Deusas Fluviais – Sulis, Matres e Nantosuelta

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As três Graças de Hans Baldung

Cultuadas na região da Península Ibérica, estas três deusas são mais conhecidas da arqueologia gaulesa, uma vez que os vestígios de seu culto são mais abundantes nas atuais França, Alemanha e Hungria, entre outros.  Tutelar do Rio Marne, na França, as Matres, ou melhor, o trio de deusas que compreende as Matres, tem sua iconografia no Castro de Monte Mozinho, próximo à cidade do Porto, em Portugal, aonde há uma imagem muito semelhante a essas deusas dedicadas na Gália. Contém 3 silhuetas femininas sentadas, uma delas leva um bebê ao colo, a outra um cesto, e da terceira, infelizmente, não se pode perceber muito devido ao estado de conservação.

Já na cidade Celtibérica de Clunia, Coruña del Conde, na Espanha, encontra-se uma ara dedicada a Matribus Galaicis, ou seja, Mães da Galícia. Na Gália as Matres estão comumente representadas em trios acompanhadas de crianças, portando bebês, cestos de frutos, pães e espigas, todos símbolos de fertilidade feminina e agrícola.  Uma de suas imagens leva um pergaminho, interpretado como um documento que guarda a linhagem da família e sua história, ou o destino pela deusa escrito para cada pessoa que nasce. Seu culto, no entanto, se expande para o provimento não só de alimentos e a procriação, mas para a proteção dos lares e suas famílias, bem como de toda a tribo da qual é a divina progenitora, e ao governo e bens materiais deste povo.

Associadas não apenas a rios, mas também a fontes de águas sanativas, estas deusas têm o caráter de defensoras da família e dos animais domesticados contra doenças e pragas. As fontes são mais comumente associadas à deusa Suleis, Suleivas ou Sulis, cujo culto existiu desde a Inglaterra até a Hungría, e na Península Ibérica é encontrado em Santa María do Condado, Ourense, Espanha, sob a inscrição Suleis Nantugaicis. O epíteto Nantugaicis, por sua vez, nos diz Rosa Brañas Abad, recorda o nome da deusa gaulesa Nantosuelta, que guarda relação com as deusas Suleis em seu próprio nome, uma vez que Nanto, “vale” em língua portuguesa, e Sul, “sol”, geram o nome Vale do Sol, Nantosuelta, enquanto que as deusas Suleis, Sulis ou Suleivas são apenas “Sol”, a deusa solar céltica. O que nos leva a crer  que a Deusa Solar e Nantosuelta sejam a mesma, e que seu nome na epigrafia peninsular acima citada, Suleis Nantogaicis, esteja apenas invertido.

A deusa Sulis/Suleis é também a deusa de fontes de águas termais em Bath, na Inglaterra, aonde sinais de seu culto remontam à Idade do Ferro céltica,  mas para os romanos, Sulis era Minerva Médica, uma deusa da cura, e para ela erigiram um templo em torno dos banhos nas águas com as quais a deusa está ligada e tinham o poder de sarar o reumatismo e diminuir as dores – de fato diz-se que a deusa é a própria fonte, sua emanação divina. A relação entre o sol e as fontes de águas termais é natural entre povos indo-europeus, ambos têm características sanativas, distribuem calor e estão simbolicamente associados a olhos. No templo de Bath, entre outros artefatos foram encontradas rodas solares, amuleto comum entre indo-europeus para atrair boa sorte, contra o mal olhado e as doenças. Foi também encontrada uma imagem das 3 Matres, reforçando a associação entre as Deusas Mães e a Deusa Solar.

O sol é  como o olho do céu, aquilo que ilumina e tudo vê, enquanto as fontes, também conhecidas como olhos d’água, sanam o corpo e a alma, permitindo uma expansão da consciência e inspiração, conforme já foi demonstrado no artigo sobre as deusas Sequana e Sirona. Tanto no templo de Sirona, na Gália, quanto no de Sulis, em Bath, há indicações de possíveis curas para os olhos, neste último existiu mesmo uma clínica chefiada pelo médico de olhos Janianus, entre médicos de outras especialidades. Assim como no templo de Sirona, foram igualmente encontrados em Bath oferendas em formatos de seios, neste caso de bronze e marfim, indicando a cura para desordens da lactância e a busca da bênção desta deusa para os períodos de amamentação, o que torna a demonstrar a associação entre Sulis e as Matres no tocante ao seu papel de deusas mães. Além destes, outros presentes para a deusa são comuns em suas fontes, tais como moedas, broches e jóias, fusos de fiar e pratos de metal possivelmente utilizados em ritos para banhar-se em suas águas sanativas e em seguida ali deixados.

A benfazeja Deusa Solar tem, contudo, uma face agressiva. No templo de Bath há evidências substanciais de que seus devotos buscavam nela a vingança contra crimes, especialmente contra o roubo e o saque. 130 pedidos inscritos em pequenas placas foram encontrados contendo o nome do suplicante, descrevendo o crime contra ela(a) praticado, o nome do criminoso, quando era sabido, e ainda a punição almejada. A relação entre cura e vingança reside na crença da antiguidade céltica de que as causas de pragas e pestes eram espíritos maus dos outros mundos, Sîdhe, Mouros, e etc, os mesmos que durante o Beltane (Festas de Maios, chegada do Verão), cruzavam as fronteiras entre os mundos para roubar ou difundir doenças. Assim, um mortal criminoso, ou um imortal criminoso, só têm de diferente a sua substância corpórea, o mal que praticavam era o mesmo. A Deusa Solar, naturalmente ao Verão associada, é aquela que vem em socorro dos mortais contra esta espécie de mal feitores.

O sol e a maternidade estão ligados ao âmbito doméstico no imaginário gaulês, uma vez que há gravuras e pequenas estatuetas femininas contendo símbolos solares nas regiões dos seios, ventre e coxas, encontradas em escavações de residências. E quando se trata de âmbito doméstico, naturalmente precisa-se voltar a falar da deusa Nantosuelta, Vale do Sol, assim associada ao sol e à fertilidade. Nantosuelta possui templos na Alemanha e França nos quais ela é representada junto ao seu esposo divino, o Deus Sucellus, cujo nome significa “Bom Golpeador”. Este deus é representado com barba longa e feições faciais que demonstram a meia-idade. Porta também um recipiente com vinho ou cachos de uva na região de Bordeaux, e, em especial, carrega um martelo, o que demonstra seu caráter de Deus Trovejante, ligado aos céus, raios, trovões, chuvas, defesa do território, e, naturalmente, a semeá-lo, deixando clara a ligação sagrada entre este par divino, a Deusa Vale do Sol e seu esposo semeador.

Mas para Miranda Green Nantosuelta significa “Córrego Sinuoso”, a arqueóloga relata que a deusa se ergue ao lado de Sucellus nos nichos em seus locais de culto, em equidade de estatura e portando, por sua vez, um cetro de sua altura que contém no topo uma pequena casa, atestando assim a vinculação entre esta deusa e o lar, a esfera doméstica. Aos seus pés, o casal tem um corvo. Também quando representada sozinha, a deusa tem em seu entorno corvos, potes com favas de mel, pratos e frutas, e, o cetro com a casa. Assim como as Matres, Nantosuelta é uma deusa solar responsável pela fertilidade do território e por prover alimentação e segurança. Os corvos junto à deusa, animais ligados à guerra e à passagem entre os mundos, podem denotar seu caráter de defesa do território contra saques perpetrados tanto por mortais quanto por espíritos, função esta que certamente ela executa ao lado do esposo.

Sucellus, cujo culto também está presente na Península Ibérica, é por vezes representado com uma pele de lobo sobre a cabeça, símbolo das confrarias guerreiras que patrulhavam o território. Junto a Nantosuelta, claramente uma face da Deusa Mãe e Solar, são a epifania do casal divino e modelo para o casal mortal: ela empenhada em produzir alimento, gerar filhos, promover a sanidade do lar e, se preciso a defesa deste; ele empenhado em semear a terra, irrigar, colher, produzir a bebida alcoólica, e, vigiar e defender a propriedade. A conclusão de que Sucellus, além de Deus Trovejante e Golpeador, é também o Deus Pai, é portanto óbvia. Ao ultrapassar a esfera doméstica e familiar, o Casal Divino é também um modelo tribal, estendido a toda a comunidade, e assim, ao zelo, à bênção da fertilidade, do governo e da defesa de toda a comunidade, sua fortificação e seu território.

É quase certo afirmar que Sulis, Matres e Nantosuelta são uma mesma deusa. Difícil ainda é aferir a natureza desta triplicidade. Miranda Green chama a atenção para uma das imagens das 3 Matres, na qual a diferença de idade entre elas é nítida, sendo uma juvenil, a segunda adulta e com um bebê no colo, e a terceira claramente idosa. É, por isso, de se questionar se são deusas idênticas com nomes diferentes, ou parte de uma linhagem: filha, mãe e avó. Ou ainda se são 3 estágios da vida de uma única deusa, assim como de toda mulher. O fato é que este trio divino carrega em si aspectos de todas estas 3 fases da vida: juventudade, pureza, sanidade e sol; maternidade, fertilidade, nutrição e casa; história (seja das linhagens ou dos destinos), vingança, morte e corvos.

 

 

 

 

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