Sobre uma tomada de posição do sacerdote

Escrevi um texto num grupo do Telegram respondendo a um vídeo de um “tradicionalista” guénoniano (a mim desconhecido até então – e continua, uma vez que não fui conhecer os vídeos nem o canal do sujeito) postado por um dos membros sobre a postura do “tradicionalista” em face da polarização radicalizante vivida no país e resolvi juntar com umas notas que estava tomando neste texto. Infelizmente não revisei à sério e por isso, peço desculpas por eventuais erros de ortografia. Aviso que há uma certa precaridade, pois certos assuntos requerem uma meditação profunda e posso estar redondamente enganado em algum ponto, além de que o próprio tema demanda algum tipo de envolvimento.

lobo-do-fim-do-mundo

Sobre o vídeo em questão.

Consideremos primeiramente certas coisas primeiras. Se a Guerra é o pai de tudo, haverá Guerra mais cedo ou mais tarde. Se a ordem cósmica ela própria é assediada constantemente pelas forças titânicas “vencidas”, havendo uma degradação geral do reforço humano (pelo enfraquecimento do sacrifício, ação virtuosa e abstenção do mal) à defesa da Árvore do Mundo, haverá Guerra mais cedo ou mais tarde. Isto não deveria nos espantar. Mesmo quando nos voltamos para o cenário de insídia geral instaurada, especialmente, por mais triste e penosa para nossos confortos e objetivos gerais, também não deveria nos pegar de surpresa – não a nós. Se olharmos para os mitos fundacionais e escatológicos, ao menos ao que nos chegou, veremos tal invariável variação do Conflito, da dissolução e renovação.

Daí que mesmo de um modo superficial, a previsão (na verdade, o desejo) de 250 anos de paz social global e democracia progressista, de um futuro “hippie” a laImagine’ de John Lennon nos é um “mito” estranho, para dizer o mínimo. Mesmo para os que não levam a sério tal perspectiva, mas que se detém ao estudo da História (universal ou do Ocidente somente), buscando ver algum padrão, dificilmente alimentará um otimismo pacifista para com o futuro. Daí que, num certo sentido, ao menos para nós, a “Guerra” será inescapável: cedo ou tarde, seja amanhã ou depois de anos, seja “à moda antiga” seja nos novos moldes informacionais, cruenta ou “simbólica”, etc. E sob tal perspectiva, as razões, a “justiça” ou a “verdade” humana dos contendores, tenderá a ser relegada ao segundo plano, especialmente sob a perspectiva “cósmica” (que como veremos, será adequadamente identificada pelo sábio). Sob tal perspectiva, tal sucessão um tanto quanto indiferente ganha peso, e os temores específicos das gerações que agora se preocupam, tomam um ar contingente e meramente “histórico” em oposição ao Eterno, nisto estando o sujeito do vídeo algo certo ao chamar a atenção a temporalidade dos atuais problemas. Mas justamente ao sacerdote caberá saber o que é a ordenação cósmica e os que tentam subvertê-la. Claro, é bom dizer que isto não acarreta, necessariamente, numa mentalidade belicista de normalização de injustiças e crueldades gratuitas (dulce bellum inexpertis há uma tendência a desvios na guerra, seja de qual lado for, afinal bellum se ipsum alet)

Daí que, o autor do vídeo está correto, no meu ver, ao buscar afastar o componente “ideológico” (quem me lê aqui, sabe que tenho falado algo do tipo faz tempo) que piora o entendimento (e o fazer-se compreender do sacerdote pela sua comunidade, se esta estiver demasiado “ideologizada”) e confunde dando ao contingente aparência de essencial. E também, é chover no molhado denunciar o clima de histeria ideológica maniqueísta e radicalizante que tem piorado a polarização e deteriorado a confiança social numa sociedade já saturada por dificuldades diversas, de ordem econômica, multicultural e de segurança, como é a nossa. No entanto, ele termina – previsivelmente – pelo reforço da lição evoliana do “Cavalga o Tigre”, que na prática significa tornar-se invisível, justificando um “Isentismo” prudente e um não envolvimento quase higiênico com a confusão da turba ruidosa (o próprio “tigre”).

Esta posição, creio eu, é parcialmente correta ou válida em parte. A defesa da impertubabilidade do sábio (comum na tradição ocidental do Estoicismo, na oriental do Budismo, etc.) de sua “apolitização”, é tradicional, é verdade, mas não é a única postura válida para o sacerdote (entenda-se a pessoa de natureza predominantemente sacerdotal/contemplativa). E aqui aparece o primeiro grande problema: para nós, não há uma única natureza humana: nosso essencialismo é trifuncional, cuja consequência abrangente será não apenas de vias ascéticas diferentes, mas de visões gerais diferentes, apesar de organicamente “integradas”. Aqui talvez caberia dizer que o “Guénonismo” (perenialismo cripto-cristão do René Guénon) e mesmo algo do Budismo em geral, essencialmente, tendem a dissolução da trifuncionalidade, numa espécie de luta por erradicação oculta das “religiões” do “guerreiro” e do “produtor” ou assimilação destas diminuídas, numa forma religiosa “sacerdotal” superior, digamos (se pode entender o Cristianismo também deste modo). Se a recusa da ação do guerreiro e sua dissolução num radicalismo contemplativo (sacerdotal) é manifesta no Budismo, é também verdade que algo deste mesmo guerreiro permanece forte no Islã, por exemplo. Mas aí é um assunto longo e complexo e coloco tal consideração a título de pensamento a ser desenvolvido ou aprimorado.

Considero que há 3 vias de ação possíveis para a natureza sacerdotal/contemplativa: a da ataraxia (grosso modo, a do “Cavalga o Tigre”), a do “esclarecimento” estratégico e a da “ação” imersiva. O primeiro rumo é o que o autor do vídeo apresenta, e talvez seja o do “sacerdote-sacerdote” no sentido mais adequado. A segunda via poderá ser atestada facilmente na história das sociedades tradicionais: se tratará da imersão “parcial” do sacerdote como medium e hermeneuta aos sinais divinos e celestes de modo a, em favor da ordenação cósmica “impessoal”, orientar ou mesmo influenciar a ação dos players e contenedores, seja de qual lado for, sendo, num certo sentido, a via “sacerdote-guerreiro”. A terceira opção, será a da imersão no tumulto – que também poderá ser verificada na história, especialmente entre povos aguerridos, que não raro dispunha tais sacerdotes a lançar imprecações contra o inimigo no próprio campo de batalha – com o sacerdote sendo fonte “produtora” de guerra por vias “espirituais” no lado que estiver: “magia”, criação de narrativas, instigação panfletária e emocional, etc. Aqui se trata da via mais baixa, do “sacerdote-produtor”, e aqui propriamente cabe a tipificação da “via da mão direita”, pela edificação e ajustamento ao Dharma (para usar um termo hindu), digamos, contra a “via da mão esquerda”, pelo “aceleracionismo” e dissolução.

Daí que a primeira opção não é a única. Mesmo Evola, no seu último livro (dos publicados em vida, o ‘Ricognizioni’ de 1974), ao que parece, reconsiderou algo disto e mesmo propôs “ação” (o famoso texto “por uma historiografia de Direita” é deste livro, por exemplo, onde se tem a formulação clara da necessidade da ativação e mesmo radicalização do “combate cultural” contra a hegemonia, digamos, “progressista” enviesadora que ameaçava monopolizar o registro da História. Também não podemos deixar de notar, especialmente aos que se dizem “evolianos” o quão Evola fez questão de colocar-se na “Direita” e de escrever por ela, afirmando posição dentro deste campo ao invés de abandoná-lo completamente ao “inimigo” mesmo no final da vida e num cenário hostil, diferentemente de um Benoist, por exemplo). E mesmo não saberia dizer que se seria a opção “mais tradicional”, apesar de dizer, sem medo, que é uma.

Claro, suponho que o autor do vídeo fez o mesmo para seu público, focado nas pessoas que, interessadas na Tradição, talvez se enquadrem nesta natureza “sacerdotal”, digamos e que no ver do autor mereçam esta orientação quase “escapista”, digamos. Além de que, para quem leu o Evola e o “Cavalga o Tigre”, sabe que o mesmo recorre ao Mitraísmo para lembrar que, no momento certo, o Touro é sacrificado… Ou o no caso do tigre, que se monta o mesmo, não para “escapar”, mas para, no momento certo, apunhalá-lo. O sábio que o faz, por mais que se mantenha, corretamente, isento ante as polaridades num quase temor sadio de “contaminar-se”, não deverá estar numa postura puramente “derrotista”, mas ao contrário, numa de alerta, como o caçador que pacientemente espera sua presa.

Enfim, ignorar que há naturezas diversas não me parece “tradicional”: como dizer a um guerreiro para que “cavalgue o tigre”? A opção justa pela isenção, digamos, faz mais sentido e será mais justificada em naturezas contemplativas/sacerdotais, mesmo não sendo a única opção, como espero ter pontuado, mas será vista negativamente pelos ksatryas e também não será lá muito bem compreendida pelos produtores, pois estes últimos, se desprovidos de sua virtude tradicional da temperança – o que acontece nas polarizações extremadas – tenderão a ser massa de manobra, seja de que lado for… Daí que, se é compreensível certo “pessimismo existencial”, “fatalismo escatológico” ou “messianismo” no sacerdote que vê o tumulto do mundo em chamas, será compreensível também que alerte baseado em tais visões; entendo, mas alerto que não é a única via possível ao sacerdote e mesmo não sei se será a melhor, que dirá para os guerreiros e produtores, que constituem sua comunidade imediata e público mais amplo.

Há outro ponto que me chamou atenção no vídeo. Se é verdade que a praga da superstição ideológica fanática moderna é uma praga, também o é que, por vezes, o fanatismo irracional não deve ser visto como coisa-em-si (sendo condenado como se fosse somente isso), mas como meio – como manifestação de algo além – como indicação da ação de uma “força oculta”. Inclusive, sob a mesma perspectiva tradicional que o sujeito do vídeo diz advogar, as questões perenes envolvem – justamente – a identificação e ação dos poderes divinos e seus antagonistas ocultos, sendo por isto, objeto de estudo e previsão em toda e qualquer sociedade tradicional do passado, estudo este e previsão, feito não pelos “políticos e guerreiros” (os players, digamos), nem pelo “povão”, mas pelos sacerdotes. Sim, como tenho advogado, nós mesmos precisamos nos libertar do cárcere “ideológico” da modernidade, abandonar seu linguajar, sua gramática e semântica, retomar ou reforjar o olhar tradicional sobre a política ultrapassando, definitivamente, as superstições ideológicas modernas: mas este é um trabalho para sacerdotes, e para uma “elite” destes que, de cima para baixo, talvez lentamente e em condições ideais. Se neste meio termo, uma conflagração inevitável emerge, paciência: declarar a inação e imobilidade como única saída é inadequado, e dependendo das circunstâncias, uma forma de derrotismo pouco honrada.

Há uma famosa alegoria atribuída a Pitágoras, onde as naturezas trifuncionais indo-europeias são expostas; me refiro a alegoria dos “Jogos Olímpicos”. Há os que vão para fazer negócios, arrumar companhias, vantagens, mostrarem-se e verem-se (“produtores”), há os que vão para competir (“guerreiros”) e os que vão para contemplar o espetáculo em si (“sacerdotes”). Entendo que a contemplação desinteressada e imparcial talvez seja a mais atraente para esta natureza “pura” em termos ideias. Mas também entendo que haverá quem contemplará “torcendo”, comentado, fazendo análises proveitosas e previsões fundamentadas ou que haverá mesmo até, quem buscará ajudar os que competem, pondo suas habilidades específicas a serviço de uma das “equipes” contenedoras. Posso até, justificadamente, acreditar que esta última opção é pouco dignificante e talvez a mais questionável, especialmente quando atesto a pouca qualidade dos contenedores no mundo real em oposição às idealizações hipotéticas, ou quando observo o quão desprezíveis são os torcedores fanáticos dos contenedores em si. Mas não me parece apropriado advogar a saída do estádio como única possibilidade, como se “resolvesse” algo, especialmente se estou ciente, como Aristóteles, que ganhará não o “melhor ideal” (que não estará presente em carne e osso na arena), mas o que compete melhor, no mundo real e nas circunstâncias dadas, sejam elas deprimentes como forem. Se o autor do vídeo, voltando a alegoria, advoga para alguns a permanência para a contemplação desinteressada e imparcial do passageiro evento a se desdobrar na arena, está bem, concordo que é uma opção válida e tradicional, mas digo que não é a única.

O problema da demarcação.

Se a permanência isenta e desinteressada não é a única opção possível e mesmo não será possível para alguns (dado sua natureza intrínseca e determinações internas), mesmo para os de natureza sacerdotal, irrompe o problema da demarcação das posições, problema mais complexo do que pode aparentar, especialmente quando somamos o tumulto confuso dos lados prestes a se digladiarem. Soma-se o fato de que inimizades são naturais, são parte da existência, mesmo quando nos esforçamos para não gerá-las conscientemente ou gastamos muito tempo e recursos para diminuir, neutralizar ou reverter as já geradas. Desta atestação não se deduz, é bom deixar claro caso alguém queira entender errado, que devemos cultivar inimigos e normalizar todo comportamento insidioso antissocial e intratável. Por favor, não se trata disto. Em todo caso, não tratamos das situações normais neste momento, mas sim de uma hipotética situação de deflagração e convulsão social na qual eventualmente nos encontremos, estando além de nossas possibilidades imediatas “encerrar” algo que não foi iniciado por nós, nem está posto em nossos termos.

Faz anos já que tenho alertado para que se evitasse certo reducionismo e não se entrasse num maniqueísmo empobrecedor e contraproducente, especialmente quando se tem tanto a fazer no campo teórico e prático, como é nosso caso no front do reavivamento das fés Indo-europeias ocidentais. Bem, mas se é o clamor dos tempos, o que fazer? Como traçar a linha então? Como delimitar os campos?

Eis um procedimento que tivera um ar ritualístico para os nossos ancestrais, sagrado, pois há sempre um quê que sagrado na guerra feita de forma sagrada. A delimitação ritual das fronteiras – prática comum de Celtas, Germânicos e Romanos, por exemplo – o rito de percorrimento (com um touro ou vaca, à cavalo, por vezes) dos limites e marcos (as *anta), como parte dos ritos de entronização (especificamente entre Celtas) e renovação do poder político legítimo sobre um território, cuja união com a Soberania é assegurado posteriormente pela ação honesta, a *wīryā wlatimunos (“a verdade do governante”), expressa o tipo de mentalidade que também requer a delimitação ritual, pela ponta de uma lança a riscar o solo, dos lados do campo de batalha ao se declarar guerra, com isso delimitando expressamente o inimigo. Mesmo no plano aparentemente simples e despretensioso de nossas confabulações cá, há algo de solene em estabelecermos uma linha divisória, pois, em última instância, se trata da circunscrição de um inimigo, o que pare gente como Carl Schimitt, se trata do ato político fundamental.

Para piorar o problema, como já dissemos, os campos não são formados a nossa escolha ou entendimento e qualquer dos lados nos quais por ventura nos encontremos terá problemas, desgostos e desafetos. Daí que, como coloquei acima, seja perfeitamente compreensível o sentimento “sanitário” do sábio de não querer “se poluir” submergindo numa das correntes. Sem contar que, numa situação como a de nossos tempos, onde o peso da “guerra psicológica”, da desinformação sistemática e engenhosamente construída, desta espécie de “guerra mágica” de níveis mais do que duvidosos, de embrulhar o estômago, a nuvem de confusão ganha uma expressão e dimensão gigantesca, auxiliando a turvar os sentidos e “aprisionar” a mente dos sujeitos individualmente no conforto dos seus próprios lares: é um tipo de “magia” que, suponho, antes não se obtinha resultados tão fortes como se pode obter hoje com o auxílio da informática e telecomunicações.

É verdade que também aborrece bastante o moralismo passional “universalista” que eclode neste bipartidarismo, principalmente quando propagado por gente embusteira, que gosta de tirar sarro dos cristãos mas que reproduz com mais tino e obstinação um quase gnosticismo maniqueu, preso e enredado nas malhas ideológicas modernas apesar de posar de antimodernista “malvadão” e parte da “alternativa”. O desejo de fingir virtude, de pedantemente “estar do lado certo” dos “oprimidos” sempre, de “militar” sem trégua é abjeto: são os impulsos refinados, secularizados na ideologia, da militância oriunda do imperativo evangélico, que reúne a boa disposição de fé do crente, seu genuíno desejo de fazer o “bem ao próximo”, “corrigir o mundo” e espalhar a boa nova, com o temor soteriológico velado (ou uma “culpa” social oculta que precisa ser expiada, especialmente quando se trata de gente de classe média) e uma convicção escatológica que, ao contrário da nossa herança Indo-Europeia, não prevê “renovação”, mas o linearmente absoluto fim. Isto também aborrece, dificultando o entendimento e coloco aqui mais como desabafo que como premissa.

Se mesmo numa atmosfera menos turva, podemos desconfiar da possibilidade epistemológica de explicação da verdade de teorias filosóficas aplicadas a política, numa tal atmosfera o peso do ceticismo sobre tais possibilidades de explicação ganha ainda mais peso. Daí gente como eu, cada vez mais, voltar-se não a teorias de explicação de aspirações científicas que prometem predições “científicas”, por desconfiar do próprio sucesso epistêmico de tais empreitadas, mas para as teorias metafísica-religiosas mais “holistas”, abandonando cada vez mais a “discussão” e a preocupação de persuadir racionalmente (de notar, a título anedótico, o espanto de um professor de Sociologia, que por acaso se dizia “cientista” político e trabalhava numa rádio fazendo análises de conjuntura, ao saber de meu ceticismo sobre seus métodos e alegadas atividades – quando confrontado com a total inacurância de suas “previsões” e da “inutilidade” de suas análises diante dos fatos que se apresentavam na realidade, uma vez que suas atividades estavam contaminadas pela soberba pseudo-intelectual do materialismo dialético, que o fazia errar sistematicamente em sua “leitura do mundo”, ao invés de reconsiderar algo ou refutar algo do que foi demonstrado, passou a atacar-me pessoalmente…). E mesmo que não houvesse motivos intelectuais para desconfiarmos de tais propostas explicativas, como já colocamos antes, se partimos de uma posição religiosa e tradicional, não poderemos excluir a ação do componente divino no desdobrar da realidade, o que seria o suficiente para excluirmos as teorias explicativas e ambições preditivas que não comportam espaço para tal “componente” divino.

Diante destas considerações todas, me parece que, criticando o papel nefasto das superstições ideológicas, não podemos posicionarmo-nos a partir delas, considerando-as como coisas-em-si (a maneira dos militantes, que as consideram causas boas e certas em si mesmas), mas como manifestações de outras forças, nos livrando também da implicação moral de “valorizá-las” para além de meros instrumentos contingentes, que na melhor das hipóteses, servirão para a expressão de campos polarizantes essenciais e preexistentes.

Quando há unidade interna num país e num povo, em termos majoritários, e há uma hostilidade exterior, a linha demarcatória é “simples” (talvez por isto também, a ênfase dos autores clássicos na manutenção desta unidade). Mas não é o caso da maioria dos países ocidentais, e não só nestes, neste momento no mundo. Para além das dificuldades internas e desta nebulosidade confusa, ainda é possível que mesmo as divisões que se formam tendam a ser “líquidas” e móveis, dada a velocidade da informação e os diferentes níveis de conspirações simultâneas que podem ser bem sucedidas.

Talvez muito do que falei aqui seja uma tentativa de “amoralizar” a demarcação da linha divisória, retirar a ilusão do “Bem x Mal” perspectival de cada lado, num sentido que considero submisso ao que se lê nos cap. 1 e 2 do Bhagavad Gita hindu, onde a transcendental demarcação entre a ordem cósmica e sua oposição, se torna o que realmente importa, para além das oposições contingentes. Interessante que por mais que, havendo um clero com clara percepção dos princípios tradicionais, o que por sua vez facilitaria a identificação dos poderes em ação e o decorrente ajustamento da conduta de sábios e príncipes, ainda haveria os que deliberadamente prefeririam a via da sinistra manus e tomariam posições ao lado dos antagonistas dos *Deywoi, por julgarem ser preferível “apressar” o fim inevitável e posterior renovação.

A religião como demarcação?

Uma vez descartadas as opções a partir das “ideologias” e suas supostas validações em si mesmas, como a possibilidade do conhecimento de quem está “certo”, alguns dirão que devemos marcar a linha divisória, em termos práticos, na religião somente. Considerando como amigos aqueles da mesma fé e inimigos os que não são. Eu mesmo no passado acreditei que num mundo cada vez mais globalizado e multicultural como este e nas circunstâncias que temos, cada vez mais seria comum forjar-se solidariedade baseada na fé, e menos noutras características como grupo étnico original, procedência geográfica, laços familiares, etc. Similarmente a visão de Durkheim que acreditava como “orgânico” os laços sociais forjados artificialmente por pessoas desenraizadas emigradas para as grandes cidades “unidas” pela sujeição ao Mercado e a vida “cosmopolita” e corrida da metrópole; apesar de não chamar de “orgânica”, cria que numa sociedade cada vez mais fragmentada, desterritorializada, com os laços orgânicos da família e amigos da mesma procedência fragilizados, as diferenças de religião ganhariam mais corpo como vetor de solidariedade social, reforçando o atavismo “tribal” a atualizar-se neste novo momento.

Mas hoje desconfio se a aposta de traçar a linha divisória a partir da fé é a resposta. Cada vez mais me parece que não. Primeiro, traria divisão para as famílias que se entendem mas divergem quanto a fé (ecoaríamos a terrível posição do nazareno destruidor de famílias em Mateus 10:35). Segundo, permitiria que estivesse ao nosso lado uma ruma de incompetente inútil e de gente vil, fraca e traidora, pelo simples fato deste tipo declarar cultuar os mesmos deuses que nós. Mesmo que seja verdade que em tese cultuem, havendo uma falha de caráter na implicação séria entre rito e moral, ficamos de mãos atadas e desprotegidos destes sujeitos e das sabotagens oriundas deles. Terceiro, tenderíamos, talvez até mesmo buscando contornar algo da possibilidade nefasta do segundo ponto, a cair numa forma de abraamismo puritano, exclusivista de ortodoxia, coisa que não nos cabe por princípio.

Na atual circunstância, o veneno ideológico da Modernidade dividiu até mesmo as religiões. Me recordo que no curso de 2014-2016 a situação na Ucrânia mostrava que “pagãos” lutavam uns contra os outros (se bem que, entre nós, meio que sempre foi assim – apesar de que haviam mais tipos pagãos no lado ucraniano que no separatista, neste os que haviam, até onde saiba, eram estrangeiros) e que o campo “fé” não significava “união” no sentido de estar na mesma fileira. Mesmo quando nós, de fé indo-europeia, nos solidarizamos, por exemplo, com os povos de fé nativa contra ataques de fundamentalismos abraâmicos, nós mesmos não deixamos de ser vistos como “opositores”, nossa renúncia ao Cristianismo não nos “purifica”, aos olhos daqueles de nossa herança e pecha de “conquistador”, “opressor” e “invasor”. Sem contar que o elemento religioso pode ser utilizado para encobrir fraudes ou problemas de outra ordem, sendo instrumentalizado como vetor político, como desculpa de alto poder mobilizador no nível internacional, que logo será abandonada pelos “mentores” caso obtenham sucesso. Olhemos para a Bolívia agora mesmo: os que creem que se trata, sobretudo, de Pachamama x Evangélicos, são no mínimo, simplistas, pra não chamar de ingênuos.

Outra consequência de partir da religião é estereotipar as “religiões vilãs” (por exemplo, as abraâmicas) coisa que tem suas complicações a serem consideradas, pois as mesmas não são blocos monolíticos – mesmo com todo o esforço de puritanismo da ortodoxia de séculos entre elas mesmas. Se é verdade que o Catolicismo Popular nos é mais próximo e mesmo reservatório de certa continuidade de práticas pré-cristãs, também é verdade que o “Catolicismo Oficial” continua sendo o que foi, em termos de hostilidade contra nós. Se apontamos o dedo para o Islã somente, mas fingimos não ver problema algum com certos evangélicos e católicos (em termos de “catolicismo oficial”), não resolvemos muita coisa. Se apontamos o dedo para os evangélicos somente, mas fingimos não ver problema algum com muçulmanos e católicos, temos outra não resolução. Tais reduções em bloco, além de eticamente questionáveis, não nos oferece saídas em termos de fortalecimento de nossa própria fé quantitativa e qualitativamente.

Alguns dirão talvez, e eu mesmo pensei assim 10 anos atrás, por exemplo, que pela conjuntura geral os evangélicos representem para nós um alvo prioritário em termos de hostilidades, pois seu crescimento representaria, invariavelmente, mais ameaças e problemas para os membros de religiões minoritárias e politeístas. Hoje, antes de respondermos a isto, é importante reconhecer o sucesso deste grupo religioso em termos de expansão e aumento de poder. Num certo sentido, eu mesmo passei a respeitá-los mais enquanto movimento bem sucedido, apesar da caótica e descentralizada – sem falar na doutrinalmente questionável miríade de “interpretações” teológicas estranhas mas que não me dizem respeito – marcha, combinando tropeços, saltos e passos ordenados. Não posso negar também que nutro, de modo fundamentado aos meus olhos, uma resistência e asco a certos tipos entre estes “evanjas”, que no meu ver, encarnam de forma cruel o pior estereótipo do parasita do deserto semita. Mas alerto aos correligionários que a atitude de desdém e distanciamento nada respeitoso para com o grupo mais amplo dos “evanjas” não me parece produtiva, especialmente por não evitar em nada seu crescimento nem muito menos o fortalecimento, em número e qualidade, das fileiras “pagãs”. Neste 10 anos, olhando em retrospectiva, nossas fileiras continuam pequenas, se não menores.

Mas antes que alguém venha cá dizer o que não estou dizendo, tais observações não significam, obviamente, que se deva procurar “amizade” com quem nos considera “diabólicos” e um mal a ser conquistado a longo prazo. Não estou dizendo isto. Apenas chamo a atenção para os que veem nos “evanjas” o pior mal sobre a face da terra, sobre o argumento de que representam uma potencial violência contra nós, que esta mesma potencial violência está também com o Islã e mesmo na ICAR, não importa quão “progressista” e “esquerdista” seja seu papa atual. E pontuo por ver gente “respeitando” uns (especialmente os que estão distantes, ainda bem), mas irracionalmente, fazendo questão de desrespeitar outros, tratando-os como blocos monolíticos. No caso dos “evanjas”, já estão entranhados no corpo social entre nossos compatriotas e qualquer um que viva fora do mundo virtual, dificilmente não terá um amigo desta fé com o qual se dá muito bem. O pensamento bloquista nos impede de explorar as diferenças internas e enxergar o que pode estar a nosso favor, a priori, sem que sequer saibamos se há algo.

Em busca de uma saída

Os malévolos trotskystas responderão que qualquer coisa será a linha divisória, desde que seja eficiente, e é neste sentido que têm trabalhado incessantemente faz anos, na divisão e sectarismo de tudo, na rígida superstição cega de que uma guerra civil será sempre uma manifestação da “luta de classes” prevista em suas confabulações presunçosas. Eu me nego a ir com tal trotskysmo energicamente. Se não podemos recorrer às fés, minha sugestão é buscar algo fora de moda: os laços orgânicos, locais e familiares. Se trata, para mim, de um instinto decisório, digamos, não sei nem se de fato, sou livre para escolher outra coisa se não isto (me soou terrivelmente spinoziano tal asserção, diga-se de passagem). Não me vejo noutro lado se não no lado dos meus pais, amigos de infância e de lealdade testada e ao lado destes enfrentaria a morte de mente tranquila. Quando olho para o que sei de meus antepassados recentes e do que sabemos de nossos antepassados mais distantes, vejo uma certa continuidade deste respeito a lealdade aos seus, vejo mais coisas que colaboram para o lado “conservador” e “patriota”, de longe. Talvez alguém diga que pelo mesmo critério estará do outro lado, o que tenho a dizer é “ótimo”: saiba que ganha meu respeito.

Minha dificuldade pessoal é a de respeitar quem está lá por ilusão ideológica, por “encantamento”, digamos, e fica difícil não nutrir um desprezo pelos que abandonam os seus que sempre os foram pela ilusão solitária dos “laços virtuais” dos outros que nunca estarão efetivamente. Estes, em especial, especialmente quando gostam de posar de “radical” e “antiliberal”, o fazem na solidão liberal de uma bolha ideológica escolhida solitariamente por ele no “mercado de ideologias”, cujos “amigos” virtuais, como numa igreja protestante virtual, passam a dar sorridentes tapinhas nas costas virtuais uns dos outros num ciclo de exclusão social (real) encoberto pela “inclusão” grupal (virtual). Não raro, é o tipo de gente que não se dá bem com primos, nem pais, nem família, não fala mais com os amigos de infância, se tornou tão esquisito e deslocado que possui pouca confiança social ou reputação decente, mas não perde a hora de falar com a boca cheia em prol de “valores tradicionais”, “antimodernidade”, etc. E claro, não raro, são os primeiros a “se posicionarem” arrogantemente, sem que ninguém os peça posição alguma.

Encerramos por aqui estes meros pensamentos que reputo como abertos. Não se trata de um chamado às armas nem muito menos de uma espécie de “ultimato” de posicionamento, ao contrário, mas de uma reflexão sobre o que é possível considerando o perfil sacerdotal e os caminhos para ação. Se pareceu que, pela atestação da possibilidade de um conflito inevitável, estamos desejosos e ávidos por um, pareceu errado. Se trata, antes, do atraso sacerdotal justificado em posicionar-se, atraso a ser estendido até os últimos minutos, dirão alguns: não por covardia, mas por real desconfiança dos “lados” que se apresentam. Se cultivamos uma mentalidade de castros, cultivamos uma mentalidade de tribo, de muralhas e armas, de nós e eles. Não há castro sem muralhas, não há castro sem território limitado e muito menos castro sem um povo que o habite.

13-2

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