Tradução: Emily Lyle – As Eras do Mundo e o silo de Yima

[Tradução por Marcílio Diniz de um trecho capítulo 5 do livro “Ten Gods: A new approach to defining the mythological structures of the Indo-Europeans” de Emily Lyle, publicado pela Cambridge Scholars Publishing em 2012. p. 49-54. Omiti as notas de rodapé referenciadas no texto, assim como as referências das citações indiretas e tabelas, por motivos práticos.]

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No “Trabalhos e Dias” (versos 109-201) Hesíodo dá 5 eras, das quais a quarta, a Era dos Heróis, é de um tipo muito diferente das outras, e que parece uma interpolação em um sistema quádruplo que consistia na Era de Ouro, de Prata, de Bronze e de Ferro (Most 2006-7, 1:96-105). As eras são envoltas em correspondências. Na “República” de Platão, por exemplo, há uma referência a um mito de acordo com o qual alguns homens (os governantes) são de ouro, outros (os guardiões) são de prata, e o resto do povo é de bronze e ferro, e Platão também possui uma associação vertical com a imagem de um corpo, mencionando novamente mais a frente no capítulo, que o ouro corresponde a cabeça, a prata ao torço/braços, bronze e ferro a parte baixa do corpo. O sistema é de tipo espaçotemporal e inclui categorias sociais.

Woodard torna claro que no final de uma Idade, a Era de Ferro de Hesíodo, é um evento onde há um desordenamento “entre elementos da sociedade” (2007, 144). Na Índia, ele nota (135), “cada era é marcada pela cor que é característica da classe correspondente, e as eras seguem uma ordem hierárquica, do melhor para o pior, que se alinha a hierarquia das classes sociais”. Após “as três classes de origem Indo-Europeia, a brāhmaṇa, kṣatriya e a vaiśya” vem o período de dissolução e destruição quando “as três classes perdem sua distintividade”, e este período é seguido pela renovação e abertura do próximo ciclo. Woodard conclui (137): “esta doutrina cosmológica de mistura social, de enfraquecimento e confusão das classes Indo-Europeias canônicas, acompanhando sublevações da era final, deve ser no mínimo Proto-Indo-Iraniana em sua concepção.”

Este esquema pode ser visto como se relacionando de um modo muito interessante com a estória iraniana do silo de Yima, se pudermos tomar que a confusão caótica das categorias na era final é uma possível expressão do estado de coisas em um período de morte. As eras indianas (yugas) são de diferentes dimensões, correndo da mais longa no início, a qual é a melhor época (116-17), e devemos considerar útil a ideia de extensões e valores desiguais, não como na associação da yuga em extensão decrescente coincidindo com o valor decrescente, mas com a associação reversa de um menor período com um maior valor, que é o encontrado no relato de Yima.

Com as correspondências espaçotemporais em mente, não parecerá irrelevante comparar a sequência das eras com a lenda que não menciona secções de tempo, mas fala como Yima é ensinado a preservar as coisas de valor em seções de um espaço subterrâneo chamado de vara. Yima é o equivalente iraniano do indiano Yama, e Dumézil fez um estudo fechado de todas as ramificações das narrativas concernentes a ele. Em relação a esta lenda que é relevante aqui, ele descobriu que Yima deveria ter governado o recinto que havia estabelecido (apesar da estória como chegou a nós, influenciada pelo Zoroastrismo, não inclui este ponto) e que, como Yama, ele é um deus dos Mortos.

Bruce Lincoln também discutiu a lenda, e mostrou que o vara pode ser entendido como o monte sepulcral assim como como o “domínio paradisíaco do pós-morte” (1982, 4). No entanto, é mais como um Outromundo imaginado que a encontramos na narrativa. No Greater Bundahisn, que contém a descrição do lugar que Yima criou (Anklesaria 1956, 270-71), diz que é “uma mansão maravilhosa e iluminada” e que é “construída subterrânea para ficar escondida”. Benveniste comenta o seguinte sobre a passagem do mais longo tratamento no Vendîdâd que ele cita:

Agora, quando Ahura Mazda comanda Yama [Yima] a construir o estabelecimento subterrâneo que preservará os espécimes da boa criação da fúria do inverno vindouro, ele insere uma instrução precisa que os intérpretes não tem explicado: “Na primeira parte (desta região subterrânea), faça nove passagens (ou divisões); na parte intermediária seis, na última, três. Nas divisões da primeira parte, coloque as sementes de mil homens e mulheres, na segunda, de seis centos; e na última, de trezentos.

Benveniste (1932, 120n2) reconhece que a figura do “mil” é simplesmente um número redondo e que estamos justificados a pensar que o número bate com o número de compartimentos o que seria novecentos.

Como Benveniste e Dumézil ambos defenderam, Yima faz três compartimentos de diferentes tamanhos para os três grupos sociais Indo-Europeus, um para os sacerdotes, um para os guerreiros e o terceiro para o resto do povo, e que consistem em 3, 6 e 9 divisões numa proporção de 1:2:3, como o maior valor sendo atribuído a menor porção, que é para os sacerdotes. Eu interpretei esta razão como se aplicando a diferentes períodos do ano um tempo atrás (Lyle 1990a, 24-25, 58-59), mas a ideia não parecia levar a lugar nenhum e eu a abandonei. Agora, por outro lado, as sugestões estruturais correntes permitem aplicá-la muito rapidamente ao padrão e lançar luz indireta sobre as eras do mundo e sobre as partes do ano que são alocadas aos vivos e aos mortos.

Partindo de que o reino dos Mortos espelha o dos Vivos, as instruções de Yima sobre a composição do mundo subterrâneo devem revelar informação sobre a composição deste mundo, e eu devo considerar primeiro a parte correspondente ao mundo dos vivos.

As proporções são na razão de 1:2:3, mas a informação não é dada deste modo, mas em termos de 18 unidades agrupadas em grupos de 3, 6 e 9. Qual seria a unidade de medida empregada? A estrutura esperada seria de um tipo espaçotemporal, e minha proposta é que a unidade em termos de ciclo anual é a da quinzena ou metade do mês (½m). Como o ano lunar possui 24 meio-meses, e estes podem ser considerados blocos que são distribuídos ritualmente entre os vivos e os mortos-e-não-nascidos (i.e. a “semente” guardada para o futuro por Yima), com a mesma proporção de 1:2:3 operando em ambos. No caso dos vivos, o número de quinzenas na lenda de Yima seria:

3½m (1 mês e meio) + 6½m (3 meses) + 9½m (4 meses e meio) = 18½ (9 meses)

Dividindo o quarto restante do ano na mesma proporção, mas em ordem inversa a maneira do mundo dos Mortos, teremos:

3½m (1 mês e meio) + 2½m (1 mês) + 1½m (meio mês) = 6½m (3 meses)

A formulação do Vendîdâd é tão explícita e (como tenho interpretado se aplica tanto ao tempo dos vivos quanto ao da semente) compreensiva que devo usá-la no padrão do ano. Tem tamanha precisão que talvez tenhamos agora um sistema de medida que nos foi legado contra todos os empecilhos. Em termos de estações e meia estações, os sacerdotes possuem uma meia estação (1 mês e meio), os guerreiros uma estação completa (3 meses) e os cultivadores uma estação e meia (4 meses e meio). Na direção inversa, os produtores mortos possuem meia estação (a segunda metade do outono) e os guerreiros mortos e os sacerdotes dividem a outra meia estação (a primeira metade do inverno), sendo alocado um mês e um meio mês, respectivamente.

Na Índia, encontramos atenção explícita dada ao período do calendário pertencente aos ancestrais que é colocado a parte do das três varṇas e este ideia é válida mesmo nos esquemas contraditórios encontrados na literatura quanto nas fontes indianas. Concordam na devoção de uma parte substancial do ano aos mortos. Em um esquema, o período dos ancestrais consiste na metade completa do ano contando do solstício de verão ao de inverno. Neste modelo de metade do ano, há seis estações, e cada uma das três na metade crescente dos deuses é relacionada a uma das varṇas. As estações rodam a partir do meio do inverno, e ocorrem em ordem hierárquica que as liga, primeiro, aos brāhmaṇas (sacerdotes); depois aos kṣatriyas (guerreiros) e então aos vaiśyas (cultivadores/pastores). Esta correspondência com as varṇas nos permite transferir por meio do sistema quádruplo na filosofia indiana onde três dos quatro quadrantes do mundo (com o início do Leste) são relacionados em uma sequência hierárquica aos brāhmaṇas, kṣatriyas e vaiśyas, enquanto o quarto quadrante (o norte) está fora da sequência e se relaciona ao “Outro”, que contem ideias de morte (assim como se conecta com a quarta classe dos śudras que ritualmente representam os Ancestrais) quanto de totalidade. Este padrão atribui um quarto do total aos ancestrais, como apresenta um tratamento indiano alternativo não-hierárquico das direções do mundo no qual o “Sul representa o mundo dos mortos” (Bodewitz 2000, 23).

Em uma prática indiana, há uma série de três rituais de morte realizados nos três últimos meses do ano (antes do Solstício de Inverno), começando no oitavo dia da segunda meda do mês Mārgaśīrṣa (Oberlies 1998, 309n776), que podem ser relacionados claramente ao período de três meses dedicados aos mortos discutidos aqui, com seus três diferentes componentes. São os festivais Aṣṭakā que, como originalmente eram celebrados, eram três em número com diferentes tipos de oferendas: bolos, carne e vegetais. Vemos aqui a consagração de um período de três meses para diferentes rituais dos mortos que poderíamos pensar ter tido alguma conexão com as três varṇas, sendo a oferenda do meio de carne bem vinda aos kṣatriyas.

Mais geralmente, podemos ver que, no modelo, o tempo dos mortos cai numa meia estação pertencendo aos cultivadores, e uma meia estação pertencendo aos hierarquicamente superiores sacerdotes e guerreiros. Em termos de tempo, uma meia estação pertence ao outono e a outra ao inverno, e em termos de espaço, uma pertence ao de cima e outra ao que baixo. Isto bate com a ideia que pode haver diferentes destinos para os mortos. E é um tópico muito amplo que requer uma discussão completa em uma variedade de contextos, mas que por exemplo, podemos notar na tradição Nórdica, Valhalla governada por Odin e o Submundo por Hel “parecem ser inversões estruturais uma da outra”, com uma acima e outra abaixo, e que a de cima e mais valorizada das duas recebe guerreiros.

Captura de tela de 2019-08-06 12-31-19
Os mortos não podem agir por si mesmos, claro, e são dependentes da atenção ritual dado pelos vivos e, de acordo com o esquema, diferentes categorias de homens tomam diferentes responsabilidades por diferentes categorias de ancestrais, e que por isto pode ser esperado que traga a toda a comunidade as bênçãos que têm a oferecer. Parece similar a situação das mulheres para a comunidade, e que os homens na estação do verão possuem responsabilidades particulares em relação a elas, uma vez que as mulheres não pertencem ao in-group que gere o age-grade system e suas correlações. No entanto, diferentemente dos mortos, as mulheres são uma presença visível na comunidade e podem realizar seus próprios festivais.

[Paremos por aqui, como diz o ditado popular: “para bom entendedor, meia palavra basta”].

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