Por Que As Mulheres São Perigosas

Saga
Saga, deusa germânica da sabedoria e clarividência. Ilustração de Erika Guilane-Nachez.

Outro dia me perguntaram em uma rede social porque algumas culturas, ideologias e religiões tentam controlar a mulher, e se a mulher representa algum perigo. Resolvi trazer a resposta para o blog, e antes de tudo, nomeio as culturas às quais me refiro em minha resposta: Em geral são as religiões e ideologias universalistas e expansionistas que tentam de alguma forma dominar as mulheres, denegrí-las ou anular o seu papel social. Todas as religiões  Abraãmicas, por exemplo, o fazem, no entanto, em comparação ao Judaísmo e Islamismo, a cultura cristã ocidental é bem tolerante em relação às mulheres. É verdade que a princípio os cripto-cristãos foram bastante preconceituosos e intolerantes, mas esta estratégia não vingou nas sociedades mediterrâneo, e só veio a se concretizar sob o julgo do Islamismo. Entre Indo-europeus, a cultura nativa sobressaiu-se, e, embora a Igreja Católica e a Bizantina tenham se apoderado dos Impérios Romano e Bizantino respectivamente, o Cristianismo acabou por ser assimilado pelos povos indo-europeus, de forma  sincrética. Acredito que isto tenha ocorrido por que o Cristianismo, embora na maioria dos locais tenha sido imposto por impérios, não se fixou através da suplantação dos povos autóctones. A fé cristã se instalou lentamente e foi introduzida sem a fixação de povos de culturas não indo-europeias, de forma que a mentalidade em torno da figura feminina continuou sendo aquela passada no seio familiar nativo, e portanto majoritariamente autóctone entre os povos cristianizados.

Além das religiões, também algumas ideologias universalistas atacam as mulheres e seu papel social nas sociedades que procuram assimilar, o Socialismo, é uma delas, o Globalismo e Multiculturalismo são outras. Veja, não se trata de ser de Direita ou de Esquerda, se trata da conquista de consciências e de culturas em favor das expansões de impérios. Não vou aqui me demorar explicando qual é a relação entre Abraamismo, Multiculturalismo e Socialismo, porque isto já foi feito em outras publicações do blog, como aqui.

Dito isto, vamos à resposta:

Nas sociedades tradicionais antigas a mulher é receptáculo da sabedoria e tradição de seu povo, embora não só elas; sacerdotes homens, por exemplo, também o são. A mulher nestas sociedades não só passa a infância e juventude adquirindo os saberes de sua comunidade (artesanato, música, culinária, religiosidade, história e etc), como também é, desde a infância, preparada para gerar descendentes e passar a cultura adiante, para as novas gerações. Como se sabe, a língua, os costumes e as capacidades cognitivas e emocionais são aprendidas na primeira infância, quando se está majoritariamente em contato com a mãe. Por esta razão, a moldagem da identidade do indivíduo tem por principal agente a mãe, seguida do pai, demais familiares e, só depois dos primeiros anos, de agentes sociais tais como atualmente o fazem a escola e instituições religiosas.

Por isso religiões e ideologias universalistas e expansionistas precisam controlar as mulheres por onde quer que passem: para controlar a identidade das futuras gerações. É muito mais fácil destruir as instituições sacerdotais de um povo ao conquistá-lo, inclusive é possível matar todos os sacerdotes – como no processo de cristianização da Noruega – e boa parte dos homens em idade de lutar. Foi o que fez Charles Le Magne ao cristianizar a Alemanha – o historiador Jacques Le Goff estima que 2/3 da população da Germânia pereceu neste processo. Os Hebreus fizeram muito isso no Antigo Testamento, e o Cristianismo e Islamismo herdaram esta tática, aplicando-a por onde passaram, da Europa à África e às Américas – é bom não se esquecer que a descoberta das Américas se deu tanto em função da expansão do mercado quanto da Contra-Reforma.

Mas não se pode matar simplesmente as mulheres, ou abolir a família e a maternidade, porque isto implica que não haverão novas gerações, logo não haverão novos seguidores para a ideologia ou religião conquistadora. Só se tenta abolir a família e a maternidade como papel social central feminino, se se pretende suplantar a população. Mas se a conquista não tem o interesse de dizimar e suplantar, mas sim o de angariar novos seguidores, a solução é manter a maternidade, perseguindo os costumes, saberes nativos e a conduta das mulheres, certificar-se de que elas não vão ter ideias próprias nem ensinar aos filhos nada que possa insurgir as novas gerações contra os conquistadores ou dificultar a implantação do paradigma destes.

Ou seja, mulheres são imprescindíveis, porque crianças levam em torno de 16 anos, pelo menos, para se tornarem adultos capazes de sobreviver sem pais e gerar outras famílias. É muito tempo. Mas também são perigosas porque passam todo este tempo formando o caráter, a mentalidade e a identidade dos filhos.

A agricultura alcançou o Oriente Próximo bem antes de alcançar a Eurásia, mas não teve nesta região do globo o impacto que teve em outras. As culturas do Oriente Próximo se moldaram em um ambiente árido, aonde o pastoreio e o comércio foram as atividades econômicas predominantes. O Judaísmo surgiu em uma destas etnias pastoris e comerciantes de semi-nômades. Deslocando-se com suas famílias e rebanhos, e negociando constantemente, os patriarcas das culturas em questão estavam sempre sob rígida ameaça de saque. Sua fortuna e família podiam deixar de existir da noite pro dia, assim como sua liberdade, já que a escravidão era uma realidade em todo o mundo antigo. Estas sociedades estavam sob constante pressão, e a família e o rebanho eram, ao mesmo tempo que a riqueza de um homem, um fardo difícil de carregar. Neste ambiente hostil, a ética era algo aplicável somente dentro de uma mesma etnia, e qualquer outra era vista como potencial inimiga. Não era o espaço territorial que demarcava a identidade destes povos, era a descendência de um mesmo ancestral divino. Não era aos habitantes dos locais por onde passavam e negociavam que deviam um comportamento fraterno e ético, mas aos membros de sua família extendida.

Ocorre que, como nômades, estavam sempre a anexar mulheres de outras etnias a suas famílias e escravos, pois como a descendência era passada de pai para filho, advinda do ancestral divino do monoteísmo, a origem étnica da mulher não interferiria na pertença dos filhos à linhagem paterna.

Sem residência fixa, a mulher ainda detém o seu papel social de mãe, mas sem meios de produzir nada além de filhos, e difícil de transportar devido ao seu frágil estado entre gravidez e lactação, ela perde status, e pode ficar perigosamente comparável às fêmeas de outras espécies dos rebanhos, cuja única função também é procriar e aleitar – o livro bíblico do Decamerão determinava o valor de uma mulher em cabeças de gado, e na Arábia Saudita a lei ainda determina que o valor monetário da mulher é menor que o de cavalos e camelos. Até 2016 a mulher ainda não era considerada uma pessoa na legislação deste país. Nestas sociedades não é desejável que a mulher, quando trazida de outra etnia, ensine aos filhos costumes diversos daqueles de seus pais, pois isto compromete a pertença identitária das novas gerações. Aí sim, a mulher perde parte fundamental de seu papel social. Ela continua construindo a inteligência emocional dos filhos, mas não mais o pertencimento deste a sua cultura. É lógico que as mulheres têm valor emocional para estes homens, mas em uma sociedade aonde tudo se monetariza e mercantiliza, inclusive a pessoa na forma de escravo, a mulher cuja única finalidade é gerar e aleitar, facilmente tem seu valor diminuído para o do rebanho, enquanto o homem livre, não. Por tudo isso o patriarca do Judaísmo e Islamismo é o primeiro em comando, os filhos homens são os segundos, terceiros, e etc. É assim que se inicia a disparidade entre os sexos e a dominação da mulher no contexto do Oriente Próximo.

Já em outras culturas nas quais a lógica de mercado e de um único deus e patriarca divino não fundamentam as relações familiares, esta concepção não se firma. Em toda a Eurásia por onde os povos indo-europeus se disseminaram, o comércio e o pastoreio foram importantes, mas a agricultura foi basilar na formação cultural. Uma agricultura próspera permite a fixação no solo, os indivíduos constróem uma relação de pertença ao território. Nele fixam residência, e na residência a mulher é figura central, pois agora ela não precisa mais viajar com os filhos pequenos. As atividades de longa distância passam a ser masculinas, e na ausência do esposo, a mulher comanda – aqui ela é a segunda em comando na esfera familiar, e só é segunda porque por razões estratégicas, o primeiro deve ser o mais forte do grupamento. Na sociedade agrícola a mulher é mão de obra fundamental. Ela também planta, colhe, moe o grão: a mulher é produtiva, a importância dela para a sobrevivência da comunidade ultrapassa a geração de descendência.

Essa mentalidade é visível também na esfera do sagrado, pois  as religiões indo-europeias todas têm várias deusas ligadas aos rios, ao solo, e à soberania, essenciais para a agricultura, a posse do território e a prosperidade da tribo. Estas deusas estão entronadas ao lado de seus esposos divinos. Nestas sociedades os saberes e opiniões da mulher têm relevância, ela produz cultura.

As religiões indo-europeias não são simplesmente politeístas, elas são familiares. Todo panteão indo-europeu é uma grande família, mesmo os antagonistas dos deuses, em boa parte, são membros desta família sagrada e muito ramificada. A árvore, não apenas com suas ramificações para o alto, mas com suas raízes pronfundamente fincadas no solo, é o símbolo estrutural do Cosmo e de sua centelha fundamental: a família. Por isso permanecemos tendo a árvore genealógica como meio de registrar e estudar nossas famílias.

Toda religião de origem indo-europeia cultua a família sagrada e o Cosmo como epifania desta. Toda religião que foi assimilada por povos indo-europeus passou a ter em seu cerne uma família sagrada, como é o caso de várias vertentes do Cristianismo. E toda religião que alega ter origem em alguma cultura indo-europeia mas nega a predominância do papel social materno para a mulher, e menospreza ou desestrutura a unidade familiar, é uma farsa e foi fagocitada e instrumentalizada por ideologias universalistas e expansionistas.

Nas minhas publicações anteriores sobre Deusas Fluviais, expliquei largamente como as deusas da fertilidade e maternidade célticas são também deusas da soberania, sabedoria e, em alguns casos, da guerra. Outros povos indo-europeus também têm a sabedoria como atributo de deusas. Entre as já muito conhecidas estão Minerva, deusa romana da sabedoria, estratégia militar, do artesanato e da cura, filha de Júpiter, Deus Celeste e patriarca da família divina; Atena, deusa grega da tecelagem, sabedoria, filosofia, diplomacia e estratégia militar, é filha de Zeus, também deus Celeste e patriarca da família divina. Entre os germânicos, a deusa Saga é uma vidente, está relacionada, assim como as deusas fluviais célticas, à água e à sabedoria. Seu nome deriva da mesma raíz das palavras ‘see’ e ‘say’, e do seu nome deriva a palavra saga (histórias de várias gerações de uma mesma família). Há quem defenda que ela também é Frigga, a mãe de Baldur e esposa de Odin/Wotan, o patriarca da família divina germânica. 

As palavras para ‘sabedoria’ nas línguas indo-europeias costumam ser femininas, exceto quando não têm gênero. Algumas delas são a já citada ‘saga’, também o são ‘segais’ do gaélico, ‘sofia’ do grego e ‘sapientiae’ do latim. A Sabedoria é feminina porque as mulheres são as maiores responsáveis por levar adiante o legado étnico e cultural, conhecem o passado e podem prever o futuro, e por inspirar os homens a se insurgir.

Por isso quem deseja dominar e sabotar uma cultura, começa perseguindo as mulheres. Acusam-nas para colocar os homens contra elas: acusam-nas de trazerem o pecado ao mundo, ou de fazerem pacto com o diabo. Acusam os homens para colocá-las contra eles: levam-nas a crer que eles são tiranos que construiram um mundo onde só a função masculina tem valor e que elas precisam igualar-se aos homens para serem respeitadas, em detrimento da maternidade. Depois rotulam-nas de femi-nazi para pôr os homens contra elas de novo, e fazem delas bode expiatório da crise da nossa civilização. Os impérios universalistas vêm e vão, mas a estratégia permanece a mesma: destruir o vínculo entre os sexos, que é o princípio da formação familiar e a base da transmissão étnico cultural.

Não é a Esquerda ou a Direita, os comunistas ou os fascistas que nos atacam neste momento, é o Universalismo que muda de vestes e de lado ao sabor de cada imperialismo. Você e eu, “femi-nazi”, não somos inimigas, e nem tampouco o “machista” é nosso inimigo. Nós estamos sendo manipulados pelos inimigos em comum, que nos põe uns contra os outros, para nos conquistar e forçar a adorá-los e pagar tributos a eles.

O Neolítico e a revolução  agrícola foram fundamentais no processo civilizador, e as mulheres tiveram papel ativo nele. De maneira que as civilizações derivadas dos agricultores neolíticos e da cultura indo-europeia devem muito à figura feminina e das matronas. Sem querer diminuir a importância que tiveram os homens neste processo, quero com este texto chamar a atenção para o papel civilizador da mulher, e alertar contra ideologias que prometem conceder direitos, poder e igualdade. Nós não precisamos que ninguém nos conceda nada, as nossas ancestrais já pavimentaram um caminho soberano o suficiente para nós, só o que nos falta fazer é reclamar nossa herança cultural e nos responsabilizarmos pela sua continuidade. Nos dias de hoje, não há nada mais subversivo, independente e íntegro do que ter uma família e passar a diante a sua identidade étnica ou cultural. De tanto se repetir, parece que independência é um conceito financeiro, mas não é, independência é um estado mental e intelectual.

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