(24-04-2011) Sobre o ‘Os Equívocos do Novo Paganismo’ (1942) de Julius Evola

Texto originalmente publicado no blog “Parahyba Pagã” em 24/04/2011. Mantivemos a redação original, caso hajam novos comentários estes aparecerão entre chaves [] no texto.

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Me dei conta recentemente de uma série de textos de diversos autores, eclipsados por movimentos políticos ou motivos quaisquer, de séria aproximação com o paganismo e reaviamento do eixo religioso Indo-Europeu. No geral, e de maneira superficial, tais autores se colocam de um modo, digamos, “pós-teosóficos” (no sentido cronológico), mas ainda enraizados em todo o esoterismo ocultista orientalizante daquela época. É importante notar que trabalhavam tendo diante de si um material diferente do que dispomos hoje. No entanto, me parece simplesmente imprudente ignorar tais autores. Quando o tempo me permitir, comentarei algumas das leituras que eventualmente fizer.

O primeiro, é o texto “Os Equívocos do Novo Paganismo” de Julius Evola, publicado em 1924 [? na verdade, este trecho, como foi elaborado remonta a peça publicada em alemão “Grundrisse der faschistischen Rassenlehre”, baseada, num texto italiano do autor que remonta aos anos 20 e que parece ter sido propagado por Mussolini como crítica ao racismo materialista alemão], também conhecido como “Contra os Neo-pagãos”. Bem, antes cabe algumas palavras. Primeiro, desejo postar algo rápido para um blog, meu intuito aqui é realizar antes um apontamento modesto sobre o texto ao invés de escrever um tratado a respeito. Meu principal objetivo é despertar a curiosidade dos leitores para o texto e, num segundo momento, apontar minhas reflexões. Segundo, Julius Evola é um autor não tão popular, além de mal lido, e mesmo polêmico, e talvez o mais complicado: escreveu muito. É necessário muito tempo para lê-lo a ponto de falar do seu pensamento razoavelmente [e anos depois, reafirmo isto, apesar de enfatizar que há uma certa linha mestra de coerência em suas obras]. E eu não me enquadro nisto, daí que me resumirei minimamente ao texto em questão de modo fragmentário. Pois, que recomendo: antes de ler o que posto aqui, leia o texto de Evola [exemplo do texto em inglês]!

[Este texto em particular não é isento de controvérsia pois fora um “recorte” de outra obra e há todo um contexto para tal. Há quem diga que o recorte e tradução omitiu alguns parágrafos ou fora remodelado posteriormente (leia este apontamento, por exemplo). Em plena segunda Guerra Mundial os textos de Evola gozavam de uma certa influência entre certos círculos próximos ao poder e este em particular visava uma espécie de admoestação “corretiva”: não para voltarem ao Cristianismo, mas para não caírem em um Paganismo caricato, decadente e superficial; ou seja, num pseudo-Paganismo que é na verdade um Anticristianismo travestido de neo-Paganismo. No entanto, parece também ter considerado, como vermos abaixo, que isto implica numa certa “aceitação” histórica do cristianismo ou algo assim; para uma compreensão mais “sólida” deste ponto, é crucial a leitura do “Imperialismo Pagão”, e claro, do “Revolta contra o Mundo Moderno” e do “Cavalgar o Tigre”. Sobre “Paganismo” e política no Entre Guerras, especialmente na Alemanha, recomendamos o excelente “Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich: a Suástica contra a Irminsul” de John Yeowell, Alain de Benoist, Detlev Baumann e Henri Lichtenberger publicado em português pela Anatagonista]

 

I. O termo “paganismo” é equivocado

Julius Evola inicia o texto apontando o público-alvo: certos “círculos radicais, que acreditam que a solução [para os problemas políticos vigentes] jaz na direção de um novo paganismo”. O primeiro “equívoco” é o uso do termo “paganismo”: este termo é inadequado para designar as religiões antigas devido a sua carga [negativa] cristã, mas não só: também soa “tendencioso e artificial” e não dá conta da abrangência e riqueza das religiões antigas. Este equívoco, como bem sabem os Neopagãos, é algo batido por muitas tradições (nomeadamente as reconstrucionistas), e vejo neste texto evoliano a sua primeira formulação. Ainda segundo Évola, tal conceito (de “paganismo”) é uma invenção cristã e é um erro tomá-lo como ponto de partida.

[No entanto, apesar do papel indiscutível dos polemistas cristãos em caracterizar uma suposta “unidade” com o rótulo de Paganismo, há quem defenda que os próprios filósofos e comentadores gregos, romanos e sírios, meio que, involuntariamente, já pavimentavam o caminho para uma certa consciência “unionista”: a princípio pelo processo prático das InterpretationesGraeca e Romana – aplicado às religiões tradicionais por onde o mundo helênico e o romano se expandia e que já de cara fora “barrado” ou claramente incompatibilizado com o Judaísmo; numa segunda estância pelas doutrinas do Estoicismo e, principalmente do Neoplatonismo, a quem eu (EU) cada vez mais sou levado a chamar de “O Perenialismo Original”. Para se inteirar das evidências arqueológicas em torno do “unionismo” pragmático oriundo das Interpretationes vide “The Archaeology of Late Antique ‘Paganism'” editado por Luke Lavan e Michael Mulryan, ou mesmo “Religion in late Roman Britain” de Dorothy Watts].

De fato, é consensual, principalmente nos meios não-wiccanianos ou não-bruxos, que o termo ‘neopaganismo’ é inadequado. Politeísmo étnico, religião étnica, politeísmo/religião de matriz Indo-europeia, etc. São termos mais aceitáveis – ou as designações próprias (Ásatrú, Religio Romana, Dodecateísmo ou Hellenismos, etc.). A questão é que, mesmo que nos convençamos inteiramente do argumento evoliano, hoje, o termo está socialmente cunhado. Ai fica a decisão de passarmos o resto de nossas vidas lutando para mudar este termo, ou para mudar suas referências “negativas” e “artificiais”, ou se dedicamos nosso tempo e esforços para questões mais urgentes. Pragmaticamente, esta última opção tem sido levada mais à sério, e com razão penso eu.

[Eu mudei um pouco minha visão desde esta época: desvencilhar-se do termo “neopaganismo”, ao menos para mim, se tornou mais importante. No entanto, entendo que isto é algo que funciona melhor como decorrência mais do que como foco, afinal, não é preciso enlouquecer ou enraivecer-se querendo que termos técnicos ou rótulos específicos sejam perfeitamente compreendidos pelo vulgo]

Sobre o termo paganismo, enquanto tal, ser um conceito cristão – o próprio Evola sabe que o termo fora usado nos tempos pré-cristãos, mas omite que o fora em contextos semelhantes (designando no geral, o conjunto de costumes e tradições, inclusive religiosas, dos campesinos – sendo, pois, “rústicos, atrasados” em oposição aos citadinos). O ponto é que, legítimo ou não, o termo está ai e tem “funcionado”. E mais: há diversos outros paralelos de termos de legitimidade duvidosa (“xamanismo” basta?) e que têm funcionado.

[No fundo, se compreendemos que o uso de um termo qualquer do léxico traz consigo uma relação de poder e uma suposta perpetuação de um modo de pensamento opressor ou injusto, etc. Se tenderá mais e mais a ver a simples mudanças de palavras como atos necessários de reorganização de pensamento (coletivo) e engenharia cultural, digamos. Que é, mais ou menos, o modo de pensamento de certos progressistas ao querem alterar pronomes de gênero e coisas assim. Novamente, concordaríamos que há mais coisa importante e que, no final, é mais importante diferenciar-se de fato e não só no “nome”; também é bom frisar que, mesmo que se reconheça eventual carga discriminatória num nome e se busque evitá-lo por isto ou por outras associações, é diferente de usar o Estado para obrigar, ditatorialmente, todos, sob pena de enquadramento criminal ou “assassinato de reputação”, a mudarem o uso de um termo.]

 

II. O termo “paganismo” engloba as ideias vinculadas pelos cristãos como não-cristãs

Isto é ainda um prolongamento das consequências derivadas de I. Evola considera que os termos-chave referentes ao conceito de “Paganismo” são cristãos, forjados por oposição e que, por isto, não são adequados. Imanência (contrária à Transcendência), Natureza (contrária ao “Céu”), falta da oposição Mente x Corpo, apego a superstição (ao contrário do Cristianismo) [esto ponto é simplesmente engraçado: o Cristianismo é uma fé muito mais supersticiosa, especialmente até meados do Medievo, vd. “Inventing Superstitions: from the Hippocratics to the Christians” de Dale Martin], Particularismo e valorização do clã (contrário ao Universalismo), Ingenuidade e inocência campesina (em oposição à corrupção e vilania citadina), repressão de desvios sexuais x “normalização” de desvios sexuais, etc. Passando pois, a cair na batida e proposital equalização de que “paganismo” é “anti-cristianismo”. Se se entende ‘paganismo’ desta forma, concordo com Evola: isto é uma visão, digamos, “adolescente”.

O ‘Paganismo’ antigo, em suas diversas formas ao longo das culturas Indo-europeias, apresenta muito mais que esta visão estreita de ‘paganismo’ x cristianismo. Como bem salienta o próprio Evola, as correntes de mistérios, seitas fechadas e congregações iniciáticas, eram focadas na Transcendência, cultos Celestes/Estelares, postulavam claramente a oposição Mente x Corpo, possuíam também visões Universalistas [limitadas, claro, e geralmente sem a sanha de expansão política totalitária, é bom frisar], além de serem citadinas, etc. Neste sentido a crítica de Evola é ainda atual.

Bem, no entanto, frisar o lado de valores similares ou herdados pelo cristianismo das religiões pré-cristãs não oblitera o outro sentido. Julius Evola vê que o Cristianismo não contradiz necessariamente a herança mais antiga (indo-européia). Em termos gerais digo que sim, mas sei que isto depende. Primeiro, o autor não distingue nem define bem o que chama de Cristianismo nesta passagem: é o ‘Cristianismo Popular’ (paralelo e tolerado por meros fins políticos pelas Igrejas)? Se for este, vá lá, até posso concordar. Se não for este, a afirmação não deve ser levada a sério. Deixa a entender, inclusive, que se pode conceber o Cristianismo europeu como um “aperfeiçoamento” dos paganismos [e possível que por causa de tiradas como esta, gente mais radical como Guillaume Faye tenha escrito o “Tradicionalismo: eis o inimigo!”]… o que requer, digamos, estômago. Obviamente, aqui há problemas sérios. De um ponto de vista da “rigidez” e “altivez” moral, a austeridade da moral aristocrática indo-europeia – o que Evola mais se atem, o cristianismo não representa avanço NENHUM para os sistemas Indo-europeus que tenham leve aspiração ao autoaperfeiçoamento disciplinado ou ascetismo (não é difícil perceber isto – basta uma olhada na Índia, ou no Pitagorismo e Orfismo ou mesmo nos regimes guerreiros aristocráticos do ocidente europeu).

[O próprio Evola, tanto no “Imperialismo Pagão” como em textos posteriores como o “Cavalgar o Tigre” deixa claro que concorda em boa parte com a visão Nietzschiana (cujo comentário é o mais dedicado, do livro em questão) do cristianismo como uma decadência moral ante a moral aristocrática Indo-Europeia tradicional. Mesmo no quesito de moralidade sexual e familiar, somente a ignorância do passado levaria alguém a considerar que o cristianismo “moralizou” e “avançou” o Ocidente.]

Ele parece acreditar que há avanço no cristianismo mas não apresenta nada a favor desta crença. Ao contrário, estou convicto que ao postular um sistema moral de nível x (em termos de ascetismo, autodisciplina, etc.) universalmente, o cristianismo acarreta, justamente, na falha prática deste sistema moral (basta olhar ao redor). Sistemas assim não são para todo mundo [ou seja, sua universalização igualitarista é irrealista e impraticável], o mundo Indo-europeu sabe disto há muito tempo e por isto preserva paralelamente outros sistemas morais na mesma sociedade/religião (que podem chegar a ser, nas extremidades últimas, até mutuamente exclusivos, mas compartilham do tronco central profundamente enraizado). No geral, nestas colocações o texto se torna obscuro e de difícil compreensão [pelo menos me foi na época… hoje suspeito que Evola buscava um “acordo” e diminuição das hostilidades entre pagãos e cristãos nas fileiras políticas]. Se Evola quis frisar que a visão autenticamente pagã não é, necessariamente, anti-cristã – ok, mas não ser no geral a priori não implica em não ser a posteriori, ou a ser a priori em alguns aspectos (mas não na generalidade). Ou seja, o fato de não ser geralmente anti-cristão, não implica, necessariamente, que seja “cristão”! Isto me parece de uma obviedade sem tamanho mas que para mentes maniqueístas talvez seja um problema entender.

 

III. O novo “paganismo” envolve uma visão materialista fantasiosa e anacrônica

A visão do Imanente (que algum desinformado chamaria de “materialista”) como prioridade e da concepção, comum hoje nos meios neopagãos, de “centrado-na-Terra”, segundo Julius Evola é equivocada. Para ele, se entendi bem, isto não corresponde à Antiguidade e é uma visão, em última instância, fundada na renascença e nos ideais franceses a la Rousseau e do Romantismo. Daí vem a imagem da valorização indubitável do campesino como modelo de “pagão” (no molde do “Bom Selvagem”): tudo o que o campesino/matutão mais rústico defende e faz, é tido como padrão de valores e ações genuinamente pagãs. Neste sentido, talvez Évola tenha razão mesmo, uma vez que no mundo antigo, o campesinato não era moralmente tão incólume/perfeito, idealizado nem por si mesmo nem pelos estratos superiores.

O sistema de estratificação social Indo-europeu deposita muito mais autoridade religiosa e moral na classe intelectual e na guerreira. No entanto, communis opinio é que o campesinato e suas manifestações folclóricas ao longo dos séculos, foram justamente os bastiões de preservação de aspectos rituais da Tradição. O problema que Julius Evola parece indicar, apesar de no meu ver fazê-lo meio obscuramente, é o de não sermos ingênuos na heroicização do campesino a priori [o que tenho chamado de “proletarização”]. O folclore é um pilar, uma espécie de estrutura externa, mas sozinho não constitui uma religião Indo-europeia, como era no mundo pré-cristão e como é na Índia, por exemplo. O que seria do folclore indiano em si mesmo, sem os Vedas, nem a casta dos Brâmanes e toda a tradição religiosa específica? Neste sentido, é importante desmascarar a hipótese subjacente do “bom selvagem” e apontar para um olhar não-romântico para o mundo antigo; é um chamado a reflexão dos pagãos hoje que depositam todas as suas fichas no folclore [no puro “culturismo” materialista] e desprezam os outros aspectos [genuinamente religiosos].

Outro ponto importante que Evola denuncia é justamente sobre a superficialidade da compreensão de certos conceitos, como: ‘Natureza’ para uma sociedade pós-cartesiana e materialista não quer dizer o mesmo que ‘Natureza’ para o homem tradicional indo-europeu pré-cristão. O Neopaganismo está infectado com tais conceitos anacrônicos, é de se entender, por que seu movimento inicial é dado pela classe média instruída nos conceitos cientificistas e materialistas e que não os analisa em profundidade. Eis outro alerta interessantíssimo. Independente de qualquer coisa, Evola não lembra que a ciência justamente nasce de certos produtos Paganismo [na verdade, de certa revisitação renascentista aos textos e conceitos dos filósofos antigos], e o mundo greco-romano a cultivou [na verdade, cultivou a “Filosofia Natural” não a Ciência moderna, é bom deixar claro] de modo a não haver contrastes tão gritantes com a religião, como se tem depois da escolástica medieval [este contraste vai ficar claro mesmo no Iluminismo]. Hoje pelo que percebo, esta crítica diz respeito mais a certas esferas do Neopaganismo, como vai ficar claro mais abaixo.

 

IV. Anticristianismo não é a solução: isto é incoerente com as Antigas Religiões Pré-Cristãs

Aqui há um forçação de barra. OK, os sistemas politeístas Indo-europeus são sistemas abertos – mesmo a comunidade mais etnicista reconhece deuses “estrangeiros” e, quiçá dadas circunstâncias especiais ou apontamentos oraculares, mesmo pode adotar o culto a um (quer exemplo mais paradigmático que o de Dionísio para as poleis mais etnicistas e tradicionalistas na Grécia?). Daí que uma tática utilizada pelos cristãos para espalharem o seu vírus, era justamente se aproveitar desta característica “aberta” dos politeísmos para acoplarem o deus de Israel e o culto ao defunto nazareno carpinteiro deles, como um parasita que se deposita, parecendo inofensivo no começo, mas gerando uma doença crônica mais a frente. Mas dizer que anticristianismo é incoerente com tradicionalismo Indo-europeu é um tanto forçado, simplesmente pelo fato que o cristianismo tem valores opostos – de fato – a visão Indo-europeia, e abraçar a visão Indo-europeia é necessariamente se contrapor a certos valores cristãos. Qualquer religião Indo-europeia é bem menos conflitiva com qualquer outra religião Tradicional das Américas, ou da África, ou do Japão do que com os credos Abraâmicos. Não é necessário ir muito longe para perceber a obviedade disto.

A grande questão, me parece, é que o Anticristianismo militante – e que mais propriamente se pode chamar como tal – é que é terciário, inessencial e mesmo desnecessário para o Tradicionalismo religioso Indo-europeu, que cultiva o respeito como alicerce moral fundamental. Daí que mesmo sendo minoritários e sofrendo eventuais perseguições de cristãos, judeus ou muçulmanos, Evola pense que o Anticristianismo (seria melhor “Antiabraamismo”) não é justificável nunca. Isto é uma visão de Évola e só se embasa no valor de respeito. [se a interpretação do eixo propagandístico estiver correta, novamente, parece o eixo político unificador: ao invés de se enfrentarem, os pagãos “genuínos” e cristãos deveriam unir-se contra um inimigo comum… Filosoficamente, a única base para além desta, seria a retomada da visão aberta integral que seria a negação do que foi feito historicamente pelos cristãos para acabarem e destruírem as fés genuinamente europeias. Claro, é importante lidar com o fato de que, querendo ou não, o Cristianismo teve lá seu triunfo e se tornou culturalmente parte do mundo ocidental. No entanto, como temos frisado faz anos, o próprio cristianismo não defende que se seja “cristão” por motivos pagãos – a Tradição, Cultura e Identidade – (Mateus 15:3) sempre alimentando uma incompatibilidade interna, dada sua natureza revolucionária e antitradicional. Mas para fins de argumentação, em termos gerais, talvez Evola queira enfatizar que a mera insistência em um Anticristianismo não resolve nada, ao contrário, pode levar mais rápido ao abismo niilista. Outro ponto importante que podemos derivar é que o cultivo do Anticristianismo militante na época moderna consiste numa forma de ranço que pode alimentar um vitimismo e uma sanha por revanchismo histórico fanático que nos seja estranho].

Ver o cristianismo como um continuador do projeto espiritual do mundo Indo-europeu é uma piada de mal gosto. Na verdade além de uma piada de mal gosto, é uma posição ou ignorante ou de má fé, comprometida para “aliviar” ou “salvar” o cristianismo. Demonstra muito mais aceitação da propaganda da Igreja católica ao longo dos séculos, do que qualquer coisa que o próprio Evola acusou de ser propagando internalizada pelos “neopagãos”.

Primeiro teríamos que tratar de qual projeto espiritual é esse, e depois em que medida tal religião semita, em si mesma, tem a acrescentar de relevante – o que é um nada sob a perspectiva Indo-Europeia, pois como já dizemos, não é nem moral [na verdade, o Cristianismo tem como principal contributo uma moral revolucionária, igualitarista e anti-Tradição, ou seja, uma uma espécie de subversão moral, como Nietzsche caracterizara na “moral do escravo”], nem teologicamente [uma vez que roubou da teologia pagã para criar a “sua”], nem pragmaticamente superior aos cultos tradicionais [após a iconoclastia e o deserto imagético que apregoou, a fé cristã terminou por “roubar” também a estética, arte, pompa e rito da Hélada e de Roma]. O cristianismo (e seus irmãos) não é superior em NADA.

[Com mais leituras, nas quais o Evola ele próprio engradece a moral Indo-Europeia, Solar-Hiperbórea, em oposição ao Cristianismo (“Imperialismo Pagão”) e a ascese cristã (na “Doutrina do Despertar” há uma corretíssima descrição da ascese cristã em contraposição as visões Indo-Europeias), soa estranho um apaziguamento do Cristianismo nesta altura… Pelo menos para mim, é mais uma evidência de que o texto visava um objetivo político específico: “corrigir” os neopagãos que viajam na maionese e promover a união entre pagãos e cristãos].

 

V. A politização moderna do paganismo é incoerente com a Antiguidade

Este é o ponto-chave de todo o texto de Julius Evola ao que me parece. Aqui se clarifica o alvo – o tipo de Neopagãos a quem ele mais se refere. Estes são os Neopagãos “políticos”, os nacionalistas pagãos. A crítica de Evola é muito interessante. Primeiro, há um desrespeito ao tradicionalismo indo-europeu de classes: os “políticos e militantes” são da classe guerreira, e esta – em qualquer sistema tradicionalmente sadio – está abaixo da classe intelectual-sacerdotal. Os Nacionalistas, se enquadrando em tal classe, não sabem seu lugar e transgridem os valores tradicionais indo-europeus na ordem das coisas. E por isso, causam certo “sacrilégio”: politizam a religião ao invés de espiritualizarem a política. Utilizam a religião como aspecto subordinado a ideologia política, como meio para alcançar certos fins políticos, e não espirituais de fato, de acordo com a reciprocidade sagrada, fundamento do culto.

É próprio dizer que “violam” a ordem e os costumes tradicionais neste aspecto. É esta violação que os faz ver o “Povo” nos moldes românticos-rousseaunianos (de “bom selvagem”, e nem sequer nos moldes que o “povo” era visto pelas elites pagãs – já que ao que tudo indica, o próprio Povo não se via nem da forma romântico-rousseauniana nem da forma como as elites pagãs viam), do cultivo de noções anacrônicas, fundamenta a militância anticristã e os outros problemas que ele enumerara.

Daí Evola falar coisas como “Isto mostra que há perca do genuíno sentimento pela hierarquia de valores, e que não se pode escapar a aleijada alternativa de internacionalismo destrutivo e particularismo nacionalista, enquanto que o tradicional entendimento do Império é superior a ambos os conceitos” [isto já remonta ao “Imperialismo Pagão”, é bom lembrar; além de que no “Fascismo desde a Direita” Evola critica o nacionalismo estatista como artificial e ditatorial, em oposição ao que chama de estado orgânico, numa espécie de nacionalismo menos estatizante]. Este é o ponto: tal tipo de Neopaganismo colabora, de certa forma, com o problema e é incoerente por reproduzir o maniqueísmo simplista da visão semítica de mundo. Como nos diz o próprio Évola novamente: “Precisa-se estar cuidadosos em cair nestes falsos entendimentos e erros que mencionamos, os quais basicamente servem apenas para defender o inimigo comum”.

Bem, paro por aqui – estão me chamando para almoçar e creio já ter falado do texto todo. Espero que leiam o texto do Evola.

Inté!

[De minha parte, após estes anos todos, confirmo a importância deste texto para se despertar de certo “sonho romântico” que piorara consideravelmente no “Hippismo-New-Age-Arco-Íris” e que hoje já parece estar se isolando. Hoje, vejo o texto também como um testemunho dos bastidores de certos círculos próximos ao poder, especialmente, na Alemanha; como um texto de finalidades políticas. Agora, claro, traz consigo uma importante mensagem para os mais tradicionais e ao mesmo tempo uma mensagem crucial a todos: o cuidado que se deve ter na ordem das coisas quando Política e Religião estabelecem uma relação causal. É importante frisar também, sobre uma possível vista grossa benéfica ao Cristianismo vinda do autor, que diferentemente de um Alain de Benoist, Evola (a julgar pelo clássico “O Mistério do Graal”) não parece ter se aprofundado tanto nos estudos históricos do final da Antiguidade e sobre a Cristianização, pelo menos não tanto quanto do Medievalismo de fato e, especialmente, do final da época medieval e renascentista (de notar sua visão pelo “Gibelinismo”) e talvez isto tenha-lo feito diminuir a importância da Ruptura que o Cristianismo trouxe, fazendo-lhe enxergar, ao invés, certa continuidade. De notar também, que em sua época, a literatura sobre Indo-Europeidade era bem menor, possivelmente 50% menor e em boa parte restrita a tecnicismo linguístico. Enfim, independente dos motivos de Evola ou da correção de nossa interpretação destes, me parece que, mesmo com os erros e tropeços, as Divindades tem escutado e aos poucos, lentamente e a melhorar, haveria muito a comentar e muitos detalhes a se discutir, mas paremos por aqui.]

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