A Civilização da Antiga Europa [Old Europe] – Tradução de Marija Gimbutas

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Expansão territorial da Antiga Europa

[Tradução de trechos da obra The Goddesses ans Gods of Old Europe, de Marija Gimbutas]

Figura controversa da arqueologia do Período Neolítico e da Idade do Bronze, Marija Gimbutas, claramente exterioriza em sua Hipótese Kurgan a influência da Segunda Onda do Feminismo, surgida na década de 1960, ao alegar que os proto-indo-europeus seriam um povo eurasiático e androcrático, que teria destruído com violência uma cultura matrifocal, mais desenvolvida e puramente européia, à qual ela denominou Old Europe. Após a decodificação do DNA e emprego deste na arqueologia, alguns aspectos de sua teoria foram comprovados, tais como a origem eurasiática dos proto-indo-europeus, de modo que, ainda que se possa discordar de suas interpretações, é preciso conhecer o seu trabalho. Então, trago para o leitor, a tradução de alguns trechos úteis para a esfera religiosa, e deixo que cada um pesquise por conta própria e tire suas conclusões a respeito do total da obra de Gimbutas.

Fundo Cultural [pág.  17 a 18]

A Designação ‘Civilização da Antiga Europa’ e Seu Significado

Vilas dependentes da domesticação de vegetais e animais apareceram no sudeste europeu desde o 7° Milênio A.C. e as forças espirituais que acompanham esta mudança na organização econômica e social se manifestam  na emergente tradição artística do Neolítico. O desenvolvimento de uma economia de produção alimentícia e as subsequentes inovações culturais não podem mais ser simplesmente explicadas pela introdução vaga de colonos da Anatólia ou do Leste Mediterrâneo. Durante os séculos 7, 6, e 5 a.C. os fazendeiros do sudeste europeu desenvolveram um padrão cultural único contemporâneo a desenvolvimentos similares na Anatólia, Mesopotâmia, Sirio-Palestina e Egito. E alcançou o auge no 5° século a.C.

Uma nova designação, Civilização da Antiga Europa, é introduzida aqui em reconhecimento da identidade coletiva e realizações dos diferentes grupos culturais do sudeste europeu no Neolítico-Calcolítico. A área ocupada se extende do Egeu ao Adriático, incluindo as ilhas, e tão ao norte quanto a Tchecoslováquia*, sul da Polônia e oeste da Ucrânia. Entre 7000 e 3500 a.C. , os habitantes dessa região desenvolveram uma muito mais complexa organização social do que seus vizinhos do Norte e Oeste, formando assentamentos  que frequentemente tornavam-se pequenas cidades, inevitavelmente culminando na especialização artífice e na criação de instituições religiosas e governamentais. Eles descobriram independentemente a possibilidade de utilizar o cobre e o ouro para ornamentos e ferramentas, e até parecem ter desenvolvido uma escrita rudimentar. Se se define civilização como a habilidade de um dado povo de se ajustar ao meio e desenvolver arte, tecnologia, escrita, e relações sociais adequadas, é evidente que a Antiga Europa alcançou um elevado grau de sucesso.

Os vestígios mais eloquentes desta cultura Neolítica europeia são as esculturas, que testemunham facetas da vida de outra forma inacessíveis ao arqueologista: vestimentas, cerimonialismo religioso e imagens míticas.

Os habitantes do sudeste europeu de 7000 anos atrás não eram habitantes primitivos de um Neolítico incipiente. Durante 2 milênios de estabilidade agrícola a sua riqueza material aumentou persistentemente pela crescente eficiência na exploração  dos férteis vales fluviais. Trigo, cevada, ervilhas e outros legumes eram cultivados, e todos os animais domesticados presentes nos Balcãs hoje, exceto o cavalo, eram criados. A tecnologia de cerâmica,  de ossos e pedras avançaram,  e a metalurgia do cobre foi introduzida no leste-central europeu por volta de 5500 a.C.

O comércio e as comunicações, que se expandiram através do milênio, devem ter promovido um tremendo ímpeto de fertilização cruzada do crescimenro cultural. O arqueologista pode inferir a existência de uma abrangente comercialização pela grande dispersão de obsidiana, alabastro, mármore e casca de espondilo. As rotas marítimas e ilhas sem dúvida serviram de rotas primárias de comunicação, e a obsidiana era transportada por mar logo no sétimo milênio a.C. O uso de embarcações mercantes é atestado desde o sexto milênio em diante por representações em cerâmicas.

O contínuo aumento da prosperidade e da complexidade da organização social certamente teria produzido no sudeste da Europa uma civilização urbana amplamente análoga àquelas do Oriente Próximo e Creta do segundo e terceiro milênio a.C. A expansão do momentum cultural da sociedade europeia do quinto milênio foi, contudo, encurtada pela agressiva infiltração e assentamentos de pastores semi-nômades, ancestrais dos indo-europeus, que desestabilizaram a maior parte da Europa Central e Leste durante o quarto milênio a.C. A cerâmica colorida e esculturas da incipiente Civilização da Antiga Europa desapareceu rapidamente; somente em torno do Egeu e nas ilhas a sua tradição sobreviveu ao fim do terceiro milênio a.C.  e em Creta à metade do segundo milênio a.C. A primeva Cultura Helládica da Grécia e Cíclades e da Civilização Ocidental Minóica de Creta, com a riqueza do artístico palácio, epitomiza o Neolítico e Calcolítico da Velha Europa.

A Deusa Grávida da Vegetação  [pág. 201]

Uma deusa simbolizando a fertilidade da terra era a resposta natural a um modo de vida agrário. Sua imagem não abriga o acúmulo de símbolos da era pré-agrícola como o fazem as da Grande Deusa e da Deusa Pássaro. Ela desenvolve seu próprio caráter no curso do tempo, mas sua íntima relação com a Deusa Grávida do Paleolítico Superior é óbvia.

A semente deve ter sido reconhecida como a causa da germinação e crescimento, e a barriga grávida de uma mulher deve ter sido assimilada ao campo da fertilidade na infância da agricultura. Como resultado, surgiu a imagem de uma deusa grávida imbuída da prerrogativa de influenciar e distribuir fertilidade. A crença de que a fertilidade ou esterilidade feminina influencia o cultivo persiste quase universalmente no folclore europeu. Mulheres estéreis são vistas como perigosas; uma mulher grávida tem influência mágica sobre grãos porque, como ela, o grão “engravida”; germina e cresce.

A deusa grávida pode ser decifrada tanto por meio de seus quasi ideogramas – um ponto num lozango, ou um lozango em um lozango – inciso ou pintado em sua barriga, cochas, pescoços e braços, ou pela gravura naturalística de uma mulher grávida com mãos sobre o ventre. Ela está relacionada ao quadrado, o símbolo perenial da matéria terrestre.

As figuras grávidas dos sétimo e sexto milênios a.C são nuas, enquanto as grávidas do quinto e quarto milênios são ricamente vestidas exceto no abdômen, que é exposto e sobre o qual se vê uma serpente sagrada. Nesta série um alto padrão estilístico se nota: a parte abdominal do corpo é enfatizada e as outras partes são modificadas. Algumas imagens tomam a forma engarrafada de amuletos ou chocalhos, obviamente são imagens das deusas, mas necessárias em procedimentos mágicos para obter fertilidade.

O porco,  o animal sagrado da Deusa da Vegetação [211 a 215]

A curiosa conexão entre a Deusa da Vegetação e porcos como conhecida na Grécia Clássica remonta à Era Neolítica. Esculturas de porcos são conhecidas de todas as partes da Europa Antiga e datam de todos os períodos. Em números eles se igualam às representações de cães, touros e bodes. O crescimento rápido do corpo suíno teria impressionado os primeiros agricultores; sua gordura deve ter sido comparada ao crescimento e corte do grão, de modo que sua gordura macia aparentemente veio a simbolizar a terra, levando o porco a se tornar um animal sagrado provavelmente no sexto milênio a.C.

Uma Deusa da Vegetação Grávida de Vinca usa a máscara de um porco, enquanto a sacralidade do corpo do porco é indicada nas esculturas Cucuteni que contêm traços de impressão de grãos. Os grãos eram impressos no corpo do porco assim como nos corpos da Deusa da Vegetação, e era seu animal sacrificial.

[…] Não há dúvidas de que o porco teve papel importante no culto da civilização do Leste balcânico. Em adição a maiores e menores figuras de porcos, a cabeça de um porco da Bulgária central tinha orelhas perfuradas para brincos! Vasos robustos, meio antropomórficos e meio zoomórficos assemelham-se às partes posteriores de porcos, e pequenos recipientes com cabeças de porcos ou incisões estilizadas com motivos de porcos foram provavelmente usados para sacrifícios ou ofertas votivas. Porcos, vale a pena notar, ainda eram representados na Creta Minóica, e durante as idades Clássica e Helenística na Grécia e Itália. Uma verdadeira obra prima do século quinto ou quarto a.C.  é uma lâmpada em formato de porco encontrada no cemitério Camarino, na Sicília. Um lozango e um design floral aparecem no meio do corpo.

Alusões a Deméter, Core e Perséfone na Mitologia Grega [215 a 216]

Por sua associação ao porco, a belamente adornada Deméter com sei seios nus, Rainha dos Grãos, a doadora de pães e rainha dos mortos (manifesta como sua filha Perséfone) pode ser conectada a sua predecessora, a pré-histórica Deusa da Vegetação. Perséfone foi até mesmo chamada de Pherrephata, ‘matadora de porcos em aleitamento’  pelos Atenienses. Porcos em aleitamento tiveram papel proeminente no culto a Deméter e Perséfone. O festival da Themosphoria, que ocorria conforme a semeadura da nova lavoura em Outubro em honra a Deméter, era um dos festivais mais importantes na Grécia. Celebrado unicamente por mulheres e durava três dias. As mulheres traziam porcos aleitados, que três meses antes do festival haviam sido jogados em covas subterrâneas para apodrecer, e os depositavam sobre o altar da Themosphoroi – o nome pelo qual Deméter e seu duplo ou filha, Core, eram chamadas durante o festival  – com outros presentes; eram misturados às sementes a ser utilizadas no plantio.  […] após o festival eles eram depositados no santuário de Deméter.  No santuário da deusa em Lykousura, ofertas a Deméter eram listadas em inscrições: óleo, favo de mel, trigo, imagens, sementes, lâmpadas, incensos. Entre as imagens de terracota representadas no relevo em mármore encontrados no santuário, estavam exemplares femininos portando cabeças ou patas de animais, incluindo as de porcos. O porco é um animal essencial em rituais de purificação  e tiveram papel fundamental nos Mistérios Eleusianos. Tão importante o eram, que quando a Eleusis foi permitido cunhar suas próprias moedas em 350-327 a.C. o porco foi escolhido como sinal e símbolo dos seus Mistérios.

*Quando a obra foi primeiro publicada em 1974, os países República Tcheca e Eslováquia formavam um só.

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