“Transcender a Aflição em Beleza” de Dominique Venner

[Tradução de trecho da obra Un Samouraï d’Occident de Dominique Venner, pág. 228 a 230.]

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Morte de Heitor e Triunfo de Aquiles (protegido por Ares), de Antonio Galliano

Na Ilíada e Odisséia, Homero fala de nobreza em face ao flagelo da guerra. Ele fala da coragem dos heróis que matam e morrem. Fala da aceitação de seu destino por Aquiles, o sacrifício de Heitor, defensor de sua pátria, mas fala também da dor das mulheres (Hécuba e Andrômaca), dos tormentos de um adolescente privado de pai (Telêmaco), o abatimento da velhice (Príamo). Ele fala ainda mais, da amizade que une os combatentes (Aquiles e Pátroclo), da ambição dos chefes (Agamenon e Aquiles), suas vaidades, suas querelas. Ele fala de bravura e covardia, de amor e ternura. Ele fala do gosto pela glória que eleva os homens à altura dos deuses. Ele lembra que a guerra decide irrevogavelmente o destino dos homens, dos povos e impérios. Este poema, no qual a morte está tão presente, fala também do amor pela vida carnal, exuberante e tão intensa que a cada instante é posta em jogo. O poema celebra também a coragem trágica que impulsiona o coração contra a morte, e torna mais forte que os deuses. Ele fala que os exemplos dos mortos continuam vivos na mente dos viventes.

A Ilíada se inicia pela fúria de Aquiles e se encerra com seu apaziguamento face à dor de Príamo, a quem o filho ele veio matar. Não conta apenas uma epopéia ou um drama com um estilo admirável, Homero sugere aí sua alta visão da vida. Se sabemos ler e compreender aquilo que lemos, descobrimos aos poucos, que os gregos de outros tempos não tinham uma interpretação doce ou moralisante. Como dirão mais tarde os poetas trágicos, sabidos de que o mal pode se tornar o bem, e que Sófocles mostra em Édipo Rei, quando por intervenção de Atena, as terríveis Eríneas se tornaram as benevolentes Eumênides.

No canto VIII da Odisséia ,  Alkinoos, rei dos Phócios, ofereceu hospitalidade a Odisseu. Diante do rei, este escuta o bardo Démodocos cantar o episódio do Cavalo de Tróia, que permitiu aos Aqueus assumir o controle da cidade. Odeisseu se emociona com a guerra contada de outra forma, na qual tantos dos seus morreram. Ele pena para esconder as armas. Alkinoos compreende sua emoção,  mas oferece ao destino dos combatentes uma interpretação que a transfigura: Se os deuses infligiram a morte a tantos homens, foi para conceder o canto às gentes do futuro. “Conceder o canto”, outrora ditos poemas, significa transcender a aflição em uma obra de arte e em beleza. A aflição é, assim, revertida no seu oposto.

Esta transmutação é o que Homero sem dúvida constantemente nos lega de mais forte para afrontar a vida. A deusa invocada no primeiro verso da Ilíada a é a Musa da Memória e da Poesia. Ela inspira Homero e lhe concede o poder de transmutar “a cólera funesta” em obra de arte. As primeiras estrofes convidam, assim, a meditar sobre a contribuição da sabedoria trágica que despreza a queixa e o excesso de compaixão. Pela graça da obra de arte, o pior, “a cólera funesta”, pode se tornar o bem, ou seja, a beleza. Encontramos transformação semelhante en numerosas obras da literatura européia, O Romance de Tristão e Isolda, Hamlet, ou ainda, a Princesa de Clèves. Quanto mais o destino é cruel, mais ele é grandioso, mais ele é belo. Disso é necessário lembrar quando nos encontramos confrontados com a aflição advinda da guerra ou do acaso do destino.

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