Belotenes e os Costumes de Maio

friedrich august von kaulbach flora
Flora, de Friedrich August Von Kaulbach

Muito se encontra ainda dos costumes pré-cristãos da Península Ibérica no mês de Maio, de fato argumenta-se que o próprio mês tenha seu nome da deusa romana Maia, fato é que tenham ou não agregado aspectos romanos, as origens das Festas de Maio são autóctones e muitas têm paralelos com celebrações célticas de outras regiões da Europa Atlântica, tais como as Ilhas Britânicas – alguns deles comprovadamente célticos dado que seus territórios não foram conquistados por Roma e por isso sofreram pouca ou nenhuma influência.

Quando o sol toma força definitiva sobre o inverno, a uma quarentena do Solstício de Verão, celebra-se por toda a Europa Atlântica a estação do plantio, da engorda do gado e das razias. São celebrações milenares, comuns a vários povos indo-europeus, e cujas origens se perdem na noite dos tempos. Na face atlântica da Península Ibérica as folhagens e flores da estação, como as margaridas e giestas, predominam nos campos e dão não apenas estética a estas celebrações, mas carregam poderes mágicos de proteção das residências e suas despensas. Este costume também é encontrado na Escócia e Irlanda, quando por ocasião do May Day e do Beltane, ramas destas flores são colocadas nas portas das residências para afastar bruxas e outros maus espíritos. Na área rural peninsular, o fogo tem o poder de afastar os maus espíritos que vagam na noite de 30 de Abril, espalhando pragas e doenças, por isso nesta noite que antecede ao mês de Maio, são acesas tochas ou fogueiras e em torno destas dão-se as celebrações. Pemón Bouzas e Xosé Domelo a este respeito dizem:

“Esta es una fiesta muy ligada a las sociedades agrarias, …, tenía un doble motivación, por un lado festejar el fin del crudo invierno y la llegada de la primavera, y por otro la petición de buenas cosechas… Esto se debe a que en las raíces dos Mayos están antiguos cultos a divinidades campestres, protectoras de plantas y vegetales cuyos origenes sitúan algunos investigadores en el mundo céltico, y otros en el mundo clásico, grego y romano.”

Estes costumes peninsulares também envolvem danças em torno de árvores ou os chamados Mastros de Maio, a confecção de bonecos de folhagens e giestas, de topo cônico, também aludem ao formato das árvores e mastros, e em alguns casos, os bonecos são animados por rapazes que, vestido-os, seguem em festa pelos campos e vilas, representando a figura folclórica do Maio, espírito vegetal de um menino ou rapaz jovem que pode abençoar ou prejudicar as plantações. Nas ilhas britânicas há também o costume do May Pole, e das danças com fitas amarradas em torno deste. Em Portugal as moças enfeitam com folhagens a um menino e chamam-no o “Maio Moço”, e seguem pelas ruas dançando em torno dele. Também em Portugal ainda se encontra o costume de eleger a Rainha de Maio, ou a Maia, no qual uma menina que deve usar vestido branco e ser enfeitada com flores, provavelmente em alusão a algum espírito vegetal, ou talvez à própria deusa primaveril, senta-se a um trono e deve ser venerada durante todo o dia. É notável a semelhança com o costume inglês de se eleger também uma May Queen no 1º de Maio, igualmente uma menina adornada de flores.

Mas como já foi dito, nem todos os espíritos são benfazejos, as celebrações tem em seu cerne, a defesa contra alguns deles. Um antigo costume levava os chefes das famílias a fontes de água tidas como sagradas, para afastar com favas pretas ao Maio, ou ao Burro, como também se chama a este espírito maléfico. Diz-se que “quem não come castanhas no 1º de Maio, o Burro monta”. Também a madeira do pinheiro é usada em algumas localidades para acender uma fogueira que tem o poder de proteger os campos e são acesas na noite de 30 de Abril, vizinhos se reúnem em torno destas para celebrar, com danças e cações. Estas festas são conhecidas como Lumieiras do Pan, algumas variações trazem tochas acesas ao raiar do dia por entre as plantações, na tentativa de afastar, com o fogo, todo o mal que possa se abater sobre os grãos semeados.  Algumas das cantigas em torno da Lumieira do Pan são:

“Levantate Maio,

que tanto dormiches,

já pasou o inverno,

e non o sentiches”

“Alumea o pan,

alumea ben,

alumea o pan,

para o ano que ben”

Sabe-se que estes costumes foram perseguidos durante a Idade Média, “Su raigambre es muy antigua, como lo atestigua el hecho de que ya en el Concilio de Braga (570) se prohibió colocar ramos en las casas buscando la protección de espíritus primaverales”, nos dizem Bouzas e Domelo. Em Lisboa a celebração das Maias, foi proibida no ano de 1402 por Carta Régia, ordenava aos juízes e à Câmara que “impusessem as maiores penalidades a quem dançasse as Maias ou as Janeiras e outras coisas contra a lei de Deus”. Estas festas portanto acabaram sendo mais presentes nos interiores, e nas grandes cidades perderam seu caráter mágico religioso, ainda que o costume de pendurar ramos de giestas e guirlandas de margaridas possa ser visto nas portas de algumas residências, e o costume das Maias ainda seja praticado por crianças, permanecendo assim, vivos na cultura popular de Portugal e da Galícia espanhola.

 

 

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