Tradução: Jean-François Gautier – Contra o Um e o Único

Tradução por Marcílio Diniz ‘Nemetios’ da Introdução ao livro À propos des dieux, que Jean-François Gautier publicado recentemente na editora de la Nouvelle Librairie, em Paris, a partir da versão espanhola publicada no site El Manifesto (clica aqui para aceder). Jean-François Gautier foi uma figura intelectualmente pujante presente no círculo da Nouvelle Droite francesa e um dos fundadores do Instituo Iliade. Filósofos, enólogo, musicólogo e um polímata. Em português, há um pequeno livro seu sobre vinhos publicado pela L&PM Pocket. Ele faleceu no último 6 de dezembro, e esta tradução aparece cá mais como uma singela homenagem. Nossos comentários aparecerão entre [ ].

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Nas terras da Europa, as religiões antigas representavam os arcanos do mundo vivido de maneiras muito diferentes. Suas histórias e lendas, embora variadas e linguisticamente distantes umas das outras, têm um caráter comum: do Mediterrâneo ao círculo polar, os personagens divinos são enunciados no plural. Seja nas tradições nórdicas, celtas, helênicas, romanas ou mesmo católicas populares, a primeira evidência é a da multiplicidade das funções feéricas e divinas. O singular é incognoscível. Nenhuma palavra combina com ele e sua soberania única enfrenta o ininteligível.

Vista pelos politeísmos, a cena do teatro divino esta cheia de tal modo de deuses e semideuses, personagens transbordando de impulsos salvadores, intervenções calculadas e ações inesperadas. É com esta diversidade essencial que, naqueles tempos longínquos, deviam coincidir as representações de quem desejava pacificar-se, de quem pretendia adaptar a sua existência aos equilíbrios de uma sabedoria tal que as recapitulações de um estivessem de acordo com a diversidade do mundo, acessassem a mesma métrica e estivessem em acordo com o diapasão do mundo.

E é aqui onde, para os modernos, começam as incompreensões. Se os antigos condensavam em panteões as pluralidades representativas com as quais mantinham blocos essenciais, é porque os deuses, para eles, eram leis gerais da existência, distribuidores de ajuda tanto para a vida cívica e coletiva quanto para a vida individual. Mas como abrir-se a semelhante mentalidade, para esses mitos, para esses modelos de pluralidades de fato?

Contemplado hoje, o politeísmo parece ingênuo e antiquado, senão folclórico ou exótico, ou pior ainda, destinado aos frívolos. No entanto, nossa percepção enriquece ao tentar examinar o que governou a figuração de tais e tais personagens divinos, Zeus, Apolo, Odin, Belenos e toda a cadeia de outros poderes divinos. Como conceber sua geração, que obviamente não foi espontânea? No século 21 a dificuldade é que todos viemos depois da morte [“morte”] dos Deuses, e ninguém entende por que nasceram ou como desapareceram. Deve-se notar que o conteúdo das religiões antigas parece superado, ingênuo ou desatualizado. O que não exclui, em absoluto, considerar toda a grande seriedade que presidiu à sua longa elaboração.

Para perceber isso, basta dar um exemplo. O que a personagem Atena significa para os atenienses? Obviamente, nada singular. Se esclarece ao restituí-la no panteão em que se sobressai e do qual não há forma de separá-la. Como todas as divindades, Atena não pode ser compreendida de forma isolada, mas relacionada. Os cortejos de pedra que as piedades antigas haviam reivindicado das oficinas do escultor Fídias e que haviam sido erguidas nos frisos do Partenon, estas procissões dos panatenaicos que conferem a Atena um lugar central e privilegiado por sobre a entrada deste templo, ao lado do sol nascente; mas, ao longo de cento e sessenta metros de comprimento, Atena está na presença de Zeus e Hera, de Hefesto e de Apolo, de Hermes, de Dionísio e de Ares, assim como de um extraordinário número de outras potências às quais convergem carros e cavalos, oferendas, animais destinados ao sacrifício, jovens, meninos e meninas, todo um povo de centenas de pessoas e animais, sonhos de pedra que encontra neste cortejo ordenado de esculturas uma expressão ornamental de sua própria diversidade.

É assim que a cultura ateniense relaciona neste friso a diversidade com que se confronta e que constitui a sua própria identidade, que expõe ao olhar de outrem, de cidadãos de outras cidades que têm outras prioridades, isto é, outros conjuntos plurais organizados de maneira diferente. Aqui, figurado em mármore, o impulso comum detalha uma forma de viver em sociedade: a dos cidadãos atenienses. Quem fala em diversidade e quem a celebra diz também que cada um deve saber identificar o seu lugar na vida comum, um lugar relativo, pois cada sociedade é multipolar e estratificada, obtendo dessas mesmas divisões a sua capacidade de estimular as fontes de uma cidadania em constante devir.

Diante de tamanha diversidade, faz sentido o velho ditado do templo de Delfos: gnōthi seautōn, “conheça a si mesmo”. Não é uma questão de conselho de introspecção, mas de uma marcação de situação, do tipo: você não é nem um deus nem um cocheiro numa corrida de carruagens; então, quem é você nessa diversidade, diante do seu trabalho, da sua família, da sua participação na vida coletiva? Ser aí não funciona, para sabedorias antigas, sem um ser com. Ou, colocando de uma forma moderna, não há dasein sem mitsein, coisa que o próprio Heidegger desistiu de desenvolver.

Para os modernos, é obviamente difícil entender que as figuras de deuses e deusas, em meio a tantos outros personagens míticos, não designem nada nem ninguém existente no sentido moderno da palavra. O divino, nas sociedades antigas cujas riquezas devotas e cujas capacidades de renovação foram esquecidas pelos mundos que se seguiram, o divino antigo, menos que uma realidade visível, é uma espécie de lugar onde se expressam esperanças e desconfianças, credulidade e aversões, tudo isto sem uma ata registrada ou confiada à custódia de um corpo de clérigos, o que só amplia sua riqueza de promessas e sabedoria. […]

A racionalização de um mundo entendido como um mundo criado por um único Deus sempre encontrou, entre nós, o elogio das diversidades vividas. A identidade era entendida, com efeito, como alteridade, diversidade, pluralidade. Nenhum personagem da Ilíada ou da Odisseia, ou de uma das tragédias de Ésquilo ou Sófocles, ousaria perguntar a Zeus ou Apolo: “Quem és tu?” Respostas bíblicas e monoteístas a esta pergunta, como Ehyeh Asher Ehyeh, “Eu sou quem eu sou”, ou “Eu sou quem eu serei”, traduzidas para o grego por algo como “Eu sou o que é” (Êxodo, 3, 14) teria desprovido de qualquer significado nas línguas e representações da Antiga Europa.

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