Uns pensamentos sobre o Druidismo

Talvez estes comentários de minha perspectiva pessoal sejam úteis aos demais iberoceltistas como fonte de reflexão, contraponto ou como mera divagação. Assim como aos (neo)druidistas que por ventura cá aportarem.

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“Os druidas trazendo o visco branco” – George Henry & Edward A. Hornel

Antes de mais nada, precisamos fazer algumas distinções importantes. Por ‘Druidismo’ me refiro ao conjunto, mais ou menos sistemático (e talvez “padronizado”, em certas áreas), de doutrinas, práticas e “cultura” desenvolvidas e protagonizadas pelos Druidas. Para alguns, o Druidismo será sinônimo absoluto de “Totalidade da Religião Céltica”. Eu não parto deste pressuposto. Considero que o conjunto, digamos, do que podemos chamar de “Religião Céltica” (doravante “RC”) é maior e contém o conjunto “Druidismo”. Além de que este conjunto maior, parece também ter sobrevivido por mais tempo, ao menos na Europa continental. Digo mais, este conjunto maior pode ser causador do subconjunto “Druidismo”.

A hipótese de que “Druidismo equivale a totalidade da Religião Céltica” (doravante “D=RC”) tem implicações no modo como se estuda os povos celtas hoje e no modo como se pretende vivenciar a religião hoje. Por exemplo, se consideramos esta hipótese verdadeira, onde houveram Celtas, considerando que estes praticaram sua religião, ou seja, houve RC, necessariamente, houveram Druidas e Druidismo. Daí que, se havia RC na Ibéria, havia Druidismo lá. Se havia RC na Galátia, havia Druidismo lá. E assim por diante. Se não temos evidências arqueológicas ou literárias, não importa: se “D=RC”, havia Druidismo onde houveram Celtas.

No entanto, como já adiantei, pelo que estudei sobre o tema até hoje, creio que a hipótese de que são coisas diferentes é sólida e que posso defender que “RC>D” (“o conjunto da Religião Céltica é maior que o Druidismo”) implica necessariamente em “D≠RC” (“Druidismo não equivale a totalidade da Religião Céltica”). Digo mais, RC>D tem melhor poder de explicação do que aconteceu historicamente e fornece mais subsídios filosóficos para o reavivamento/reconstrução religiosa neste fim de Era. Cientificamente, tal hipótese também não nos compromete a defender a existência de Druidas onde não há evidência alguma de tal (Navalha de Ockham). Nem fecha a possibilidade de se considerar que houve, apenas não nos compromete de forma rígida a aceitar que houve sem evidências sólidas.

Basicamente, entendo que o Druidismo é uma forma de Religião Céltica, ou melhor, uma expressão desta. Uma forma que, dentro de suas especificidades, é tradicional e que, ao menos na Gália e nas Ilhas Britânicas, tornou-se hegemônica e passou a controlar a quase totalidade das práticas religiosas destes povos. Neste sentido, e nisto não inovo nada, pois desde de gente como Jubenville que se prega tal visão, o Druidismo fora uma espécie de “corporação”, um “collegium” ou instituição fechada e iniciática, cuja admissão e treinamento requeria uma vida de dedicação, provas e muito estudo. Para que fique claro, considero que tal ascensão e “hegemonia”, na Gália e Britânia, são justos e merecidos: fruto do engenho dos antigos druidas e, afinal sou um religioso, de alguma ação divina também.

César, por exemplo, nos sugere que o Druidismo (na Gália e na Britânia, ao menos) era unificado e tivera origem nas Ilhas Britânicas. Este detalhe talvez seja uma evidência (já que não conheço motivos para conjecturar que César inventara isto do nada) de que havia, na época da invasão romana, tal concepção e que era popular o suficiente para que até um estrangeiro invasor ficasse sabendo. Quando escrevo aqui “unificado” não quero expressar “petrificado” e “completamente igual” em todas os cantões da Gália ou Britânia. Me refiro a uma certa unidade hierárquica e de estrutura interna, além de doutrina (talvez até de origem geográfica comum, se pensarmos na Ilha de Mona como um grande centro de formação de sacerdotes), compreensão do Sagrado, de consensos e diálogos internos periodicamente estimulados (durante os Conclaves).

“Unificação”, “Padronização”?

Se considerarmos as dificuldades logísticas todas do mundo antigo, me impressiona o nível de “padronização” que o Druidismo galo-britânico conseguiu, especialmente quando olhamos o quão extenso fora a expansão dos Gauleses no território europeu e o quanto os Celtas são “localistas”. Quando comparamos com outras religiões que tiveram um clero organizado num molde parecido, a julgar pelos relatos dos antigos, como os Magos persas, o Druidismo galo-britânico impressiona ainda mais. A religião helênica, por exemplo, como a germânica, não criara tal “rede” supra-tribal e, talvez o mais impressionante, “trans-templária” (me desculpem o termo, não achei um adjetivo derivado de “templo”). Não é incomum que certas tradições iniciáticas, litúrgicas ou mesmo de instrução sacerdotal surjam em torno do serviço em um templo específico, e geralmente não transcenda geograficamente o mesmo nem seja transplantado ou espalhado para os demais templos ou santuários tradicionais ao longo de um dado território.

Já a religião romana, pelo trabalho de “padronização” na formação dos áugures (a canonização, se podemos falar assim, da “disciplina Etrusca”) e flâmines, conseguira um unitarismo, no mínimo, comparável ao do Druidismo galo-britânico (considero que o romano seja maior). Claro, como em Roma, podemos especular que na Gália certa disciplina peculiar que se diferenciava ou mesmo “contradizia” a norma ritual geral poderia ser preservada pela antiguidade do santuário ou a concepção de que fora uma instrução direta da divindade para aquele locus específico, conforme um mito ou epifania atestava.

Antes de prosseguirmos, cabe um detalhe importante ainda sobre “padronização” e “unificação”, pois há quem ache que tais termos ou tendências sejam características somente das religiões abraâmicas. Bem, possivelmente é o tipo de gente que desconhece a história destas religiões. Chega a ser risível dizer que o Cristianismo fora “unificado” e “padronizado” e isto até hoje: o processo de “unificação” fora um gesto quase “pagão” do recém converso Constantino que, guiando-se pelos referenciais “pagãos” de religião, se esforçou para dar um Templo, um Clero e Teologia para um religião supersticiosa, com clero clinicamente anárquico e sem templo físico, ao contrário e em oposição ao Judaísmo do qual se originara. E se demorou muito para se conseguir algum tipo de “padronização”: quando estavam perto, eis o Cisma. Mesmo no Ocidente, as diferenças dos missais, regras sacerdotais, “feriados”, até o reconhecimento de quem é o legítimo “papa”, para além de disputas sobre calendário litúrgico (para lembrar a querela da datação da Páscoa), etc. deixam claro que o “buraco é mais embaixo” como se diz.

Talvez sem saber, muitos atribuem ao Cristianismo um impulso “padronizador” que não é dele, mas fora herdado da Religião Romana, esta sim, consagrou um modus operandi transfronteiriço e “trans-templário” (talvez, o Neoplatonismo, filosoficamente, oferecesse, posteriormente, o ferramental teórico para tal processo). O islã nem se fala. Agora, por outro lado, se pensarmos no Hinduísmo, veremos que há um certo “Bramanismo” que nutriu e nutre tendências unificadoras e desenvolveu procedimentos rituais “padronizados”, os elementos culturais próprios de uma tradição, vestes, cores, práticas, etc. Na verdade, em um sentido mais antropológico, não há como haver cultura alguma, em termos de Tradição, sem que haja uma certa “padronização”, repetição transmitida e uma unidade teleológica, digamos. Cantos, hinos, preces, fórmulas, cores, vestimentas, procedimentos litúrgicos, etc. A tendência humana ao intercâmbio e cooperação, não contradiz o de “simplificação”, para além do precedimento mais básico de “pegar o que é bom/funciona” e não deveria ser tão subestimado.

Neste sentido, num mundo com a possibilidade de comunicação instantânea, duvido muito que um Druida da Gália, não se reunisse virtualmente com um, digamos, da Hibérnia, se lhe fosse possível. E arrisco dizer que, destas reuniões periódicas, e de outras com outros, não seria de espantar que em alguns anos se formasse uma certa base comum. Uma base que não anularia especificidades litúrgicas e rituais locais bem fundamentadas, é bom dizer. E nisto, creio eu, temos uma diferença do “Druidismo” para a RC. O “Druidismo” pela sua própria natureza, digamos, “sacerdocentrada” (mais um neologismo), tenderá ao collegium, a um maior ímpeto de “padronização” e unificação. Já a RC, nem tanto.

Agora, claro, isto dentro da lógica Indo-Europeia, que é diferente de uma lógica exclusivista abraâmica, é bom dizer. Pois não imagino o Druidismo movendo campanhas de extermínio contra hereges ou dissidentes ortopráticos ou ortodoxos, contra todos os que se desviam do “padrão”, diferentemente do que ocorre numa lógica exclusivista. Ter em mente que é isto (a lógica exclusivista) mais do que a tendência a “unificação” ou “padronização” de algum tipo que é o problema, é o ponto importante para que não façamos juízos toscos e não cheguemos a conclusões inverídicas. Tendência a “unificação” e “padronização” são coisas diferentes de totalitarismo e “imperialismo”. Até por que não adianta muito reclamar histericamente de “padronização” etc. E agir com genuíno viés totalitário, difamando, perseguindo e atacando sistematicamente quem pensa diferente ou não reza pela multicolorida cartilha modernosa.

Tenho fé na *Belyos Bitows, na ordem cósmica, ou como queira chamar, na Natureza. Os que militam por implementar totalitarismos exclusivistas no mundo todo, seja de ordem religiosa, ideológica/política, etc. Estão fadados a falharem. Lutam, não contra certos mortais somente, mas contra a própria ordem cósmica, nisto se alinhando aos que miticamente movem guerra à Tribo dos Deuses. Inclusive, no plano político, esta é a base última contra qualquer engenharia social globalista.

Expansão do Druidismo galo-britânico.

E para explicar o sucesso de ascensão e completa hegemonia do Druidismo nos territórios das Gálias e Ilhas Britânicas temos de considerar alguns pontos. Primeiro, os Druidas parecem ter dominado e criado certa “unidade” nos sistemas jurídicos, ao que parece, monopolizando sua operação e disciplinando sua execução. O que, naturalmente, os levou a fundamentar filosoficamente o processo (que é o que creio que deu aos Druidas na antiguidade a fama de ‘filósofos morais’). Segundo, talvez por isto ou por mais outras coisas, conseguiram o status máximo em uma sociedade estratificada, por vezes, tendo os reis como hierarquicamente inferiores. Isto pode ter acontecido por genuíno arcaísmo Indo-Europeu, ou pelo engenho da corporação druídica em justificar sua importância e posição diante do restante da sociedade. Ou pelas duas coisas (que é o que acredito, apesar de não saber em qual proporção as duas se combinam). Terceiro, os druidas parecem também ter “monopolizado” o serviço religioso comunitário, a presença e o ofício deles legitimava (ortopraticamente e ortodoxamente, ao que parece) o rito. Há quem ache que eles diziam “falar a língua dos Deuses”, a quem ache que eles diziam que “construíam o mundo” (e de fato, estariam “certos” – como todo genuíno sacerdote, mas aí é assunto para outro texto), etc. Há muito espaço para especulação sobre tais motivos, especialmente quando queremos entender sociologicamente os motivos do domínio de um certo estrato social de elite perante o restante da sociedade. Mas tal abordagem moderna, sociológica, não é o que nos interessa aqui.

Bem, se a leitura do Druidismo como uma expressão “sacerdocêntrica” estiver correta, ela nos aponta para os motivos da quase simbiose entre “Religião Celta” e “Druidismo” na Gália e Britânia. E ao mesmo tempo, nos permite tentar entender certos desdobramentos históricos onde não temos, atestada e inequivocamente, a presença de Druidas, ou a continuidade da Religião Céltica sem o Druidismo. Nos relatos nas campanhas na Ibéria, romanos não relatam a presença de um clero tão organizado como os Druidas. Na Celtibéria, se tem vestígios arqueológicos de um clero organizado, mas também não temos nada que os ligue ao Druidismo galo-britânico.

E aqui é onde a língua talvez nos dê uma luz. “Druida” como termo para designar “sacerdote” nas línguas célticas nos deixaria aptos a conceber que os “sacerdotes” fossem chamados assim na Ibéria. Sem que, no entanto, estivessem vinculados ao “Druidismo” (enquanto “corporação” galo-britânica). Sabemos que havia um Druidismo na Hibérnia que também apresenta sinais de unificação litúrgica e cultural, mesmo entre reinos imersos em disputas entre si, surge uma clara “padronização” sacerdotal que pressupõe formas de intercâmbio ou conclaves. Se o Druidismo goidélico tem origem britânica, não sabemos. Sabemos que, no Alto Medievo, as concepções e procedimentos jurídicos eram similares. Se isto indica uma origem druídica comum (e isto pressupõe que, apesar da proibição e erradicação “formal” do Druidismo nos territórios romanos, o mesmo sobreviveu obscuramente até o Alto Medievo) ou uma herança céltica arcaica zelada e mantida por conservadorismo social, ou as duas coisas, ficamos a decidir.

Nesta altura, podemos conceber “Druidismos”: o Druidismo galo-britânico, de maior extensão territorial, unificado e “padronizado”, sólido enquanto instituição com procedimentos próprios e mecanismos de construção de consenso interno bem atestados (conclaves, um centro religioso-político: a ilha de Mona, etc.). O Druidismo goidélico, que pode ou não ter origem no galo-britânico, que também apresenta evidências de unificação e de mecanismos de “consenso” (mas não saberia dizer se, apenas enquanto evidências, ou se é algo atestado de fato – separado de assembleias políticas envolvendo o Ard-ríg). E por fim, uns “Druidismos”, no sentido de grupos de “druidas”, ou seja sacerdotes (com formação, status e funções não necessariamente iguais aos seus homônimos gauleses), mas cuja organização interna e padronização fora inferior ou pouco existente: na Galécia, na Celtibéria, na Galátia, etc. O que, ao menos para mim, leva a supor que não fora ligada ou tivera origem no Druidismo galo-britânico, ao invés, seriam autóctones, “nativos” e independentes; e por isso mesmo, talvez não fossem “Druidismo” em sentido estrito (se tomarmos o galo-britânico e goidélico como referência). Se tivessem algo, fora serem direta expressão da RC, seria o uso dos termos como “druida” para designar o sacerdote.

No caso irlandês e galês, sabemos que o Druidismo em sentido estrito, na época da cristianização, perdeu espaço para outros collegia: dos veletes (na Irlanda) e dos bardos (em Gales). Se estas instituições eram antes partes do Druidismo ou se já eram corporações independentes é algo a se discutir. Os missionários cristãos, que eram sacerdotes e “concorrentes”, digamos, atacaram os druidas, mas parecem ter mirado pouco nos outros, pelo menos é o que parece tomando a literatura hagiográfica irlandesa como referência. Por qual motivo? Na Irlanda, o que sabemos dos veletes é muito e indica um alto nível de organização interna, procedimentos de instrução “padronizados”, caráter iniciático, etc. Tanto que muitos creem ser o próprio Druidismo goidélico renomeado e cristianizado. Algo parecido se pode aferir dos bardos galeses. Isto não ajuda a saber se tais collegia já existiam de forma independente e com a extinção do Druidismo, se expandiram e abarcaram funções que antes eram dos Druidas, ou se eram partes internas do Druidismo que se tornaram independentes e o substituíram em certas funções.

Origem do Druidismo.

Quando se considera que D≠RC é comum questionar-se sobre a origem do Druidismo. Como já apontamos, César nos diz uma origem. Mas no meio esotérico, por exemplo, se cultiva certa predileção por “viagens” como uma origem de Atlântida ou coisa irrazoável do tipo. Ainda sobre as origens não Indo-Europeias, tem certa hipótese ainda mais mirabolante e tosca: se considerar o Druidismo como tendo origem semita. De onde se cultivou coisas como serem os druidas monoteístas e outras tantas asneiras e inverdades.

O Druidismo galo-britânico, assim como o goidélico, são célticos, originados da própria RC. Não creio que tenha havido um “reformador” que o iniciou, acho mais fácil ter sido um desenvolvimento orgânico ou uma iluminação policêntrica, como tradicionalmente concebido como origem metafísica. Creio que a própria herança Indo-Europeia seja a origem última. No entanto, na Gália, se crermos em César, a partir da Britânia, um impulso organizativo se consolidou, irradiando de lá. Podemos pensar que naquela época, o Druidismo galo-britânico estava solidamente distribuído pelas Gálias e Britânia (mas é de suspeitar que no norte “Picto” nem tanto) e talvez começasse a se espalhar pela Hibérnia. Mas não estava disseminado noutras áreas célticas, incluindo áreas que passariam em breve a serem germânicas ou nas expansões célticas orientais.

Politicamente, a Gália passava por uma guerra interna pelo domínio, noutras palavras: uma guerra de “unificação”. Neste quesito, é complicado entendermos o processo, pois, poucas são as fontes e não há uma perspectiva interna registrada desde vários pontos de vista, como fora o caso da Guerra do Peloponeso e a posterior ascensão de Felipe da Macedônia ou do registro posterior como da Romanização da Península Itálica. No caso da Gália, não há motivos para se pensar que a “unificação” política seja consequência de uma “unidade” religiosa com o Druidismo. Quando os Romanos invadem a Gália aproveitando a situação insidiosa, os gauleses demoram um pouco a buscar uma unificação política para expulsar o invasor e quando o fazem, o Druidismo parece ter tido um papel importante nisto ou pelo menos, aos olhos dos romanos posteriores, passara a ter, pois, basicamente, fundamentaram a perseguição e proibição do Druidismo nestes termos e numa suposta discordância sobre práticas sacrificiais.

No caso da Península Ibérica, também imersa em insídia, o revanchismo romano (muitos ibéricos serviram contra os Romanos como mercenários nas guerras púnicas) e a ambição por recursos levou a invasão e também aí, nossos ancestrais demoraram algo para perceberem a dimensão de tudo. No caso dos Lusitanos, a massacre de Galba foi um evento trágico que serviu como ponto de virada: de lá, o bem aventurado Viriato, liderará a resistência heroica e demorada contra o invasor. Mas a unificação política, neste caso, foi muito mais uma reação e basicamente resumida a liderança militar. Ao todo, os Romanos demoraram quase 200 anos para “pacificarem” a península Ibérica inteira. A Gália em 8 anos foi pacificada, em grande medida por ter uma parte significativa dos gauleses do lado romano.

Partindo de RC>D, com a supressão oficial do Druidismo galo-britânico, a destruição de seu centro religioso e de seu clero, a RC continuaria de forma popular e de modo mais ou menos inalterado nas regiões célticas onde não havia o Druidismo galo-britânico. Não temos notícia da continuidade da corporação druídica na Gália ou na Britânia. Talvez os sobreviventes, e podemos supor que foram muitos, além de terem se romanizado, tenham migrado para a Irlanda ou para outras zonas fora do controle romano. Aqui cabe muita especulação.

Consequências.

Enfatizei propositalmente termos como “unificação” e “padronização” até agora com o propósito de chamar atenção, “martelar”, digamos. Mas com isto não desejo, de forma alguma, negar a tendência ao localismo (inclusive “panteônico”) da RC. Se é verdade que a RC não é lá muito afeita a “padronização”, ou melhor formulado, tem por “padrão” uma abertura ao localismo religioso, não se pode dizer o mesmo do Druidismo galo-britânico; na verdade, qualquer “Druidismo” é uma forma de “padronização” – de maior ou menor amplitude territorial. E isto não é um problema, nem deveria ser. Também não significa que hoje, todos os grupos neo-druidistas ou meso-druidistas devam estar sob um mesmo comando atendendo a um mesmo conclave, custe o que custar. Como o mecanismo do recurso a violência para resolução de disputas internas se tornou socialmente banido nestes meios nesta Era (César atesta que, por vezes, acontecia assim na Antiguidade), e ninguém está obrigado a aceitar gente sem palavra, fingida e manipulativa, é perfeitamente compreensível (e sadio) que grupos se reúnam por afinidade e aspirações comuns.

Voltando a especulação mais geral, de uma extinção da sucessão iniciática do Druidismo galo-britânico e a mudança paradigmática para uma percepção historicizada da religião (trazida pelo Cristianismo), criou-se um problema de justificação externa para o revival do Druidismo. Como este, em sentido estrito, foi perdido, qualquer tentativa de reavivá-lo seria vista como artificial e no pior dos casos, como farsa e forjaria.

Aqui cabe outro parêntese: como justificação “externa”, se trata, na verdade, de uma espécie de legitimação intelectual diante de fés já estabelecidas e que, direta ou indiretamente, desafiam o status ou teima em reconhecer a nova fé como uma religião in ipso. Internamente, seria interessante a elaboração de uma narrativa que nos indicasse o porquê dos Deuses não terem, aparentemente, interferido para impedir ou inviabilizar o ataque que os romanos fizeram (e os cristãos, na Irlanda) ao Druidismo. Há várias possibilidades de justificação, mas não vi nem vejo literatura sobre isto sendo produzida. Mas nisso, também tenho dever de casa a fazer (creio que em breve será postado algo cá no blog). Mas aí é outra questão que deixaremos para outra oportunidade.

Uma maneira de contornar esta requisição externa seria estabelecer que a continuidade não fora rompida, mas passada para a clandestinidade obscura de segredos bárdicos familiares e códigos velados preservados ao longo dos séculos até que um privilegiado resolvesse publicar, finalmente, tal tesouro. Basicamente, esta foi a conversa de quem publicou, quando publicou, as Barddas. Bem, o problema surgiu quando estudiosos curiosos pediram para ver as fontes. Com tal procedimento, o Druidismo moderno (“Meso-druidismo” na nomenclatura de Bonewits), nestes 300 anos, caiu em descrédito pela época após o seu primeiro centenário e mesmo hoje luta para ressignificar seu passado (ao menos perante os “Neo-druidistas”) e redimir-se.

Faz um bom tempo que deixei de acompanhar a comunidade druídica contemporânea a nível global e mesmo a nível nacional. Mas na época em que ainda acompanhava, notara que os grandes nomes tornavam-se versados ou iniciados em várias “ordens”. Inclusive, nas “meso-druídicas”. Na época, me ocorrera que isto talvez, com o tempo e de modo natural, levasse a uma maior uniformização litúrgica e doutrinária, “repoliteizando” (e tome neologismo!) o “Meso-druidismo” e ao mesmo tempo, espalhando o que há de sábio e divinamente inspirado nele para os “Neo-druidismos”. Não consigo ver problema nisto e se a via for esta, me parecerá adequada. Eu mesmo, se tivesse continuado no Neo-druidismo, teria ido por esta senda, já que minha hostilidade ao “Meso-druidismo” na época já diminuíra muito significativamente.

E aqui, mais uma vez, afirmo minha visão do Druidismo como, essencialmente, um “sacerdocentrismo”. “Sacerdocentrismos” não são essencialmente maus, não são errados, só não são a totalidade de possibilidades da vivência religiosa. Imagino que no futuro, como já disse várias vezes em conversas privadas e mesmo em escritos, o Iberoceltismo mesmo, terá um sacerdócio com formação mais ou menos “padronizada”, hierarquia sacerdotal consensual na comunidade, e quem sabe até, centro(s) religioso(s) que “assessore” santuários e comunidades religiosas. E os que seguirão nesta via sacerdotal, terão uma visão “sacerdocêntrica”, engendrarão um “Druidismo”.

Por outro lado, se consideramos que RC>D, então, em tese, enquanto houver RC, se tem a possibilidade para novos “Druidismos”. Agindo os Deuses no mundo, resgatando-se elos, procedimentos e comunicação, a fonte do “Druidismo” permanece aberta e poderá fluir em novas torrentes. Neste sentido, o resgate da RC, sob os Reconstrucionismos (goidélicos, britânicos, gauleses e nós, os iberoceltistas!), no meu modo de ver, poderá permitir um fluxo inspirado alimentando uma via “sacerdocêntrica” mais uma vez, como no passado. A epifania divina é possível, a “iluminação” sob o carvalho é possível, ao menos para os que creem na realidade dos Deuses e nas Luzes da Tradição.

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