Tradução: Falando a linguagem do Tradicionalismo pagão: uma conversa com Askr Svarte

Tradução por Marcílio Diniz da entrevista originalmente publicada no blog Continental-Conscious em inglês (clica para visitar o original). Meus rápidos e breves comentários aparecerão entre []. Askr Svarte (Evgeny Nechkasov) é um filósofo russo contemporâneo, desconhecido para mim até um tempo atrás, com algumas ideias interessantes, apesar de que li muito pouco sobre o mesmo para formar uma opinião mais sólida. No entanto, é interessante, no mínimo, ver como, dada as distâncias e diferenças, vemos aparentes aproximações com ideias e concepções que postamos cá.

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Jafe Arnold: Saudações, Askr Svarte! Não é apenas um prazer, mas, diria, um acontecimento fatídico, poder discutir contigo algumas das questões profundas que surgiram da leitura e tradução de suas obras sobre Paganismo, de assistir a suas palestras e de conversar com diversos associados intelectuais. Por mais de uma década, tens sido um pensador pagão e praticante envolvido não apenas “no chão” dentro das tradições eslavas e germânicas, mas também “no céu”, aproximando, contemplando e correlacionando a diversidade das tradições pagãs em busca de uma espécie de “meta-hermenêutica”. No primeiro livro da tua obra de dois volumes, ‘Polemos: Pagan Traditionalism’, que tive a honra de traduzir e publicar, identificas essa hermenêutica como a escola de pensamento tradicionalista iniciada por René Guénon e Julius Evola. É precisamente nesta encruzilhada de Tradicionalismo e Paganismo que gostaria de me colocar e conversar contigo primeiro. Um dos conceitos centrais, senão o mais central, desta escola de pensamento é o da “Tradição Primordial”, a “Tradição Perene” ou, tendo em conta as críticas e refinamentos desta noção por alguns autores tradicionalistas mais recentes , simplesmente o de “Tradição”. Minhas primeiras perguntas reconhecidamente amplas para você são: O que é e onde está o Paganismo nesta Tradição? O que o paganismo significa para o Tradicionalismo?

Askr Svarte: Saudações, Jafe! Gostaria também de aproveitar a ocasião para expressar minha gratidão pelo teu trabalho de alto nível no livro ‘Polemos’ e sua colaboração com o almanaque WARHA.

Deliberar sobre a Tradição Primordial é um assunto volumoso. Posso formular minha posição resumidamente da seguinte forma: Tradição é Paganismo. Essas palavras são sinônimos para nomear uma e a mesma coisa. Para levar isso adiante, entretanto, preciso emitir uma série de esclarecimentos e definições importantes para que esta formulação possa ter seu peso e fundamento.

Em primeiro lugar, se olharmos para as obras, escolas metafísicas, tradições e linguagens para as quais René Guénon, Julius Evola, Frithjof Schuon, Ananda Coomaraswamy e outros se voltaram para obter os ideais normativos ou ter como traços da Tradição Primordial, então quase 100 % deles são parte da herança e legado do Paganismo, como Vedanta, Tantra e Hinduísmo em um sentido amplo, a arte não abraâmica do Oriente e da Ásia, Grécia e Roma pré-cristãs, os povos germânicos e celtas, e vários povos arcaicos. Mesmo se tivéssemos uma visão estritamente cronológica, então as raízes da Tradição Primordial (a “nossa religião”) deveriam remontar a Eras anteriores a quaisquer formas de Abraamismo por muitos milhares de anos.

A situação é a mesma com o Cristianismo, e sabemos ainda mais aqui porque estamos muito mais familiarizados com o contexto Europeu e Russo. Em uma de suas primeiras obras, Alexander Dugin escreveu diretamente que “do ponto de vista do Cristianismo Ortodoxo, o Tradicionalismo é uma forma de heresia”. Na verdade, é assim, porque para o Tradicionalismo, Cristo é parte mais de uma das faces da Verdade, enquanto que para um cristão coerente ele é toda a plenitude da Verdade. [algo semelhante a isso também é válido para o Catolicismo, que também condena uma perspectiva tradicionalista]. Também é necessário mencionar as numerosas relíquias e sínteses do Cristianismo com o Neoplatonismo (como os místicos da Renânia) e nas culturas folclóricas (folclore, “dupla fé”). Isso é especialmente perceptível no Romantismo ou mesmo antes na cultura do Cavalaria Medieval, que é indivisível e seria inconcebível sem a Männerbunde pagã germânica.

Portanto, se olharmos atentamente para as tradições e culturas das quais o Tradicionalismo “se origina” e a quais culturas ele se referiu ao longo de todo o curso de sua história, então, na esmagadora maioria dos casos, essas são tradições não-abraâmicas ou muito específicas, não ortodoxas, leituras místicas do Cristianismo e do Islã. As atitudes céticas de Guénon e Evola em relação ao Catolicismo e ao Cristianismo como um todo são amplamente conhecidas, portanto, não é o ponto para especulações.

O Tradicionalismo, portanto, não se “cruza” simplesmente com o Paganismo ou simplesmente está “próximo” dele. Tradicionalismo é Paganismo. [Se substituirmos a palavra “Paganismo” pela palavra ‘Dharma’, por exemplo, me parece que a frase fica ainda mais evidente]

Em segundo lugar, nas línguas europeias, o termo “Paganismo” infelizmente contém muitos entendimentos incompletos e falsas conotações. A palavra russa “iazychestvo” é mais rica do que a palavra inglesa “pagan” e “heathen” ou a alemã “heidnische“. Em russo, esta palavra tem associações semânticas e etimológicas com “iazyk” (“língua”, “idioma”, “fala”), tradição (no sentido de religião étnica) e pessoas ou povo (o antigo eslavo “iazyk” = ethnos). Assim, esta palavra dá um nó em algumas das categorias mais importantes da metafísica (linguagem e religião) e povos específicos e suas culturas sagradas. Não existe essa semântica nas línguas europeias, em que até hoje se rege a dicotomia “paganusvs.urbanus”, ou seja, os “resquícios rurais da superstição” vs. a “igreja urbana iluminada”. Esta é uma expressão direta da cruzada cristã e, ao mesmo tempo, é a raiz do progressismo, da modernidade e do julgamento moral em termos de cidade avançada (proto-burguesia) vs. aldeias inferiores, ou “novos cristãos progressistas” vs. “caipiras retrógrados”. Se nos consideramos tradicionalistas coerentes, então essas estão entre as primeiras categorias que devemos descartar.

O termo “Paganismo” precisa ser reabilitado e, o mais importante, devolvido ao seu conteúdo ontológico muito mais elevado. O “Paganismo” não é fechado e exaurido por “superstições” e “adoração de ídolos”. Insisto que o Paganismo é uma ontologia e episteme especial e totalmente autossuficiente que descreve e interpreta tudo. Nisto, penso, estou totalmente solidário com Alain de Benoist, que postula esta mesma ideia à sua maneira em suas obras.

A essência do Paganismo é a doutrina da manifestação (“manifestacionismo”), monismo místico, não-Dualismo e Holismo do Sagrado. Ao contrário da ontologia dualista do criacionismo e do dogma da creatio ex Nihilo. [Esse ponto mereceria certa análise mais profunda, mas deixaremos em aberto].

Dediquei muitas páginas, artigos polêmicos e livros para estudar e descrever essa diferença e traçar os diferentes caminhos pelos quais essa fenda ontológica no nível da cosmogonia se manifesta na história do declínio da Europa, e como ela serviu como o gatilho para o desenvolvimento da Modernidade.

Finalmente, com essas definições e referências dadas de forma extremamente sucinta, posso passar à questão da Tradição Primordial. Feliz ou infelizmente, nesta questão não compartilho a ideia de que um dia existiu na Antiguidade profunda um único povo com uma única religião antiga. Eu acredito no pluralismo, na ideia de que a humanidade emergiu em vários grupos pelo mundo. Além disso, acredito que um povo (como os Proto-Indo-Europeus) tem sua origem não na arqueologia e na reconstrução de sua vida cotidiana e linguagem, mas no Mito. Existem igualmente tantos seres humanos e lugares de origem humana quantos mitos autênticos sobre eles.

A busca por um povo-Ur, língua-Ur e religião-Ur é um eco do criacionismo e do universalismo moderno (do desejo de reduzir tudo a uma fonte cientificamente confiável), que se reflete no misticismo e no tradicionalismo de uma maneira particular. Referenciar-se por paleolinguística, arqueologia e etnossociologia deve ser algo com limites necessários. Os próprios linguistas reconhecem que quanto mais fundo mergulham no meio dos séculos, maior é a porcentagem de suas hipóteses, como no caso da língua Proto-Indo-Européia, por exemplo. Em outras palavras, não devemos falar de operar, ritualmente usar tais reconstruções, especialmente porque elas são relevantes apenas para os povos da família Indo-europeia. [Ao menos que se queira focar, nosso caso, nas tradições IE e não elaborar uma teoria “universalista” que explique e relacione todos os “paganismos” possíveis existentes no globo; como já tivemos a oportunidade de colocar aqui noutros tópicos, para nós, não só o Neoplatonismo pode ser considerado como uma espécie de “Perenialismo” original, enquanto construção filosófica, como nossa “Tradição Primordial” é a herança PIE: acessá-la em sua “completude”, como o autor bem coloca, não é algo que será feito pela arqueologia e linguística somente – “de baixo pra cima” – mas algo que transcende misticamente e nos permite vislumbres “de cima pra baixo”, digamos].

Ao definir a Tradição Primordial, sigo a metáfora linguística que expressa que a Tradição é a gramática da fala e da expressão do Sagrado. Se nos voltarmos para a etimologia das palavras mythos e logos, ambas significam “palavra”, “conto”, “história” ou “discurso”. A Tradição é responsável pela correção e forma de uma narrativa sagrada, sua gramática e poesia. Todos os textos antigos eram, de uma maneira ou de outra, expressos na forma de poesia e música. O conteúdo dessas narrativas pode ser diferente, porque o Sagrado é ambivalente. O sagrado abrange não apenas o luminoso, o bom, a afirmação da vida e os símbolos, estruturas e aspectos apolíneos do Ser, mas também o escuro, o aterrorizante e os temas da negação e da morte. Walter Otto e Georges Bataille, por exemplo, associam diretamente o Sagrado à experiência do horror e à violência do sacrifício.

Isso confirma diretamente o arranjo de uma pluralidade de tradições dentro do mundo fenomênico sublunar que é intrínseco ao Paganismo. Todas as tradições dos povos do mundo têm diferenças – às vezes radicais – e elementos comuns. O mais comum – o Um, o holístico – é expresso nos níveis mais elevados da teologia, metafísica e misticismo: essa é a Tradição Primordial como a gramática e a fonte apofática além da linguagem como tal.

Em outras palavras, não adianta procurar um povo-Ur e uma religião-Ur nas profundas escavações das estepes de Turan ou sob o gelo do Povo do Norte, isto é, no mundo das coisas existentes. A pátria da Tradição Primordial está nos Céus e é apofática.

Jafe Arnold: É difícil imaginar uma resposta mais rica, mais vanguardista e abrangente para a primeira pergunta, pela qual eu e, certamente, nossos futuros leitores agradecemos. Na verdade, já abordaste muitos dos tópicos que gostaria de aprofundar ao longo de nosso diálogo. Dito isto, antes de passar do geral para o particular, penso que não podemos deixar de nos deter um pouco mais na noção de Tradição Primordial no que diz respeito à pluralidade das diferentes formas tradicionais que, como você diz, é intrínseca ao Paganismo em contraste ao Universalismo das tradições abraâmicas. De acordo com o teu entendimento, é como se diante de nós tivéssemos a seguinte imagem: a “gramática metafísica” da Tradição Primordial necessariamente encontra refrações diferentes em diferentes culturas, das quais temos virtualmente inúmeras tradições diferentes que se enquadram no histórico, polêmico, guarda-chuva estrutural-categórico do “Paganismo”. Para entender a metáfora linguística que introduziste, é como se tivéssemos um “proto” ou “meta-” idioma ou família de línguas com descendência linguística diferente, ou um idioma com dialetos ou sotaques diferentes. A Tradição Primordial contém a plenitude aberta de todas as formas e fios, enquanto as diferentes tradições os formulam, modelam ou acentuam de suas próprias maneiras. “Paganismo”, então, como uma categoria ampla, é todo esse paradigma de diferentes tradições até a “cisão” monoteísta. Nessa “plenitude”, entretanto, alguns Tradicionalistas que abertamente, explicitamente (mas talvez nunca de forma abrangente) devotaram atenção ao Paganismo “como um todo”, fixaram-se em uma espécie de dualismo extremo das formas tradicionais. Para Evola e os tradicionalistas sérvios, como Dragoš Kalajić e Boris Nad, isto assume a forma de uma distinção máxima entre o “urânico” e o “ctônico”. Pode-se até ter a impressão de que na concepção de Evola, que acabou assumindo formas marcadamente raciais, apenas o “Urânico” pertence verdadeiramente à Tradição Primordial (o que necessariamente levanta questões de cronologia e morfologia civilizacional), enquanto o “Ctônico” é posicionado como uma espécie de “anti-Tradição” tão antiga e talvez inextricável da existência terrestre. Na verdade, muitas das heranças mitológicas do mundo, especialmente do intervalo Indo-europeu, concebem o drama cósmico como começando, se desenrolando e terminando no contato e conflito entre estes polos, que para usar a terminologia de Alexander Dugin, chamaríamos dos Logoi apolíneo e cibélico. Em teu Polemos, adotas essa linha e interpretas a Modernidade como uma revanche fundamentalmente Ctônico-Titânica. Onde a linha está desenhada? O ctônico está tão integralmente presente e significativo na Tradição Primordial, nas tradições pagãs, quanto o Urânico? O que significa essa distinção entre essas coisas, segundo tu e os últimos autores tradicionalistas, tradições “qualitativamente” opostas na linguagem da Tradição?

Askr Svarte: Estás muito correto em tomar nota desses pontos fundamentais.

O que Julius Evola, por exemplo, falou no caso dos aspectos “urânicos” e “ctônicos” é um eco e uma paráfrase do conceito de “contra-iniciação” de René Guénon. Evola foi o primeira a tentar ir além e repensar esse conceito. A ideia de contra-iniciação pode ser considerada um traço ou efeito óbvio do dualismo abraâmico e, de fato, uma figura do “mal total”, outro nome para o Anticristo. Ou, de outro ponto de vista, as raízes dessa ideia estão no eco modernista nas obras do próprio Guénon, que se inclinava a pensar não no plural, mas em categorias universais e às vezes progressistas [faz tempo que denunciamos certo “cripto-cristianismo” presente em certos conceitos guénonianos e mesmo em certos pressupostos de seu “critério do tradicional”, como o da continuidade “histórica”, ou seja, material]. Como Evgeny Golovin disse uma vez: “A Verdade (absoluta) é o pecado original do monoteísmo”. A desconstrução posterior desse conceito foi realizada por Alexander Dugin em seu trabalho inicial ‘Absolute Homeland’. Dugin insiste em uma pluralidade de formas e experiências do Sagrado e, portanto, dá voz a coisas simples: o que para uma sociedade pode ser sagrado e iniciático, para outra pode ser estritamente tabu. Portanto, em princípio, não se pode falar de uma fórmula universal de contra-iniciação. A formulação mais próxima da minha seria a seguinte: contra-iniciação é tudo (seja fenômeno ou estado) que impede o avanço de alguém ao longo do caminho da autorrealização espiritual e divina.

Existe uma pluralidade de formas de iniciação e mistérios dentro do mundo da Tradição e das sociedades arcaicas. Assim, não podemos estender este princípio às sociedades da Modernidade, aos ideais do Iluminismo, etc., ou seja, àquele paradigma do conhecimento que se constrói na rejeição total de toda e qualquer forma do Sagrado, seja o urânico, seja o dionisíaco, ou ctônico. Esta é a linha onde a pluralidade termina e o polemos duro começa.

Voltemos ao Sagrado. Antropólogos e sociólogos franceses exploraram em detalhes a estrutura dualística do “profano” e do “sagrado” em sociedades antigas arcaicas e mais complexas. A abordagem não dualista fala de um sagrado ambivalente, de um todo que abrange polos que vão desde a “concentração da presença Divina” até a “proibição absoluta”. Ambos os polos são marcadores e manifestações do sagrado em uma ou outra sociedade. Essa compreensão do sagrado pode ser chamada de dionisíaca, quando tanto o mais puro quanto o mais sujo se fundem na coincidentia oppositorum. A compreensão de Evola sobre o sagrado seria mais apolínea, é claro.

Dentro da metáfora linguística, podemos mais uma vez falar da possibilidade fundamental de expressões que diferem em significado, mas são idênticas em exatidão. Podemos louvar a mais pura e bela Divindade, ou podemos cantar canções obscenas associadas à fertilidade e ao Eros. Podemos observar o jejum purificador antes dos mistérios, ou podemos permanecer no meio do sangue de animais sacrificados. É tudo um e o mesmo.

Os problemas começam sempre que a estrutura, a gramática e o léxico da Tradição (com um “T” maiúsculo, como paradigma) começam a se quebrar e a perder significado. Como na esquizofasia, por exemplo, quando um discurso é construído gramaticalmente correto, mas não carrega nenhum conteúdo semântico e não pode ser decifrado. Ou a fala de uma pessoa gravemente doente com demência ou autismo, que consiste em interrupções abruptas, resmungos, interjeições e, geralmente, desemboca em glossolalia. Aqui podemos lembrar como Martin Heidegger contrastou a Fala ou Discurso existencial (Rede), que é Ser, plena, maximamente concentrada, fala autêntica, da tagarelice vazia e sem sentido (Gerede) das massas cegas.

A linguagem da Tradição é oposta pela linguagem da Modernidade e pela linguagem da Pós-modernidade. Se olharmos para dentro, e não superficialmente, vemos inversão e esquizofasia (Modernidade) ou glossolalia, “lalinguagem”, e a completa desintegração das formas e conteúdos da expressão (Pós-modernidade). Reconhecemos neles alguma forma de linguagem (isto é, percebemos certa semelhança com a nossa), mas é irremediavelmente hostil ou tola. Essa pode, de fato, ser chamada de uma linguagem antitradicional.

Diferentes estratégias de guerra podem ser arranjadas para combater isto: ou o confronto frontal e a supressão ou a passagem dos polos inferiores para o Absoluto do outro lado da era do Fim. Julius Evola conceituou a última estratégia durante a segunda metade de sua vida.

Com relação ao conceito de Dugin, uma leitura cuidadosa de suas obras revela que o Logos de Apolo é tão universalista, cobiçoso, extremamente dualista e destrutivo da pluralidade quanto o Logos de Cibele. Modernidade e Pós-modernidade são sua “criação” conjunta. A responsabilidade pelo declínio da Europa não pode ser atribuída a nenhum Logos único. Por isso, alguns pontos de sua obra Noomakhia não me parecem convincentes ou muito claros. Essa polarização de luz absoluta e escuridão absoluta me parece um exagero.

Jafe Arnold: Sinto que o que estamos inevitavelmente nos aproximando aqui, em nossa discussão, de diferentes formas tradicionais, bem como seu confronto com o desenvolvimento da Modernidade, é aquela questão fatídica e originária da relação entre Mythos e Logos, que mencionaste mais cedo. Em recente série de palestras “O Homem e o Sagrado”, falaste de uma certa “síntese” de Logos e Mythos como constituintes da base da Tradição Sagrada. Esses, é claro, são termos altamente contestados, ou melhor, “primeiras palavras”, cujo significado e trajetória podem estar no cerne da história da Filosofia e no curso de nosso presente ciclo de consciência. Ousarias nos apresentar a tua abordagem a esses diferentes “termos”, seu significado para a herança pagã, a ascensão da fé abraâmica (por exemplo, no Evangelho de João 1: 1) e o que eles podem nos dizer hoje?

Askr Svarte: Sim, ambos os termos são extremamente importantes e cada um deles está, à sua maneira, saturado com um potencial enorme. Vamos em ordem.

Em meu curso de palestras, bem como em meus livros, não falo de uma “síntese” de Logos e Mythos. Em vez disso, falo de um círculo hermenêutico do processo de interpretação e conhecimento entre dois polos. Um polo é o Mythos com sua estrutura intrínseca e particular de pensamento e procedimentos mentais, bem como sua própria cultura ou “estilo” (conforme dizia Oswald Spengler). É neste polo que se situa a mitologia e a mito-poética das sociedades tradicionais, o seu Ser-no-Mundo especial, existencial, ontológico, e a sua própria constituição. Como nós (um povo) pensamos, em grande parte, cria o mundo em que vivemos.

O segundo polo é o Logos com seus procedimentos já mais racionais e “discriminados”, sua estrutura menos flexível e menos poética que muito mais tarde, e sob a influência de uma série de fatores negativos adicionais, gravitaria para a escolástica e o positivismo em várias versões.

No grego antigo, tanto Mythos quanto Logos originalmente significavam aproximadamente a mesma coisa: “dito”, “narrativa”, “palavra”, “história”. Eles estavam extremamente próximos de outra palavra mais importante, poiesis, que é “expressar”, “trazer à existência” [na verdade, no grego, o campo semântico deste termo tá próximo de “construção”, “elaboração”, “fábrico” do que mera expressão]. A divergência entre esses dois sinônimos se correlaciona com a diferença entre a transmissão oral da Tradição (mitologia) na poesia e na canção, que era própria dos Indo-europeus, e a preservação escrita de uma ou várias versões “canônicas” de uma tradição sagrada (Logos). Isso é análogo à transição da voz para o texto, com a revisão subsequente da herança “lendária” para confiabilidade, relevância, historicidade, etc. Este é o procedimento severo ao qual Logos sujeitou Mythos começando com a cristianização e a “exposição” de outras tradições. É disso que trata a primeira linha do primeiro capítulo do Evangelho de João, se a lermos como um arranjo gnoseológico: só existe o texto escrito e “certificado” da história sagrada, a “palavra” de Deus dada pelos profetas. Essa maior ênfase nas escrituras sagradas e em sua autenticidade é uma característica das sociedades semíticas. Isso marcou o início da denúncia, dessacralização, revisão e genocídio da consciência mitológica (pagã) em favor do dogma da Igreja e, posteriormente, da visão científica do mundo.

Assim, Mythos e Logos são duas estruturas de pensamento que, em virtude de fatores históricos e da involução metafísica do tempo, vieram a ser estabelecidas em oposição severa uma à outra. O Logos racional do Novo Tempo (Modernidade) suprimiu com muito sucesso o Sagrado em escala global.

Meu pensamento se baseia em apresentar o Logos como um pensamento que é inevitavelmente enraizado e nutrido pelo solo do Mythos. Daí a metodologia de interpretação e hermenêutica que são retrospectivas ao pensamento mitológico, que não exige rigor lógico, consistência linear ou a equivalência estrita de A = A e outras “leis” semelhantes. Sobre essa questão, sou solidário com a descrição do pensamento feita por Martin Heidegger: a essência do pensamento está em indagar em círculo em torno de questões-chave, aproximando-se ou distanciando-se delas em círculo. Quando cometemos tal questionamento em torno de um ou outro tópico, temos o polo da interpretação mitológica e o polo da interpretação mais claramente lógica. Mas não cedemos primazia ou prioridade a um ou a outro. Dentre a antropologia contemporânea, podemos citar Eduardo Kohn, cuja obra ‘How Forests Think’ se aproxima em sua estrutura e temática do que estamos falando aqui. [Apesar de não ser um “heideggeriano”, nem de longe, eu creio que buscar reduzir isto tudo é complicado – há sim espaço para sistematização racional, se, como pensava Nietzsche, estamos diante de um excesso de “Apolinismo” cuja correção requer um “excesso” de “Dionisismo”, é outra história… O resgate do Mythos é crucial, mas não requer uma exclusão completa nem muito menos definitiva do Logos].

Jafe Arnold: Sem dúvida, aqui estivemos exclusivamente “Logolizando”. Voltemos ao Mito. No Polemos, sustentas que o mito da Titanomaquia encapsula apropriadamente o curso corrente, ao menos, dos últimos séculos até os nossos dias. Existe outro mito de outrora que você sente que fala mais ressonantemente à nossa situação cósmica atual? Existe um mito que expressa mais adequadamente o espírito da iniciativa do tradicionalismo pagão em nossos dias?

Askr Svarte: Em suma, o espírito de confronto, de guerra pela autenticidade, expressa da forma mais completa a iniciativa do tradicionalismo pagão, apelando para o mais amplo público pagão possível em todos os confins da terra. Pode-se admitir que isso é condicionado pelo estilo especificamente germânico, “odínico” de exacerbar a situação, semear discórdia e lutar pela vitória incondicional. O contexto geral e o mito meta-histórico da guerra entre os Deuses e os Titãs (Ragnarök é o análogo germânico da Titanomakhia, mas colocado no final do ciclo [não se trata só de uma “transposição”, já que mesmo entre os germânicos se registra certa “guerra” original, mas neste caso com os Vanir; além de haver claras evidências de uma crença escatológica numa guerra cósmica ao final da Era, presente também entre Irlandeses e Hindus]) permite tal generalização. Esta é uma abordagem marcial e, em certo sentido, política do assunto. Sem dúvida, é inspirada na figura intransigente do Barão Julius Evola (na primeira metade de sua vida e no desenvolvimento de suas ideias). Mas, como sabemos, mais tarde Evola, como uma série de outros pensadores tradicionalistas e revolucionários conservadores, chegou à necessidade de repensar radicalmente toda a estratégia e, por assim dizer, o estado existencial do Tradicionalista num mundo sem Tradição.

Também estou empenhado em conceituar esse problema agora, e isso exige uma mudança no “grande mito”. Aqui precisamos de outras palavras principais para o pensamento inquisitivo, por exemplo: a não-dualidade, monismo/o Um, morte, o presente, sacrifício, linguagem, escatologia, iniciação, Alheio/Outro.

Se compararmos isto com a tríade de Divindades [primordiais], então isso significa passar do Divino que defende e sustenta o Cosmos para a figura da Divindade responsável pela destruição final e morte deste Cosmos.

Nomear qualquer mito principal seria difícil, uma vez que o assunto em questão seria uma paleta de tramas em suas conexões complexas e, às vezes, implícitas. Por exemplo:

  • O mito do suicídio/auto-sacrifício ritual de Odin para si mesmo;
  • O mito da matança ritual de um chefe ou primeiro ser como ato de cosmogonia;
  • O mito da dádiva e da destruição da parte maldita (do mundo existente das coisas);
  • O mito da mais alta iniciação na individualidade do Divino do tipo tântrico do monismo Advaita;
  • Mitos da morte, visões oníricas, despertar e identidade do observador dentro do mundo e “fora” dele;
  • E, finalmente, mitos escatológicos, especialmente o de Ragnarök.

Desenvolver a meta-linguagem filosófica e teológica do tradicionalismo nesses fundamentos significa mudar radicalmente a atitude dominante em relação ao mundo e estar dentro dele. Isso pode ser expresso com a expressão “Otimismo escatológico”.

Em círculos pagãos na Rússia, Europa e Estados Unidos, de longe se vê o pensamento popular de que “no século 21 o paganismo está experimentando seu tão esperado renascimento”. Este é um pensamento muito ingênuo. O paganismo hoje está experimentando seu despertar de um sono longo e pesado, mas não está despertando nos vívidos raios de luz de uma Nova Renascença, mas em meio ao crepúsculo escatológico, ao esquecimento e à destruição de tudo. Isso diz respeito a todas as tradições pagãs da Europa e a todas aquelas que foram afetadas pelo globalismo, colonização e modernização nos últimos séculos. O paganismo hoje é um “sujeito” que desperta, que precisa entender rápida e precisamente onde e em que circunstâncias ele despertou e o que precisa ser feito. A maioria dos pagãos prefere permanecer no mundo das ilusões, conforto e fé no Progresso e no “Renascimento”. A situação real é tal que, o Paganismo, hoje, despertou no meio de uma batalha escatológica, e deve autenticamente chegar à consciência de si mesmo no último instante antes do Fim do Mundo e de tudo o que existe. Ou o paganismo morrerá no cadáver decadente da pós-modernidade, caso em que esta morte será inglória e absurda, e então simplesmente nos afastaremos de tal Paganismo como algo vergonhoso e indigno (neste caso, os pagãos “progressistas” ainda viverão bem, como sua vergonha, pois será disfarçada de reconhecimento liberal-democrático [esquerdista] e “sucesso” no mundo das Man); ou o Paganismo irá – obviamente em face dos grupos muito pequenos – passar pelo evento escatológico do esquecimento do Ser como o maior mistério da iniciação. Então, será possível falar da enunciação (a expressão, o trazer à existência neste mundo) de Outro Mito. Este é um assunto para uma conversa separada e mais ampla, embora seja sutilmente delineado no segundo volume de meu Polemos.

No entanto, considero importante que o paradigma da “guerra de ideias” exposto no Polemos, bem como em outros artigos e livros, seja “sincronizado” com o paradigma subsequente. Ambos os mitos precisam ser pensados ​​de forma não dual. Polemos, então, torna-se uma propedêutica, uma explicação introdutória de tópicos-chave para que se possa dar o salto para domínios absolutamente enigmáticos.

Jafe Arnold: Obrigado, Askr Svarte, por compartilhar teu tempo, palavras e pensamentos com o Continental Conscious. Estou mais do que certo de que há pontos mais do que suficientes para reflexão e discussão futura a partir dos caminhos que traçaste aqui. Estou especialmente ansioso para ver o lançamento de Polemos II: Pagan Perspectives pela PRAV Publishing em 2021. Poderias compartilhar com os leitores algumas dicas sobre teus escritos e projetos atuais? E finalmente, poderias deixar nossos leitores com algumas palavras de despedida?

Askr Svarte: Obrigado pelas perguntas interessantes e extremamente substantivas!

Construímos nossa conversa aqui em torno das ideias expressas no livro Polemos. Além do Polemos, já está disponível em inglês meu trabalho mais complexo ‘Gods in the Abyss: Essays on Heidegger, the Germanic Logos and the Germanic myth’, que se dedica ao estudo do Logos germânico e, de forma mais ampla, do destino da Europa. Este livro poderia ser chamado de passagem ao mito do sacrifício, porque Odin une esses dois motivos dentro de si.

Em 2020, meu livro ‘Pagan Identity in the 21st Century’ foi lançado em russo, que consiste em artigos polêmicos, resumos de minhas palestras sobre teologia pagã, estudos sociológicos e revisões. Este é um tipo de volume complementar no qual tentei aplicar todas as nossas ideias aos estudos práticos e à educação.

Agora, meu grande trabalho ‘Tradition and Future Shock: Visions of a Future that Isn’t Ours’, com mais de 400 páginas, está no estágio final. Este livro é dedicado a uma crítica frontal filosófica, metafísica, mística, cultural, econômica e política do progresso e da civilização tecnogênica, das chamadas ideias de Neo-Reacionarismo, Arqueofuturismo [particularmente, fiquei curioso para conhecer a crítica desde sujeito a esta noção de Guillaume Faye], a Quarta Revolução Industrial e o “Great Global Reset” de Klaus Schwab. Mas as ideias apresentadas neste livro são, é claro, mais amplas e radicais do que meramente os exemplos listados acima. Espero começar em breve a publicar anúncios e descrições do livro. Um número suficiente de trechos já foi publicado em russo.

Em 2021, serão publicados os novos números de nossos almanaques sobre Paganismo e Tradicionalismo. Continuamos a trabalhar ativamente com associados com ideias semelhantes na Rússia e em outros países.

Quanto a algumas palavras de despedida, podemos responder com algumas fórmulas profundas:

Tradicionalismo é Paganismo.
O mito é nossa Pátria.
O Divino está dentro de você.
Não há outra Tradição a qual recorrer.

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