“Uma Nova Reforma”, de Dominique Venner

[Tradução do trecho Uma Nova Reforma, da obra Un Samouraï d’Occident de Dominique Venner. Pág. 294 a 298. Comentários meusno corpo do texto em itálico e entre colchetes.]

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Os 12 trabalhos de Hercules, alto relevo romano do século III d.C.

Pensar e dizer estas verdades constitui em si mesmo um tipo de revolução do espírito. Mas para que esta se complete, outras condições dependem de nós.  “Não há necessidade de um grupo muito numeroso de homens para mudar profundamente a sociedade moderna. … a discilplina dá aos homens grande força. Um minoria ascética e mística adquiriria rapidamente um poder irresistível sobre a maioria indolente e aveulie [não encontrei tradução]. Ela seria capaz, pela persuasão ou pela força, de lhes impor outra forma de vida. Nenhum dogma da sociedade moderna é imutável” (Citação de Alexis Carrel, em O Homem é Desconhecido). O resto vem por si só, até a conversão dos homens capazes de sustentar o redespertar. É de se pensar em Marco Aurélio, discípulo de Epícteto, que contudo morreu muito antes de seu advento.

Eu desejo que no futuro, no campanário da minha vila, assim como nos das catedrais, continuem se fazendo ouvir o dobrar suave dos sinos. Mas eu desejo ainda mais que mudem as invocações ouvidas sob suas abóbadas. Eu desejo que paremos de pedir perdão e misericórdia, para evocar o vigor, a dignidade e a energia. Eu desejo que surja do interior uma nova reforma com o espírito do retorno às nossas origens autênticas, cujas perspectivas o papa Bento XVI abriu em seu discurdo de Ratisbonne em 2006. Uma reforma que dará todo lugar às múltiplas faces da Virgem protetora, Nossa Senhora, já presente na Antiguidade mais antiga, sob a forma serena das fadas benfazejas do mundo céltico ou da grande figura de Atena ou Ártemis na Grécia antiga.

Àqueles que virariam para mim e colocariam a sempiterna questão “o que fazer?”, eu responderia: “Não espere de mim a receita para a ação.” Se lhes aprouver o desejo de agir na política, engagem-se, mas sabendo que a política tem suas regras próprias que não são aquelas da ética. E sobretudo, não esqueça meus ensinamentos. As convulsões dos nossos tempos têm causas que excedem apenas as forças políticas ou reformas sociais. Não é suficiente mudar as leis ou substituir ministro por outro para construir a ordem que evita o caos. Para mudar os comportamentos, a começar pelo dos dirigentes, é preciso reformar o espírito, tarefa sempre a se cumprir. Qualquer que seja a vossa ação, vossa prioridade deve ser a de cultivar em vós mesmos, a cada dia, como uma invocação inaugural, uma voz indestrutível na permanência da tradição europeia.

Eu sonho às vezes com o desespero de Symmacus, dito “o último romano”. Grande ariatocrata romano, Symmacus viveu no fim do século IV, época das mais sinistras. Ele morreu sendo uma testemunha desesperada do fim da romanidade antiga. Não sabia ele que o espírito da romanidade, herdado por sua vez do Helenismo, renasceria em seguida de formas novas e que o Cristianismo, seria muito mais um pagano-cristianismo, do que um judeu-cristianismo, após nutrir-se de uma tradição que não pôde abolir. Ele ignorava que a alma europeia, já dita o espírito da Ilíada, perduraria através dos séculos, impondo-se na sucessão das gerações.

Nós que conhecemos a história em seus milhares de anos e a escrutinamos com o olhar ansioso que poderia ser o de Symmacus, sabemos daquilo que ele não sabia. Nós sabemos que individualmente somos perecíveis, mas que o espírito do nosso espírito é indestrutível, como é aquele de todos os grandes povos e de todas as grandes civilizações. No período presente, não é apenas a Europa da política e da potência que está dormente depois das guerras destruidoras do século XX. É acima de tudo a alma europeia que está desacordada.

Quando virá o grande despertar? Não sei, mas de que este redespertar virá não tenho dúvidas. Eu mostrei neste Breviário que o espírito da Ilíada é como um rio subterrâneo, inesgotável  e sempre renascendo que nos cabe redescobrir. Porque esta continuidade é invisível e portanto verdadeira, é necessário rememorá-la noite e dia. E assim seremos invencíveis.

Por ter sido jogados abaixo da posição dominante que era a nossa antes de 1914, precipitados em seguida a um abismo de negação e culpabilização, nós somos os primeiros europeus postos diante da obrigação de repensar inteiramente nossa identidade através de um retorno às  nossas fontes autênticas. A Antiguidade que evocamos não é a dos eruditos. É uma Anguidade viva que temos como tarefa reinventar. Assim havemos de recompor nossa tradição para fazer dela um mito criacionista. Ela não pode se fazer apenas de escritos e palavras. O esforço intenso de refundação deve ser autentificado por atos que contenham um valor sacrificial e fundador.

Dominique Venner

Concluído durante o Solstício de Inverno, Natal de 2012.

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