Guia Para o Politeísmo Iberocelta

Antes de mais nada, vou esclarecer que meu culto é predominantemente Galaico-lusitano já que esta é minha origem materna, e a da maioria dos brasileiros de ancestralidade peninsular. Por isso a maioria das obras aqui citadas apontarão para esta Cultura, e se o leitor deseja aprofundar-se na cultura celtibérica, vai ver algumas dicas aqui, mas não o suficiente. Quero também frisar que o que aqui pretendo por Politeísmo Iberocelta não é Druidismo e nem mesmo Reconstrucionismo, uma vez que não me identifico com nenhuma destas vertentes modernas. Politeísmo Iberocelta como aqui se verá é quase que inteiramente fundamentado no resgate das características históricas dos povos Castrexos Galaico-lusitanos anteriores à Romanização, e com base em estudos indo-europeus comparados.

Para tornar-se um Iberoceltista ou um membro de qualquer outra fé oriunda do passado e que tenha sofrido uma interrupção no tempo, é indispensável estudar, e impossível sem estudo. Isto porque toda religião é um fenômeno cultural que explica uma vivência espiritual comunitária e fundamenta uma identidade étnica e/ou cultural. Uma vez que sofremos uma interrupção desta cultura e já nascemos imersos em outra, é preciso estudá-la para reapreendê-la. É preciso desconstruir paradigmas atuais e substituí-los por aqueles da fé a qual se ambiciona, claro, dentro do possível e sempre buscando a imaginar como esta fé seria hoje se não tivesse sido interrompida. É também necessário que se adapte à nossa realidade. Qualquer um que advogue que um estudo sério não é necessário, já falhou, porque nem ao menos foi capaz de compreender a fé e a cultura que almeja, não será, portanto, capaz de adotá-la.

Pensando desta forma, elaborei uma lista de leitura na ordem ideal para que o aspirante possa fazer dela o melhor proveito e tornar-se um Iberoceltista. Outros Iberoceltistas podem ter lido obras diferentes, e trilhado caminhos diferentes, mas das leituras que eu tive, este é o melhor que posso sugerir. Então, comece lendo:

  1. Los Pueblos de la Galícia Céltica, de F.J. González García (obra acadêmica). Esta é a primeira da lista por ser a mais completa. O livro se inicia com uma leitura historiográfica dos estudos célticos na Península Ibérica e alertando o leitor para os usos e supressões que estes estudos e culturas sofreram e ainda sofrem por vertentes políticas. Ele segue com capítulos que explanam sobre quem eram, com o viviam e se organizavam em sociedade, política e economicamente os povos Celtas da Galícia. Há também um capítulo dedicado aos deuses e santuários típicos desta cultura, que podem introduzir o leitor a esta fé.
  2. Mitos, Ritos y Legendas de Galícia. De Perón Bouzas e José A. Domelo (coleção de folclore). Esta obra lista as mais importantes localidades sagradas da Galícia, com seus contos folclóricos, as festividades, datas comemorativas e costumes importantes desta região. É uma ótima introdução para o folclore e para as celebrações que os Celtas da Galícia tiveram e ainda têm hoje em dia.
  3. La Religión Céltica en la Península Ibérica. De Juan Carlos Olivares Pedreño (obra acadêmica). Aprofunda-se em todas as divindades cujo culto seja comprovado, entre estas as pan-célticas e comuns a outras regiões célticas, as autóctones, e a Interpretatio Romana. Leitura essencial!
  4. Gods and Fighting Men. De Lady Gregory (folclore e mitologia irlandesa). Esta obra clássica do século 19 pode ser encontrada em pdf facilmente, não há necessidade de ser comprada. Considero a vital pois traz os mitos das principais divindades célticas, algumas das quais, cultuadas na Península, ainda que em roupagens diversa. Há também, é claro, deuses e crenças autóctones da Irlanda, e não importantes para nós. Somente com estudo o aspirante será capaz de conhecê-las. Leitura essencial!
  5. Mitologia Grega. De Junito de Souza Brandão (obra acadêmica). Uma vez que não foi preservada a mitologia e liturgia dos Celtas da península, é necessário estudar outras culturas Indo-europeias. E pela proximidade e comércio com o Mar Mediterrâneo, a influência da cultura Greco-romana é sensível. Por isso considero importante conhecer a mitologia e crenças dos gregos a título de estudo comparado.
  6. Deep Ancestors. De Ceisiwr Serith (obra reconstrucionista). Também a título de estudo comparado de culturas indo-europeias. O autor levanta nesta obra as principais características comuns à mentalidade e crenças indo-europeias, tais como teologia, liturgia, ética, deuses e ritos. Leitura essencial!
  7. A Mitologia dos Mouros. De Alexandre Parafita (Leitura acadêmica). A Mitologia dos Mouros trata do Outro Mundo Galaico-lusitano, o equivalente ao Sîdhe gaélico. Esta obra fala dos seres que habitam o Outro Mundo, as Mouramas, da relação nossa com eles, das formas e datas de culto. Há artigos acadêmicos gratuitos na internet que podem substituir está leitura, para quem não deseja adquirir a obra, mas eu a recomendo por ser um compêndio completo com um levantamento dos mitos e análise destes.
  8. Celts From the West. De John Koch e Barry Cunliffe (Leitura acadêmica). Está obra cobre a teoria da origem atlântica dos povos Celtas, abordando genética, linguística, arqueologia, e outras áreas de estudo, vai situar o aspirante na celticidade e relevância da península na formação da Cultura Celta.
  9. Sítios virtuais gratuitos para adquirir informação e trocar conhecimentos e práticas com outros Iberoceltistas: Fórum Recons-Iberocelta. Fórum Céltica Hispana. Cork Unuversity Library. J-stor . Archives.org.

Agora, algumas dicas e avisos Para que o aspirante evite erros e desvios do caminho:

Evite o contato com grupos Neo-pagãos como Wicca, Druidismo e até mesmo alguns Reconstrucionistas. Existem várias ordens druídicas excelentes no Brasil e em outros países, com tradições históricas ou metodologias Reconstrucionistas sérias, e às quais respeito muito, contudo o Druidismo não é uma religião organizada: convivem nele muitas crenças e práticas diferentes que podem confundir, distorcer e descaracterizar a crença e ritualística da fé ancestral. Muitos destes grupos adicionam elementos de Maçonaria, de bruxaria não indo-europeia, de religiõess Iorubás e de Pajelança. Para preencher as lacunas da liturgia Iberocelta sem distorcer seu sentido e afastar -se da ritualística ancestral, é preciso ater-se apenas a práticas Indo-europeias. Somente com experiência e estudo o aspirante vai aprender a distinguir entre o Druidismo sério e o neo-paganismo desorganizado.

Outro problema típico da Wicca mas que já se encontra entre druidistas e indivíduos que alegam ser Reconstrucionistas, é o péssimo hábito de explorar a ignorância e boa fé de aspirantes oferecendo cursos que prometem ensinar, em algumas aulas, como ser um bruxo ou druida. Em geral, estes falsos gurus Neo-pagãos apresentam cursinhos pagos de 4 a 10 aulinhas na qual prometem ensinar não só história e crenças, mas tornar o aspirante em um sacerdote completo e iniciado. Ora, qualquer pessoa de bom senso logo desconfia da qualidade destes ensinamentos, mas é bom alertar aos desavisados. É impossível ensinar tudo isso em tão pouco tempo, e quem oferece este tipo de curso NUNCA tem respaldo de formação superior na área ou de formação em ordens druídicas sérias e renomadas. Em geral são apenas exploradores que em 2 ou 3 anos, uniram um conhecimento superficial e medíocre, agruparam em um projeto de marketing e oferecem para benefício de seu próprio bolso, e não como genuína prática sacerdotal.

Nós, os membros da Assebleia Iberocelta e escritores deste blog temos formação superior na área, alguns possuem até grau de doutorado, e nunca cobramos por curso nenhum. Isto porque apontanos o caminho para que o aspirante construa por si só seu próprio conhecimento e fé, adquirindo autonomia e experiência. Não há uma comunidade grande o suficiente, nem estrutura de templo que demandem um ofício sacerdotal em tempo integral e fundos para mantê -los. Portanto, não é necessário o seu dinheiro, guarde-o para algo edificante.

Um bom exemplo para ilustrar porque é melhor estudar do que terceirizar sua entrada em fés politeístas, é a comparação com gastronomia. Estes cursos de iniciação sacerdotal relâmpago são como Miojo: rápidos, fáceis, sem nutrientes, mas com cores e sabores artificiais vibrantes. É superficial e não traz nenhum benefício. Investir mais tempo e leitura é como pesquisar receitas de gastronomia típica. Demora, será preciso garimpar e buscar ingredientes de qualidade e raros, vão haver erros e acertos até aprimorar as receitas, mas ao fim do processo terá sabedoria que nada nem ninguém poderá tirar. Vale a pena.

Espero, leitor, este guia seja útil, e que os ventos soprem favoráveis na sua jornada.

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