Sobre a confluência de três direções

Que a Brilhante Aurora
Ilumine nossa mente,
Afaste o mal para fora,
Proteja nossa frente
Com seu escudo impenetrável,
Com sua lança inquebrantável
Fortaleça nossa gente.

Que os indignos não nos entendam: que só achem aqui confusão de palavras e obscuridade indecifrável.

Quando abandonamos o rótulo do “Druidismo”, nós dos Brigaecoi focamos no que consideramos uma atuação mais “integral”, em termos de manifestações culturais: não nos bastava somente as atividades litúrgicas, propriamente “religiosas” no sentido sacerdotal, nos era necessário também os trabalhos manuais e a atividade guerreira, digamos. Obviamente que precisamos considerar nossa condição “moderna” enquanto grupo religioso muito minoritário e sem institucionalização formal, “invisível”, lançado numa sociedade multicultural nestes tempos conturbados: é nossa condição inalienável. Condição esta que enegrece a existência, mas que não nos encerra numa prisão inescapável. Daí que decidimos dar voz a ânsia de uma maior integralidade e concebemos três núcleos centrais de atividades visando dar ênfase em tais dimensões e, no plano ideal, cada um destes núcleos funcionaria paralela e independentemente apesar de doutrinariamente integrados e em sincronia. Todos do castro participariam das atividades, mas a organização e a liderança dos três grupos de núcleos de ação seria diferente.

Sem querer entrar em mais detalhes, ainda considero a ideia boa e promissora. Na prática, a implementação iniciou bem e não decolou completamente pela minha falta de “diplomacia” e recusa em “angariar” novos membros, uma vez que se trata de algo coletivo. Sem arrodeios, este tipo de defeito de minha parte (de uma certa “impaciência” civilizatória) não é bom. Não havendo contingente para encorpar certos projetos, terminamos entrando (“nos infiltrando”) em atividades noutros grupos (esportivos e culturais) para preencher certas lacunas e permitir certas expressões. Isto permitiu avanços, especialmente certas confirmações e manifestações epifânicas, mas também contribuiu para certa perca de foco interno. Nosso castro, já reduzido na época em termos de participantes, terminou ficando ainda mais e tem caminhado desde então quase que como um núcleo familiar somente. De minha parte – e entendam, leitores, o problema – estou satisfeito: depois de tropeços e calos, de querer distância dos “neopagãos”, aproveitamos um sossego incrível desde então. E suspeito que tal sossego seja algo que os demais participantes deste blog também sentem, após se afastarem de certos tipos. Daí que venho escrever sobre isto, não para contar de nossa “estagnação” em termos de novos membros, uma vez que atribuo nossa redução de público a um conjunto de circunstâncias mais pessoais de nosso grupo e de minha liderança específica e não às ideias concebidas, mas para compartilhar algo significativo para um certo número restrito dos que nos ouvem.

Resumidamente, uma vez estabelecido os princípios metafísicos e doutrinários, a proposta seria termos três espaços físicos, manifestações de ideias metafísicas citadas: um templo, um clube de luta (“academia”) e um “campo” ou oficina. Obviamente que, nas limitações materiais gerais, um só grande espaço poderia conter os três: o centro da atividade cultual (o templo), da atividade de preparação física e combate (o “clube”) e da atividade de produção artesanal (a oficina), ou ainda, estes três centros pudessem estar espalhados numa certa vizinhança ou cidade. No nosso caso específico, os que nos visitaram ou nos conheceram pessoalmente, já viram ou ouviram de nossos planos e de como implementaremos isto localmente.

Num certo sentido, cada um destes espaços é um centro “cultual”: o templo, por definição, não precisa de explicação, mas a “academia/clube” o será por ter um altar dedicado às Divindades relacionadas às atividades desenvolvidas lá; a “oficina” do mesmo modo, será um centro de culto às Divindades que velam sobre as a atividades artesanais e agrárias. Daí que cada um destes espaços, num certo sentido, é um templo em si mesmo, uma espaço de contemplação. Como também é uma área de “ação”: de ensino, de aprendizado, de prática, de “modelagem” e aperfeiçoamento, podendo servir como estrutura de apoio às práticas ascéticas pessoais. Além de que, na específica disposição para a ascese que cada espaço poderá comportar, ecoará a tríade de cultuar os Deuses (templo), ser bravo (“clube”/tropa) e evitar o mal (“oficina”/trabalho). Neste sentido, são espaços de afirmação cultural, identitária e política. Também são espaços de “produção” e manifestação produtiva: a oficina, não apenas responderá as demandas orgânicas do templo e do “clube”, mas estes serão, num certo sentido, “oficinas”: de clérigos e bardos, de combatentes, etc. Ou seja, o Templo, conterá, em menor medida, algo da Oficina e do Clube, assim como estes conterão algo dos demais em menor medida. Isto não significa que todas sejam a mesma coisa, mas significa que há uma porção de uma noutra coisa.

Em termos ideais, o Templo (*nemetom) será não apenas o local dos ritos comunitários, mas também o local para estudo, instrução e “treino” sacerdotal, assim como “finalização” de artefatos e parafernália litúrgica diversa. Ainda idealmente, podemos considerar que o *nemetom deva conter tanto o recinto (delimitado) em si (o *φarawsyom) com o(s) altar(es), como um local para o preparo das oferendas e o consumo do banquete (uma espécie de “cozinha” mínima ao ar livre com espaço e assentos suficientes para os que se reunirão ali) e mesmo um local para instrução sacerdotal e coisas do tipo (como uma sala com biblioteca, etc.). Nesta linha, os pagãos bálticos (Romuva) e mesmo o pessoal grego do YSEE são exemplos parecidos de possibilidades já realizadas.

Também em termos ideais, o Clube (ou “Academia”) será não apenas o local de treino físico pessoal, mas também o local para desenvolver “espírito de corpo” e todo o rito guerreiro, digamos, “iniciático”, relacionado a manifestação/nascimento da nossa “fratria”, do nosso *koryos. Daí que além de um espaço e equipamentos para treino pessoal (musculação, itens para combate corpo-a-corpo, combate com armas, etc.), um espaço visível delimitado para culto com altar(es), é importante uma sala para instrução teórica e que comporte a organização/promoção de palestras ou mesmo mini-eventos (com cadeiras suficientes, projetor ou TV, etc.) sobre temas relacionados (artes marciais, combate urbano, preparação, sobrevivencialismo, “bushcraft”, etc.) e ativismo. Neste sentido, para os que buscam exemplos concretos, parece que algo disto está a dar certo entre certos pagãos do leste europeu, especialmente Polônia, Ucrânia e Rússia.

E ainda em termos ideais, a Oficina como campo de trabalho coletivo é, talvez, o mais complicado. Pois pela própria natureza do trabalho especializado, haverá a tendência de se formarem “guildas” com oficinas (especializadas) próprias. Além de que, tradicionalmente, oficinas pessoais ou familiares, mais do que coletivas (no sentido mais amplo), são a regra. Daí que a “Oficina” será um espaço que sirva de oficina para artes manuais em geral, com ferramental básico (podemos pensar em coisas que sirvam para marcenaria, mecânica e forjaria), um espaço visível para culto e para reuniões. Um espaço para auxílio laboral mútuo e para trabalhos em prol do grupo religioso e dos demais espaços (o Templo e o “Clube”). Numa realidade mais ruralizada, também poderíamos pensar no espaço como sendo um local para cultivo de alimentos, ervas ou plantas sagradas, assim como um local que comporte uma possível “feira” (e no contexto mais urbano, um “bazar”) dos produtos dos membros do grupo para a comunidade mais ampla, seja em intervalos temporais maiores ou menores. Daí que tal “Oficina” seja muito mais um ponto de reunião (a palavra para “feira” em Proto-Céltico é *oynākos, que significa “reunião” e etimologicamente traz um sentido de “união”) das produções religiosas em um único vórtice: túnicas, bandeiras, instrumentos diversos, torques, braceletes, camisas, alimentos, etc. Mas ainda sim, sendo uma manifestação de uma certo trabalho de “forja” (podemos reconstruir o termo “Forjaria” ou “Oficina” a partir do velho bretão gobail, médio galês geuel, que daria algo como *gobal(y)om), da modelagem manual artesã.

Buscando reduzir tal simbolismo numa sigla simples, em Proto-Céltico, que julgamos ser ideal, abundam termos iniciados com *k: *kreddīmā “crença, credo” ou krābiyom (ou *krābitus) “devoção, prática religiosa”, *koryos “tropa” ou *katus “batalha” e *kerdā “arte, artesanato”; com *a, temos: *aydu “chama, fogo sagrado”, *agrom “guerra” e *arom “arado, campo de cultivo”; com *, temos: *gʷedyā “prece, oração” ou *gʷaryā “dever, responsabilidade parental ou filial” (de onde deriva o adjetivo *gʷoros “piedoso, responsável”) ou *gʷrensus “zelo, prática, trabalho”; com *g, temos *gnāstom “costume, tradição”, *galā “valor, bravura” e *gnīmus “ação, trabalho, feito”. Com *n, temos *nemetom “templo” ou *noybom “sagrado”, *nantis “combate”, *nertom “força” ou *nītu “fúria de batalha”, mas carecem termos para a terceira função. Na língua portuguesa, podemos resumir em três Ts: “Templo, Tropa, Trabalho” ou em três Fs: “Fé, Força, Família”. É uma questão de encontrarmos um conjunto sonoro (e inspirado) de termos. Variações para um mesmo propósito.

Simbolicamente, os Brigaecoi, como já publicizamos em nossa página, adotaram como símbolos de tais focos: o trisquel de Lás, o Lobo Ibérico com as falcatas e um disco estelar e uma suástica espiralar pontilhada. No entanto, podemos pensar em algo diferente e mesmo mais abrangente: a chama, como símbolo do templo; uma arma de mão (uma espada, ou uma arma moderna como uma pistola ou mesmo um fuzil – uma maneira de afirmar o aspecto “arqueofuturista”, digamos), como símbolo do “clube” ou tropa e o martelo ou um instrumento agrário como símbolo da “oficina”. Ou ainda, miremos o semblante de uma ave, um lobo e de um animal que revira a escuridão da terra: um porco, javali, um animal aquático ou peixe. Um estandarte triplo: eis o que enxergamos claro como o Sol em nossa mente. Sob cada signo, um espaço, independente e integrado. Os sacerdotes sob a proteção do Magnânimo Reus Pai, Júpiter-Larouco, a tropa sob a proteção do Poderoso Bandu, a oficina, sob a proteção do Multifacetado Lugus ou ainda sob as disposições benéficas da Triforme Návia. Cada grupo que busque sinais nos Deuses e os invoque para fortalecer seus espaços, orgulhosamente afirmados com uma disposição vertical e um ânimo combativo.

Essa me parece a direção e suspeito que somente quando a tivermos alcançado satisfatoriamente, conseguiremos afastar com solidez os feitiços dos instrumentalismos político-ideológicos das mais variadas “matizes”. Para nosso correligionário, em tal realidade, não haverá “movimento”, “ideologia” ou “partido” político. O que haverá será o *nemetom, o *koryos e o *oynākos. Ou numa formulação mais bárdica:

*triyōm kom-areyōm kom-datis: krābiyom, katus, kerdā
(“A confluência de três direções: devoção, luta, arte”)

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