Uma breve nota sobre combates e homens nas caatingas do Nordeste brasileiro

O fenômeno do chamado “Cangaço” no Nordeste brasileiro é algo que talvez mereça uma certa atenção breve. De minha parte, enquanto nordestino interiorano, cresci rodeado pela imagética e referências diversas, atestando uma certa tensão socialmente difundida entre a repulsa pelas atividades criminosas diversas e ao mesmo tempo, por certa disfarçada (por horas, nem tanto) admiração por certas ações de valentia. E isto, obviamente, meio que me intrigou e me mostrou a separar certas coisas. E nesta pequena reflexão, buscarei apontar um sentido possível para tal fenômeno relacionando-o a certos conceitos antigos e que, até onde saiba, não foram usados para descrevê-lo. Se conseguirei ou não, bem, aí é outras história. É importante frisar para caso algum especialista sobre o assunto aporte cá: não sou especialista nos pormenores nem mesmo um entusiasta super interessado, reconheço que tenho muito a aprender sobre o assunto, mas também creio que para as linhas gerais que pretendo expor, não há lá muita coisa que seja suspensa por esta limitação.

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Idealizações dos cangaceiros

A ideia romantizada de um sujeito que se tornou “rei pelas próprias mãos” (mesmo que para tal, tenha recorrido ao terror estupendo), desafiando com muito pouco, os omnipotentes poderes estabelecidos, é por si só uma indicação da crença arcaica em “tipos diferenciados”, sujeitos que se destacam dos comuns, projetando feitos memoráveis cujo tempo amplifica enquanto reduz a nulidade as mesquinharias. Muito disto, fora projetado sobre a figura do cangaceiro Virgulino “Lampião”, inicialmente pelo povão mesmo imerso neste misto de repulsa e admiração. Posteriormente, por supostos “intelectuais” (em boa parte, esquerdistas) desejosos de projetar na figura controversa um “herói proletário”, popular, símbolo da resistência antiburguesa, etc. Apesar do absurdo (Lampião fora recrutado pelo Batalhão Patriótico, recebendo o insígnia de capitão, em 1926 sob promessa de anistia de seus crimes para combater os filocomunistas da Coluna Prestes; além de ter declarado, na mesma época, conforme publicado em jornal cearense que gostava de “todas as classes” e que apreciava de preferência “as classes conservadoras”) ainda hoje se vê certa gente vermelha de má-fé (o que tem se demonstrado redundante) querendo se “apropriar” do sujeito e promovê-lo como uma espécie de “ícone revolucionário”…

É possível também que tal “romantismo” idealizado deste fora da lei seja uma herança de um predecessor, bem menos conhecido, mas de longe menos envolvido em imoralidades diversas: Jesuíno, o Brilhante. Ruivo de olhos azuis, rápido angariou reputação de homem valente e justiceiro, e quando soube de desvios nas ajudas federais aos assolados pela seca (certos sujeitos poderosos, geralmente envolvidos com política e alcunhados de “coronéis”, responsáveis por repassarem os mantimentos federais, os desviavam completamente ou repassavam pequena monta ao povo), resolveu tomar à força os recursos surrupiados e distribuí-los… o que lhe trouxe também a áurea de “Robin Hood” e suspeito que seja a fonte factual da projeção romantizada da imagem do “cangaceiro justiçador social” projetada na posteridade.

Se é comum trazer certa áurea romantizada a certos cangaceiros, um tanto quanto desculpando-os moralmente, pelas vilanias diversas, só recentemente tem se alastrado um maior respeito e consideração pelo engenho de certas lideranças das volantes, em especial por Zé Rufino. Por causa dos respingos da propaganda ideológica, aos agentes do governo são creditadas poucas virtudes, alimentando um quadro simplista e mentiroso de que tudo se resumia uma espécie de “luta de classes” comunista, com a Volante a serviço da “burguesia” de um lado, e o Cangaço como braço armado do proletariado do outro. No entanto, quando se vai olhar mais de perto, nada mais tosco e falso. Na verdade, para compreender melhor tal dinâmica, acredito ser necessário abandonar esta terminologia enganadora do marxismo e recorrer a outros conceitos.

Civilização do gado e arcaísmo indo-europeu

Socialmente, o Nordeste no início do séc. XX tinha uma composição que em muitos aspectos lembrava as sociedades arcaicas Indo-Europeias (cujas estruturas perduraram fortes até o Medievo, que por ignorância simples, muitos “intelectuais” brasileiros colocam como fonte última de comparação, como se o Medievo europeu, por si só, não fosse também resultado de algo mais arcaico…): a riqueza estava concentrada em gado e terras, mais do que em comércio ou outra coisa, uma organização social (e política) de base clientelista (que ia desde vaqueiros, trabalhadores, passando por famílias menos prestigiosas) em torno de “clãs”, com uma classe clerical de trânsito livre entre os agentes políticos (“coronéis”, representantes clânicos de poder sustentado pela base clientelista quase feudal) e a alimentação social (talvez pelo “isolamento” e “atraso”, dirão certos sociólogos) de uma moral de honra, palavra e reputação pública, de inconsciente fundo aristocrático. Sem este componente essencial, não se entende as Questões (termo usado para designar “disputas”, geralmente, envolvendo a honra familiar ou pessoal de um agente, trazida a tona pelos mais variados motivos – na verdade, o motivo nem importa muito, mas sim o sentimento de afronta à honra, o rompimento do “pudor” que nós cá chamamos ‘Desfeita’, que requer ao Homem, “Cabra Macho” – versão nossa da aristocracia espiritual – uma compensação, o que os helênicos chamam de Nemesis, que dirão tratar-se de vingança – na verdade, qualquer um que tenha lido o primeiro capítulo do “Paideia” do Werner Jaeger, rapidamente localizará todo o vocabulário e compreenderá a dinâmica “homérica” da coisa) tão comuns, tanto entre “nobres” (os “coronéis”) quanto entre o povão.

Aplicar a noção de trifuncionalidade dumeziliana talvez seja mais complicado do que parece (apesar de que, até onde saiba, seria inédito – e ousarei esboçar algo disto, pois!), pois não havia consciência religiosa formal destas estratificações (afinal, estamos falando de uma sociedade cristã) e apesar de que facilmente enquadraríamos os camponeses, artesões e vaqueiros na primeira função, os milagreiros, profetas (como Antônio Conselheiro, cuja função também fora de “regente”) monges e padres na primeira, a segunda fica turvada, nem tanto pelas volantes, soldados (e mesmo, os cangaceiros, como apontaremos), mas pelos “Coronéis”, cujo caráter geralmente é um tanto ambíguo. Mas, apesar dos pesares, parece ser possível. Claro, precisar de um estudo mais sério; aqui aponto apenas como possibilidade.

Este componente psicológico arcaico, vívido a ponto de tornar-se quase palpável, até o final dos anos 80 pelo interiorzão do Nordeste, esta sombra da moral heroica aristocrática, permeia uma série de acontecimentos e explica as questões de muitos dos envolvidos seja nas volantes, seja no cangaço. Obviamente, que houveram pessoas que se envolveram por ambição, ruindade somente e disposição para a delinquência, mas uma parte considerável tomou envolvimento nisto tudo para solucionar questões pessoais e familiares. Esta dinâmica psicológica é um fator a se considerar e que é quase sempre relegado a nada pelas análises mais comuns. Que este tipo de “clima simbólico” surja numa sociedade tão aparentada à outras no passado onde também se manifestaram um “clima simbólico” parecido, não devia ser algo de espantar tanto.

Não estou advogando que a base estrutural da sociedade tenham gerado, por relação causal, este fundo imagético e “clima simbólico”, mais ou menos como os marxistas que creem que a infraestrutura gera a superestrutura. Por minhas opções religiosas, sou levado a pensar o contrário: é a herança imagética que consolidada, a desenvolver-se por si, manifesta tal estado de coisas exterior, tal estruturação social. E se creio que estamos diante de um fundo imagético Indo-Europeu, me resta especular sobre uma herança moral inconsciente desta origem que se tornara hegemônica na população mestiça do Nordeste.

Tornar “hegemônica” não significa desconsiderar eventuais influências dos povos africanos (dos quais sabemos pouco, apesar de ser comum que tribos mais pacíficas fossem escravizadas pelas mais guerreiras e vendidas na costa para europeus ou árabes) ou ameríndios (cujo componente genético, em termos gerais, é possivelmente maior que o africano e de quem sabemos que nutriam, em boa parte, uma cultura guerreira acentuada). Neste quesito, o que sabemos dos índios nativos, especialmente dos “interioranos”, menos “civilizáveis” sob o olhar do conquistador, aponta uma cultura guerreira mas nada mais do que isto: não sabemos de seus conceitos religiosos e estruturas psicológicas, se nutriam um sistema de honra, e a dinâmica que este acarreta de desfeita-reparação, a semelhança dos Indo-Europeus (de notar que, uma parte considerável dos estudos sobre culturas de honra ainda vivas na modernidade, se dá, justamente em países de herança Indo-Europeia, especialmente nos Indo-Irânicos, mesmo que conversos ao islã). Daí que, trabalhando com o que temos, podemos supor que o componente Indo-Europeu se sobressaiu. Se isto corresponde a composição genética (pois há quem defenda com estudos genéticos que o componente europeu, no sujeito mestiço “mediano” do Nordeste, se sobressai) ou qual o peso da genética nisto, não me interessa neste momento.

Fratrias guerreiras

Além deste componente psicológico, digamos, “espiritual”, podemos também ver um tipo de manifestação daquilo que H. Schurtz chamou de “Männerbünde”. Uma associação guerreira marginal, uma “fratria” (para usar o termo latino) à margem da sociedade, de uma certa dimensão iniciática ou secreta. Do ponto de vista estritamente religioso, acredito que tais associações, numa sociedade Indo-Europeia religiosamente tradicionalista, são um decorrência natural de uma via de ascese para o Guerreiro, uma via de comprometimento radical e afastamento do “mundo”, neste caso, “do mundo civil/paisano”, digamos, na integralidade radical no “casamento com a morte”, como se diz em certo jargão militar. Talvez seja para o guerreiro, aquilo que o monasticismo eremita é para o intelectual/sacerdote, com a diferença crucial de que este é solitário por definição, aquele, de uma coletividade elitista, selecionada, cuja consciência da excepcionalidade radical fomenta ainda mais o laço de irmandade.

Neste sentido, apesar da sociedade nordestina da Cultura do Gado não ser exatamente um símile mais perfeito de uma sociedade tradicionalista, por lhe faltar, entre outras coisas, o componente essencial de uma religião Indo-Europeia formal, mas pela sobrevivência de uma certa moralidade de fundo Indo-Europeu e de uma organização material que manifestara este mesmo fundo, me parece razoável pensar que uma tal manifestação possa ser analisada a semelhança das fratrias guerreiras, dada as proporções e limitações devidas.

Primeiro, como colocamos, não havia no cangaço qualquer dimensão ascética consciente, religiosamente justificada, apesar de certos sujeitos haverem manifestado preferirem tal tipo de vida e desejarem morrerem assim, no combate, a vida “paisana” (ao que parece Corisco, quando emboscado por Zé Rufino, deixou claro isto a sua esposa “Dadá” na fuga, segunda a mesma conta em entrevista, apesar de todo o esforço que esta fazia em convencer o marido, desde a matança do bando de Lampião na Grota de Angicos). Neste sentido, faltara um componente crucial: a dimensão religiosa dignificante. E talvez por isto mesmo, os cangaceiros, tenham incorrido em imoralidades e injustiças (como o massacre dos inocentes na fazenda “Patos”, para citar um caso envolvendo Corisco, o “Diabo Louro”) e nunca tenham superado a pecha de “bandidos”, uma vez que se afundaram, de fato, nisto.

Talvez alguém aponte que os Fianna irlandeses eram, igualmente reputados, de um certo modo como criminosos e responsáveis por imoralidades, ou ainda que, ao menos aos olhos romanos, nossos ancestrais lusitanos e galaicos das tribos interioranas, dos montes, reuniam-se em bandos de jovens guerreiros envolvidos em crimes, pilhagem e assaltos. Estrabão (Geog. III:3§5) nos diz que foram as tribos montanhesas quem iniciaram as “ilegalidades”, deixando de ganharem a vida da terra, para se dedicarem a roubalheira e guerras intermináveis com seus vizinhos. Apiano chama aos líderes de tais bandos “comandante de ladrões” (lēstarkhoi). Por mais que seja verdadeiro que os Romanos buscam depreciar e desmoralizar a resistência nativa à sua invasão, chamando-os de “bandidos”, “ladrões”, etc. Também não deixa de ser possível que recorram a tais termos por se depararem com organizações “marginais”, operando fora das cidades, sem “quartéis”, como fratrias especializadas em combate de “guerrilha” que, por ocasião das invasões, foram infladas por voluntários patrióticos para se tornarem “exércitos”, vindo, ao longo das guerras, a se tornarem de fato. E não é preciso falar sobre como foram adjetivados certos bandos escandinavos que pilhavam e, por vezes, cometiam imoralidades contra inocentes nas costas do norte da Europa.

Não estou com isto, comparando um bando qualquer de cangaceiros com Vikings ou Fianna, etc. Até por crer que mesmo dentro dos bandos guerreiros, iconicamente reconhecidos, parece haver um senso de justiça religiosamente amparado fortalecido numa moralidade interna radical, mas também numa forma de “tradução” com a moralidade da sociedade mais ampla, permitindo “brechas” ou maneiras de ressignificação de certos comportamentos (ou promovendo a consciência da excepcionalidade moral interna e sua diferença para com a sociedade exterior). No caso mais conhecido da pedagogia espartana, “roubar”, no caso do furto propriamente, para o jovem educando que vivia à margem da sociedade era “admitido”, desde que não fosse flagrado. Mas para ladrões adultos, ou seja, fora do período de formação, não parece que havia lá “admissão” ou conivência… Ou seja, não se trata de uma conivência social com o crime, mas antes com sua definição e limites – em última instância, isto também tem de ver sobre a diferença moral entre o roubo (ao membro do mesmo grupo, ao que parece, universalmente condenável, por atacar o fundamento da coesão grupal), e a pilhagem (do grupo hostil, visto como moralmente neutro ou justificável em certos contextos dada as regras do grupo ao qual se pertence e as quais se está juramentado, dada a inimizade/capacidade de malefício do Outro). É importante refletir sobre tais coisas, apesar de que nos levaria para muito longe dos limites deste pequeno texto, não só para melhor compreendermos certas historicidades (e o porquê, por exemplo, da “Conquista”, não ser somente “Invasão e Roubo” de terras de outros povos), mas também para clarearmos eticamente o uso justo da violência. No entanto, não é o assunto e voltemos ao texto.

Bem, o ponto é o fato destas diferentes manifestações terem percepções sociais controversas, o que não as equaliza, claro, mas que permite comparações. No caso dos antigos bandos de guerreiros na Ibéria, sabemos que guerreavam enquanto forças “tribais”, assediando somente tribos vizinhas, como temos evidências de genuínas fratrias guerreiras “apátridas” (a semelhança dos Fianna, que apesar de serem em boa parte, formados por “nobres” sem direito a sucessão, não estavam juramentados ao clã, reis ou à cidades – ficando “livres” de fidelidade e com isso compromisso moral), digamos, que, sem sede fixa ou materialmente estática, pilhavam o que podiam ou se vendiam como mercenários. Entre os escandinavos, ao que parece (não sou lá entendedor de Vikings coisa nenhuma), as fratrias parecem ter brigado menos entre si ou assediado o próprio povo e mais aos estrangeiros. Entre os Fianna irlandeses, apesar de muito ser mítico e nebuloso, se tem o registro tanto de sua reunião a serviço de um rei (que pode ter sido por interesse comum, ou por pagamento), quanto de lutas entre fianna diferentes. Em todos estes casos, a dimensão “mística” é forte, exatamente, pela presença do componente religioso – ou religiosamente sancionado – e que é ausente no cangaço, sendo esta, mais do que o modus operandi material, digamos, que não me permite colocá-los no mesmo nível de outras fratrias guerreiras Indo-Europeias.

Mas como dizia, além do cangaço, devemos dar igual consideração às Volantes. Por mais que fossem oriundas de destacamentos da polícia, agiam de forma semi-independente e retinham quadros de voluntários (o processo de ingresso na polícia naquela época, era bem mais simples, se é que todos ingressaram oficialmente) e rastejadores (os “batedores”, esclarecedores e os verdadeiros “rangers” tradicionais do Nordeste), cujas campanhas os faziam viver “à margem”, a semelhança dos cangaceiros, apesar de deterem o apoio institucional, ao contrário do cangaço, por qualquer cidade onde passassem. Ambos, dentro do contexto geral da época, pelo ofício das armas mesmo, os erros e acertos, se tornaram o que podemos chamar de combatentes especializados no ambiente de Caatinga. Numa época onde não havia nenhum curso de formação de forças especiais ou que quer que seja.

O aspecto iniciático de uma fratria guerreira geralmente é algo enfatizado de alguma forma, mesmo que simbolicamente. Pela ausência do componente religioso (Indo-Europeu) formal, no cangaço há uma vacuidade de misticismo iniciático: além da adoção de uma alcunha, nome de guerra, apelido dado, ao que parece, não por si, mas por outro (a nomeação por outro, líder ou “superior” – sanguíneo ou cultural – é também regra, ao que parece, na iniciação guerreira irlandesa – o caso notório de Cú Chulainn, o “Cão de Culann” – de reflexos em certos pontos do galês Mabinogion, parece ser a expressão da regra mais do que da exceção), pouco mais se tem de registro do processo de “formalização” de pertencimento ao bando (se cogita o uso de um lenço, no caso feminino em especial, a aceitação de um lenço dado, representa certo compromisso assumido, que era um costume europeu arcaico de cortejo extremamente popular na época e que alguns cangaceiros usavam – mas aí parece que era apenas o rito “formal” da entrada feminina, não se diferenciando muito do simbolismo da adoção de um compromisso conjugal “paisano”). A adoção das armas, por exemplo, é algo que pessoalmente desconheço se havia algum tipo de simbolismo, assim como alguma forma de juramento formal (me recordo de algo na literatura de cordel falar dos juramentos de sangue, ainda bem comuns, e não apenas na dimensão do cangaço, na época pelo Nordeste à fora), pois fica claro que os “cabras”, hierarquicamente, estavam sujeitos ao “capitão”, que inclusive decidia sobre suas vidas: morte, punições e a permissão para sair do bando. No caso das volantes, pela dimensão própria do serviço público, seria de se esperar uma cerimônia formal, juramento e tomada de armas para os alistados na capital ou centro cívico com presença das autoridades competentes. Quanto aos que se juntavam na campanha, não sabemos (pelo menos eu – EU – não sei) do “rito” e mesmo se havia algum (e o mesmo diríamos de eventuais procedimentos fúnebres).

Culto às cabeças cortadas no Nordeste?

Ora, mas se pudermos, mesmo com as devidas reservas, ver algo do fenômeno do cangaço como mais compreensível na lógica das fratrias guerreiras (ao invés da bobagem vermelha da “Luta de Classes”, por exemplo), como explicaríamos o surgimento de uma tal coisa no interior do Nordeste? Os materialistas responderão que, se o fenômeno X é fruto invariável das condições materiais Y, e se tais condições (Y) se repetem, então o fenômeno X aparecerá. Esta visão pressupõe algo com o qual preferimos não nos comprometer: a repetição das condições materiais Y. Não assumimos que seja o caso, exatamente. Assumimos que há similares possíveis de serem defendidas. De nossa parte, como já indicamos, explicaríamos metafisicamente, como já indicado: o fenômeno X é causado por uma certa mentalidade A, que por sua vez também engendra nas condições materiais Y. Como esta mentalidade não causou X antes, e só passou a causar em tal momento histórico, aí é onde consideramos que se fechou uma “equação”, como que uma combinação de fatores (entre eles, alguns materiais) cujo motor mental é a fonte, e não que fora causado materialmente.

Neste caso, a explicação da causalidade histórica não nos atinge diretamente: se acreditamos que um certo “ethos” se manteve no imaginário popular inconsciente ao longo dos séculos – imaginem só, teríamos de fazer um inventário de fratrias guerreiras desde a época da Romanidade até a colonização do Nordeste brasileiro – podendo emergir à superfície fenomênica, dada certa “equação”, não ficamos obrigados a uma demonstração causal de heranças sucessíveis ininterruptas. Claro, poderão nos acusar de crer em coisas metafísicas e pouco científicas como “memórias atávicas”, etc. Bem, desde o começo deixo claro minha posição religiosa.

E do mesmo jeito, ficaria mais “fácil” de explicar o reflexo concreto das Cabeças Cortadas. Explicá-lo por causalidade histórica materialista é muito difícil (e pelo materialismo-histórico, impossível!). Sabemos que os Nativos, especialmente no interiorzão, eram conhecidos não por caçarem cabeças, mas por serem canibais. E das populações bantus, origem do grosso do componente africano no Nordeste, também não tenho notícia de uma tradição assim. Dos europeus que chegaram cá, em grande parte, portugueses nortenhos interioranos e galegos, se tem notícia da prática nos tempos célticos. Mesmo se formos generosos e pensarmos na permanência de algo disto na época das invasões germânicas da Ibéria, teríamos um lapso de uns 14 ou 15 séculos de distância até a época do cangaço…

Algo deste imaginário arcaico deve ter permanecido, além claro, da necessidade prática da comprovação da morte numa época em que não havia meios portáteis disponíveis para registrar o fato (e levar uma cabeça, logisticamente, é mais fácil que um cadáver inteiro). Não estou dizendo que devemos sair por aí defendendo que a prática das cabeças cortadas no tempo do cangaço seja um revival inequívoco do “barbarismo céltico” em terras Nordestinas, sendo uma prática cultural “ininterrupta” remontando aos Lusitanos e Galaicos antigos. Não é isto. Só estou colocando que uma abordagem “metafísica”, centrada na crença na sobrevivência imagética/simbólica na mentalidade cultural de um povo, mesmo exposto a influências de matrizes culturais diferentes, seria uma via de explicação de sentido com menos dificuldades. Uma vez que não requeria a continuidade material de uma prática, mas somente sua sobrevivência “inocular”, “dormente” e inconsciente no arcabouço cultural/espiritual de um povo.

Finalizando

Para finalizar, com tais considerações não estou a defender que qualquer quadrilha ordinária de criminosos pode ser vista como uma manifestação genuína das fratrias guerreiras Indo-Europeias, nem muito menos defendendo que devamos relativizar a criminalidade e passarmos a normalizar a maldade cruel contra inocentes que certos sujeitos comentam, em nome da romantização das fratrias guerreiras. Também não estou defendendo que devamos mutilar corpos e achar lindo as decapitações feitas na época ou mesmo no antigo passado céltico. Os que buscarem uma orientação prática do que escrevi acima, estão procurando errado: não é o motivo do texto. Antes, busquei olhar para um fenômeno violento de um passado recente munido de conceitos, no meu ver, diferentes dos utilizados mais comumente para descrevê-lo. Este é o sentido geral do que está escrito aqui: um olhar diferenciado.

Minha impressão geral é que estamos diante de um resquício de uma cultura guerreira arraigada, inconsciente e muito possivelmente sintética com elementos nativos, que se manifestara no bom, no que é louvável, nobre e memorável e no ruim, no que é maldoso, cruel e reprovável. Diante de um quadro mais ou menos coerente com uma cultura centrada em cavalos, armas, laços de compromisso e lealdade, folguedos, poetas e beatos “profetas” e que cada vez mais para nós aqui, ao olhar ao redor, parece estar no passado: via televisão, os nordestinos parecem ter completado a “brasilificação”, e cada vez mais tudo isso parece, quando se olha na rua, uma espécie de adereço folclórico artificializado. Mas deixemos qualquer traço de nostalgia de lado e olhemos para o porvir.

Do ponto de vista prático, mesmo vendo algo das fratrias guerreiras no cangaço, se considero que há algo a se tirar disto tudo, creio que há. Primeiro, a valorização das pessoas comuns que em cidades isoladas e por vezes, sem contingente policial algum, armadas, se organizaram e resistiram à invasão de bandos organizados pelo Nordeste a dentro (quanta diferença para os nossos dias!), gente humilde, lideranças políticas locais e mesmo gente do clero, pegou em armas para defender a honra das filhas, sua propriedade, sua liberdade. A história destas comunidades é por vezes apagada (afinal, dão um contra exemplo de peso a narrativa anti-armamentista mantida por certa intelligentsia) e no meu ver, precisa ser valorizada, assim como das Volantes. Aqui na Parahyba mesmo há exemplos exitosos dignos de nota: na antiga Conceição (hoje Santa Inês), Uiraúna, etc. Na verdade, aqui o bando de Lampião nunca teve saldo positivo geral, em parte, creio eu, pela impressão causada de repulsa sob a sombra de João Suassuna nos anos 20 (“cabra macho”, assassinado em 1930, foi presidente da Parahyba, rival do famoso João Pessoa e que foi o pai do ilustríssimo *uφeramos bardos da nordestinidade recente Ariano Suassuna). Mas isto é assunto para outra ocasião: paremos por aqui.

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