“A Excelência como Objetivo” de Dominique Venner

[Tradução de trecho da obra Un Samouraï d’Occident, de Dominique Venner, páginas 225 a 227. Comentários em itálico no corpo do texto.]

Príamo aos pés de Aquiles, de Jerome Martin Langlois.

A morte, a vida… os crônicos do nosso século XV assim celebraram a um jovem cavaleiro de Hainaut, Jacques de Lalaing, campeão com a lança e a espada. Amigo do Duque de Borgonha, reconhecido por Charles VII, cobiçado pelas damas, conheceu seu primeiro sucesso em uma justa em 1440. Tinha 19 anos. Invencível nos torneios, morreu de um tiro de canhão na Batalha de Poucques em 1453. Ano tido como marco do fim da Guerra dos Cem Anos assim como da queda de Constantinopla. Para ele escreveu-se este epitáfio: “Foi a flor dos cavaleiros; belo como Paris o troiano; pio como Enéias; sábio como Ulisses o grego. Quando se encontrava em batalha contra seus inimigos, possuía a ira de Heitor o troiano…” A comparação aos heróis de Homero é reveladora. Ao final da Idade Média,  para lá de 20 séculos depois,  a Ilíada permanecia sendo o garanhão da Cavalaria, ainda que sua transmissão tenha conhecido alguns percalços.

Nada havia realmente mudado em 20 séculos na representação fundamental dos melhores! [acredito que aqui, por “melhores”, Venner não use a palavra de forma genérica, mas que esteja se referindo ao termo pelo qual Homero adjetivava aos heróis, “aristos akhaiôn” ou “os melhores dentre os gregos”] À imagem dos heróis da Ilíada, os homens autênticos, nobres e bem sucedidos se esforçavam em coragem e buscavam na ação a medida de sua excelência, como as mulheres buscavam no amor o dom de ser a luz que lhes fazia existir. A uns e a outros importava apenas aquilo que é belo e forte. “Ser sempre o melhor”, recomendou Peleu a seu filho Aquiles, “sobrepor-se a todos os outros” (Ilíada, VI, 208). Quando Penélope se atormentava pensando que seu filho podia ser morto pelos pretendentes, ela temia sobretudo que morresse “sem glória”, antes de haver cumprido com aquilo que faria dele um herói assim como seu pai (Odisséia,  IV, 728). Mas que visar a excelência não se confunda com a vulgar competição pelo reconhecimento, as honrarias ou a riqueza. A competição não é o objetivo.  Ela é o estimulante. Esta diferença permite distinguir entre a autenticidade e o seu oposto, o orgulho, a vaidade.

Permanece, no entanto, um equívoco bastante pesado sobre a injunção já citada de Peleu a seu filho: ” sobressair-se sobre todos os outros…” a ideia subjacente de competição,  mesmo a título de estimulante, estabelecia mesmo que implicitamente uma confusão entre excelência  (virtude interior) e façanha (sucesso atado à vaidade, possivelmente à arrogância). Nos maravilhamos com o personagem de Alexandre, encarnação dos excessos. Plutarco relata que ao curso de suas campanhas o conquistador carregava sempre sob o travesseiro sua espada e a Ilíada. A imagem é bela, sugere que Alexandre tomava por exemplo a Aquiles, o herói fogoso, pretexto de sua epopéia.

O personagem excepcional do jovem conquistador do imenso império persa atava sua atenção a um traço constante da alma européia. Alexandre foi a encarnação viva do excesso que condena e tenta corrigir a sabedoria antiga. O excesso é portanto um traço evidente do caráter europeu, um traço maior, catastrófico em suas consequências, mas indissociável de uma grandiosidade trágica na qual estamos imersos, divididos entre a admiração e o susto.

Refletindo sobre o personagem de Aquiles ao ler atentamente a Ilíada, percebe-se que Homero, ao honrar a fogosidade e a coragem do herói, o prefere implicitamente a Heitor. Sabe-se também que Aquiles tornou-se um grande nome, não porque ele demonstra sua força sobre-humana e seus excessos, mas porque ele devolve a Príamo o corpo de Heitor,  um feito de magnanimidade iniciado pela intervenção dos deuses. Não se pode esquecer que há em Homero uma constante reprovação dos excessos, como aquele de Agamemnon ao provocar a ira funesta de Aquiles, e também o excesso dessa cólera, que por contraste sublinha o fracasso da embaixada dos três sábios no canto IX da Ilíada.

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