Primavera…

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Em termos gerais, podemos considerar que o equinócio vernal marca muita coisa: o início do ano “militar”, (entre os irlandeses, ao que parece pela própria localidade, este início era adiado para o Beltaine indo até o Samain) que para nós, hoje, digamos, pode também englobar muita coisa (início de atividades coletivas e individuais diversas sob a tônica da “ação”) envolvendo exercícios físicos e atividades ao ar livre; início da parte clara do ano (neste caso, em termos IE há muitas variações: alguns considerarão que tal divisão parte dos Solstícios, outros da divisão irlandesa Beltaine/Samain e outros ainda dos Equinócios). E se nossa interpretação do início sideral do ciclo de cômputo céltico estiver correta, pelo que sabemos da Ara de Marecos, para certas tribos lusitanas e do sul da Galécia, também marcaria uma festividade religiosa importante e que supomos ser o início do ano para tais povos – mas é bom deixar claro que é uma hipótese nossa.

Do ponto de vista hibérnico, a data é eclipsada pela preponderância do posterior Beltaine e pelo anterior Imbolg: inclusive em seus “mitemas”, quando comparamos com o mundo IE, parece ter havido certos “remanejamentos”. E ficamos, pela fragmentariedade e vacuidade de materiais míticos entre os celtas continentais, a projetar o que sabemos dos goidélicos – que é posterior e periférico quando comparado ao mundo céltico continental – para os gauleses e celtas da Ibéria (geograficamente mais dispersos e temporalmente anteriores), partindo, por esta projeção, da consideração inicial, e muito possivelmente errônea, de que a data não teria importância religiosa entre os celtas continentais, uma vez que aparenta não ter entre os celtas insulares.

O que defendemos cá, em termos rápidos, é que ao menos para os Lusitanos e possivelmente para os Galaicos (ao menos os do “sul”) e Vetões, a data teve importância religiosa. Pela 1) própria evidência de Marecos que aponta para uma data próxima, 2) pelos alinhamentos megalíticos e vestígios de santuários que marcam tal data e que sabemos terem sido utilizados até a romanização, 3) pela herança folclórica posterior que, apesar de sincrética (e que poderia conter um componente germânico acentuado, por exemplo, advindo da presença sueva), aponta uma observação no catolicismo popular nas festividades de S. Bento, S. Pedro Gonçalves e em certas procissões e Entrudos da época; além 4) da herança IE ampla que marca bem festividades tanto entre os germânicos (de maneira muito acentuada, diga-se de passagem) quanto entre os romanos (Fornicidia), quando não na data exata, nas datas próximas, o que é perfeitamente compreensível dado a arcaica utilização de calendários lunissolares e a dispersão orgânica e característica das diversas tradições religiosas.

Parece-me que, de tempos em tempos, é importante reforçarmos certas coisas básicas e neste sentido, aproveito a proximidade para reforçar a importância da observação ritual destas datas. Muitos são os motivos que poderiam ser elencados, seja de ordem mais geral (e que requereriam menos comprometimento doxástico, digamos), seja de ordem mais espiritual e metafísica (e que requereriam mais compromissos “dogmáticos”, digamos). Até havia iniciado um levantamento de razões, sejam mais culturais, sejam mais espirituais para frisar a importância disto, mas abandonei por ser desnecessário. A verdadeira piedade assemelha-se a um ato ético desinteressado: não há motivos além, nem necessidade de “vantagens” decisivas, a finalidade encontra-se na ação mesma. Posso achar fundamentação discursiva para isto nas mais diversas fontes: da filosofia grega ao Bhagavad Gita hindu, mas não pretendo convencer o leitor. Pretendo chamar, convocá-lo, soar o *karnuks, anunciar que se aproxima um momentum mythicum, a *amsterā que antecede o Verão, e como dizem os gregos, mesmo um καιρός.

Venho cá apontar para uma oportunidade: a oportunidade de fazer algo, efetivamente, pôr em prática, abandonar a passividade de mero leitor e atender ao chamado, a oportunidade de caminhar rumo ao *nemetom, ao santuário, para estar de pé diante do atemporal.

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