegre Eggthér.
Um galo vermelho [um mensageiro?]
chamado Fjalarr
canta perto dele
em Gaglvithr.

43. Perto dos Aesir
canta o galo chamado Gullinkambi,
que desperta os homens
para a luta pelo Pai-da-Batalha [Odin].
Mas um outro canta
abaixo da terra,
um galo de penugem vermelha
nos salões de Hel.

43. Fenrir uiva terrivelmente
ante as portas de Hel;
o lobo quebrará as correntes
e fugirá.
Eu sei muita sabedoria,
Vejo profundo no futuro,
todo o caminho até Ragnarøkr [“crepúsculo/destino dos deuses” uma tradução para o português etimologicamente interessante – por compartilhar da mesmas raízes indo-europeias, ou seja por ser cognata – é “o Ocaso dos Regentes”],
um mau dia para os deuses.

44. Irmãos entre si lutarão
e um ao outro matarão,
primos a paz quebrarão
um com o outro,
o mundo será um lugar difícil para se viver,
será uma época de adultério,
uma era do machado, uma era da espada,
uma era de tempestades e de lobos,
escudos serão rachados –
antes que o mundo afunde no mar,
não haverá homem
que seja verdadeiro ao outro. [todas as mazelas listadas na passagem do Mahabharata e no vaticínio de Morrígain são aqui repetidas]

45. Os gigantes estão no jogo
e acendeu-se o destino
na explosão
de Gjallarhorn:
Heimdal sopra firme o chifre,
mantém-no alta em cima,
Odin fala
com a cabeça de Mimir.

46. A velha árvore suspira
quando o gigante a sacode;
Yggdrasill ainda jaz,
mas treme.

47. Fenrir uiva terrivelmente
ante as portas de Hel;
o lobo quebrará as correntes
e fugirá.
Eu sei muita sabedoria,
Vejo profundo no futuro,
todo o caminho até Ragnarøkr,
um mau dia para os deuses.

48. Hrymr avança do leste
com um escudo diante de si,
a serpente Mithgarthr
está em ódio.
A serpente bate as ondas
e a águia grita ansiosamente,
dividindo cadáveres com seu bico pálido.
Naglfar, o navio dos gigantes, é libertado.

49. A nau zarpa do oriente,
portando os gigantes
por sobre o mar
e Loki é o seu capitão.
Os gigantes estão chegando
juntamente com Fenrir,
Loki está com eles
naquela viagem.

50. O que há em andamento com os deuses?
O que há em andamento com os elfos?
Todo o Jǫtunheimr ruge,
os Aesir estão em conselho
os anões a tremer
ante as portas de pedra,
criaturas das montanhas.
Já aprendestes o suficiente, Pai-de-Tudo?

51. Surtr vem do sul, [viria de nosso hemisfério?]
com uma luz brilhante em sua mão,
sim, o sol brilha sobre
a espada em suas mãos.
O colapso das montanhas,
os trolls a cair,
homens caminham nas estradas para Hel,
e os céus acima se dividem.

52. Então é numerada
a segunda aflição de Frigg,
quando vai Odin
combater o lobo
e Freyr vai lutar
com Surtr;
pois lá o Marido-de-Frigg (Odin)
tombará.

53. Em seguida, vem o grande
filho de Odin,
Vítharr, para combater
o lobo.
Ele enfia a espada
por dentro da boca de Fenrir
por todo o caminho até o coração,
e assim é Odin vingado.

54. Em seguida, vem
Thor, filho de Hlóthyn,
filho de Odin
para combater a serpente,
o protetor de Mithgarthr
matará a serpente em sua raiva.
Mas toda a humanidade
extinguir-se-á do mundo,
quando Thor
caminhar além de nove passos,
abatido pelo veneno
da desonrada serpente. [ao tombar, Thor, matará a humanidade restante – talvez por causar um terremoto?]

55. O sol se torna negro,
a terra afunda no mar,
as estrelas brilhantes
caem dos céus.
Chamas chamuscam
os galhos de Yggdrasil,
uma grande fogueira
chega às mais altas nuvens.

56. Fenrir uiva terrivelmente
ante as portas de Hel;
o lobo quebrará as correntes
e fugirá.
Eu sei muita sabedoria,
Vejo profundo no futuro,
todo o caminho até Ragnarøkr,
um mau dia para os deuses.

 

Eis três passagens solenes de sabedoria das mais vetustas. Confesso que sempre me afeta o misto de beleza terrífica do Völuspá. Mas quanto aos relatos, estejamos cientes deles, se de fato caminhamos para o fim de uma era. Para mim cada vez mais assim parece – seja por intuir que o niilismo (para usar um termo nietzschiano) “instituído” já aponta sinais de saturação, ou por olhar o cenário geopolítico internacional e ver possibilidades sérias de uma nova conflagração generalizada (pelo menos a médio prazo) que ponha em risco o mundo como conhecemos, ou viver cotidianamente os dramas e refregas em sala de aula dos valores, possibilidades e esperanças, desabafos dos colegas, ou por mais outra série de coisas.

Cada ponto de cada trecho pode ser analisado, meditado e revisto e com os mais diversos fins. Se pode – levando a coisa aos extremos, por exemplo – fazer alarmismos apocalípticos ou resignações radicais. Para mim, nesta postagem, o ponto é enxergar as similaridades sobre a previsão dos valores morais (mesmo quando previstos por sociedades que eram bem mais “liberais” – em relação ao sexo, por exemplo – que as sociedades cristãs posteriores) que se tornarão dominantes em tal era decadente, e o quanto uma postura tradicional (e os pagãos que aqui se veem) tem de destoar deles.

Confesso que juntei isto com algo de uma espécie “sensação estranha” que veio hoje e às vezes tenho ao (re)ler certos textos, já circunscritos de leituras anteriores. Espero que seja útil.

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